terça-feira, 7 de abril de 2026

 Sentenças de prisão em plena Sexta-Feira da Paixão.

Vicente Lino




Em plena Sexta-Feira da Paixão, Alexandre de Moraes votou para condenar seis manifestantes do 8 de janeiro a 14 anos de prisão. Enquanto o ministro mantém o rigor no julgamento daqueles que, em sua visão, cometeram atos antidemocráticos, não dá um pio diante das graves denúncias que surgiram nos últimos meses. O silêncio do ministro e de seus colegas na Corte é o que mais alimenta o sentimento de indignação da sociedade. E não é pouca coisa: no caso do Twitter Files Brazil, as revelações indicam que a remoção de contas e a moderação de conteúdo ultrapassaram a barreira da legalidade, entrando no campo da censura prévia. Além disso, as denúncias envolvendo seu ex-chefe de assessoria, Eduardo Tagliaferro, levantaram dúvidas sobre a legitimidade dos relatórios que embasam inquéritos no STF, e o contrato de R$ 129 milhões — que envolveria familiares — ainda não foi devidamente explicado.

 Nem mesmo a citação de seu nome para possíveis sanções da Lei Magnitsky fez o ministro repensar suas ações. Apesar de deter o recorde histórico de mais de 60 pedidos de impeachment no Senado, Moraes mantém a prisão prolongada de Filipe Martins, mesmo diante de pareceres da PGR pela soltura, e sustenta o que críticos chamam de um esforço coordenado de perseguição implacável a Jair Bolsonaro.

 Moraes avança porque conta com um pacto de silêncio que impede a autocorreção da Corte e com a recusa do Senado em pautar os processos contra ele. Essa falta de respostas sinaliza uma crise profunda na democracia brasileira, onde o guardião da Constituição é acusado de ser, justamente, quem mais a desafia.


   Vicente Lino.



 

 

 

 

 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

 Flávio Bolsonaro no CPAC e o relatório americano sobre o regime luloalexandrino.

Flávio Gordon




O Brasil voltou a entrar no radar de Washington – e não pelas razões habituais de comércio, clima ou geopolítica regional. Desta vez, o foco recai sobre algo mais profundo: a crescente percepção, em círculos políticos e institucionais dos Estados Unidos, de que a juristocracia tupiniquim, hoje indissociável da corrupção institucionalizada, é uma ameaça não apenas para o Brasil como para o mundo.

Como mostra a matéria do jornalista John Lucas, relatórios recentes do Departamento de Estado americano, bem como iniciativas no Congresso dos EUA, apontam o Brasil como um caso preocupante de deterioração das liberdades civis, com ênfase especial na liberdade de expressão e no devido processo legal. O diagnóstico não é trivial. Segundo o próprio relatório oficial, a situação dos direitos humanos no país “piorou”, com decisões judiciais amplas e desproporcionais que teriam restringido o debate público e o acesso à informação, frequentemente em procedimentos sigilosos e carentes de garantias processuais.

Não se trata apenas de uma crítica genérica ao funcionamento das instituições brasileiras. O que emerge desses documentos é algo mais específico: a identificação de um padrão de atuação judicial que, sob o pretexto de defesa da democracia, termina por limitar precisamente os mecanismos que a tornam possível. O alvo são decisões emanadas do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), especialmente no contexto político inaugurado após as eleições de 2022. O nome é o de sempre: Alexandre de Moraes, o extremista político fantasiado de juiz, e hoje conhecido como “Careca do Master”.

Há o receio de que o modelo repressivo de 2022, que contou com o apoio do governo de Joe Biden, se repita nas próximas disputas eleitorais

Convém recordar o que foi aquele processo eleitoral. Sob a égide de uma retórica de combate à “desinformação”, assistiu-se a uma escalada de intervenções judiciais no debate público: remoção de conteúdo, suspensão de perfis, censura prévia e perseguição seletiva de atores políticos e comunicadores identificados com o campo conservador. O relatório americano menciona, inclusive, a repressão a discursos “desfavoráveis” ao governo sob categorias vagas como “discurso de ódio”.

A assimetria é o ponto crucial. Não se tratou de uma moderação neutra do espaço público (supondo que fosse esse o papel do Judiciário), mas de uma intervenção direcionada, que incidiu única e exclusivamente sobre apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro, enquanto narrativas favoráveis ao lulopetismo circulavam com ampla liberdade. O resultado foi um ambiente eleitoral profundamente desequilibrado, em que o árbitro abandonou a posição de neutralidade para assumir o papel de agente ativo do processo – um procedimento criminoso simbolizado pela confissão de Luís Roberto Barroso: “Derrotamos o bolsonarismo”.

É precisamente esse precedente que torna os atuais alertas tão relevantes. A preocupação, hoje, não é apenas retrospectiva, mas prospectiva: há o receio de que o modelo repressivo de 2022, que contou com o apoio do governo de Joe Biden, se repita nas próximas disputas eleitorais. A julgar pelo recente encontro secreto entre o Descondenado-em-chefe e o Careca do Master, a conspiração para novamente “tomar a eleição” já foi deflagrada.

A reação americana, nesse contexto, deve ser lida como sintoma de algo maior. Em 2025, a tensão entre Brasil e Estados Unidos chegou a um nível incomum, incluindo sanções e convocações diplomáticas, em parte justificadas por decisões do Judiciário brasileiro e pelo tratamento dispensado a opositores políticos. Não é todo dia que a maior democracia do mundo volta sua atenção para os tribunais de outro país com esse grau de preocupação.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a imagem internacional do Brasil, mas a própria natureza de seu regime político. Já não parece haver dúvidas, ao menos para o governo americano, de que o Brasil vive hoje sob estado de exceção, conduzido por uma junta de juristocratas parceiros do atual mandatário.

Nesse sentido, a advertência externa funciona como um espelho incômodo. O Brasil, que durante décadas se apresentou como uma democracia em consolidação, passa a ser visto como um laboratório de experimentos institucionais arriscados, nos quais o Judiciário acumula funções que, em regimes saudáveis, permaneceriam distribuídas entre diferentes poderes.

Já não parece haver dúvidas, ao menos para o governo americano, de que o Brasil vive hoje sob estado de exceção, conduzido por uma junta de juristocratas parceiros do atual mandatário

A questão decisiva é saber se haverá, internamente, capacidade de reconhecer e corrigir esse desvio. A experiência de 2022 mostrou que, uma vez estabelecido, o padrão de intervenção judicial tende a se normalizar – e até a se expandir – sob a justificativa de que “funcionou” para conter ameaças percebidas. A história política ensina que instrumentos de exceção raramente permanecem limitados aos seus propósitos originais. Uma vez incorporados ao repertório institucional, tornam-se disponíveis para usos cada vez mais amplos, multiplicando o número de alvos potenciais.

Os relatórios americanos somam-se à importante participação de Flávio Bolsonaro no CPAC. Ao levar ao palco internacional denúncias sobre censura, perseguição política e abusos de autoridade no Brasil – tendo o caso do seu próprio pai como paradigmático –, ele procurou construir uma narrativa inteligível para o público americano: a de que o Brasil estaria vivendo uma erosão gradual de suas liberdades fundamentais sob a cobertura de decisões judiciais. E mostrou ainda o quanto o regime sustentado sobre esse poder espúrio atenta contra os valores democráticos que idealmente unem Brasil e EUA e impede uma cooperação bilateral efetiva entre os dois países.

É claro que a denúncia deve inflamar ainda mais a fúria antibolsonarista de Moraes, Mendes, Dino e assemelhados, e reforçar o blablablá de “soberania” por parte da campanha luloalexandrina. Ela é irritante aos tiranos justo por tornar cada vez mais difícil de sustentar, no plano internacional, a ficção de normalidade institucional. Porque, no fim das contas, não são discursos em conferências nem relatórios estrangeiros que desgastam a imagem de um país, mas sim os fatos que lhes dão substância.



 Flávio Gordon é doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

 Sociedades Abertas e a Lógica dos Grupos de Pressão

Por Fernando Schüler






"A misoginia é uma bestialidade, assim como o ódio a qualquer grupo social, de raça, gênero, religião e tantos outros. De modo que não é este o ponto. As questões em jogo são mais complicadas e podem se resumir a duas perguntas: é correto abrir mão do universalismo de direitos, diferenciando juridicamente os cidadãos, ou seria melhor corrigir assimetrias injustas com boas políticas públicas? Nosso foco, como sociedade, deveria ser o combate a delitos claros e bem identificados a direitos humanos? Ou vale avançar na regulação da cultura? Da linguagem, da crítica, da ideologia, do humor e tudo que compõe o discurso público?

Vamos imaginar que se decidisse criminalizar o “ódio e aversão aos mais velhos”. Alguém seria contra? O que deveria valer, exatamente, nesse conjunto de palavras? Se trocássemos uma parte da frase para “ódio a pessoas com deficiências”? Valeria classificar como crime inafiançável e imprescritível? Qual “identidade” seria mais merecedora de respeito? E se mudássemos uma vez mais para “ódio a crianças e adolescentes”? O infanticídio é um drama silencioso, no Brasil, e o fato é que daria para ir longe aqui.

O problema de se romper com o princípio elementar da igualdade de todos, diante da lei, é sempre o mesmo: joga-se o universo dos direitos humanos, ou das garantias individuais, no plano da competição política. Muita gente pode imaginar que exista uma secreta sabedoria, neste mecanismo, mas quem sabe seja o inverso: a sabedoria moderna se encontra precisamente nos limites que estipulamos, como civilização, ao conflito político.

Do contrário, o que nos resta é um tipo de ladeira escorregadia. Vamos criando uma hierarquia de direitos e de “respeito” à base da capacidade de influência que cada grupo dispõe na sociedade e na arena política. O Brasil de hoje é um ótimo laboratório sobre como estas coisas funcionam.

E aqui voltamos ao ponto. Toda sociedade abriga grupos mais e menos vulneráveis. E é precisamente para isso que existem as políticas públicas. Regras de acessibilidade, acesso à educação, saúde pública e políticas de transferência de renda são instrumentos legítimos de correção. O problema começa quando se abandona esse terreno e se passa a diferenciar direitos e garantias individuais.

Nesta fronteira, não se trata mais de política pública, mas da ruptura com o princípio da igualdade de todos perante a lei (que além de tudo é, ou um dia foi, a pedra angular de nossa Constituição). Foi essa inflexão que Fukuyama identificou ao descrever a passagem, muitas vezes silenciosa, da isothimia para a heterothimia, numa referência à noção grega do timós, ou dignidade humana, numa interpretação mais aberta. De novo, há muita gente que se empolga, com este princípio de diferenciação. Há muito barulho em toda parte. E há também um silêncio ressentido, difuso, no qual eventualmente deveríamos prestar atenção.

A complicação prossegue quando se confunde a garantia de direitos essenciais com o controle da cultura. Ainda recentemente, houve uma avalanche de críticas à condenação de um humorista a 8 anos de cadeia, por piadas preconceituosas. A punição foi reformada pela Justiça, mas a ferida continua aberta.

Quando o Congresso aprova uma lei criminalizando opiniões, com base em tipos muito abertos, sujeitos a infinitas interpretações, dá espaço, na prática, ao abuso de poder. Exatamente o espaço jurídico que levou à punição do comediante. E com um agravante: o tratamento seletivo. A ideia de que certos grupos não podem ser satirizados e outro sim. Que alguns podem ser ofendidos e outros não. E que tudo isso será eternamente pauta de uma disputa, ao sabor de quem detém o poder de julgar, fazer e interpretar as leis, a cada momento.

É possível que muita gente esteja mesmo disposta a viver em um país no qual cada frase, nas redes, nos palcos, nas conversas de bar, seja filtrada e potencialmente punida, caso alguém a considere ofensiva a este ou àquele grupo. Teríamos, então, um país devidamente “higienizado”. (...)

Quando Madison concebeu o Bill of Rights americano, no fim do século XVIII, o tema era este, em última instância: proteger o mundo dos direitos individuais do universo volátil da guerra política. Impedir que liberdades fundamentais, entre elas a liberdade de expressão, fossem capturadas por maiorias ou minorias barulhentas, facções organizadas. Ou simplesmente pelas opiniões daqueles que, a cada momento, ocupam o poder, seja na esfera política, seja no Judiciário.

Uma boa sociedade liberal é feita da sabedoria de corrigir injustiças pela via da ação voluntária dos cidadãos e das boas políticas públicas. Ao mesmo tempo em que preserva a igualdade de todos diante da lei. E é também uma sociedade aberta, cujo universo cultural e da retórica pública permanece como um espaço diverso, livre do controle por parte deste ou daquele grupo ou visão de mundo. Ensaiamos algo nesta direção na Constituição de 1988. Mas durou pouco. Talvez não seja mesmo nossa tradição, tampouco nosso destino."

Fernando Schuller.



quinta-feira, 2 de abril de 2026

 Após apoiar a tirania, Lula oferece   presentes.





Recentemente, o governo anunciou o envio de 21.000 toneladas de alimentos para a ilha. Nada contra a solidariedade ao povo oprimido, que vive hoje a sua pior crise desde 1959. Em Cuba, a falta de energia paralisa centros cirúrgicos e a refrigeração de remédios, aumentando a mortalidade. Famílias fazem apenas uma refeição por dia. O mundo inteiro precisa ajudar o sofrido povo cubano.

 Entretanto, vale ressaltar que esse é o destino inevitável em regiões onde acaba a democracia e se instala a tirania. Lula não consegue reparar o mal que fez ao povo cubano ao se irmanar historicamente ao regime autoritário que se instalou naquele país.

 Esse apoio político e financeiro é o que alimenta os monstros que devoram as democracias e conduzem seus povos à tortura, à repressão e à morte. Financiar e legitimar esses regimes não é diplomacia, é patrocínio da opressão. Que possamos fortalecer nossas instituições e rezar por uma mudança de rumo, para que o Brasil pare de se alinhar a ditadores e deixe de ser cúmplice do sofrimento e da miséria alheia. O Brasil merece respeito, e o dinheiro do trabalhador não pode ser combustível para a tirania. 

Foi a falta de liberdade, a ausência de leis e o sufocamento da democracia que rebaixaram o povo cubano à fome e à miséria absoluta. O governo Lula carrega a culpa histórica de ter alimentado esse monstro com o nosso dinheiro, e agora, 21.000 toneladas de alimentos não vão apagar décadas de apoio abjeto a tiranos.

 Financiar a opressão não é solidariedade, é cumplicidade com a barbárie.

    Vicente Lino.



 

 


quarta-feira, 1 de abril de 2026

 Juína: Referência em Excelência   Educacional



Os resultados educacionais do município de Juína, no Mato Grosso, confirmam que o Secretário de Educação, Ericson Leandro de Oliveira, e sua equipe continuam colecionando prêmios. Naquele município, diversas unidades escolares têm recebido reconhecimentos significativos, especialmente no que diz respeito à alfabetização e à gestão pedagógica.

 Vale enumerar:

 Prêmio Alfabetiza MT (Edições 2024, 2025 e 2026): O secretário tem liderado a comitiva de Juína em várias edições deste prêmio estadual, que reconhece os municípios que garantem a alfabetização de crianças até o 2º ano do Ensino Fundamental.

 Selo Bronze de Educação (2026): A rede municipal conquistou o Selo Bronze, um reconhecimento estadual pelo desempenho dos estudantes dos 5º anos do Ensino Fundamental, evidenciando que a qualidade iniciada na alfabetização se mantém nas etapas seguintes.

 Reconhecimento Nacional (MEC - 2025): Juína está entre as apenas 35 cidades do Brasil — e é a única de Mato Grosso — a receber uma premiação do Ministério da Educação pela qualidade do ensino em tempo integral.

 Vale ressaltar que as escolas de Juína têm figurado consistentemente entre as 100 melhores do estado. Entre as unidades de maior destaque, citam-se:

 Escola Municipal Paulo Freire: Destaque estadual e federal, premiada sucessivamente em 2025 e 2026 pelos altos índices de alfabetização.

 Escola Rural Municipal Euclides da Cunha: Reconhecida em 2026 como uma das 100 melhores de Mato Grosso, provando que a excelência atinge também a zona rural.

 Escola Estadual 7 de Setembro: Premiada pelos resultados de evolução e qualidade no programa estadual de alfabetização.

 Os números convidam à celebração: segundo dados da prefeitura, o município saltou de um índice de apenas 2% de alunos do 2º ano alfabetizados no início da gestão para cerca de 60% em 2025/2026. 

Em entrevista, o Secretário Ericson Leandro atribuiu o sucesso à colaboração do Prefeito Paulo Veronezzi, dos gestores, professores e à participação ativa das famílias.

 Um Exemplo para o Brasil

Em um país que, infelizmente, costuma amargar as últimas posições nos rankings globais de qualidade de ensino, a trajetória de Juína é um ponto fora da curva que merece ser reverenciado. O trabalho incansável do Secretário Ericson Leandro de Oliveira e de toda a sua equipe técnica e pedagógica é a prova de que a mediocridade educacional não é um destino, mas uma escolha que Juína decidiu não fazer.

 Enquanto o Brasil luta contra estatísticas desanimadoras, este grupo de profissionais demonstra competência rara e um compromisso inegociável com o futuro das crianças. Juína não apenas entrega números; entrega dignidade e esperança. É uma gestão que merece todos os prêmios que recebeu e muitos outros, servindo de farol para uma nação que precisa, urgentemente, aprender com quem sabe fazer a educação acontecer de verdade.

Vicente Lino.



 O mal já não precisa de monstros.

 Washington Araujo.

 



  

Em 1961, quando Adolf Eichmann foi levado a julgamento em Jerusalém, o mundo esperava encontrar o rosto do horror absoluto. Hannah Arendt, que havia escapado da Europa nazista com a lucidez ferida de quem conheceu o abismo, também chegou ali à procura de um monstro.

Encontrou, no entanto, algo mais inquietante e perturbador: um homem comum, preso a frases feitas, incapaz de pensar para além do manual que organizava sua vida. Não havia fúria nos gestos, nem grandeza trágica. Havia vazio — e o vazio, quando opera em escala industrial, torna-se devastador.

Responsável pela logística que enviou milhões de judeus aos campos de extermínio, Eichmann coordenava deportações em escala industrial. No tribunal, pesava sobre ele a acusação mais grave: crimes contra a humanidade, cometidos sem remorso, sob a máscara da eficiência.

Arendt não era apenas uma filósofa. Era uma consciência em exílio permanente.

Carregava na escrita a marca de quem viu o século se partir em dois e recusou qualquer anestesia moral. Amava a língua alemã mesmo depois de ter sido expulsa por ela. Pensava com rigor cirúrgico, mas escrevia com uma clareza que expunha o leitor a si mesmo. Sua obra não buscava complacência nem neutralidade; buscava desmontar as ilusões que tornam o mal possível. E essa desmontagem continua sendo desconfortável.

Nascida na Alemanha, formada na tradição filosófica europeia, Arendt atravessou o século como quem recusa a cegueira confortável. Judia, exilada, pensadora da política e da condição humana, escreveu não para explicar o mundo, mas para impedir sua normalização.

Sua obra é um alerta permanente contra a desistência de pensar.

O que ela nomeou como “banalidade do mal” não foi uma tentativa de suavizar crimes, mas de revelar seu mecanismo mais frio: o mal pode não nascer do ódio, mas da ausência deliberada de pensamento. Eichmann não era um demônio em fúria. Era um funcionário eficiente, disciplinado, previsível. E é precisamente isso que torna sua figura intolerável.

O mal, ali, não gritava, não hesitava, não refletia. Protocolava, organizava, executava.

Em março de 2026, essa leitura deixou de ser apenas histórica — tornou-se um diagnóstico do presente. A banalidade do mal reaparece nas guerras contemporâneas com uma precisão que Arendt antecipou sem conhecer os meios técnicos de hoje.

Bombas que atingem escolas em horário de aula, com centenas de crianças dentro, não são erros sem sujeito: são decisões inscritas em cadeias de comando que transformam vidas em variáveis operacionais.

Mísseis de alto poder destrutivo que atingem hospitais, onde corpos já fragilizados tentam sobreviver, não são acidentes retóricos: são ações que atravessam relatórios, mapas, telas e autorizações.

O que se vê não é o excesso de ódio, mas a normalização da destruição. O mal não precisa mais justificar-se; basta funcionar.

A banalidade do mal, hoje, opera em três níveis que se reforçam mutuamente. No primeiro, o administrativo, a linguagem técnica encobre a violência real. Fala-se em “danos colaterais”, “alvos estratégicos”, “neutralização de ameaças”, enquanto vidas concretas desaparecem sob categorias abstratas. Nesse plano, ninguém se reconhece como responsável porque todos cumprem uma função.

No segundo nível, o social, a repetição sistemática de versões contraditórias dissolve a verdade como referência comum. Não se trata mais de convencer, mas de saturar. Arendt já havia advertido: quando a verdade se fragiliza, o resultado não é apenas confusão — é desistência. Em 2026, a desistência tornou-se uma forma de adaptação. As pessoas não acreditam plenamente, mas também não resistem. E essa suspensão do julgamento é terreno fértil para qualquer abuso.

No terceiro nível, o mais inquietante, está o desgaste íntimo da consciência. Não é o medo explícito que paralisa, mas a fadiga moral. Pensar exige energia, exige confronto, exige solidão. E, em sociedades aceleradas, a renúncia ao pensamento aparece como alívio imediato. O indivíduo não abdica de sua consciência por coerção direta, mas por conveniência, pertencimento ou cansaço. É nesse ponto que a banalidade do mal se torna invisível — e, por isso, mais perigosa.

Arendt compreendeu algo que seguimos evitando encarar: democracias não colapsam apenas por rupturas abruptas, mas por desgaste contínuo. O processo começa quando a linguagem perde precisão, quando a responsabilidade se fragmenta e quando a obediência se torna mais fácil do que o questionamento.

O perigo não reside apenas nos que ordenam, mas nos que executam sem pensar — e nos que assistem sem reagir.

Se Eichmann permanece como símbolo, não é por sua singularidade, mas por sua banalidade rigorosa.

Ele não era uma exceção histórica, mas um modelo possível.

E há um detalhe que atravessa essa história com ironia quase cruel: Eichmann nasceu em 1906 e morreu em 1962; Arendt também nasceu em 1906 e morreu em 1975. O mesmo ano de origem, destinos opostos. Como se o século tivesse produzido, ao mesmo tempo, a engrenagem obediente e a consciência que a denunciou.

Em um mundo mediado por tecnologias que ampliam a distância entre ação e consequência, a banalidade do mal não desapareceu — ela se tornou mais eficiente, mais rápida, mais silenciosa.

A pergunta que Arendt nos impõe, com uma urgência que já não pode ser adiada, não é quem são os culpados evidentes, mas quem ainda sustenta a coragem de pensar quando tudo convida à desistência. Porque é nesse gesto — discreto, exigente, solitário — que começa qualquer forma real de resistência.

Washington Araujo.

              




 O TAPA NA CARA DO APOSENTADO




CPMI do INSS foi encerrada sem relatório final. O parecer do deputado Alfredo Gaspar foi rejeitado com um placar de 19 a 12. Não deu em nada. Será arquivada. Após sete meses de trabalho terminou de forma lamentável, amarga e paga com o suor de quem trabalhou a vida inteira.

 Não foi o encerramento de uma comissão; foi o velório da decência comemorado apenas por gente rasteira e indigna do voto do eleitor. O trabalho agora encerrado pela banda podre do Congresso revela 40 bilhões de reais desviados e 4 milhões de aposentados roubados. O Brasil que presta assistiu estarrecido a um esforço coordenado, uma barreira de proteção para que a investigação não avançasse.

 A base governista agiu como um escudo humano não se importando com o idoso que teve sua aposentadoria roubada. Bloquearam investigações, blindaram grupos do poder, impediram quebras de sigilo e vetaram importantes depoimentos. O Brasil decente sabe que se houve bloqueio sistemático, é porque a trilha do dinheiro sujo levava diretamente ao topo do poder. O STF enterrou a prorrogação da CPMI antes que a verdade aparecesse. 

 A aliança entre o Palácio e a Corte evidencia o pavor de que as investigações chegassem ao 'Master', ao núcleo onde as decisões são tomadas para desaparecer com o dinheiro dos aposentados nos ralos da corrupção. O encerramento da CPMI desta forma é a prova de que a maioria ali operava só para abafar o escândalo. 

40 BILHÕES reais roubados abafados por uma repugnante manobra que nunca será esquecida.

  Vicente Lino.