quarta-feira, 5 de agosto de 2026

 O Supremo ultrapassa a fronteira entre os   Poderes.





Na abertura do segundo semestre judiciário de 2026, o ministro Edson Fachin defendeu a convivência harmoniosa com as críticas e prometeu celeridade e diálogo com os outros Poderes. É muito difícil concordar com o ministro.

Como se sabe, o Inquérito das Fake News, sob o argumento de combater ataques à democracia e à honra dos magistrados, resultou no bloqueio de perfis em redes sociais, busca e apreensão contra empresários e analistas, e na prisão do ex-deputado federal Daniel Silveira por ter criticado os ministros. Nesta toada, o STF acumulou os papéis de vítima, investigador e julgador, ultrapassando os limites da serenidade.

O aperfeiçoamento institucional encontrou forte barreira dentro da própria Corte. A intenção de aumentar a transparência e restabelecer a confiança pública com a criação do Código de Ética não deu em nada, e a proposta foi sepultada. O ministro também falou em celeridade processual, mesmo sabendo que decisões travadas por pedidos de vista individuais sem prazo limite chegavam a paralisar processos por mais de uma década, e que o tempo médio de tramitação ainda supera três anos.

Ao falar em diálogo institucional, esquece-se de que a frequente judicialização da política fez com que o STF interferisse diretamente em pautas deliberadas pelo Congresso, desde a invalidação da tese do Marco Temporal para terras indígenas até debates sobre a descriminalização do porte de drogas. O que se viu foi ativismo judicial e invasão da prerrogativa legislativa.

O discurso do ministro falando em conciliação e aperfeiçoamento institucional precisa contornar um histórico marcado por inquéritos de exceção, recusa de marcos éticos internos e frequentes ultrapassagens da fronteira entre os Poderes. Edson Fachin sabe disso.

 Vicente Lino.



terça-feira, 4 de agosto de 2026

 Depois da farsa de Fauci, está na hora de   colocar a CPI da Covid no banco dos réus

  Flavio Morgenstern



Mentiras do imunologista que falava “representando a ciência” foram usadas no Brasil para perseguir direitistas.

O imunologista Anthony Fauci, responsável pelas medidas tirânicas que criaram o primeiro ensaio de uma ditadura global no planeta em 2020, testemunhou diante do Congresso americano nessa semana. O homem que sempre dizia que falava “representando a ciência”, e que qualquer crítica às suas ilações pessoais era “anticientífica” e “desinformação” (dois termos que ficaram na moda naqueles anos de imbecilidade coletiva global), preconizando um totalitarismo de escala planetária com imposições arbitrárias como uso de máscaras, distanciamento social, vacinação experimental forçada e lockdowns, respondeu a mais de cem perguntas repetindo as palavras:

“Por orientação de meus advogados, recuso-me respeitosamente a responder, com base nos direitos que me são assegurados pela Quinta Emenda à Constituição.”

A Quinta Emenda da sucinta e poderosa Constituição americana garante que ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo em um processo, ainda mais penal. Fauci, que comentava sobre testemunhar ao Congresso quase em tom de ameaça, de repente preferiu “não produzir provas contra si mesmo”.

Um dos últimos atos de Joe Biden na presidência foi dar um “perdão futuro” para Fauci não ser julgado pelos seus – e que delícia poder dizer isso – crimes. Fauci foi invocado por 11 em cada 10 jornalistas brasileiros, 12 em cada 2 juízes brasileiros para exigir ordens despóticas durante a pandemia da COVID-19. Mas, pela zona direta de responsabilidade, o tanto de gente que pode ter morrido sob influência de suas decisões pessoais é comparável às vítimas de Adolf Hitler, que são mais indiretas.

Fauci mentiu sobre as origens do vírus, que o mundo inteiro já presumia que só podia ter sido criado em laboratório (por quem? Com qual objetivo? Quem vai ser punido?), dizendo que tais desconfianças eram “teorias da conspiração” (um termo inventado pela própria CIA para acobertar suas falcatruas, diz-se).

Basta lembrar da reportagem da revista Super, outrora respeitada, que estampava: “Sim, o coronavírus veio da natureza – e não de um laboratório”. Melhor ainda é o subtítulo: “Os boatos de que o vírus foi manipulado pela China não passam de uma mentira. E a ciência prova”.

Oh, doce ciência, sempre invocada por jornalistas que dificilmente sabem o que é uma estocasticidade ou uma triboluminescência para defender políticas ditatoriais!

Mas se fosse só a imbecilidade das reportagens. Agências de autodeclarado “fact-checking” (como a verborragia ditatorial tem termos chics, não?) saíram censurando o planeta Terra inteiro com base na mesma “inteligência” super “científica” da reportagem vergonhosa supracitada. Contas que levaram anos de trabalho para serem construídas eram canceladas por algum jornalista “científico” que chutou tudo C no vestibular de química em segundos.

Citar nomes de remédios e substâncias gerava mais punição do que pornografia infantil e tráfico internacional de órgãos e cocaína. Pais perderam guarda dos filhos (até hoje!!!) por se recusarem a permitir que seus filhos fossem cobaias de um cientista maluco, obsessivo em ver sua foto no New York Times e se achando por que uma Kardashian ligou cientificamente para ele. Canais com décadas de existência, como da Jovem Pan, saíram do ar por dias por conta de um comentário sobre um estudo envolvendo iv***t***. Assunto sobre o qual Fauci, obviamente, mentiu e invocou o som do silêncio para o mundo interpretar.

Claro, quase todos os canais que foram desmonetizados – algo como proibir de se trabalhar – foram de direita, por algum mistério que apenas o alinhamento planetário científico é capaz de explicar.

Mas enquanto os EUA discutem abertamente a punição penal às Big Pharmas e aos políticos e burocratas não eleitos que inventaram o primeiro ensaio de ditadura mundial desde Gênese 1,1, no Brasil tudo vai na contramão. Até hoje utilizam termos como “anticientífico” para discordar das loucuras de Fauci.

Hoje sabemos que a vacinação não cumpria nenhuma de suas promessas – e sim, trouxe riscos e mortes. Que as máscaras eram não apenas inócuas, como muitas vezes poderiam agravar problemas.

O diário de Fauci assemelha-se ao de Alfred Rosenberg quando descobrimos qual foi o pensamento “científico” para impor cientificamente o distanciamento social, também conhecido como o momento em que A Ciência Se Fez Carne: “me ocorreu” (sic).

Quantos foram punidos por isso no Brasil?

Basta se lembrar de um dos capítulos mais autoritários da história brasileira, aquele da CPI da Covid, encabeçada por nomes como Omar Aziz (nunca é recomendável pesquisar no Google por seu nome ao lado de “CPI da Pedofilia”), Randolfe Rodrigues, Renan Calheiros, Eduardo Braga, Humberto Costa (este parece ter um problema com a palavra “sanguessugas”, segundo o Google), Marcos Rogério, Otto Alencar, Tasso Jereissati, Alessandro Vieira, Angelo Coronel (que foi aprender na Rússia a censurar “fake news”), Jader Barbalho, Rogério Carvalho, Soraya Thronicke, Simone Tebet, Leila Barros, Eliziane Gama, Mara Gabrilli, Kátia Abreu e outros. Sempre havia um ou, no máximo, dois nomes a fazer contrapartida, como Flávio Bolsonaro, Eduardo Girão, Marcos do Val, Luiz Carlos Heinze ou Jorginho Mello.

CPIs no Brasil costumam sempre terminar em pizza (você já fez a pesquisa sobre a CPI da Pedofilia acima?), mas elas podem permitir que políticos façam buscas e apreensões e quebras de sigilo. E foi o que a CPI fez – não contra corruptos, não contra alguém de sobrenome Odebrecht ou algum mensaleiro ou petroleiro, não contra algum ladrão de estatal ou fundo de pensão. Nada disso.

 Foi um festival de buscas e apreensões e quebras de sigilo contra cidadãos que nem sequer foram ouvidos ou convocados pela CPI

Começou com a quebra de sigilo mais tirânica da história brasileira, proposta por Alessandro Vieira (que, repentinamente, parece ter se tornado herói da direita para alguns) contra Filipe Martins. Exigiram-se todas as suas conversas privadas e particulares em todas as suas redes sociais, todos os seus e-mails (com ordem para não trocar a ordem das pastas), todas as suas fotos privadas, cópia integral do iCloud, cópia de todos os apps e documentos em todos os meios eletrônicos, histórico de buscas no Google, histórico de geolocalizações, históricos médicos, bancários… enfim, sua vida inteira.

Alessandro Vieira argumentou que precisava de tudo isso para saber o que Filipe havia conversado em uma reunião com a Pfizer. Mas nem se deu ao trabalho de convidá-lo, ou mesmo convocá-lo, para explicar.

Logo depois, o mesmo modelo de quebra de sigilo foi aplicado a todos os sites de direita possíveis. Terça Livre, Brasil Paralelo, Senso Incomum, Conexão Política e vários outros. Pessoas como Flávio Gordon e Bernardo Küster também foram alvo. Até a Jovem Pan foi parar no bolo – Renan Calheiros, num lapso, disse que foi culpa do seu assessor, que fez “copia e cola”. Merval Pereira, na época, disse que ir contra os “bolsonaristas” era ótimo, mas que incluir a Jovem Pan poderia afetar a liberdade de expressão (e os outros “investigados” não?).

Os pedidos de quebra de sigilo eram tão mal formulados, realmente no copia e cola, que falavam de empresas (CNPJs) em vários estados do Brasil, com o mesmo texto, citando reportagens verdadeiras (uma delas citando o FDA, a “Anvisa” americana, além de artigos de opinião), dizendo que “a pessoa trabalha no mesmo andar do presidente Bolsonaro”, copiando e colando o pedido feito por Alessandro Vieira contra Filipe Martins.

Pior: uma CPI não pode investigar nenhum fato além do seu escopo. No caso, a falta de suprimentos de oxigênio no Amazonas. Por que supostas “fake news” (que hoje sabemos serem todas verdadeiras) foram punidas com a mesma tirania? Todos os ministros do STF, com as únicas exceções de André Mendonça e Kássio Nunes Marques, votaram pela manutenção da quebra de sigilo. Para saber “se” algum crime foi cometido. Tente a mesma medida contra um terrorista para ver se consegue.

O relatório da CPI foi recusado quando os senadores tentaram apresentá-lo em Haia. Os senadores ao menos aproveitaram a viagem com dinheiro público. O que seria do país sem Renan Calheiros, Humberto Costa, Jader Barbalho e outros elogiados pela Globo News para “salvar a democracia” e trazerem “ciência” ao debate via tirania, não?

Se a farsa de Fauci está no banco dos réus, está na hora de também colocar no banco dos réus cada uma das autoridades, em todos os poderes, que transformaram o Brasil numa ditadura despótica e estúpida e, como já sabíamos, anticientífica.


 Flavio Morgenstern é escritor, jornalista e roteirista. É formado em Literatura Alemã e estuda as relações entre linguagem e poder, além da decadência da modernidade, especialmente desde a Primeira Guerra Mundial.

 O Brasil está cheio de cúmplices das   mentiras de Anthony Fauci

Alexandre Garxia.


   

Esse diário do médico Anthony Fauci teve um efeito explosivo. Ele escreveu tudo em um computador do trabalho, salvou em servidor do governo, e aí foi fácil para as investigações do Senado encontrarem o material. Fauci foi convocado, precisou ir à Comissão de Segurança e Assuntos Governamentais do Senado, ficou em silêncio o tempo todo, mas revelaram tudo o que estava no diário. O que me chamou atenção foi o fato – que ele escondeu, mas estava no diário – de o próprio Fauci ter tido uma trombose pulmonar depois de ter tomado a vacina contra a Covid. O que se diz por aí – eu até procurei, mas não encontrei comprovação – é que, só em 2021 e 2022, as mortes de atletas jovens equivaleram ao registrado nos 50 anos anteriores.

E temos ouvido um barulhento silêncio aqui no Brasil sobre tudo isso. Pelo jeito, muita gente sentiu que também é responsável pelas coisas que Fauci pregou e que não eram necessárias: máscara, distanciamento, isolamento. Aqui no Brasil a Constituição foi totalmente desrespeitada: direito de ir e vir, direito de reunião, liberdade de expressão, vedação à censura, tudo foi ignorado. As pessoas eram censuradas só por falar em certas coisas; eu falava o óbvio, daquilo que eu via. Minha mulher é médica e estava curando; nenhuma paciente dela foi hospitalizada com Covid porque havia (e há) cura, e cura barata. Mas era proibido falar no tratamento, e a Polícia Federal chegou a ir à casa de pesquisadores como Flávio Cadegiani e Ricardo Zimerman, fora tantos outros médicos e médicas que foram calados.

Enquanto isso, toda hora um certo programa de televisão mostra (ou mostrava, não sei mais, faz mais de 20 anos que eu não assisto a televisão) que “descobriram agora uma raiz na Amazônia que cura o câncer”. Era amplamente noticiado, e não havia problema nenhum. Na medicina existe o que se chama de uso off label de medicamentos, quando se descobre um uso que não estava na bula. A ciência é assim: experimenta-se; se não deu certo, esquece; se deu certo, usa-se para salvar vidas.

Depois de tudo o que aconteceu no Senado americano, os estados de Louisiana, Flórida e Alabama estão se unindo para processar Fauci. Mas em 19 de janeiro de 2025, um dia antes de sair da presidência, Joe Biden assinou um perdão amplo e incondicional a Fauci por sua atuação desde 2014 no Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas. E, como assessor de saúde do presidente dos Estados Unidos, recebeu um perdão sem que estivesse respondendo a nenhum inquérito. Não sei como a Justiça vai resolver isso.

Agora surge a verdade: Anthony Fauci enganou o mundo todo sobre a Covid

Ainda já juízes que sabem o que é imunidade parlamentar

Alexandre de Moraes perdeu uma causa judicial em São Paulo. A mulher dele, Viviane, e os filhos, componentes do escritório de advocacia que teve um contrato de R$ 129 milhões com o Daniel Vorcaro e o Banco Master, estavam processando o senador Alessandro Vieira, relator da CPI do Crime Organizado, pedindo indenização por danos morais. Ele havia dado uma entrevista no SBT na qual falava das ligações entre o Master e o PCC, além de algumas declarações sobre Moraes e Dias Toffoli. O juiz recusou. É óbvio: a Constituição, no artigo 53, diz que “deputados e senadores são invioláveis civil e penalmente por quaisquer palavras”. E Viviane Barci ainda terá de pagar R$ 2 mil em honorários advocatícios para o senador.

 


 Alexandre Garcia. Atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

 Os exemplos que reacendem a esperança de um Brasil rico, decente e seguro,

Gazeta do Povo



 

Em cerca de 20 anos, a cidade de Nova York reduziu os homicídios em 80%.

Dias atrás, neste espaço, a Gazeta do Povo diagnosticou o que chamamos de “crise da alma” brasileira: uma perda de esperança que nasce da conjunção de uma crise institucional, uma crise econômica e uma crise civil, ético-cultural, que se alimentam mutuamente. Esta perda de esperança se traduz, com muita frequência, em uma afirmação tão apocalíptica quanto – mostraremos a seguir – enganosa: a de que “o Brasil não tem jeito”. Ainda que haja muitos motivos para tal constatação, temos a ousadia de afirmar que ela é um engano grave, que costuma se alastrar e acompanhar os países em crise. Considerar que o presente é permanente, que as coisas sempre foram assim e sempre serão é um fatalismo que a própria história do mundo desmente.

É um pessimismo que deve diminuir nos próximos meses, até porque, ao longo da campanha eleitoral que está para começar, muitos candidatos afirmarão que sim, o Brasil tem solução – desde que sejam eles os eleitos. Não se trata, no entanto, de um processo tão simples. Mesmo quando se trata de candidatos que de fato defendem um conjunto de ideias correto (pois muitos também oferecerão como solução fórmulas que apenas agravarão os atuais problemas), os casos de países que mudaram para melhor mostram que é preciso construir uma direção clara e mantê-la por muitos anos. É disso, e não de passes de mágica nem de salvadores da pátria, que depende a concretização dos nossos desejos de um Brasil rico, um Brasil decente e um Brasil seguro.

 Será possível, por exemplo, que o Brasil deixe de ser um país de renda média e passe a integrar, em um horizonte de 20 anos, o grupo das nações de alta renda, aquelas que têm renda per capita superior a cerca de US$ 14 mil, nos critérios do Banco Mundial? Nosso ponto de partida é uma renda per capita de US$ 9,5 mil – o salto seria de quase 50% em duas décadas. Parece impossível, mas três exemplos, inclusive alguns bem próximos, mostram que não se trata de utopia.

Os casos de países que mudaram para melhor mostram que é preciso construir uma direção clara e mantê-la por muitos anos

A Costa Rica, geograficamente muito próxima de países de baixa renda e em crise, acaba de atingir esse mesmo objetivo que gostaríamos de ver traçado para o Brasil. Em julho de 2025, o Banco Mundial reclassificou o país como economia de alta renda, resultado de duas décadas de crescimento consistente – cerca de 3% ao ano, em média, entre 2004 e 2024. O Chile é outro exemplo: em 1990, 39% dos chilenos viviam na pobreza; em pouco mais de 15 anos, esse número caiu para menos de 14%, enquanto a renda por habitante quase sextuplicou entre 1990 e 2018. Em 2010, o Chile tornou-se o primeiro país da América do Sul a ingressar na OCDE, o grupo das nações mais desenvolvidos do mundo. E há o exemplo mais radical: o da Coreia do Sul. Nos anos 1960, a renda per capita sul-coreana era inferior à brasileira e o país figurava entre os mais pobres do planeta. Hoje, a Coreia do Sul é uma potência tecnológica, industrial e cultural, cuja renda per capita é o triplo da brasileira.

Há inúmeros outros casos bastante documentados, com boa literatura analisando esses movimentos. O que ela mostra é que nenhum desses países “ganhou na loteria”, por exemplo encontrando alguma reserva abundante de commodities valiosas. O que eles fizeram foi mais difícil: criaram instituições confiáveis, investiram pesado na educação (especialmente a educação básica), mantiveram responsabilidade fiscal, abriram-se ao comércio internacional – e preservaram esse rumo ao longo de diferentes governos. A palavra-chave é consistência.

O que vale para a economia vale para a segurança pública, como demonstram os casos de Nova York, Colômbia, Escandinávia e Itália. Em 1990, Nova York registrou 2.245 homicídios; era a cidade mais violenta dos Estados Unidos, um símbolo mundial de violência urbana, retratada inclusive em clássicos do cinema. Também lá não houve milagre algum, mas decisão política, inteligência policial, aplicação efetiva da lei e recuperação da confiança nas forças de segurança. Duas décadas depois, os homicídios anuais giravam em torno de 300, uma queda de mais de 80% em comparação com os piores dias da “cidade que nunca dorme”. Nova York havia se tornado referência mundial em redução da violência – e o aumento verificado no início desta década se deveu justamente ao abandono de algumas das medidas que haviam ajudado a reduzir a criminalidade, o que apenas ressalta a importância da consistência nas políticas públicas.

O próprio Brasil mostra que isso é possível. As sucessivas edições de estudos como o Atlas da Violência apontam que há estados com baixos índices de homicídios, e outros com números comparáveis aos de países em guerra. A diferença está nas instituições, nas prioridades e nas políticas públicas que não caem no erro de achar que a defesa da dignidade humana exige desconfiança em relação à polícia ou complacência com os criminosos – isso só leva a aceitar a impunidade. É o contrário: uma sociedade verdadeiramente humana não tem medo de ser firme e de proteger prioritariamente as vítimas, as famílias honestas, que só desejam viver em paz.

Por fim, na esfera civil e ético-cultural nem é preciso buscar exemplos externos. Graças à Operação Lava Jato, milhões de brasileiros passaram a considerar possível combater aquilo que, por décadas, foi tratado quase com resignação: a corrupção. Por mais que uma reação organizada e interesses políticos tenham conseguido desmontar a maior e mais bem-sucedida operação de combate à corrupção da história do Brasil, essa demolição não muda o fato de que a cultura de descrença quanto à possibilidade de atacar a corrupção mudou profundamente. E o que muda uma vez pode voltar a mudar.

Nossa sociedade está aprendendo. Há uma disposição crescente de rediscutir temas sem recorrer automaticamente a lógicas estéreis, como a surrada oposição entre opressor e oprimido ou o vitimismo permanente. A cultura do cancelamento e a afetada sinalização de virtude estão sendo cada vez mais questionadas. E uma razão adicional para esperança é o fato de o Brasil não “partir do zero”. O país tem estabilidade monetária desde o Plano Real; nosso agronegócio está entre os mais competitivos do mundo; reformas importantes como a da Previdência e a trabalhista, marcos regulatórios como o do saneamento, e medidas como a autonomia do Banco Central foram aprovadas no Congresso (ainda que algumas delas enfrentem retrocessos). O bom trabalho, portanto, já está em andamento – mas precisa ser terminado.

A pergunta não é se o Brasil pode mudar, pois a história de muitos países já respondeu que sim. A verdadeira pergunta é outra: teremos coragem e perseverança para construir essa mudança?

Além disso, agressões e repressões não foram capazes de conter a cultura de valorização da família, da vida, da liberdade, do empreendedorismo, do associativismo, da participação na vida pública, cultura essa que vem crescendo nos últimos 20 anos – em parte, também como reação a essas agressões e repressões. Temos, assim, um pano de fundo de valores humanos extremamente fecundo. E também a tecnologia é um elemento de esperança. A disseminação rápida da inteligência artificial traz desafios gigantescos, especialmente no mundo do trabalho, mas pode acelerar o crescimento e encurtar o tempo de implementação de medidas que levem à superação das crises.

O Brasil está bem posicionado para iniciar um ciclo de grande desenvolvimento institucional, econômico e ético-cultural. Mas ele depende de escolhermos líderes capazes de iniciar uma transformação na direção correta, com medidas assertivas e capazes de sobreviver ao próprio mandato, porque é assim que os países mudam. A virada não ocorre em quatro anos, mas não exige um século inteiro; basta que uma sociedade decida caminhar na mesma direção saudável por 20 anos, com a capacidade de manter boas políticas públicas ao longo do tempo.

O brasileiro nunca deixou de ser um povo otimista, mas precisa trazer essa característica de volta à superfície. A história nunca está completamente escrita e o Brasil não está condenado ao fracasso. Temos problemas profundos, mas também instituições que podem ser reconstruídas, uma economia que pode voltar a crescer, e uma sociedade que segue mostrando enorme capacidade de reagir quando encontra lideranças, ideias e objetivos claros. A pergunta não é se o Brasil pode mudar, pois a história de muitos países já respondeu que sim. A verdadeira pergunta é outra: teremos a lucidez, a coragem e a perseverança para construir essa mudança?



 A Nicarágua não é um exemplo a ser seguido.

 Vicente Lino.






No dia 20 de junho, Daniel Ortega, líder da Nicarágua, escancarou sua ditadura ao anunciar que não permitirá novos processos eleitorais que ameacem o controle do partido governista: "Aqui na Nicarágua não haverá mais eleições para que a oposição não tente tomar o governo, tomar o poder"

. Lá, a engenharia do poder foi sendo desmantelada por dentro. Foi o próprio Judiciário que, em 2009, declarou "inconstitucional" o artigo da Constituição que proibia a reeleição consecutiva. Depois, controlaram o órgão eleitoral e, em seguida, transformaram adversários em criminosos e jornalistas críticos em conspiradores. Dá para ficar com a pulga atrás da orelha.

 Ortega e sua turma não sobreviveram apenas por causa da polícia, dos juízes domesticados ou dos serviços de inteligência. Sobreviveram porque construíram uma rede de legitimadores, onde cada prisão podia ser explicada como defesa da soberania, cada ilegalidade como “defesa da democracia” e cada processo como resposta a uma tentativa de golpe. A linguagem do judiciário funcionou como lavanderia moral para crimes cometidos à luz do dia pela própria instituição. 

Por aqui, já aprendemos que, quando as instituições e os mecanismos de freios e contrapesos são destruídos em nome de um projeto de poder, o resultado inevitável é a supressão das liberdades e a erosão das garantias fundamentais. Sobram exemplos idênticos ao nicaraguense: 

A Revolução Cubana de 1959, criou a fusão entre Estado, Partido e Forças Armadas e transformou a oposição política em crime de "traição à pátria" — e deu no que deu;

 Na Revolução Bolivariana na Venezuela, o regime utilizou o próprio texto constitucional para concentrar poderes no Executivo, alterar as regras de reeleição e aparelhar o Tribunal Supremo de Justiça — e deu no que deu.

 No Brasil, vale a nossa preocupação diante do enfraquecimento das garantias individuais e do risco de normalização do arbítrio sobre a regra do Direito. Resta torcer para que o país retome o caminho da plena liberdade, da livre expressão e do império da lei, tão fortemente apregoados no texto da Constituição. 

A Nicarágua não é um exemplo a ser seguido.

  Vicente Lino.





sexta-feira, 31 de julho de 2026

 Os Reais Motivos das Tarifas Americanas   sobre os Produtos   Brasileiros.


Os Estados Unidos acabam de impor uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Lula e seu entorno tentam culpar meio mundo, fingindo não saber que a questão vai muito além de disputas políticas superficiais ou bodes expiatórios isolados. Não querem olhar para a postura ideológica do atual governo brasileiro, que impacta diretamente a relação com os americanos. 

O Brasil deu as costas quando o governo dos EUA manifestou claro esgotamento com o que considera uma interferência excessiva do Judiciário brasileiro. Vimos decisões judiciais que determinaram a derrubada de perfis e conteúdos em redes sociais americanas — medidas que foram vistas como ataques diretos à liberdade de expressão e aos interesses econômicos de empresas dos EUA. Vimos, também, a interferência em contratos privados e a fragilidade na proteção da propriedade intelectual gerarem desconfiança em investidores estrangeiros.

 Paralelamente, os EUA apontavam a existência de tarifas consideradas “desleais e preferenciais” pelo Brasil, criadas para dificultar a entrada de produtos americanos. Não há quem não tenha visto a postura e os pronunciamentos do presidente Lula refletindo uma guinada ideológica que afasta o Brasil das democracias liberais ocidentais.

 O governo Lula adotou uma retórica frequentemente crítica aos EUA e mais alinhada a blocos alternativos. Por isso, agora Washington utiliza as tarifas como uma ferramenta de pressão pragmática para forçar mudanças de comportamento, assim como fez com a China e a Índia. Longe de ser um protecionismo cego, a medida é uma resposta institucional firme. 

Ao priorizar a ideologia em detrimento do pragmatismo comercial, o atual governo brasileiro acaba gerando consequências severas para a economia nacional, sendo o cidadão e o produtor brasileiro os que, no final, pagam a conta dessa incoerência diplomática.

 Mais uma vez, o governo erra feio e, mais uma vez, não assume a responsabilidade pelo erro.

  Vicente Lino.



quinta-feira, 30 de julho de 2026

 Lula abre a caçada aos policiais que   acusaram Jaques   Wagner

  Vicente Lino.





Acompanhamos as articulações entre Lula e Andrei Rodrigues, seu ex-chefe de segurança e Diretor Geral de uma parcela Policia Federal. Não da parcela que continua atuando a favor do Brasil e da Justiça. 

Depois da conversa a coisa mudou e coube ao Ministério da Justiça executar uma triste tarefa. O disfarce, que não enganou ninguém, foi uma 'determinação para que todos os órgãos do Poder Judiciário devolvessem os policiais federais cedidos para auxiliar magistrados', sob a justificativa de 'reforçar o combate ao crime organizado'. Nada disso! 

O objetivo de urgência era atingir o delegado que assessora o ministro André Mendonça. A convocação de policiais específicos teve início no fim de abril. Foram enviados 100 pedidos de retorno, alcançando mais de 50 órgãos da administração pública direta e indireta federal, estadual e municipal. Mas o objetivo central era fuzilar o delegado que chefiava as investigações da roubalheira do INSS e que pediu a quebra do sigilo de Lulinha. Depois de ele ter coordenado toda a investigação, queriam retirá-lo do caso. 

No dia 17 de junho, uma nova leva de ofícios disparados contra órgãos do Judiciário foi assinada pelo secretário-executivo do Ministério da Justiça, Ademar Borges. O alvo, desta vez, era mesmo o delegado Thiago Marcantonio, que assessora o ministro André Mendonça nos inquéritos sobre desvios em aposentadorias do INSS e nas fraudes do Banco Master. No entanto, após a intervenção do ministro André Mendonça, argumentando que o desfalque prejudicaria gravemente o andamento dos inquéritos, o Ministério da Justiça recuou. 

Felizmente, o delegado foi mantido e permanece assessorando o ministro André Mendonça. Vale torcer para que os esforços do governo, do STF e de outras instituições não impeçam o trabalho sério do respeitável ministro, em busca da verdadeira justiça.

Vicente Lino.