Vicente Lino
Política e Economia
segunda-feira, 1 de junho de 2026
sexta-feira, 29 de maio de 2026
O escândalo do Banco Master e a blindagem no STF
Recentemente, o ministro Gilmar Mendes tentou livrar seus colegas do escândalo do Banco Master ao afirmar que a crise “não está na Praça dos Três Poderes, está na Faria Lima”. Foi uma tentativa explícita de isolar a corte e blindar seus pares de um esquema com ramificações profundamente fincadas no coração de Brasília e no STF.
Gilmar finge não enxergar o rastro que aponta justamente para os tribunais superiores — como, por exemplo, o resort ligado a Dias Toffoli e o contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da esposa de Alexandre de Moraes. Ele também ignora o fato de o ministro Toffoli ter tentado impor sigilo às investigações, além das trocas de mensagens às vésperas da prisão de Daniel Vorcaro.
Deu de ombros para as caronas em jatinhos, os patrocínios de eventos e as recepções de alto luxo que contaram com a presença de membros do STF, do Judiciário e do procurador-geral Paulo Gonet. A opinião pública e os analistas independentes sabem que a influência e o dinheiro do banqueiro eram distribuídos para a elite do poder em Brasília. A sociedade percebe que a estratégia do Supremo é transferir a culpa integralmente para os agentes de mercado e blindar os ministros envolvidos.
Essa blindagem corporativista soa ainda mais grave diante do contraste com o rigor dos inquéritos e das sentenças aplicadas contra o cidadão comum. Os indícios são tão robustos que Gilmar não convencerá a opinião pública. A sociedade brasileira demonstra um cansaço profundo e exige investigações isentas e a punição severa de todos os envolvidos, principalmente neste momento de grave crise de credibilidade institucional.
Ele precisa entender que a blindagem não é mais tolerável e que
o país exige que a lei, enfim, valha para todos.
Vicente Lino.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
A redução de jornada, o fim da escala 6×1 e as perguntas
certas que não são feitas.
Gazeta do Povo
O governo Lula e o Congresso Nacional, não contentes em
correr o máximo possível com a PEC que reduz a jornada semanal de trabalho e
acaba com a escala 6x1, querem fazer o setor produtivo correr também. O plano é
aprovar o projeto rapidamente – a comissão especial na Câmara dos Deputados
aprovou o texto nesta quarta-feira, e na mesma noite o plenário aprovou a PEC
em dois turnos, remetendo-a ao Senado – e impor às empresas um prazo exíguo, de
apenas dois meses, para que a jornada semanal já seja reduzida em duas horas,
de 44 para 42, com mais um ano para completar a redução para 40 horas. O
formato foi acertado após acordo entre Lula e o presidente da Câmara, Hugo
Motta.
Pouco importa que o prazo seja ainda menor que o
originalmente previsto até mesmo nas propostas de parlamentares de esquerda, e
que uma alteração tão drástica seja extremamente difícil de executar em tão
pouco tempo sem causar uma disrupção severa nas cadeias de produção,
distribuição e comercialização. O objetivo é apenas um: fazer com que o eleitor
sinta na pele o benefício de trabalhar menos ganhando o mesmo salário, ainda
antes que vá às urnas em outubro, para que assim possa recompensar os muitos
pais da criança – a começar pelo principal deles, o presidente da República que
busca a reeleição.
Os defensores da PEC estão vendendo uma ilusão: a de que o
brasileiro será capaz de produzir mais riqueza trabalhando menos, nas mesmíssimas
condições que ajudam a emperrar a produtividade do trabalhador
Mas a pressa também serve a outra finalidade: impedir que o
brasileiro trabalhador, aquele que será diretamente afetado pelas mudanças,
comece a se fazer as perguntas certas. O apoio popular à PEC que reduz a
jornada e acaba com a escala 6x1 é enorme, e não poderia ser diferente: quando
alguém é questionado se gostaria de trabalhar um pouco menos, sem deixar de
receber menos por isso, quem haveria de dizer que não? É natural querer mais tempo
para a família, o descanso, o lazer, os hobbies. Mas e se os institutos de
pesquisa perguntassem se as pessoas querem mais oportunidades de crescer, de
prosperar economicamente, de dar uma vida melhor para si mesmos e para suas
famílias – inclusive para aproveitar melhor os momentos de folga –, a resposta
não seria ainda mais positiva?
E, com essa resposta em mãos, viria em seguida outra
pergunta: a imposição (eis o termo fundamental, pois não estamos falando do
resultado de negociações livres entre patrões e empregados, intermediada por
sindicatos) da escala 5x2 e a redução forçada do número semanal de horas
trabalhadas levará à prosperidade que o brasileiro trabalhador deseja para si e
para sua família? Os defensores da PEC estão vendendo uma ilusão: a de que o
brasileiro será capaz de produzir mais riqueza trabalhando menos, nas
mesmíssimas condições que ajudam a emperrar a produtividade do trabalhador –
que no Brasil é muito inferior à de países que também reduziram suas jornadas
de trabalho. E desejam que essa ilusão seja mantida ao menos pelo tempo
necessário para que triunfem eleitoralmente usando a redução da jornada como
trampolim.
Menos trabalho, multiplicado pela mesma produtividade,
resulta em menos produção e renda. Por outro lado, o custo do trabalho será
elevado, e só os adeptos da escola janjista de economia acreditam que essa
elevação não será repassada, ao menos parcialmente, aos preços finais. Por fim,
o risco de demissões de funcionários mais “caros”, substituídos por outros cujo
custo por hora seja menor, não é nada desprezível. O setor produtivo tem se
cansado de alertar os parlamentares e a sociedade, com estudos mostrando o
efeito da PEC sobre a inflação e o emprego, mas tem sido ignorado.
Como ninguém pergunta o que o brasileiro realmente prefere
(prosperar e ter uma vida melhor), e muito menos como concretizar esse desejo
(criando condições para elevar a produtividade), a população acaba enganada por
uma proposta simpática à primeira vista, mas que reduzirá oportunidades no
médio e longo prazo – se não o fizer já no curto prazo. Trabalhar melhor para
produzir mais e, então, pensar em trabalhar menos foi o caminho dos países
ricos; o Brasil, em vez disso, escolhe um atalho que não nos levará a lugar
nenhum.
Atualização: O editorial foi atualizado com a informação
sobre a aprovação da PEC em dois turnos no plenário da Câmara dos Deputados.
Advogados defendem urgência na aplicação da Lei da Dosimetria.
Vicente
Lino.
quarta-feira, 27 de maio de 2026
O debate interditado na oposição a Lula
Guilherme Fiuza
A sucessão presidencial no Brasil está especialmente embaralhada. Faz parte das corridas eleitorais o cenário indefinido e a consolidação das opções mais competitivas em cima da hora. Mas parece que a comunicação total das redes, cada vez mais veloz e reativa, criou um componente extra de ansiedade no debate público.
A expectativa sobre quem seria o substituto do ex-presidente
Jair Bolsonaro no pleito demarcou a fase preliminar da campanha. O eleitorado
de oposição ao petismo já se dividia conforme determinadas preferências. Uns
queriam um perfil de maior confrontação, na linha do temperamento do
ex-presidente; outros preferiam uma opção mais ponderada. O problema começou
aí.
Desde muito cedo, a campanha eleitoral de 2026 foi marcada
pela intolerância e pela propensão à patrulha. Na verdade, ainda em 2025, o
debate entre os simpatizantes da oposição já trazia a cobrança por escolhas
definitivas. E, se não fossem assim manifestadas, ou se o perfil escolhido não
fosse o “certo”, multiplicavam-se as acusações de “traidor” ou “xiita”.
O cenário atual de beligerância e elevada hostilidade entre
adeptos de Jair Bolsonaro já estava delineado desde o ano passado,
independentemente dos fatos mais recentes envolvendo a candidatura de seu filho
Flavio. Desde antes dessa definição, o campo de guerra estava demarcado: já não
se permitia uma boa convivência entre inclinações diferentes.
Era como se fosse uma disputa ferrenha entre “donos” de um
legado, todos checando obsessivamente à sua volta se a cartilha definitiva da
sucessão estava sendo cumprida à risca
(“Todos” é força de expressão, porque não há como
generalizar esse tipo de conduta. Mas é bastante característico dos tempos
atuais que grupos de vozes mais estridentes acabem direcionando o debate como
um todo.)
A definição do senador Flavio Bolsonaro como pré-candidato à
Presidência pegou muita gente de surpresa. Embora a escolha tenha partido de
seu pai, não era um nome que circulasse tanto nas cogitações, desde o período
em que não se sabia ao certo se o ex-presidente poderia concorrer. Muitos viram
nessa escolha uma boa estratégia: a manutenção do sobrenome Bolsonaro na
disputa por meio de um candidato com lealdade sanguínea ao ex-presidente.
Outros tantos consideraram uma escolha forçada, por não
verem na trajetória do senador expressão política comparável à do pai. Seria
uma situação normal da democracia, em que o próprio desenrolar da campanha
confirmaria ou não as várias premissas postas — e permitiria ao eleitorado de
oposição amadurecer sua escolha. Mas isso não foi possível.
A própria imprensa — ou melhor dizendo, a nova imprensa, que
surgiu como excelente contraponto aos desvios da imprensa tradicional —
contribuiu para o problema. Apesar dos bons serviços prestados, essa nova
imprensa vem confundindo um pouco seu público, que eventualmente vê nela uma
espécie de porta-voz da “direita”, seja lá o que isso signifique (conceitos
vagos comportam variadas acepções). Linha editorial é uma coisa; ativismo
ideológico é outra. E essa parte mais audível do público passou a cobrar adesão
jornalística a candidatos — o que é uma aberração em si.
Foi nessa escalada de intolerância e cobranças generalizadas
que se chegou ao cenário conflagrado de hoje. A própria cogitação da
candidatura presidencial de Tarcísio de Freitas, em certo ponto desse percurso,
expôs o terreno envenenado. Para muitos adeptos do governador de São Paulo como
presidenciável, era imperioso retirar a família Bolsonaro do protagonismo; para
outros tantos, o perfil “moderado” de Tarcísio era uma traição ao bolsonarismo.
E tome patrulha matando, na raiz, a troca de ideias.
O que se pode constatar, a menos de cinco meses da eleição,
é que o projeto de uma alternativa presidencial ao PT é uma montanha de
fragmentos e estilhaços. Não há sobriedade para se discutir nada consistente no
panorama sucessório. Para qualquer consideração das opções colocadas, há um
bombardeio apontado para a opinião que ousar colocar a cabeça de fora. Ou essa
beligerância reflui, ou a oposição vai ficar vendo a banda passar.
Guilherme Fiuza. Jornalista, escritor e roteirista.
Lula assina decretos contra a liberdade de expressão.
Como sempre, tais medidas são vistas como mais um esforço do
atual sistema político para controlar o fluxo de informações, mitigar críticas
e blindar os detentores do poder, esvaziando o papel do Congresso Nacional na
formulação de uma legislação própria para a internet.
O governo afirma que a intenção é combater discursos de ódio,
desinformação e ataques à democracia. No entanto, essas expressões não possuem
uma definição típica no Código Penal para fins de censura prévia ou moderação
de conteúdo. Como nada disso está previsto em lei, os limites da liberdade de
expressão deixam de ser definidos por normas votadas pelo Parlamento e passam a
depender de conceitos abertos e subjetivos, interpretados pelas mesmas
autoridades que detêm o poder político e judicial.
O nome disso é censura, e quem conhece o regime não precisa
de detalhes para imaginar o que vem pela frente. Com medo de punições ou de
investigações conduzidas sem o devido processo legal, os veículos de mídia,
influenciadores e cidadãos vão evitar críticas que, na maioria das vezes, são
merecidas. O debate, então, será empobrecido e a segurança jurídica,
fragilizada, enquanto a hegemonia de quem controla os mecanismos de Estado
sairá fortalecida — o que é péssimo para a democracia. Lula e seus seguidores
querem manter o poder a qualquer custo.












