sexta-feira, 4 de setembro de 2026

 O Caso Banco Master e o Risco da Impunidade Institucional.

Vicente Lino.





Como se sabe, a impunidade acompanha a alta cúpula dos Poderes desde sempre. Por isso mesmo, é preciso muita cautela antes de afirmar que, desta vez, os culpados serão punidos. 

As gravações no celular de Daniel Vorcaro, investigado por fraudes financeiras, são evidências muito fortes de seu envolvimento com o ministro Alexandre de Moraes, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Se a trinca será punida, é outra história.
 
O contraste é perturbador. Enquanto assistíamos ao endurecimento de cautelares, prisões preventivas, privações sem o devido processo legal e punições sem as garantias fundamentais, os bastidores do poder revelavam as tenebrosas transações agora descobertas. 

Um dos magistrados mais poderosos da Corte celebrou contratos milionários com o Banco Master e editou seus termos contratuais. Esse comportamento evidencia um ambiente de tolerância e privilégio inacessível ao cidadão comum. Por enquanto, nenhuma providência foi tomada.

 Temos, de um lado, pessoas submetidas ao rigor do Estado, sem acesso aos autos e enfrentando o peso de decisões monocráticas e irreversíveis. Do outro, um investigado que se sente à vontade para solicitar intervenções junto à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República, além de consultar prazos para uma eventual fuga do país. 

O Brasil que presta quer saber se haverá, finalmente, uma resposta à altura, ou se vai assistir a mais uma "operação abafa". Historicamente, quando a tigrada é flagrada cometendo crimes, o sistema se fecha em autoproteção, arrastando prazos e alegando nulidades.
 
Se a justiça não prevalecer agora, restará a falência moral do nosso sistema: o rigor da lei que esmaga os vulneráveis enquanto concede salvo-conduto aos poderosos — como, aliás, sempre foi.

   Vicente Lino.




 

 

  O Resgate da República Não Pode Esperar

   Vicente Lino


É absolutamente inacreditável o tenebroso espetáculo no Brasil de hoje. Depois das revelações da Polícia Federal o Congresso se reuniu para votar a taxa das blusinhas e o fim da escala 6x1.

 É também estarrecedor que, diante de um emaranhado de conversas, pedidos de blindagem e contratos milionários que chocam a ética pública, a sociedade ainda esteja especulando nos bastidores para saber quem, na mais alta corte do país, é a favor ou contra essa verdadeira monstruosidade institucional. 

O que foi divulgado deveria obrigar que a imparcialidade e a honra fossem exigidas e providências imediatas fossem coercitivamente tomadas. Diante do desmoronamento do pudor e dos princípios, o Congresso debate projetos pontuais e eleitoreiros como se a casa da democracia não estivesse vendo o país se afundar sob a magnitude deste escândalo. Ignorar a gravidade dos fatos não é apenas covardia; é cumplicidade com a degradação das instituições.

 Apesar de tudo, ainda há luz no meio deste caos. Abre-se a oportunidade histórica de finalmente sanear a República, expurgando-a de seus corrompedores e punindo severamente quem usou o poder estatal para promover abusos, perseguições e blindagens espúrias. Não podemos aceitar o abafamento nem a normalização do inaceitável.

 O Senado Federal tem o dever cívico de votar o impeachment e o afastamento definitivo de quem manchou o decoro e a dignidade do cargo.  É preciso ir além das palavras e exigir a rigorosa punição e a total reparação pelos males já praticados por essa trinca fisiológica e sombria citada nas conversas. 

Ou o Congresso assume seu papel histórico agora, ou perderá a sua última gota de legitimidade perante o povo brasileiro. O Brasil decente exige limpeza institucional, punição aos responsáveis e o resgate urgente da moralidade! 

  Vicente Lino.


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

             Diálogo sobre o absurdo.




Entre dezembro de 2023 e novembro de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro enviou uma sucessão de mensagens desesperadas ao ministro Alexandre de Moraes. De outro lado, diante do escândalo, veio a manifestação oficial do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin. O contraste entre a intimidade do poder e o discurso institucional é o retrato do Brasil atual. Hoje temoso diálogo sobre o absurdo.

 DANIEL VORCARO - — É importante reforçar com o Andrei e com o Paulo para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem... Porque aí vai tudo pro saco! Estou disponível para tratar e explicar qualquer coisa, só não pode ter sacanagem.

VOZ DE EDSON FACHIN - — Os fatos revelados exigem serenidade, responsabilidade e respostas institucionais firmes.

VOZ DE DANIEL VORCARO]- — Mas há pedido deferido por parte deles? Algo que dê para bloquear? Porque se conseguem alguma medida contra mim agora, vai tudo por água abaixo... Essa é a minha maior preocupação!

[VOZ DE EDSON FACHIN - — Os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional. Há, de um lado, a atuação processual e, de outro, sérios elementos de fatos que exigem desta Presidência serenidade, responsabilidade e firmeza.

DANIEL VORCARO: — Como estamos aí? Conseguimos bloquear a maldade e a sacanagem? Acha que vale a pena? Não vou fazer nenhum movimento que você não ache produtivo... Não conseguimos reverter isso com o Paulo ou com o Andrei? Muita sacanagem isso...

VOZ DE EDSON FACHIN - — A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades. A Presidência do STF está analisando o caso e anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas cabíveis e necessárias.

Senhores:  Daniel Vorcaro está preso.  Por enquanto, só ele foi responsabilidade. Mais ninguém, como sempre acontece, aliás.

Absurdo maior:estamos escrutinando votos no STF a favor ou contra tamanha anomalia. Como se fosse impossivel distinguir o certo do errado.


Vicente Lino.



 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

 A Polícia Federal não tem dono.





Não faz muito tempo, os 27 superintendentes regionais da PF assinaram uma nota pública em apoio ao Diretor-Geral Andrei Rodrigues. A manifestação foi apresentada como demonstração de unidade em torno do chefe, mas mostrou a imagem de uma cúpula fechada em si mesma, não convenceu ninguém e ainda reforçou a percepção de que a instituição está sujeita a alinhamentos políticos. 

Notas coletivas de desagravo a dirigentes facilmente descambam para a aparência de blindagem institucional contra críticas externas legítimas. “É essa postura republicana e imune a ingerências a única capaz de conferir legitimidade e autoridade moral às operações em curso.

 “Não sabemos se as coisas começam a mudar, mas as recentes notas oficiais divulgadas pelo órgão mudaram o tom e enfatizaram o profissionalismo, a isenção e o caráter apartidário das investigações. Afirmaram, também, que as apurações devem avançar independentemente de alvos, cargos ou filiações partidárias.

 É bom que a Polícia Federal tente retornar ao seu verdadeiro papel constitucional. Para que a PF cumpra sua missão de servir ao Estado brasileiro — e não a governantes, magistrados ou grupos de pressão —, é indispensável que seu funcionamento se traduza tanto em decisões formais quanto na conduta pública de seus quadros.

 A garantia de uma sociedade justa e livre do espectro da impunidade exige que a imparcialidade seja uma prática diária, transparente e intransigente. Senhores: a Polícia Federal não pertence a governos nem a autoridades de plantão. A Polícia Federal pertence ao Brasil.


 Vicente Lino.



terça-feira, 1 de setembro de 2026

 Moraes precisa deixar o STF – ou, melhor ainda, ser retirado dele,

Gazeta do Povo.




 Relatório da PF traz várias mensagens de Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, pedindo proteção e até conselhos sobre sair do país.

As novas informações que vieram à luz nesta terça-feira, com a divulgação de mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, mostram um relacionamento turvo, polpudo e indecente – mas não surpreendente. Os brasileiros de bem já sabem há muito tempo quem é Moraes: muito antes de haver Vorcaro e o Banco Master, já havia o abuso de autoridade, as decisões inconstitucionais, a perseguição a desafetos, as violações do devido processo legal, os múltiplos papéis em processos. Mas as novidades desta terça-feira não apenas confirmam o que muitos já sabiam; elas jogam a verdade inescapável diante de todos os demais brasileiros, os que não sabiam ou não queriam saber. E tornam ainda mais urgente aquilo de que o Brasil precisa há um bom tempo: o afastamento definitivo do ministro de suas funções no STF.

Quando o Brasil inteiro soube do contrato completamente imoral de R$ 129 milhões celebrado pelo Banco Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, sem qualquer fundamento ou contrapartida proporcional, o mínimo que se poderia esperar, e que a Gazeta do Povo e outras vozes influentes pediram, era a abertura de uma investigação corajosa sobre o tema, seguida do inevitável impeachment. A existência do contrato tinha sido confirmada, ao menos R$ 80 milhões foram pagos, e Moraes tomou decisões em ao menos em um caso de interesse de Vorcaro. Os elementos para um impeachment já estavam presentes. No entanto, inúmeras forças convergiram em uma “operação abafa” – forças poderosas, como um presidente do Senado covarde e conivente, um procurador-geral da República cúmplice, e elementos da Polícia Federal dispostos a deixar o assunto na sombra, para que esfriasse.

Se os senadores querem fazer desta semana de “esforço concentrado” uma semana realmente valiosa para o país, um único tema merece seu empenho: a abertura do processo de impeachment de Moraes

Felizmente, não esfriou. A terça-feira começou com a notícia de que o ministro havia editado o fabuloso (e ainda hoje muito mal explicado) contrato – cujo valor, sabe-se agora, era de R$ 131 milhões, e não R$ 129 milhões – entre o Master e Viviane Barci de Moraes. O próprio escritório confirmou a informação, demonstrando que Moraes sabia muito bem da negociação e parecia não se incomodar com o fato de o escritório de sua família ser contratado por valores muito superiores aos recebidos pelas melhores bancas da capital federal. Mas ainda havia muito mais, graças à determinação, ao espírito cívico e à coragem do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo.

Mendonça havia solicitado à Procuradoria-Geral da República informações sobre uma mensagem enviada por Vorcaro a um contato identificado como sendo Moraes, pedindo que o ministro intercedesse junto ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para “não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem”. Em outras palavras, Vorcaro pedia proteção. A repercussão foi tão grande que Mendonça levantou o sigilo da ação, e mais conversas surgiram. Ao longo dos diálogos, Vorcaro deixa subentendido que tem informações sobre as investigações contra ele, e pergunta a Moraes, em 15 de novembro de 2025: “acha que segunda já tenho que estar fora?”. Não se sabe o que o ministro respondeu, mas o fato é que, coincidência ou não, em 17 de novembro, a primeira segunda-feira depois daquele pedido de aconselhamento, Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos, enquanto tentava sair do país.

As novas mensagens – porque o Brasil já conhecia algumas outras, trocadas inclusive no dia da prisão do banqueiro – só reforçam um tipo de relacionamento que vai muito além do aceitável, entre um membro da mais alta corte do Judiciário brasileiro e uma pessoa que estava sob investigação por uma gigantesca fraude financeira. Um relacionamento de proximidade e confiança, no qual Vorcaro pede socorro e blindagem a um ministro do STF cuja esposa recebe dezenas de milhões de reais do banco de propriedade desse mesmo investigado – por meio de um contrato, sabe-se agora, que tem o dedo de Moraes. A pergunta óbvia é: como é possível que Vorcaro se sentisse livre para enviar a Moraes pedidos de proteção e perguntas sobre o andamento das investigações sem temer uma ordem de prisão por obstrução de Justiça? A resposta também nos parece bastante óbvia.

Ao longo do dia, avolumaram-se os pedidos para que Moraes tome a iniciativa de deixar a corte, ou que ao menos o Supremo costure internamente algum tipo de afastamento temporário. Nada disso, no entanto, basta. É ao Senado que cabe a mais urgente atitude capaz de iniciar um retorno à normalidade, depois de anos de ditadura do Judiciário: o impeachment de Moraes. Impeachment já, sem atrasos, sem justificativas inaceitáveis.

O Congresso está reunido na sua última semana de “esforço concentrado” antes das eleições, priorizando temas que nem de longe são aqueles realmente importantes para o país, ou que exigem um tempo mais alongado de reflexão e deliberação. Se os senadores querem fazer jus ao papel histórico que têm, se querem fazer desta semana uma semana realmente valiosa para o país, um único tema merece seu empenho: a abertura do processo de impeachment de Moraes.

A lei do impeachment diz que um ministro do Supremo comete crime de responsabilidade quando “proceder de modo incompatível com a honra, dignidade e decoro de suas funções”. Quando um ministro tem esse tipo de conversa com alguém como Vorcaro, na situação em que ele estava, podemos ter certeza completa de que a honra, a dignidade e o decoro já foram jogados no lixo há muito tempo. Moraes fez sua escolha, e agora é a vez dos senadores: que eles sejam honrados, tenham consciência do seu papel histórico, acabem com esta ditadura infame que mantém encolhidos milhares e milhões de cidadãos. Em resumo: que façam o seu papel.


 Gazeta do Povo.



 Carta aberta ao meu irmão gari: quem vai limpar o lixo do PT? 

 Paulo Briguet


                      Quem será capaz de limpar toda a sujeira que essa gente deixou?

 

Nada é pequeno quando contém o infinito em germe, e é este o caso de toda ação feita para Deus.”

(Padre Antonin-Dalmace Sertillanges)

 

Meu amigo,

Você é lixeiro e eu sou cronista. Nossas profissões são muito mais parecidas do que se poderia imaginar. Você é responsável pela limpeza de nossas ruas. Eu sou responsável por outro tipo de limpeza: a limpeza da linguagem, despojando-a de tudo aquilo que não comunique a verdade. A diferença é que o seu trabalho é muito mais importante que o meu. Sem você, a cidade vira um caos. Sem mim, ela continuará funcionando, mesmo com todos os problemas.

Ouvi, com o coração dilacerado, as palavras que o ocupante da Presidência dedicou ao seu ofício em mais um discurso imbecil. Senti-me pessoalmente ofendido com as palavras do sujeito.

Há muitos anos cultivo um hábito: quando vejo um caminhão de lixo se aproximando, eu paro o que estou fazendo para acompanhar o trabalho de vocês e fazer uma oração silenciosa:

— Senhor, abençoe os nossos irmãos lixeiros.

Quantos quilômetros por dia corre um funcionário da limpeza pública? É um trabalho hercúleo, digno de heróis. E tudo para garantir o conforto e a saúde da população. Raros labores traduzem melhor aquilo que garante a continuidade da vida social: o amor ao próximo.

Meu amigo Silvio Grimaldo diz que eu, na verdade, sou um catador de detritos, um lixeiro das palavras. Jamais me senti ofendido com essa definição. De vez em quando, eu saio pelas ruas catando garrafas e latinhas e quase sempre volto com uma crônica. Certa vez, eu cortei a mão com uma garrafa quebrada. Para evitar que aconteça o mesmo com você, sempre que quebramos um copo ou uma garrafa aqui em casa, eu dedico alguns minutos só para acomodar os cacos dentro de uma caixa de papelão forrada de papel, com um aviso em letras garrafais: CUIDADO, AMIGO LIXEIRO: VIDRO QUEBRADO.

 Há cem anos, um comunista chamado Trotsky disse que, no futuro socialista da humanidade, todo operário seria um Goethe e todo lixeiro seria um Aristóteles. No chamado socialismo real, a experiência mostrou exatamente o contrário: em 1978, o governo socialista da Tchecoslováquia proibiu Ivan Klíma, possivelmente o maior escritor do país, de exercer a sua profissão. Ele se tornou varredor de ruas, ofício que ele exerceu com dignidade, transformando a sua experiência no belíssimo romance “Amor e Lixo”, publicado nos anos 80.

Hoje de manhã, quando me sentei para escrever esta crônica em sua homenagem, assisti ao vídeo de uma moça que teve seu celular roubado por bandidos. Os caras quebraram o vidro do carro e a moça ficou em estado de choque. Ela havia acabado de comprar o celular e estava devendo 11 parcelas. Os ladrões, não contentes em lhe subtrair o celular, também lhe afanaram R$ 2 mil da conta.

Esse Lula que humilhou os lixeiros do Brasil é o mesmo que, tempos atrás, saiu em defesa dos ladrões de celular, que, segundo ele, roubam “pra comprar uma cervejinha”. Ele respeita mais os ladrões que os garis. E todos sabemos por quê.

A pergunta que eu faço é muito simples e direta: quem será capaz de limpar toda a sujeira que essa gente deixou? É obra para muitas gerações. Todos nós teremos de ser garis.

Receba um forte abraço deste colega, amigo, irmão e cronista de sete leitores.


 Paulo Briguet



segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 Moraes, Lula, Motta e Alcolumbre selam o “grande acordo nacional”

 Gazeta do Povo.

 

 

Difícil acreditar que, quando redigiu o artigo 2.º da Constituição, o que descreve os três poderes como “independentes e harmônicos entre si”, o constituinte de 1988 tivesse em mente o que estamos vendo hoje: não uma harmonia construída no entendimento de que cada poder tem seu papel, de que eles trabalham juntos pelo bem comum e de que diferenças são resolvidas sempre pelas ferramentas institucionais, mas o conchavo puro, simples e despudorado entre autoridades do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. É como se aquele artigo da Carta Magna tivesse sido reescrito por Romero Jucá e Sérgio Machado, flagrados em conversas telefônicas dez anos atrás falando de “um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”.

No início de agosto, o ministro e vice-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes organizou, ao lado do colega Cristiano Zanin, um jantar de “reconciliação” entre o presidente Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Os dois andavam brigados desde novembro do ano passado, quando o petista resolveu indicar o advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga aberta no STF com a saída de Luís Roberto Barroso – Alcolumbre não escondia de ninguém que seu favorito era o também senador Rodrigo Pacheco, e passou a retaliar o governo até articular a rejeição de Messias no plenário do Senado, submetendo Lula a uma humilhação quase sem precedentes na história brasileira.

Essa harmonia entre poderosos, mais que entre poderes, é conveniente para todos porque resulta em um enorme grau de autoproteção e blindagem

Ministros de suprema corte, em qualquer democracia digna do nome, não se portam como agentes políticos; no Brasil, eles assumem esse papel abertamente, sem corar. Essa harmonia entre poderosos, mais que entre poderes, é conveniente para todos porque resulta em um grau de autoproteção e blindagem que vai além daquilo que os ministros do STF já fazem entre si. Lula vê o escândalo do INSS cada vez mais próximo do seu gabinete, enquanto Alcolumbre e Moraes estão enrolados com Daniel Vorcaro e o Banco Master. Mas Alcolumbre é a garantia de que nem Moraes, nem qualquer outro membro do Supremo perderá a paz com processos de impeachment, enquanto a campanha de Lula pela reeleição sempre poderá esperar alguma mãozinha amiga do ministro, que ainda se acha dono do TSE, como quando ameaçou Flávio Bolsonaro com a inelegibilidade devido ao uso de um vídeo feito com inteligência artificial mostrando o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Com Lula e Alcolumbre acertados – a ponto de o Senado ter praticamente desistido de ser casa legislativa com vontade própria para agir como carimbador do que vem da Câmara nas PECs da Segurança Pública e da escala 6x1 –, faltava incluir Hugo Motta na equação. O presidente da Câmara, um dos participantes das famosas degustações de uísque patrocinadas por Vorcaro, almoçou com os presidentes da República e do Senado no Palácio da Alvorada, na última quarta-feira, e o trio saiu totalmente fechado: o Legislativo deve correr, nos próximos dias, com pautas que o governo pretende usar na campanha; Motta e Alcolumbre anunciaram seu apoio à reeleição de Lula; e o petista retribuiu afirmando que a dupla também tem seu aval para seguir à frente das duas casas do Congresso no ano que vem.

Há os que desejam continuar demolindo as liberdades no Brasil sem a devida responsabilização; os que não querem dar explicações à nação sobre seus negócios nebulosos; os que desejam manter a qualquer custo o poder que receberam, da população ou dos seus pares; os que precisam desesperadamente empurrar para debaixo do tapete as estripulias de familiares e assessores. São muitos interesses fortíssimos e, quando eles se encontram, o resultado são os jantares e almoços que temos presenciado em Brasília. Quando Jucá e Machado falavam do “grande acordo nacional”, diziam que ele serviria para “estancar a sangria”. A sangria das autoridades, essa certamente será estancada por Moraes, Lula, Alcolumbre e Motta caso essa aliança prospere; já a sangria do Brasil, essa cabe ao eleitor estancar em outubro. 

Gazeta do Povo