domingo, 16 de agosto de 2026

  LULA HOMENAGEIA FIDEL CASTRO E A     DITADURA EM CUBA.


 Por ocasião da comemoração cem anos de nascimento de Fidel Castro, completados quinta-feira passada, o presidente Lula agradeceu ao ex-ditador por sua trajetória política. Ele afirmou: “Se hoje estou pela terceira vez à frente da presidência do Brasil, é graças ao estímulo e à sabedoria de Fidel Castro” Disse mais: “No centenário de seu nascimento, envio ao povo de Cuba a mesma mensagem de força e esperança: que a fraternidade e a justiça persistam em meio às adversidades”. 

Não sabemos de que estímulo e sabedoria Lula está falando. O que sabemos é que a história registra entre 15.000 a 17.000 mortes ao longo da ditadura de Fidel Castro que Lula agora homenageia. Sabemos também que, conforme Anistia Internacional, o isolamento prolongado nas prisões, a tortura psicológica e falta de socorro médico custaram ao menos 1.500 vidas. Sem contar milhares de mortos que tentavam a travessia pelo oceano para fugir da repressão.



 Nos dias de hoje, o discurso de Lula finge ignorar que o povo cubano carrega um enorme peso do passado repressivo e sobrevive em um presente onde a subsistência básica tornou-se uma luta diária. O regime que Lula está homenageando e falando de esperança, fraternidade e justiça apresenta apagões diários que superam 15 horas, a economia está paralisada, a inflação descontrolada e há escassez crônica de alimentos e medicamentos. Sabemos todos e Lula deveria saber que a crise atual não é um acidente, mas o resultado inevitável de um modelo autoritário centralizado que exauriu seu próprio país.

 Oremos para que não seja este o modelo com o qual Lula e seus seguidores estejam sonhando para o Brasil. Que Deus nos proteja.

   Vicente Lino.



 

 

 

 

 

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sábado, 15 de agosto de 2026

 O Brasil é a nova Cuba – só que maior.

Flavio Gordon.






 “Depois de anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão valer a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, e para proteger nossa pátria e nosso acesso a geografias-chave em toda a região.” (National Security Strategy of the United States of America, Casa Branca, dezembro de 2025)

 

Corria o ano 1960 quando Nikita Kruschev, em Nova York, abraçou um barbudo de trinta e poucos anos recém-chegado ao poder em Havana, e o fez com o entusiasmo desajeitado do vetusto burocrata que parecia reencontrar a própria juventude revolucionária. Fidel Castro não era, àquela altura, o idealista marxista-leninista convicto que a hagiografia posterior fabricaria; era um nacionalista de origem latifundiária que descobriu, na aliança com Moscou, o instrumento perfeito para consolidar poder pessoal e projetar-se para além da ilha. Foi a Cuba de Castro, e não a vontade soviética, que tomou a iniciativa de bater à porta do Kremlin. Mas, uma vez aberta essa porta, o serviço de inteligência soviético não perdeu tempo: reconheceu na ilha caribenha, muito antes do Ministério das Relações Exteriores ou do próprio Partido, aquilo que os documentos internos já chamavam, sem eufemismo, de “cabeça-de-ponte” – a plataforma a partir da qual se exportaria a subversão comunista para o resto da América Latina, da Nicarágua sandinista aos focos guerrilheiros da Venezuela, do Peru e da Guatemala. A China não manda instrutores para treinar guerrilhas, como faziam os soviéticos; ela manda engenheiros da Huawei, linhas de crédito estatal, portos, ferrovias e data centers Não é acidente que essa história volte à memória exatamente quando o Brasil se prepara para uma eleição presidencial que, gostemos ou não, está mergulhada até o pescoço naquilo que venho chamado de “Guerra Fria 2.0”. A tentação de tratar 2026 como um pleito essencialmente doméstico, envolvendo lulopetismo contra bolsonarismo, é a mesma miopia que, ao longo do século 20, levou tantas elites latino-americanas a subestimar o que estava em jogo quando um vizinho se tornava peça importante de um tabuleiro maior. A diferença, hoje, é que a peça central desse tabuleiro na América do Sul não é mais uma ilha de 11 milhões de habitantes viciada em açúcar subsidiado soviético. É a maior economia da América Latina, e fornece exatamente aquilo de que o programa tecnológico chinês precisa: terras raras, minério de ferro, soja e energia – os insumos brutos sem os quais nenhum data center, nenhuma bateria e nenhum chip chinês sai do papel.

Nessa nova Guerra Fria, a China não repete o erro soviético. Analistas que estudaram a ascensão chinesa nos últimos 35 anos costumam notar que Pequim tirou da implosão da URSS uma lição oposta à que tirou o Ocidente – não a de que o comunismo havia morrido, mas a de que poder militar sem lastro econômico é ilusão. Por isso a China não manda hoje instrutores para treinar guerrilhas em selvas centro-americanas, como fazia o Departamento Internacional do PCUS através da DGI cubana nos anos 1960. Ela manda, em vez disso, engenheiros da Huawei, linhas de crédito estatal, portos, ferrovias e data centers. O método mudou, mas o objetivo estratégico – converter um país-chave em plataforma de influência que module o comportamento de toda uma região – permanece surpreendentemente parecido.

E o Brasil ocupa hoje essa função de plataforma. A Huawei já controla quase metade da infraestrutura de quinta geração do país, segundo levantamentos recentes de inteligência geopolítica; Tencent e ByteDance negociam entrada facilitada por regimes tributários favoráveis; e nosso país desponta como o maior mercado potencial de capacidade de data centers de inteligência artificial de todo o Hemisfério Ocidental fora dos Estados Unidos, um mercado da ordem de centenas de bilhões de dólares em investimento futuro, e cuja bacia energética já desperta o interesse chinês por terra e eletricidade “empoderada”. Trata-se de uma disputa que passou longe do radar de boa parte do debate eleitoral brasileiro, mas que analistas americanos de segurança nacional já leem como o verdadeiro campo de batalha desta nova guerra fria: não tanques e mísseis, mas cabos de fibra, terras raras e padrões técnicos que, uma vez fixados, amarram um país por décadas.

Não é exagero, portanto, comparar o papel que Cuba desempenhou para a URSS ao papel que o Brasil ocupa hoje para a China – com a ressalva crucial de que a escala é incomparavelmente maior, e por isso mesmo mais perigosa. Cuba era um posto avançado ideológico, valioso sobretudo como símbolo e como base logística para pequenos grupos guerrilheiros. O Brasil é algo bem mais substancial: um polo econômico cuja captura redesenha o equilíbrio de poder em toda a América do Sul, precisamente porque oferece a Pequim aquilo que nenhuma Cuba jamais poderia – escala de mercado, matéria-prima estratégica e um lugar à mesa dos Brics que confere legitimidade multilateral ao projeto chinês de erosão da ordem mundial liderada pelos Estados Unidos.

Washington, é claro, percebeu o movimento – e reage com uma doutrina que resgata, sem pudor, a linguagem do século 19. A nova Estratégia de Defesa Nacional americana, divulgada em janeiro deste ano, fala abertamente em restaurar a Doutrina Monroe sob uma versão atualizada, batizada de “Corolário Trump”: os Estados Unidos, diz o documento, não permitirão que competidores de fora do hemisfério (e o leitor atento já sabe a quem os americanos se referem) posicionem forças ou controlem ativos estrategicamente vitais nas Américas. É a mesma lógica, atualizada, que levou Theodore Roosevelt a proclamar o direito de polícia internacional sobre o Caribe há mais de 100 anos. Resta que os adversários de agora já não são encouraçados europeus, mas sim cartéis armados como organizações terroristas e potências extra-hemisféricas operando por meio de portos, redes 5G e infraestrutura de nuvem. Especialistas em segurança hemisférica já descrevem essa nova doutrina como “Monroe 2.0”: menos diplomacia pública, mais coerção econômica e disposição declarada para o uso da força, esta última demonstrada nas operações contra o regime de Maduro na Venezuela, citadas com orgulho pelo próprio documento do Pentágono, agora rebatizado como Departamento de Guerra. Não é exagero comparar o papel que Cuba desempenhou para a URSS ao papel que o Brasil ocupa hoje para a China – com a ressalva crucial de que a escala é incomparavelmente maior

O apelo americano por aquilo que especialistas têm chamado de uma “Doutrina Monroe para a inteligência artificial” – ou seja, a exigência de que a infraestrutura digital do hemisfério rode sobre padrões e nuvens americanas, não chinesas – é apenas a versão mais recente dessa mesma pulsão estratégica. E ela mira o Brasil com uma precisão que nenhum outro país da região desperta, porque nenhum outro oferece prêmio comparável.

Para além das questões domésticas, é nesse contexto que o eleitor brasileiro deveria situar a escolha de outubro. Uma sociedade civil que se faz de neutra numa guerra fria que já elegeu seu território como peça central de disputa, e cujo governo já escolheu abertamente o lado antiamericano do conflito, não está sendo prudente: está sendo ingênua, exatamente como foram ingênuas as elites latino-americanas dos anos 1960 que viam em Cuba apenas um caso de política interna caribenha, e não o prenúncio de décadas de subversão continental.

No fim das contas, a pergunta que o eleitorado nacional deve se fazer é bem simples: de que lado desta fronteira o Brasil pretende ficar – o da colônia amestrada pelo capital e pela tecnologia de Pequim, ou o de um parceiro hemisférico que negocia, com olhos abertos, sua própria soberania digital e energética junto a Washington? Não escolher também é uma escolha. E a história, sempre generosa com quem se recusa a aprender com ela, já cansou de mostrar as suas consequências.

Flavio Gordon



quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 Lulinha finalmente foi alcançado.




O ministro André Mendonça é o relator do primeiro inquérito sobre o Lulinha, e a PF deveria enviar todos os outros inquéritos ao ministro. Entretanto, o terceiro inquérito — sobre as fraudes no INSS, indicando ligações de Lulinha com o "Careca do INSS" — foi direcionado pela PF ao STF para que um novo relator fosse sorteado.

Não é novidade, mas a defesa de Lulinha foi bater à porta de autoridades do Executivo e do próprio STF, afirmando estar preocupada com o uso político-eleitoral das investigações às vésperas da eleição. A ação da PF causou estranhamento dentro do próprio STF, que viu uma tentativa de retirar casos que envolvem Lulinha das mãos de Mendonça.

 Agora, enquanto o ministro se queixa da demora nas investigações, a PF alega falta de pessoal e pouco tempo para a varredura dos dados. A atuação da Polícia Federal nas investigações sobre Lulinha expõe uma grave fragilidade institucional e gera contestações legítimas sobre a observância do devido processo legal. 

O filho do Presidente da República tem que ser investigado igual a todo mundo. O envio de petições à Presidência do STF para a realização de novos sorteios de relatoria contorna a prevenção do ministro André Mendonça e atenta contra a previsibilidade jurídica. A PF sabe que, no ordenamento brasileiro, as regras existem justamente para impedir a escolha de relatores. A insistência em múltiplos inquéritos, na tentativa de obter uma distribuição distinta, prejudica a transparência das investigações.

 Quando a autoridade policial tenta burlar a prevenção e o STF concorda com novos sorteios, o resultado é a erosão da confiança pública em ambas as instituições, com manobras de bastidor que deterioram a credibilidade do sistema de justiça.

Vicente Lino.



terça-feira, 11 de agosto de 2026

 O Supremo ultrapassa a fronteira entre os Poderes.



Na abertura do segundo semestre judiciário de 2026, o ministro Edson Fachin defendeu a convivência harmoniosa com as críticas e prometeu celeridade e diálogo com os outros Poderes. É muito difícil concordar com o ministro.

Como se sabe, o Inquérito das Fake News, sob o argumento de combater ataques à democracia e à honra dos magistrados, resultou no bloqueio de perfis em redes sociais, busca e apreensão contra empresários e analistas, e na prisão do ex-deputado federal Daniel Silveira por ter criticado os ministros. Nesta toada, o STF acumulou os papéis de vítima, investigador e julgador, ultrapassando os limites da serenidade.

O aperfeiçoamento institucional encontrou forte barreira dentro da própria Corte. A intenção de aumentar a transparência e restabelecer a confiança pública com a criação do Código de Ética não deu em nada, e a proposta foi sepultada. O ministro também falou em celeridade processual, mesmo sabendo que decisões travadas por pedidos de vista individuais sem prazo limite chegavam a paralisar processos por mais de uma década, e que o tempo médio de tramitação ainda supera três anos.

Ao falar em diálogo institucional, esquece-se de que a frequente judicialização da política fez com que o STF interferisse diretamente em pautas deliberadas pelo Congresso, desde a invalidação da tese do Marco Temporal para terras indígenas até debates sobre a descriminalização do porte de drogas. O que se viu foi ativismo judicial e invasão da prerrogativa legislativa.

O discurso do ministro falando em conciliação e aperfeiçoamento institucional precisa contornar um histórico marcado por inquéritos de exceção, recusa de marcos éticos internos e frequentes ultrapassagens da fronteira entre os Poderes. Edson Fachin sabe disso.

 Vicente Lino



segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Suspensão de Gabriela Hardt no CNJ é continuação da “vingança dos corruptos”


Gazeta do Povo



Quando a tentativa canhestra de reescrever a história da Lava Jato – capitaneada pelo presidente Lula e pelos ministros do STF Gilmar Mendes e Dias Toffoli – se encontra com a inversão de valores que vitimiza os corruptos e transforma em bandidos os que deram tudo de si no combate à corrupção, o resultado é o que acabamos de ver no Conselho Nacional de Justiça. A juíza Gabriela Hardt, que assumiu a condução da Lava Jato após a saída de Sergio Moro e condenou Lula no caso do sítio de Atibaia, foi suspensa de suas funções por dois anos. Sua “irregularidade”? Homologar um acordo para a constituição de uma fundação dedicada a ações educativas de combate à corrupção.

Em setembro de 2018, a Petrobras pagou US$ 853 milhões em um acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos para evitar processos na Justiça norte-americana, devido à corrupção desenfreada instalada pelo petismo na estatal. Em uma medida incomum, atestado da confiança dos norte-americanos no bom trabalho da Lava Jato, eles concordaram em repatriar 80% desse valor, ou R$ 2,6 bilhões pelo câmbio da época. Metade desse dinheiro serviria para ressarcir acionistas minoritários e a outra metade iria para a nova fundação, que seria constituída pelo MPF, mas teria um Comitê de Curadoria Social (CCS) formado não pelos procuradores, mas por cinco pessoas “com reputação ilibada e trajetória reconhecida em organizações da sociedade civil” – no máximo, MPF e Ministério Público do Paraná teriam uma cadeira cada no conselho de deliberação. Tudo isso estava no acordo assinado entre a Petrobras e o MPF e homologado por Hardt, mas que seria anulado poucos meses depois pelo ministro do STF Alexandre de Moraes.

Um após o outro, investigadores e magistrados que tiveram a coragem de desmontar um dos maiores esquemas de corrupção da história brasileira e colocar na cadeia os que participaram dele estão sofrendo represálias

Este acordo tem sido mencionado à exaustão por Gilmar Mendes e por políticos petistas, segundo os quais os procuradores da força-tarefa da Lava Jato estariam tentando se apropriar do dinheiro da Petrobras. Os próprios termos do acordo, no entanto, desmentem essa acusação. O MPF não ficaria com o dinheiro, e nem sequer teria o poder de decidir onde ele seria empregado. Ainda que houvesse alguma controvérsia pelo ineditismo da medida, passível de ajuste em um ou outro ponto, a narrativa do decano do STF e dos petistas não tem amparo nenhum na realidade, mas ainda assim foi comprada por todos os integrantes do CNJ, como se Hardt houvesse cometido alguma monstruosidade jurídica e estivesse totalmente ciente disso – a única divergência entre os conselheiros envolveu a duração da suspensão, e não a existência de irregularidade.

E aqui chegamos ao ponto mais grave da decisão do CNJ: ela pune um magistrado por uma decisão tomada de boa-fé, ou seja, cria um “crime de hermenêutica”. Não houve venda de sentença, não houve interesse pessoal envolvido, não havia suspeição nem impedimento, não houve violação a direitos e garantias constitucionais, não houve desvio de finalidade; houve apenas uma decisão que Gabriela Hardt tomou dentro do que era sua prerrogativa, e que foi reformada em instância superior. Nenhuma democracia pune magistrados por isso – embora os “defensores da democracia” brasileiros não se importem muito com isso, como demonstrou Moraes quando mandou o CNJ investigar um juiz que deu ganho de causa ao ex-deputado estadual Homero Marchese, censurado por uma ordem do ministro do Supremo. Se uma decisão tomada de boa-fé pode ser transformada em infração disciplinar apenas por ter sido revertida ou por desagradar sabe-se lá quem, o sistema judicial estará irremediavelmente comprometido.

De tudo o que ocorreu no CNJ em relação à juíza Gabriela Hardt, salva-se apenas uma pequena parte do voto do presidente do conselho e do Supremo, ministro Edson Fachin. Ele errou gravemente ao também considerar que a magistrada cometeu irregularidade, mas ao menos reconheceu “a grossa corrupção que foi apurada pela Operação Lava Jato” e rejeitou a narrativa do “conluio” entre juiz e procuradores, tão usada por Dias Toffoli em suas decisões de desmonte da Lava Jato. Ainda assim, é muito pouco para alguém que, recorde-se, foi quem abriu as portas para fazer de Lula um ficha-limpa ao anular todos os processos contra o petista e que, ao votar contra Hardt, colabora com a “vingança contra os juízes”, nas palavras do subprocurador-geral da República José Adônis Callou de Araújo Sá, que defendeu a rejeição do processo disciplinar.

Procuradores punidos e até demitidos por decisão do Conselho Nacional do Ministério Público, um ex-procurador com mandato parlamentar cassado em decisão teratológica do TSE, um ex-juiz também com mandato tornado réu por uma piada e, agora, uma juíza suspensa por dois anos. Um após o outro, investigadores e magistrados que tiveram a coragem de desmontar um dos maiores esquemas de corrupção da história brasileira e colocar na cadeia os que participaram dele estão sofrendo a represália prevista por Luís Roberto Barroso cinco anos atrás: “na Itália, a corrupção conquistou a impunidade. Aqui, entre nós, ela quer vingança. Quer ir atrás dos procuradores e juízes que ousaram enfrentá-la. Para que ninguém nunca mais tenha a coragem de fazê-lo”. Mas, se desejamos um Brasil verdadeiramente decente, isso não pode prosperar nem durar: as punições injustas devem ser revertidas e aqueles que hoje são os cúmplices da vingança hão de ser responsabilizados, mais cedo ou mais tarde. Lutemos com todas as nossas forças para que isso possa acontecer.



 Justiça de Moraes se contrapõe ao direito   humanitário.



Ontem, Dia dos Pais, o ministro Alexandre de Moraes negou o pedido para que os filhos de Jair Bolsonaro o visitassem. Flavio Bolsonaro reagiu afirmando: “Moraes proibiu a mim e aos meus irmãos de visitarmos nosso pai justamente no Dia dos Pais. Tiraram a liberdade dele. Agora querem tirar até o direito de um pai abraçar seus filhos. Isso tem dia e hora para acabar! ”

 A decisão de Moraes reacende o debate sobre o alcance das medidas aplicadas pelo Judiciário, e esta decisão contrasta fortemente com os princípios do direito humanitário e da preservação dos laços familiares. Como se sabe, a legislação brasileira prevê mecanismos para o vínculo familiar e o direito a visitas regulares. 

Tanto é verdade que, neste domingo, milhares de detentos puderam conviver temporariamente com suas famílias, exceto Jair Bolsonaro. A imposição de isolamento severo justamente em uma data festiva para um pai é uma medida de rigor desmedido e cruel. A decisão só agrava o contexto de desconfiança e desgaste enfrentado pelo Judiciário e, em especial, pelo ministro Alexandre de Moraes.

 Suas decisões são vistas com desconfiança, principalmente porque ele ainda não respondeu às denúncias sobre o contrato de 129 milhões de reais do Banco Master com o escritório de sua mulher. Neste sentido, esta ação só pode ser interpretada como demonstração de rigor seletivo e desproporcional, e nunca como ato de justiça.
 Restrições rigorosas em ocasiões de apelo humanitário não fortalecem a credibilidade das instituições democráticas.

 Ao contrário, só transmitem a percepção de perseguição seletiva. Em momentos como este, o sistema perde o respaldo do sentimento coletivo de justiça, aprofunda a polarização social e fragiliza a confiança da população na imparcialidade do Poder Judiciário.

    Vicente Lino.



quinta-feira, 6 de agosto de 2026

 O diário de Anthony Fauci e a censura autoritária na pandemia .

 Gazeta do Povo

Anthony Fauci se negou a responder a todas as perguntas que lhe foram feitas em audiência no Senado norte-americano.

 As controvérsias em relação a vários aspectos da pandemia de Covid-19 ressurgiram com força na semana passada, quando o senador norte-americano Rand Paul divulgou o diário com as anotações de Anthony Fauci, que comandou o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niaid, na sigla em inglês) até 2022 e, nessa condição, foi a principal autoridade dos Estados Unidos na definição de políticas de combate ao coronavírus. Também na semana passada, Fauci compareceu ao Senado norte-americano, mas ficou calado e não respondeu a nenhuma das perguntas que lhe foram feitas, invocando a Quinta Emenda da Constituição do país, que dá aos cidadãos o direito de não se autoincriminarem.

Nas cerca de 1,6 mil páginas, redigidas em computadores do trabalho de Fauci e armazenadas em servidores do governo – o que permitiu que elas se tornassem públicas –, o ex-diretor do Niaid manifestou dúvidas sobre a hipótese de surgimento acidental do Sars-CoV-2 (embora ela ainda fosse sua preferida); relatou uma internação por problemas pulmonares (ainda que não se possa concluir disso que fosse um efeito colateral da vacina contra a Covid) que, segundo o atual secretário de Saúde, Robert Kennedy Jr., foi ocultada do público; relatou casos em que foi chamado a aconselhar gestores públicos sobre o fechamento ou a abertura de escolas; e falou sobre o uso de máscaras como forma de reduzir o contágio. Ele ainda fez críticas ao então presidente Donald Trump, que governava os EUA quando a pandemia começou, e deixou implícita uma certa satisfação pessoal com o grau de destaque que a imprensa lhe concedia.

 No Brasil, as perguntas inconvenientes não foram apenas desqualificadas, mas praticamente criminalizadas, com o apoio de cientistas e jornalistas

Não é nosso objetivo, neste momento, debater a veracidade ou a falsidade de tudo o que foi dito sobre esses assuntos ao longo da pandemia – até porque, em alguns casos, ainda há dúvidas pertinentes e faltam as evidências irrefutáveis para qualquer um dos lados. Tampouco nos interessa aqui analisar decisões de gestão tomadas por governantes que, em muitos casos, precisaram agir rapidamente com base no conjunto de informações de que dispunham no momento, diante de uma situação dramática. Mas é preciso, sim, chamar a atenção para uma situação gravíssima, que pode ter impedido decisões melhores: a completa supressão do debate, de forma autoritária, em nome de “consensos” que, como se vê agora, estavam longe de merecer tal nome.

Questionamentos legítimos – e cuja legitimidade, aliás, já existia muito antes de conhecermos o conteúdo dos diários de Fauci – a respeito da pandemia e das formas de combatê-la foram sumariamente proibidos. A defesa do isolamento dos grupos mais vulneráveis em vez de lockdowns generalizados; o alerta sobre possíveis efeitos colaterais das vacinas (um fenômeno que ocorre com todo medicamento e imunizante); a escolha pelo tratamento precoce com o uso off-label (outra prática relativamente comum na medicina) de fármacos como a ivermectina; a crítica ao fechamento das escolas e a medidas como os “passaportes de vacina”; perguntas sobre a origem laboratorial do Sars-CoV-2 – tudo isso foi desqualificado por autoridades sanitárias e parte da imprensa como “fake news”, “negacionismo”, “teorias da conspiração” e “postura anticientífica”, e associado a um determinado lado do espectro político-ideológico.

No Brasil, entretanto, esse processo foi ainda mais acentuado: as perguntas inconvenientes não foram apenas desqualificadas, mas praticamente criminalizadas, seguindo à risca o pensamento do então ministro do STF Luís Roberto Barroso, para quem “a difusão da desinformação, incentivando (...) posições anticientíficas, que levam à morte, isso não é neutro, não é protegido pela liberdade de expressão”. Em conjunto, Supremo e CPI da Covid trataram como potenciais criminosos os que promoveram – e os que prescreviam, pois os médicos também foram perseguidos – o tratamento precoce, os que manifestaram dúvidas sobre as vacinas, os que criticavam os lockdowns, e qualquer um que ousasse discordar do “consenso” sobre a pandemia: publicações e contas inteiras em mídias sociais foram censuradas, e brasileiros tiveram seus sigilos quebrados sem nenhum motivo razoável que o justificasse.

O abuso cometido durante aquela época é injustificável sob qualquer ponto de vista e não tem precedentes em nenhum outro momento da história. A crítica a políticas públicas e o direito de questioná-las sempre foram protegidos pela melhor doutrina e jurisprudência a respeito da liberdade de expressão, independentemente da existência de dados empíricos que embasem tal crítica ou da sensatez da opinião nela contida. Médicos e pacientes, de comum acordo, sempre tiveram o direito de, confrontados com uma doença para a qual não há medicamento específico, escolher de comum acordo um tratamento off label, cientes de que não há garantia de resultado. A ciência sempre foi construída no confronto de hipóteses, no teste, na tentativa e erro; pessoas geniais do passado já defenderam o que hoje é considerado “anticientífico”, enquanto o que hoje é considerado “científico” nem sempre foi visto assim. A busca da verdade – e isso inclui, evidentemente, a verdade sobre a Covid-19 – sempre exigiu o livre trânsito de ideias. Nenhuma emergência global de saúde, por mais grave que seja, é capaz de alterar essa realidade; mas políticos, magistrados, imprensa e Big Techs decidiram ignorá-la, escolhendo um lado “certo” e atropelando, de forma inconstitucional, todo tipo de liberdade e garantia democrática, inclusive por razões de antipatia político-ideológica.

Há quem trate a pandemia não apenas como a catástrofe sanitária que ela realmente foi, mas também como um grande experimento social, em que o mundo inteiro foi testado a respeito de sua capacidade de aceitar bovinamente qualquer restrição estatal. Sem chegar a esse ponto, podemos afirmar que, ao menos no que diz respeito à liberdade de expressão, de fato os censores puderam considerar a experiência bem-sucedida, tantos foram os que aprovavam e defenderam a censura, o arbítrio e a postura – esta, sim, totalmente anticientífica – de eliminar as perguntas e o debate. Entre esses houve, inclusive, profissionais como jornalistas e cientistas, cujo trabalho, na essência, exige a liberdade cuja supressão eles defenderam. É fundamental que haja um mea culpa. Não falamos de reconhecer um eventual erro sobre vacinas, tratamento precoce, lockdowns ou algum outro aspecto específico da pandemia, mas do reconhecimento de sua cumplicidade com a instauração de um ambiente de censura e perseguição, que cassou a liberdade de expressão em nosso país e legou aos brasileiros o pior “efeito colateral” prolongado que a Covid-19 poderia deixar.

Gazeta do Povo.