Limites ao poder estatal são essenciais para um Brasil rico e decente.
Gazeta do Povo.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central
acabou de reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, afirmando que as
elevadas projeções de inflação estão entre os fatores que impedem um
afrouxamento monetário maior, e citando os “estímulos à demanda agregada” entre
os riscos para uma inflação ainda maior. O diagnóstico é consequência de uma
cultura de irresponsabilidade fiscal que se instalou há décadas no país, tanto
por ideologia quanto por populismo.
O governo atual, além de gastar muito além do que arrecada,
não demonstra qualquer disposição de corrigir essa trajetória suicida. A lógica
se espalha e contamina o Congresso, que neste momento continua propondo
despesas sem qualquer garantia de custeio, como se o Brasil já fosse rico e
tivesse bilhões à disposição. Por fim, grupos privados organizados continuam
pressionando por benefícios, subsídios e privilégios. A conta é sempre
empurrada para o futuro.
Não existe prosperidade construída sobre déficits
permanentes, nem crescimento sustentável financiado indefinidamente por dívida
O futuro, no entanto, sempre chega, e não só isso: a
irresponsabilidade na gestão das contas públicas afeta o presente na forma de
inflação, que provoca juros elevados – os atuais juros reais são os mais
elevados desde os picos da enorme recessão lulodilmista de 2015-16 –, que por
sua vez levam a crescimento baixo, menos investimentos e menos oportunidades
para quem trabalha e empreende. A dinâmica da gastança sem fim e do estímulo ao
crescimento pela via de um consumo que superaquece a economia ilude e castra os
sonhos de crescimento do brasileiro.
Uma das perguntas mais importantes a serem feitas na
campanha eleitoral que se aproxima é: quem está genuinamente disposto a
recolocar as contas públicas em ordem? Quem se compromete com algum modelo
efetivo de âncora fiscal? Não há um único caminho; os instrumentos possíveis
incluem um novo teto para o crescimento das despesas, metas para estabilizar e
reduzir a dívida pública, ou mecanismos automáticos de contenção de gastos
quando determinados limites forem ultrapassados. Os meios podem ser discutidos;
o que deveria estar fora de questão é a necessidade de limitar o gasto estatal.
O Brasil precisa voltar a ter um horizonte fiscal crível, pois não existe
prosperidade construída sobre déficits permanentes, nem crescimento sustentável
financiado indefinidamente por dívida.
Não existe país rico quando governantes e parlamentares se
recusam a reconhecer limites. Por outro lado, um novo governo que se comprometa
com mecanismos e metas de responsabilidade fiscal vai colher resultados muito
rapidamente. Economistas com quem a Gazeta do Povo vem falando afirmam que um
compromisso fiscal sério e confiável pode gerar efeitos positivos imediatos,
pois a economia não reage apenas aos números de hoje, mas também às
expectativas sobre o amanhã. Investidores tomam decisões, empresas contratam, e
o mercado de crédito funciona olhando para o futuro. Quando se percebe que um
país está retomando o controle de suas contas, a percepção de risco diminui,
puxando os juros para baixo e permitindo a retomada dos investimentos e a
melhora das expectativas.
A mesma confiança que pode destravar nossa economia é
necessária também em outra área: a decência institucional. Não nos referimos,
aqui, apenas ao combate à corrupção, mas também a uma dimensão ainda mais
profunda: a preservação das regras do jogo.
A normalidade institucional e democrática tem sido
progressivamente corroída pelos sucessivos abusos cometidos pelo Supremo
Tribunal Federal, e pela omissão do Senado em se contrapor a eles – omissão
esta que recai especialmente sobre seus últimos presidentes, Rodrigo Pacheco e
Davi Alcolumbre. A corrosão institucional brasileira foi exibida para todo o
mundo pela Corte de Cassação da Itália, que recusou o pedido de extradição de
Carla Zambelli por reconhecer explicitamente que Alexandre de Moraes violou o
devido processo legal e a imparcialidade mínima que todas as nações civilizadas
exigem nos julgamentos. A decisão italiana envergonhou o Brasil, e com razão.
Democracias dependem de regras estáveis. Para usar uma
analogia com o evento que domina as atenções de todo o mundo, árbitros de
futebol não podem mudar as regras do jogo durante a partida; nem interpretar
certos lances de uma forma para uma seleção, e de outra forma para seus
adversários; nem decidir sobre cartões, faltas ou impedimentos de acordo com a
própria vontade, e não com o regulamento. Se isso ocorresse, atletas,
torcedores e patrocinadores perderiam toda a confiança no torneio, por verem
anos de trabalho sério jogados no ralo.
A normalidade institucional e democrática tem sido
progressivamente corroída pelos sucessivos abusos cometidos pelo STF, e pela
omissão do Senado em se contrapor a eles
Se algo tão prosaico quanto o futebol depende de confiança
nas regras, um país e a própria democracia dependem muito mais. Leis e
regulamentos são a moldura dentro da qual todos os brasileiros podem defender
legitimamente suas ideias e disputar legitimamente o poder. Elas garantem que
visões diferentes de mundo – e a diferença é inevitável – possam conviver
pacificamente, seja de forma colaborativa, ou ao menos de forma respeitosa.
Brasileiros divergem sobre o tamanho do Estado, sobre como combater o crime,
sobre muitos outros temas. Alguns vencerão eleições, enquanto outros serão
derrotados. Isso faz parte da democracia. O que não faz parte é a erosão
permanente dessa moldura, das regras que garantem essa mesma democracia.
Quando os limites do poder deixam de ser claros, quando
competências se confundem, quando garantias são relativizadas ou quando as
regras parecem variar conforme as circunstâncias e conforme os atores,
instala-se algo extremamente perigoso: a injustiça sistemática contra um grupo
de pessoas e, consequentemente, a perda de confiança. Esta é a palavra central,
pois sem ela não há estabilidade, nem cooperação social. Sem confiança não há
democracia saudável. As tensões internas que surgem quando a confiança se
deteriora são algo que ninguém deveria desejar.
Nos poucos meses que faltam até outubro, os brasileiros
precisamos nos fazer duas perguntas simples: quem está disposto a respeitar os
limites das contas públicas? E quem está disposto a respeitar os limites do
poder? Um Brasil rico exige responsabilidade, e um Brasil decente exige
normalidade institucional. Em ambos os casos, exige-se a mesma virtude: a
capacidade de respeitar regras que existem para proteger cada brasileiro – os
do presente e os do futuro.


























