A perseguição ao homeschooling atinge mais uma família.
Gazeta do Povo.
Uma família de Blumenau (SC) é a mais nova vítima da perseguição de setores do Ministério Público e da Justiça aos pais adeptos do ensino domiciliar, ou homeschooling, como modalidade de educação para seus filhos. O casal Diego e Patrícia Vieira, que educa os filhos em casa há 13 anos, foi condenado a pagar cerca de R$ 65 mil em multa, e obrigado a matricular as crianças e adolescentes na rede regular de ensino. Ainda que a punição não seja tão escandalosa quanto a de uma família de Jales (SP), condenada por abandono intelectual apesar de o MP ter pedido a absolvição, ou o episódio do casal de Araucária (PR) cuja multa chegou a R$ 1,4 milhão, ela mostra um padrão preocupante em que a omissão do Congresso Nacional permite a agentes públicos militantes ou hiperlegalistas sobrepor as próprias convicções ao bem-estar das crianças por quem deveriam zelar.
O casal blumenauense conta com seis professores para cumprir
o currículo escolar; seus filhos aprendem música e idiomas, e acumulam centenas
de medalhas em competições de xadrez. O mais velho, Igor, 19 anos, faz duas
graduações simultâneas, em História e Letras. A adolescente Kyara, 16 anos,
ensina latim e inglês aos irmãos mais novos e coordena um clube de leitura para
meninas. A família ainda apresentou à Justiça laudos de psicólogos que
avaliaram positivamente o ambiente familiar e o desenvolvimento das crianças.
Ninguém exageraria ao afirmar que são raríssimas as escolas públicas, e mesmo
particulares, que conseguiriam oferecer o mesmo que os Vieira – e não só eles,
mas várias outras famílias que também já foram alvo do MP e da Justiça –
proporcionaram aos filhos. E só isso já bastaria para afastar qualquer
possibilidade de caracterizar seus atos como sendo prejudiciais às crianças.
São raríssimas as escolas públicas, e mesmo particulares,
que conseguiriam oferecer o mesmo que os Vieira – e não só eles, mas várias
outras famílias que também já foram alvo do MP e da Justiça – proporcionaram
aos filhos
Por que, no entanto, continua a haver processos, condenações
e multas? Porque o STF, ao decidir que o homeschooling não é inconstitucional,
definiu também que sua regulamentação dependeria do Legislativo federal. Esse
julgamento ocorreu em 2018, e desde então nenhuma lei foi aprovada; por isso,
Legislativos estaduais, mais ágeis e mais sensíveis ao problema das famílias
educadoras, foram aprovando leis válidas em seus estados. As normas, no
entanto, foram todas derrubadas sob o argumento de que os estados não tinham
competência para legislar sobre o assunto.
Em alguns casos, há um hiperlegalismo que olha apenas o
trecho da lei que obriga a matrícula na rede regular, desconsiderando a decisão
de “não inconstitucionalidade” do ensino domiciliar e, ainda mais grave,
fechando os olhos às circunstâncias concretas de crianças e adolescentes
intelectualmente e socialmente sadios. No entanto, é mais comum (e muito mais
frequente) que as famílias educadoras encontrem pela frente promotores e juízes
ideologizados, contrários ao homeschooling por convicção e que, aproveitando o
limbo jurídico causado pela ausência de regulamentação, denunciam e condenam as
famílias.
São esses agentes os responsáveis por aberrações como a
responsabilização penal de famílias adeptas do ensino domiciliar: a família de
Jales, recorde-se, recebeu pena de 50 dias de prisão em regime semiaberto,
ainda que com possibilidade de suspensão, e na decisão o magistrado responsável
se achou no direito de dar sua opinião sobre o gosto musical das duas meninas
educadas em casa. Mesmo a responsabilização civil, nestes casos, nos parece
grotesca quando se leva em conta que se trata de assunto no qual há
multiplicidade de opiniões lícitas (tornando abusiva a pretensão de
procuradores e juízes de fazer prevalecer a própria visão) e abundância de
evidências atestando o zelo das famílias pela educação dos filhos e os bons
resultados obtidos por eles.
Essa perseguição torna ainda mais grave a inação do Senado,
que recebeu em 2022 um projeto de lei regulamentando o homeschooling, já
aprovado na Câmara. O parecer favorável da relatora, senadora Professora
Dorinha Seabra, está pronto para votação na Comissão de Educação desde outubro
do ano passado. Cada dia que passa sem que esse projeto caminhe é um dia em que
o Senado contribui para que famílias indubitavelmente empenhadas em dar o
melhor aos filhos sejam caçadas como se desejassem para eles uma vida de
ignorância.













