Vicente Lino
Política e Economia
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Lulinha finalmente foi alcançado.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
O STF que defende a Constituição na teoria enquanto a viola na prática.
Gazeta do Povo.
Edson Fachin, presidente do STF, solidarizou-se com Flávio
Dino e não criticou decisão de Moraes que violou sigilo da fonte jornalística.
A grotesca violação da garantia constitucional do sigilo da
fonte jornalística não foi ignorada pelas entidades que representam veículos de
comunicação e profissionais da imprensa. Associação Nacional de Jornais (ANJ),
Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Associação
Nacional de Editores de Revistas (Aner), a Federação Nacional dos Jornalistas
(Fenaj) e Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) estão
entre as instituições que denunciaram a ameaça grave à liberdade de imprensa
contida nas investigações que tinham o objetivo (implícito, mas ainda assim
evidente) de descobrir quem era a fonte do jornalista maranhense que denunciara
o suposto uso irregular de veículos públicos pelo ministro Flávio Dino e seus
familiares. Mesmo jornalistas e órgãos de imprensa que aplaudiram ou calaram
diante das primeiras investidas de Alexandre de Moraes contra a liberdade de
expressão passaram a dizer que uma linha muito perigosa acabou de ser cruzada.
Infelizmente, aqueles que, neste exato momento, poderiam
colocar imediatamente um freio nesta nova investida autoritária de Moraes estão
titubeando. Falamos dos demais ministros do Supremo, alguns dos quais fizeram a
defesa genérica da liberdade de imprensa e da importância do trabalho
jornalístico para a sociedade, mas se calaram diante de uma violação concreta
do sigilo da fonte, isso quando não se solidarizaram com Dino, como fez o
presidente da corte, Edson Fachin, dias depois da operação contra o
ex-secretário Raimundo Cutrim, apontado como a fonte do jornalista Luís Pablo.
Os ministros do STF têm desenvolvido um padrão muito
preocupante: o de defender teoricamente todas as liberdades e garantias
individuais, enquanto na prática decidem e votam para aboli-las uma a uma
“A presidência do Supremo Tribunal Federal manifesta solidariedade
ao ministro Flávio Dino e reconhece que ameaças à segurança física dos
ministros e familiares devem ser apuradas com rigor”, disse Fachin em seu
pronunciamento, ignorando que o “rigor” usado por Moraes atropelou
completamente o “compromisso irrenunciável com a Constituição e com o respeito
às liberdades fundamentais, sobretudo com liberdade de imprensa e com o direito
fundamental dos jornalistas ao sigilo de fonte” que o Supremo, segundo Fachin,
teria. O máximo que o presidente da corte se permitiu foi manifestar a
disposição de que as decisões monocráticas de Moraes sejam submetidas a um
colegiado – o plenário ou a Primeira Turma, que Moraes integra – o quanto
antes, o que, a bem da verdade, deveria ser o destino de toda decisão
individual no STF.
O grande problema é que os ministros do STF têm desenvolvido
um padrão muito preocupante: o de defender teoricamente todas as liberdades e
garantias individuais, enquanto na prática decidem e votam para aboli-las uma a
uma. Ninguém encarnou essa contradição melhor que Cármen Lúcia, quando julgou
uma ação no TSE contra a divulgação de um documentário da produtora Brasil
Paralelo, em 2022. Após manifestar preocupações mil com a possibilidade de a
corte eleitoral estar praticando censura prévia (pois nenhum dos julgadores
havia nem sequer visto o documentário), votou pela censura alegando uma
“situação excepcionalíssima”.
Nenhum ministro do STF dirá abertamente que despreza a
liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, o sigilo da fonte, a imunidade
parlamentar e outros direitos e garantias individuais. Portanto, quando
precisam atacar esses direitos, defendem-nos em tese, para depois
relativizá-los de alguma forma, seja com bordões surrados como o “liberdade de
expressão não é liberdade de agressão!” moraesiano, seja com as “situações
excepcionalíssimas” de Cármen Lúcia, seja com algum outro “mas” que invoque
alguma justificativa capenga, como as “sutilezas” invocadas por Gilmar Mendes
ou o “não confundamos jornalistas investigativos com jornalistas investigados
por práticas criminosas” usado por Moraes para defender a operação contra
Cutrim. Outros, como acaba de fazer Fachin, preferem calar, e com isso
consentir, como diz a sabedoria popular.
Suspeitas de crime – porque até o momento não há mais que
isso contra Luís Pablo – podem e devem ser investigadas, mas sempre dentro da
lei. Moraes não fez isso. Em março, ordenou a apreensão dos dispositivos
eletrônicos do jornalista maranhense, e chegou a deixar subentendido que
pretendia, sim, descobrir quem havia lhe dito que Dino e a família estariam
usando veículos oficiais de forma irregular. Moraes afirma que o “sigilo de
fonte (...) nunca se confundiu e jamais se confundirá com escudo protetivo para
prática de atividades ilícitas”; muito mais acertado é dizer que a busca pela
elucidação de um crime ou mesmo a tão cantada “defesa da democracia” jamais
podem se confundir com escudo protetivo para a violação de garantias
constitucionais.
O colegiado que julgar (se é que isso de fato ocorrerá) a
decisão de Moraes não tem como consertar o que já foi feito, no sentido de que
não apagará da memória coletiva o fato de que Cutrim era a fonte de Luís Pablo;
no máximo, pode invalidar algumas provas, o que já é alguma coisa, embora pouco
diante do tamanho do abuso cometido. Muito mais importante seria que os
ministros fechassem totalmente as portas para arbitrariedades semelhantes no
futuro. Mas terão a decência e a coragem de fazê-lo, após terem descido tão
fundo no autoritarismo com tantas decisões, votos e silêncios?
Mais uma vez, o Supremo ultrapassa a fronteira entre os Poderes.
Na abertura do segundo semestre judiciário de 2026, o
ministro Edson Fachin defendeu a convivência harmoniosa com as críticas e
prometeu celeridade e diálogo com os outros Poderes. É muito difícil concordar
com o ministro.
Como se sabe, o Inquérito das Fake News, sob o argumento de combater ataques à democracia e à honra dos magistrados, resultou no bloqueio de perfis em redes sociais, busca e apreensão contra empresários e analistas, e na prisão do ex-deputado federal Daniel Silveira por ter criticado os ministros. Nesta toada, o STF acumulou os papéis de vítima, investigador e julgador, ultrapassando os limites da serenidade.
O aperfeiçoamento institucional encontrou forte barreira
dentro da própria Corte. A intenção de aumentar a transparência e restabelecer
a confiança pública com a criação do Código de Ética não deu em nada, e a
proposta foi sepultada. O ministro também falou em celeridade processual, mesmo
sabendo que decisões travadas por pedidos de vista individuais sem prazo limite
chegavam a paralisar processos por mais de uma década, e que o tempo médio de
tramitação ainda supera três anos.
Ao falar em diálogo institucional, esquece-se de que a
frequente judicialização da política fez com que o STF interferisse diretamente
em pautas deliberadas pelo Congresso, desde a invalidação da tese do Marco
Temporal para terras indígenas até debates sobre a descriminalização do porte
de drogas. O que se viu foi ativismo judicial e invasão da prerrogativa
legislativa.
O discurso do ministro falando em conciliação e
aperfeiçoamento institucional precisa contornar um histórico marcado por
inquéritos de exceção, recusa de marcos éticos internos e frequentes
ultrapassagens da fronteira entre os Poderes. Edson Fachin sabe disso.
Vicente Lino
domingo, 16 de agosto de 2026
LULA HOMENAGEIA FIDEL CASTRO E A DITADURA EM CUBA.
Não sabemos de que estímulo e sabedoria Lula está falando. O que sabemos é que a história registra entre 15.000 a 17.000 mortes ao longo da ditadura de Fidel Castro que Lula agora homenageia. Sabemos também que, conforme Anistia Internacional, o isolamento prolongado nas prisões, a tortura psicológica e falta de socorro médico custaram ao menos 1.500 vidas. Sem contar milhares de mortos que tentavam a travessia pelo oceano para fugir da repressão.
Nos dias de hoje, o discurso de Lula finge ignorar que o povo cubano carrega um enorme peso do passado repressivo e sobrevive em um presente onde a subsistência básica tornou-se uma luta diária. O regime que Lula está homenageando e falando de esperança, fraternidade e justiça apresenta apagões diários que superam 15 horas, a economia está paralisada, a inflação descontrolada e há escassez crônica de alimentos e medicamentos. Sabemos todos e Lula deveria saber que a crise atual não é um acidente, mas o resultado inevitável de um modelo autoritário centralizado que exauriu seu próprio país.
Oremos para que não seja este o modelo com o qual Lula e seus seguidores estejam sonhando para o Brasil. Que Deus nos proteja.
Vicente Lino.
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sábado, 15 de agosto de 2026
O Brasil é a nova Cuba – só que maior.
Flavio Gordon.
Corria o ano 1960 quando Nikita Kruschev, em Nova York,
abraçou um barbudo de trinta e poucos anos recém-chegado ao poder em Havana, e
o fez com o entusiasmo desajeitado do vetusto burocrata que parecia reencontrar
a própria juventude revolucionária. Fidel Castro não era, àquela altura, o
idealista marxista-leninista convicto que a hagiografia posterior fabricaria;
era um nacionalista de origem latifundiária que descobriu, na aliança com
Moscou, o instrumento perfeito para consolidar poder pessoal e projetar-se para
além da ilha. Foi a Cuba de Castro, e não a vontade soviética, que tomou a
iniciativa de bater à porta do Kremlin. Mas, uma vez aberta essa porta, o
serviço de inteligência soviético não perdeu tempo: reconheceu na ilha
caribenha, muito antes do Ministério das Relações Exteriores ou do próprio
Partido, aquilo que os documentos internos já chamavam, sem eufemismo, de
“cabeça-de-ponte” – a plataforma a partir da qual se exportaria a subversão
comunista para o resto da América Latina, da Nicarágua sandinista aos focos
guerrilheiros da Venezuela, do Peru e da Guatemala. A China não manda
instrutores para treinar guerrilhas, como faziam os soviéticos; ela manda
engenheiros da Huawei, linhas de crédito estatal, portos, ferrovias e data
centers Não é acidente que essa história volte à memória exatamente quando o
Brasil se prepara para uma eleição presidencial que, gostemos ou não, está
mergulhada até o pescoço naquilo que venho chamado de “Guerra Fria 2.0”. A
tentação de tratar 2026 como um pleito essencialmente doméstico, envolvendo
lulopetismo contra bolsonarismo, é a mesma miopia que, ao longo do século 20,
levou tantas elites latino-americanas a subestimar o que estava em jogo quando
um vizinho se tornava peça importante de um tabuleiro maior. A diferença, hoje,
é que a peça central desse tabuleiro na América do Sul não é mais uma ilha de
11 milhões de habitantes viciada em açúcar subsidiado soviético. É a maior
economia da América Latina, e fornece exatamente aquilo de que o programa
tecnológico chinês precisa: terras raras, minério de ferro, soja e energia – os
insumos brutos sem os quais nenhum data center, nenhuma bateria e nenhum chip
chinês sai do papel.
Nessa nova Guerra Fria, a China não repete o erro soviético.
Analistas que estudaram a ascensão chinesa nos últimos 35 anos costumam notar
que Pequim tirou da implosão da URSS uma lição oposta à que tirou o Ocidente –
não a de que o comunismo havia morrido, mas a de que poder militar sem lastro
econômico é ilusão. Por isso a China não manda hoje instrutores para treinar
guerrilhas em selvas centro-americanas, como fazia o Departamento Internacional
do PCUS através da DGI cubana nos anos 1960. Ela manda, em vez disso,
engenheiros da Huawei, linhas de crédito estatal, portos, ferrovias e data
centers. O método mudou, mas o objetivo estratégico – converter um país-chave
em plataforma de influência que module o comportamento de toda uma região –
permanece surpreendentemente parecido.
E o Brasil ocupa hoje essa função de plataforma. A Huawei já
controla quase metade da infraestrutura de quinta geração do país, segundo
levantamentos recentes de inteligência geopolítica; Tencent e ByteDance
negociam entrada facilitada por regimes tributários favoráveis; e nosso país
desponta como o maior mercado potencial de capacidade de data centers de
inteligência artificial de todo o Hemisfério Ocidental fora dos Estados Unidos,
um mercado da ordem de centenas de bilhões de dólares em investimento futuro, e
cuja bacia energética já desperta o interesse chinês por terra e eletricidade
“empoderada”. Trata-se de uma disputa que passou longe do radar de boa parte do
debate eleitoral brasileiro, mas que analistas americanos de segurança nacional
já leem como o verdadeiro campo de batalha desta nova guerra fria: não tanques e
mísseis, mas cabos de fibra, terras raras e padrões técnicos que, uma vez
fixados, amarram um país por décadas.
Não é exagero, portanto, comparar o papel que Cuba
desempenhou para a URSS ao papel que o Brasil ocupa hoje para a China – com a
ressalva crucial de que a escala é incomparavelmente maior, e por isso mesmo
mais perigosa. Cuba era um posto avançado ideológico, valioso sobretudo como
símbolo e como base logística para pequenos grupos guerrilheiros. O Brasil é
algo bem mais substancial: um polo econômico cuja captura redesenha o
equilíbrio de poder em toda a América do Sul, precisamente porque oferece a Pequim
aquilo que nenhuma Cuba jamais poderia – escala de mercado, matéria-prima
estratégica e um lugar à mesa dos Brics que confere legitimidade multilateral
ao projeto chinês de erosão da ordem mundial liderada pelos Estados Unidos.
Washington, é claro, percebeu o movimento – e reage com uma
doutrina que resgata, sem pudor, a linguagem do século 19. A nova Estratégia de
Defesa Nacional americana, divulgada em janeiro deste ano, fala abertamente em
restaurar a Doutrina Monroe sob uma versão atualizada, batizada de “Corolário
Trump”: os Estados Unidos, diz o documento, não permitirão que competidores de
fora do hemisfério (e o leitor atento já sabe a quem os americanos se referem)
posicionem forças ou controlem ativos estrategicamente vitais nas Américas. É a
mesma lógica, atualizada, que levou Theodore Roosevelt a proclamar o direito de
polícia internacional sobre o Caribe há mais de 100 anos. Resta que os
adversários de agora já não são encouraçados europeus, mas sim cartéis armados
como organizações terroristas e potências extra-hemisféricas operando por meio
de portos, redes 5G e infraestrutura de nuvem. Especialistas em segurança
hemisférica já descrevem essa nova doutrina como “Monroe 2.0”: menos diplomacia
pública, mais coerção econômica e disposição declarada para o uso da força,
esta última demonstrada nas operações contra o regime de Maduro na Venezuela,
citadas com orgulho pelo próprio documento do Pentágono, agora rebatizado como
Departamento de Guerra. Não é exagero comparar o papel que Cuba desempenhou
para a URSS ao papel que o Brasil ocupa hoje para a China – com a ressalva
crucial de que a escala é incomparavelmente maior
O apelo americano por aquilo que especialistas têm chamado de
uma “Doutrina Monroe para a inteligência artificial” – ou seja, a exigência de
que a infraestrutura digital do hemisfério rode sobre padrões e nuvens
americanas, não chinesas – é apenas a versão mais recente dessa mesma pulsão
estratégica. E ela mira o Brasil com uma precisão que nenhum outro país da
região desperta, porque nenhum outro oferece prêmio comparável.
Para além das questões domésticas, é nesse contexto que o
eleitor brasileiro deveria situar a escolha de outubro. Uma sociedade civil que
se faz de neutra numa guerra fria que já elegeu seu território como peça central
de disputa, e cujo governo já escolheu abertamente o lado antiamericano do
conflito, não está sendo prudente: está sendo ingênua, exatamente como foram
ingênuas as elites latino-americanas dos anos 1960 que viam em Cuba apenas um
caso de política interna caribenha, e não o prenúncio de décadas de subversão
continental.
No fim das contas, a pergunta que o eleitorado nacional deve
se fazer é bem simples: de que lado desta fronteira o Brasil pretende ficar – o
da colônia amestrada pelo capital e pela tecnologia de Pequim, ou o de um
parceiro hemisférico que negocia, com olhos abertos, sua própria soberania
digital e energética junto a Washington? Não escolher também é uma escolha. E a
história, sempre generosa com quem se recusa a aprender com ela, já cansou de
mostrar as suas consequências.
Flavio Gordon
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Lulinha finalmente foi alcançado.
Não
é novidade, mas a defesa de Lulinha foi bater à porta de autoridades do
Executivo e do próprio STF, afirmando estar preocupada com o uso
político-eleitoral das investigações às vésperas da eleição. A ação da PF
causou estranhamento dentro do próprio STF, que viu uma tentativa de retirar
casos que envolvem Lulinha das mãos de Mendonça.
O filho do Presidente da República tem que ser investigado igual a todo mundo. O envio de petições à Presidência do STF para a realização de novos sorteios de relatoria contorna a prevenção do ministro André Mendonça e atenta contra a previsibilidade jurídica. A PF sabe que, no ordenamento brasileiro, as regras existem justamente para impedir a escolha de relatores. A insistência em múltiplos inquéritos, na tentativa de obter uma distribuição distinta, prejudica a transparência das investigações.
Quando a autoridade policial tenta
burlar a prevenção e o STF concorda com novos sorteios, o resultado é a erosão
da confiança pública em ambas as instituições, com manobras de bastidor que
deterioram a credibilidade do sistema de justiça.
Vicente Lino.















