A AGU de Jorge Messias abriu mão de 80 bilhões em litígios.
Claudio Dantas.
Uma matéria bombástica foi publicada neste domingo pelo
renomado jornalista Cláudio Dantas, onde ele denuncia que Jorge Messias, em sua
gestão a frente da Advocacia-Geral da União teria aberto mão da bagatela de R$
80 bilhões em litígios. Transcrevemos o texto:
O Senado rejeitou Jorge Messias para o Supremo Tribunal
Federal, mas a sabatina do chefe da Advocacia Geral da União passou longe de
investigar sua gestão. Ainda há tempo de fazê-lo, especialmente quando seu nome
começa a ser cogitado para o Ministério da Justiça e da Segurança Pública, onde
terá ascendência sobre a Polícia Federal.
Na AGU, Messias protagonizou uma série de acordos que podem
ter resultado numa renúncia de até R$ 80 bilhões em multas, indenizações e bens
estratégicos para a União, segundo cálculos bastante conservadores.
Após o cruzamento de despachos da SecexConsenso (a secretaria
de acordos do TCU), de auditorias de órgãos de controle e relatórios de
mercado, este site descobriu o que pode se configurar, em tese, a maior
transferência de patrimônio público e de renúncia de receita da história
recente do país.
Sob o pretexto virtuoso de “destravar a infraestrutura” e
“pacificar litígios”, a AGU vem atuando não como o escudo do Estado, mas como a
fiadora jurídica de uma série de manobras de engenharia financeira e legal
coordenadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU), desde a gestão do impoluto
Bruno Dantas.
O resultado real é um balcão de negócios (ou seria
negociatas?) onde o risco é integralmente socializado, as punições são anuladas
e o verdadeiro tesouro nacional é repassado à iniciativa privada, sem
concorrência e a preço de banana. Tudo isso feito com aval de um governo de
esquerda que, publicamente, critica banqueiros e privatizações.
O TRUQUE DA “SUCATA” E A JOIA DA COROA DAS TELECOMUNICAÇÕES
De toda a fatura do “consenso”, o caso da operadora Oi é o
mais emblemático e oneroso (um rombo de até R$ 50 bilhões — há quem estime em
R$ 100 bi). O Estado brasileiro e o TCU, com o indispensável parecer favorável
da AGU, aceitaram o argumento de que estavam apenas resolvendo o passivo de uma
empresa falida e evitando um apagão nos telefones fixos do país.
Venderam para a opinião pública a ideia de que a
infraestrutura da Oi era um estorvo feito de cabos de cobre enferrujados e
orelhões abandonados. A realidade, escondida nas entrelinhas da repactuação, é
que junto com a sucata, o governo abriu mão da infraestrutura mais estratégica
do século XXI.
Pela Lei Geral de Telecomunicações, em 2025, todos os “bens
reversíveis” da concessão deveriam voltar para o controle do Estado. Para
evitar isso, a AGU chancelou um “encontro de contas” baseado na lei de 2019,
permitindo que a Oi migrasse para o regime de autorização, onde não há
devolução de bens.
Dessa maneira, o governo abriu mão de cobrar quase R$ 6
bilhões em multas em dinheiro vivo e trocou a posse da infraestrutura por
promessas de “novos investimentos” em escolas e cabos submarinos.
O espólio definitivo — que já havia sido repassado da Oi para
a V.tal, empresa controlada por fundos de investimento geridos pelo banco BTG
Pactual — não tem nada de obsoleto. O que TCU e AGU entregaram em definitivo
foi:
- A Maior Rede de Fibra do País: Cerca de 400 mil quilômetros
de fibra óptica que cortam o Brasil de ponta a ponta. Um ativo que custaria
dezenas de bilhões para ser replicado do zero.
- O Monopólio do Subterrâneo: A V.tal herdou a posse
histórica dos dutos subterrâneos e o “direito de passagem” nas grandes
metrópoles, construídos desde a época da estatal Telebrás. Não há mais espaço
físico sob o asfalto das grandes cidades; quem controla o duto, dita as regras
do mercado.
- O Pedágio da Internet e o Sangue do 5G: A V.tal
consolidou-se como a maior “Rede Neutra” do país. Operadoras gigantes e
pequenos provedores não cavam mais buracos; eles pagam um “pedágio” para usar a
rede da V.tal. Mais do que isso: o 5G exige uma quantidade brutal de antenas, e
a única infraestrutura capilarizada o suficiente para conectar essas antenas (o
backhaul) é a malha que era pública e agora é definitivamente privada.
Em julho de 2024, quando o martelo do TCU bateu, Lula trocou
o controle da espinha dorsal do 5G nacional por um perdão de dívidas,
garantindo ao BTG, de André Esteves, a liderança inquestionável no mercado de
infraestrutura de dados para as próximas décadas.
A SOCIALIZAÇÃO DO RISCO NA INFRAESTRUTURA
A generosidade avalizada por Jorge Messias na AGU e por Jorge
Oliveira no TCU — com apoio das agências e ministérios setoriais — não parou
nos cabos de fibra óptica. O modelo de consenso, lançado na Presidência de Bruno
Dantas no Tribunal de Contas, estendeu-se para a infraestrutura física de
transportes, criando passivos ocultos de R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões.
Jorge Messias
No capitalismo real, se uma empresa vence um leilão de rodovia ou aeroporto e a demanda frustra as expectativas, o prejuízo é do investidor. No capitalismo de laços de Brasília, o prejuízo é do contribuinte.
Concessionárias como a MSVia (BR-163/MS) e a Eco101
(BR-101/ES-BA), que descumpriram obrigações e deveriam sofrer relicitação,
foram salvas por acordos que estenderam seus prazos e criaram a “banda de risco
de demanda”. Se passar menos caminhão do que o projetado, o Tesouro compensa a
empresa.
No Galeão, a Changi não conseguia pagar a pesada outorga fixa
do leilão. A AGU validou a troca por uma outorga variável atrelada ao fluxo de
passageiros.
Na prática, a União perde a arrecadação garantida, altera a
regra do jogo depois do apito final e consagra o risco moral (moral hazard): o
mercado entende que dar lances irreais em licitações públicas no Brasil é um excelente
negócio, pois agências reguladoras como a ANTT e a Anatel serão sempre
atropeladas por um acordo amigável.
O DESMANCHE DA LAVA JATO E OS PRIVILÉGIOS CORPORATIVOS
O pacote do consenso institucional inclui, ainda, a revisão
das punições por corrupção. Com o aval da Suprema Corte e a proatividade da
AGU, abriu-se o caminho para renegociar os acordos de leniência das
empreiteiras da Lava Jato.
O calote já é precificado pelo mercado: empresas que
confessaram desvios e deveriam devolver mais de R$ 10 bilhões (em valores
corrigidos) agora alegam “coação”. Espera-se um corte de até 50% na dívida e um
alongamento de prazos que fará a inflação corroer o restante, configurando uma
perda líquida de R$ 4 bilhões a R$ 6 bilhões, segundo especialistas.
Pelo visto, bastaram uma mesa de negociação fechada no TCU e
um parecer robusto da AGU de Messias para transformar obrigações em promessas,
multas em perdão e patrimônio público em lucro privado. A conta de ao menos R$
80 bilhões já foi emitida, e, como de costume, não será paga por quem assinou
os acordos.



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