sábado, 10 de outubro de 2026

 O Brasil não pode baixar a guarda.

 Gazeta do Povo.



Uma renovação poderosa das lideranças políticas do Brasil floresceu de norte a sul. A conclusão do primeiro turno das eleições nos permite esperar uma nova etapa de nossa história. Falta ainda uma batalha decisiva: a escolha do presidente da República, com o segundo turno marcado para o dia 25; mesmo assim, o que já foi alcançado, com a eleição de uma maioria robusta de senadores e deputados federais comprometidos com o fim dos abusos do Supremo Tribunal Federal, permite antever tempos mais promissores. Este movimento sólido e consistente, de grande parte dos brasileiros, de claro repúdio à opressão e à destruição dos valores de nossa sociedade é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada.

Comemoração, portanto, mas com prudência e atenção, pois os dias que antecederam o primeiro turno, com intervenções autoritárias e sem precedentes de ministros do STF e do TSE nas eleições, só mostram que o consórcio de autoridades, congregando principalmente membros do Judiciário e membros do atual governo petista, estava disposto a tudo para impedir uma renovação da política nacional – e nada indica que ele tenha arrefecido nessa disposição, especialmente depois dos resultados do dia 4. Os autoritários saem enfraquecidos, sem dúvida, mas não é o momento de a sociedade baixar a guarda ou reduzir a atenção. A situação que vivemos hoje só pôde ser construída graças a anos de omissão e conivência – e elas nunca são uma escolha razoável.

O consórcio de autoridades formado por membros do STF e do governo segue disposto a tudo para impedir uma renovação da política nacional

Cada voto importa, e os verdadeiros democratas não podem esmorecer no esforço de despertar a consciência do maior número possível de pessoas. Esta Gazeta do Povo já afirmou, na semana passada, e volta a fazê-lo: ninguém, seja de direita, de centro ou de esquerda, deveria considerar o voto no PT. Não se trata de visão de mundo ou de convicções mais à esquerda ou mais à direita, mas do retorno à normalidade democrática e ao equilíbrio de poderes, vergonhosamente destruídos por Lula, em parceria com o STF. Apesar da mudança de ares no Senado, uma reeleição do atual presidente pode dificultar e retardar o processo de normalização, e não lhe faltam meios para conseguir uma cristalização dos abusos que todos temos testemunhado.

E não se trata apenas de derrotar o petismo, mas também de impedir uma deterioração ainda maior nessas três semanas que separam os dois turnos de votação. Bons analistas têm afirmado que os ministros do STF estão no modo sobrevivência e, apesar de alguns acenos recentes, podem perder o restante do pudor que porventura ainda lhes reste: seriam capazes de qualquer atropelo ao direito se vislumbrassem a chance de se manter no poder com os privilégios que acumularam. É muito possível que continuem assim neste período que vai até o segundo turno, e mesmo depois.

Isso significa, sobretudo, a necessidade de mobilização. Todos os brasileiros decentes, todas as entidades decentes deste país não podem se omitir e precisam estar prontos para se manifestar, em uma reação rápida, no caso de se vislumbrar qualquer abuso, a exemplo de decisões limitando críticas de Flávio Bolsonaro a Lula e liberando o inverso, ou qualquer tipo de argumentação espúria e ridícula, que coloque em dúvida a validade das eleições com a desculpa de uma suposta influência estrangeira. Já vimos ações parecidas antes do primeiro turno, a exemplo do vaivém de decisões judiciais envolvendo fake news sobre Nossa Senhora Aparecida. Qualquer novo abuso precisa ser condenado e anulado no nascedouro.

Um exemplo importante veio do Paraná, onde inúmeras entidades muito representativas do estado gravaram um vídeo, solicitando ao TSE que preservasse a integridade do voto dos paranaenses na controvérsia envolvendo a elegibilidade de Deltan Dallagnol, candidato ao Senado. Esse voto seria inevitavelmente jogado no lixo caso o ex-procurador da Lava Jato fosse declarado inelegível horas antes da eleição – como de fato ocorreu –, em um claro movimento de vingança e eliminação de um claro paladino da liberdade. Sabe-se que o vídeo chegou a alguns dos ministros; e sabemos que a decisão certa veio, na madrugada do domingo. Este caso mostra que a mobilização não é inútil e sua força não pode ser subestimada – e neste caso específico é fundamental que ela continue, pois ainda haverá um julgamento no plenário do TSE.

A Gazeta do Povo continuará cobrando a abertura da investigação sobre Alexandre de Moraes; continuará pedindo coragem aos atuais senadores, para que dobrem Davi Alcolumbre e consiga a abertura do processo de impeachment de Moraes ainda nesta legislatura; continuará atenta à destruição das contas públicas do país nesses últimos meses de governo; e começará, assim que a eleição se definir, a ajudar a jogar luz sobre as grandes propostas que podem levar o Brasil a ser, enfim, um país decente, rico e seguro. Um país cheio de vitalidade, de vibração, cheio de paixão pelo que é nobre e bom e profundamente democrático.

A reconstrução não será rápida. Os intocáveis, os ministros do STF que se apropriaram do poder que pertence ao povo, e todos que atuam sob sua influência, vandalizaram instituições e princípios fundamentais para o bom funcionamento de uma sociedade: a liberdade de expressão, o devido processo legal, o equilíbrio de poderes, o respeito pelas regras do jogo. Não será fácil devolvê-los ao estado anterior, pois já são dez anos de destruição. Pode levar tempo, mas este esforço é a prioridade nacional. Trata-se da pré-condição mesma da vida em sociedade; da pré-condição da democracia; da pré-condição do progresso, e a perspectiva de retomamos o bom caminho deve nos animar, pois teremos muito a fazer quando nos livrarmos do entulho autoritário que o Judiciário e o Executivo atuais espalharam pelo Brasil.

  Gazeta do Povo



sexta-feira, 9 de outubro de 2026

 A Hora da Verdade para um Senado Renovado.




Foram tantos os abusos, tamanho o desrespeito e tantas as inomináveis injustiças que talvez valha a pena lembrar ao Brasil decente: a legislação brasileira e os regimentos internos não estabelecem nenhum limite para o número de autoridades que podem responder a processos de impeachment simultaneamente. 

Vale ressaltar que a competência para processar e julgar os Ministros do STF por crime de responsabilidade é exclusiva do Senado Federal, nos termos do art. 52, inciso II, da Constituição Federal. 

O Senado renovado deve ter em conta que vários ministros podem ser denunciados conjuntamente em uma única petição, desde que lhes sejam imputados atos ou fatos conexos. Srs. Senadores; uma vez aceito o processo, lê-se a denúncia no plenário e cria-se uma Comissão Especial para emitir parecer — sendo possível instaurar uma única comissão para analisar as denúncias conexas. Saibam os Senadores que se alinham com a verdadeira justiça que, mesmo quando o processo for movido contra três ou mais ministros, a votação do impeachment será sempre individual.

 O Senado vota o impedimento de cada julgador separadamente, exigindo-se o quórum de dois terços (54 dos 81 senadores) para a condenação de cada um. Além disso, os parlamentares que defendem um Brasil melhor e mais justo devem saber que, caso o Senado aceite a denúncia e instaure o processo, o ministro fica suspenso de suas funções até o julgamento final. 

Os processos deveriam ser instaurados o quanto antes, porque conduzir julgamentos paralelos no Senado exige um enorme esforço político e regimental. Cada acusado tem direito a prazos próprios de defesa, oitiva de testemunhas e sustentação oral. Se três ou mais ministros forem suspensos simultaneamente, o STF passará a funcionar com menos integrantes, o que ainda atinge o quórum mínimo regimental para as sessões plenárias. 

O Brasil tem muita pressa e espera que, desta vez, o Senado cumpra o seu dever.

Vicente Lino.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

 Grupo que apoiou censura sente na pele aparato que ajudou   a criar no Brasil.

 Leonardo Desideri



   

O cancelamento do último debate presidencial da TV Globo, na noite da quinta-feira (1º), produziu uma situação que seria difícil imaginar poucos anos atrás. Depois de receber decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) que alteravam as regras do programa, a Globo denunciou uma “interferência indevida” do Judiciário na liberdade dos veículos de comunicação para organizar debates eleitorais, e cancelou o evento alegando insegurança jurídica.

A reação da emissora se soma a uma mudança de tom já perceptível entre setores que, nos últimos anos, haviam apoiado a censura do Judiciário sobre o debate público. Políticos, artistas e formadores de opinião que defenderam bloqueios de plataformas e remoções de conteúdo em nome de um suposto combate à desinformação agora veem suas próprias publicações atingidas e passam a falar em censura ou ameaça à liberdade de expressão. O aparato criado para alcançar adversários políticos começa a produzir efeitos também sobre quem ajudou a legitimá-lo.

Artistas, parlamentares e comentaristas que no passado defenderam a censura do Judiciário agora também reclamam de publicações derrubadas, depois de serem enquadrados pelas regras que apoiaram.

Um dos casos mais recentes é o do humorista Antonio Tabet, que argumentava, em defesa das decisões de censura do Judiciário, que determinados discursos não podem ser tratados como se estivessem fora de qualquer responsabilidade. Quando o ministro André Mendonça decidiu retirar uma publicação sua no caso recente da fake news sobre Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida, Tabet passou a falar explicitamente em censura e levou a questão ao Supremo. Ao final, o próprio TSE delimitou a ordem inicial e permitiu que sua postagem permanecesse no ar.

Em abril de 2024, durante o confronto de Elon Musk com Alexandre de Moraes, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) afirmou que regulamentar as redes era urgente e disse que, se o X concretizasse a ameaça de descumprir decisões brasileiras, o país tinha “plena capacidade de bloquear o acesso à rede social”. “Vai ser chato, mas é o mais seguro a se fazer e ninguém vai morrer”, comentou.

Recentemente, uma postagem da deputada também sobre o caso de Nossa Senhora Aparecida entrou na mesma ordem de remoção do TSE, revista posteriormente. Erika recorreu ao tribunal. “Não se pode admitir censura no atacado, sem ao menos analisar as postagens e identificar eventual desinformação”, disse sua defesa.

Em 2023, ao defender o PL das Fake News, o deputado Zeca Dirceu (PT-PR) escreveu que era necessário pôr fim à “terra de ninguém” das redes sociais, com maior responsabilização das plataformas. Em 2024, falou que o empresário Elon Musk, dono do X, estava “pedindo por penalidades mais graves” ao descumprir as ordens de Alexandre de Moraes.

Em 26 de março deste ano, Zeca publicou que o ex-procurador Deltan Dallagnol, candidato ao Senado (Novo-PR) e que teve seu mandato como deputado federal cassado em 2023, “segue inelegível” e “é criminoso”. A Justiça Eleitoral do Paraná mandou retirar as postagens e, em abril, multou Zeca em R$ 15 mil por propaganda eleitoral antecipada negativa. Zeca acusou Deltan de censura. No mês seguinte, contudo, ele conseguiu no STF autorização para recolocar as publicações no ar: Gilmar Mendes, desafeto de Dallagnol, concluiu que a Justiça Eleitoral do Paraná havia imposto uma “indevida restrição à liberdade de expressão”.

Outro caso é o do economista e comentarista político Joel Pinheiro da Fonseca. Nas redes sociais, viralizou nos últimos dias um vídeo de julho de 2020 em que ele comentava a decisão de Moraes que suspendeu perfis de investigados no inquérito das fake news. Na ocasião, Joel rejeitou a ideia de que a medida configurasse censura. “O que foi feito aqui não está censurando nenhuma opinião”, afirmou. Moraes havia determinado a suspensão de contas de apoiadores de Jair Bolsonaro, entre eles Allan dos Santos, Sara Winter e Luciano Hang, no âmbito do inquérito das fake news.

Seis anos depois, foi Joel quem viu uma publicação sua desaparecer para o público brasileiro. A Meta restringiu, cerca de 15 minutos depois da postagem, um vídeo em que ele criticava decisões de Flávio Dino e dizia que o STF estava “fora de controle”. A empresa alegou cumprimento das regras eleitorais brasileiras. O episódio ocorre num ambiente em que as plataformas passaram a assumir obrigações cada vez maiores de monitoramento e retirada de conteúdos, tanto pela regulamentação eleitoral quanto pelas novas balizas fixadas pelo STF para a responsabilidade das redes, após o julgamento sobre o artigo 19 do Marco Civil.

Desta vez, a reação de Joel foi diferente da de 2020: “Não dá. Olha o estado do debate público como fica”, comentou, reclamando que não encontra nem sequer um caminho para contestá-la. A própria Meta chegou depois a concluir, em uma revisão, que o conteúdo não violava as regras eleitorais e o restabeleceu, antes de retirá-lo novamente horas mais tarde, sem explicação.

Veículos que apoiaram restrições agora reclamam de censura

Diversos veículos de comunicação que antes apoiavam as restrições impostas pelo Judiciário agora apontam explicitamente que ministros estão praticando censura e ameaçando a democracia.

Na maior emissora de TV do país, acusações de intromissão indevida do Judiciário surgem depois de anos em que o próprio Grupo Globo tratou intervenções severas sobre plataformas e conteúdos como respostas legítimas aos problemas trazidos pelas redes sociais. O apoio do conglomerado a um endurecimento do controle sobre conteúdos nas redes está registrado em editoriais de O Globo dos últimos anos.

Em setembro de 2021, o jornal disse que o TSE fazia “muito bem” ao “apertar o cerco contra as mentiras” sobre o sistema eleitoral. Em janeiro de 2022, considerou correta a possibilidade, levantada pelo então presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, de suspender o Telegram no país, reconhecendo que a medida restringiria a liberdade dos usuários, mas sustentando que “qualquer outro caminho poderia se revelar irresponsável”.

 Em março de 2022, O Globo classificou como “incontestável, do ponto de vista jurídico” a ordem de Alexandre de Moraes para suspender temporariamente o Telegram e, quatro dias depois, chamou de “certeira” a estratégia do ministro de ameaçar bloquear o aplicativo até que ele removesse publicações e bloqueasse canais. Em abril do mesmo ano, cobrou do TSE “esforço redobrado” e agilidade para “vigiar as milícias digitais”, elogiando as medidas adotadas pelo STF e pelo TSE e a aproximação dos tribunais com as plataformas.

Em 2023, defendeu a aprovação urgente do PL das Fake News e a ampliação da responsabilidade das empresas pelo conteúdo publicado por usuários. E, em junho de 2025, chamou de “avanço indiscutível” a maioria formada no STF para derrubar a proteção do artigo 19 do Marco Civil da Internet e permitir que plataformas fossem responsabilizadas por determinados conteúdos mesmo antes de uma ordem judicial de remoção.


Leonardo Desideri




 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

 O Voto como Resposta aos Abusos do   Judiciário.





A escolha dos Senadores nestas eleições confirmou a indignação do povo com o avanço do ativismo judicial no Supremo Tribunal Federal. É um voto que exige o fim dos absurdos jurídicos e morais cometidos por alguns ministros e restabelece a esperança de que o equilíbrio entre os Poderes seja finalmente restaurado. 

É também a esperança de que processos de impeachment contra ministros sejam pautados. Um Senado renovado e forte precisa assumir a responsabilidade constitucional de atuar como contrapeso aos abusos da Suprema Corte.

 Nos últimos anos, decisões monocráticas, extrapolações de competências e militância partidária abalaram a segurança jurídica e a confiança na instituição, cuja função primordial deveria ser a guarda da Constituição — e não a suplantação do Poder Legislativo ou a imposição de agendas políticas.

 A Corte foi tomada por um mecanismo pernicioso de corporativismo blindado, no qual magistrados fecham fileiras para proteger seus pares, obstruindo a devida apuração de ilícitos e sufocando tentativas de responsabilização.

 Escândalos envolvendo ministros e familiares romperam o pacto de confiança com a sociedade. A população percebeu que a justiça no Brasil se tornou seletiva e intocável, protegendo justamente quem deveria cumprir as leis. O Brasil decente espera que o novo Senado seja: Competente para impedir o ingresso de nomes com clara vocação militante; Independente para exigir que o Supremo respeite os limites traçados pela Constituição; Firme para garantir a prerrogativa dos representantes eleitos na formulação das leis do país.

 O recado das urnas foi cristalino: a sociedade brasileira não tolera mais a impunidade nem a blindagem mútua entre os Poderes. A renovação no Congresso renova a expectativa de um Brasil onde a lei prevaleça acima de vaidades pessoais e projetos de poder, garantindo a pacificação do país e o respeito soberano à vontade do povo.

O novo Senado tem de mostrar aos ministros do Supremo que eles não estão acima da lei.


  Vicente Lino.



         A conta chegou ao STF.



A gente ainda não sabe, mas resultado do primeiro turno destas eleições parece ter feito baixar o espírito da lei em pelo menos dois ministros do STF. O presidente Edson Fachin afirmou que o Tribunal é maior do que tudo e permanecerá, destacando que a Corte deve ser serena, firme, independente e fiel à Constituição e ao povo a quem ela serve.

 Por sua vez, o ministro Flávio Dino lembrou os valores da democracia, da liberdade e da justiça. Evocando Ulysses Guimarães, Dino declarou: "Traidor da Constituição é traidor da Pátria" e "Discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca".

Não sabemos se Suas Excelências sabem, mas o STF desrespeitou a Constituição repetidamente nos últimos anos. O deputado Daniel Silveira foi cassado e preso, embora o artigo 53 do texto constitucional determine claramente que "os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos". Sobre essa questão, nunca deram um pio. 

No fatídico 8 de janeiro, os processos deveriam ter tramitado na Primeira Instância da Justiça, com direito ao duplo grau de jurisdição. Além disso, o Direito Penal brasileiro adota o princípio fundamental da responsabilidade pessoal e da individualização da pena, conforme estabelece o artigo 5º da Constituição. Os dois assistiram à prisão de centenas de pessoas de forma coletiva e genérica — e continuaram calados.

Fachin e Dino deveriam saber que o juiz deve ser imparcial, e não atuar simultaneamente como investigador ou vítima. Sabem também que o Inquérito das Fake News foi instaurado de ofício pelo próprio STF, sem sorteio de relator e com concentração de poderes nas mãos de um único ministro.

 Isso ocorreu em 2019, mas os dois permanecem em silêncio. Vale lembrá-los de que o Senado Federal é a Casa competente para julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade. No Senado agora renovado a maioria parece disposta a exercer essa prerrogativa.

 Que Deus nos livre dessa gente.


  Vicente Lino




segunda-feira, 5 de outubro de 2026

 Renovação do Senado é início da renovação do Brasil

O primeiro turno das eleições terminou com a disputa pela Presidência da República se encaminhando para o segundo turno, mas não da forma como se imaginava. Enquanto praticamente todas as pesquisas mostravam Lula à frente de Flávio Bolsonaro, ainda que em situação de empate técnico, o candidato do PL recebeu pouco mais de 47% dos votos válidos, ficando dois pontos porcentuais (ou cerca de 2,5 milhões de votos) à frente do petista. Mas, se a definição sobre o próximo ocupante do Planalto ficou para o dia 25, a melhor notícia do dia vem dos resultados para o Senado Federal.

Candidatos ao Senado que fazem oposição a Lula e se mostraram, ao longo da campanha, inclinados a levar adiante os tão necessários processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal levaram as duas vagas em disputa no Distrito Federal e em vários estados, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Rondônia; em outros estados, conseguiram uma das vagas. Assim, compensaram com folga a derrota de atuais senadores favoráveis ao impeachment e que não serão reeleitos, como o mineiro Carlos Viana, o capixaba Marcos do Val e o paraense Zequinha Marinho, bem como a saída de senadores de direita e centro-direita que se elegeram governadores, caso do paranaense Sergio Moro e do rondonense Marcos Rogério. Além disso, petistas e outros aliados do governo perderam seus lugares na casa: o alagoano Renan Calheiros, o amapaense Randolfe Rodrigues, a brasiliense Leila do Vôlei, o capixaba Fabiano Contarato, os maranhenses Weverton Rocha e Eliziane Gama, a sul-matogrossense Soraya Thronicke, e o rondonense Acir Gurgacz.

Ninguém precisava ser jurista ou cientista político para perceber que havia algo profundamente errado no menor dos prédios da Praça dos Três Poderes; bastava o bom senso

O recado das urnas foi muito claro. Muitos brasileiros perceberam o espetáculo deprimente de autoproteção protagonizado pela “tropa de choque” do Supremo, na sessão de 15 de setembro. E viram como o STF tentou, nos últimos dias, atropelar o Tribunal Superior Eleitoral em temas que diziam respeito especialmente à corte eleitoral, em uma interferência escancarada com o objetivo quase explícito de beneficiar o atual presidente da República. Ninguém precisava ser jurista ou cientista político para perceber que havia algo profundamente errado no menor dos prédios da Praça dos Três Poderes; bastava o bom senso. Felizmente, campanhas e formadores de opinião souberam comunicar ao eleitor a necessidade de mudar o Senado para colocar um freio no Supremo, e o cidadão entendeu o recado.

O primeiro teste para essa nova configuração do Senado ocorrerá assim que os parlamentares iniciarem o trabalho, em fevereiro de 2027. A maioria conquistada neste domingo é suficiente para que se possa finalmente remover o covarde Davi Alcolumbre (que não disputou as eleições agora por estar na metade dos seus oito anos de mandato) da presidência do Senado e substituí-lo por alguém com a coragem de colocar para votação os inúmeros pedidos de impeachment já protocolados contra Alexandre de Moraes e outros ministros – o nome que desponta é o de Rogério Marinho (PL-RN), que já tentou o comando da casa em 2023, sendo derrotado por Rodrigo Pacheco.

E esse novo Senado, se for fiel à campanha que fez, não ajudará apenas a retirar do Supremo os atuais ministros indignos da toga; ele também poderá garantir que não tenhamos mais militantes partidários no STF à medida que as vagas na suprema corte forem abertas – uma delas já existe, deixada por Luís Roberto Barroso. Se o Senado atual já foi capaz de barrar Jorge Messias, um Senado ideologicamente mais à direita deve, em tese, ser uma salvaguarda contra novos integrantes da suprema “tropa de choque”, ainda que Lula saia vencedor no segundo turno da eleição presidencial.

Lula e o PT ainda não foram derrotados, mas o domingo deixa uma forte esperança de renovação no Poder Legislativo. O Senado passou tempo demais adormecido, omitindo-se diante de sua obrigação constitucional de ser o contrapeso aos abusos do Supremo, porque os senadores corajosos ainda eram minoria, e o presidente da casa preferiu entrar para a história como um pusilânime. Quem deseja um Brasil decente, onde a juristocracia seja enterrada para dar lugar ao retorno do império da lei, tem muitos motivos para celebrar neste 4 de outubro.




domingo, 4 de outubro de 2026

          A crise de legitimidade do STF.



O que o STF anda fazendo nos dias de hoje talvez tenha começado quando, em março de 2019, o ministro Dias Toffoli instaurou o “Inquérito do Fim do Mundo”, por meio de portaria, e o entregou, sem sorteio, ao ministro Alexandre de Moraes. O inquérito visava apurar a existência de notícias falsas, ameaças e acusações caluniosas aos ministros da Corte e a seus familiares.

Deu no que deu. Em janeiro de 2023, foram presas 2.151 pessoas sem processo, sem juiz de garantias e sem individualização de conduta. Muitas ainda permanecem na prisão ou atadas a tornozeleiras. Não é assim que se adquire respeito.

 Pouco depois, ainda em 2023, o ministro Dias Toffoli declarou imprestáveis todas as provas obtidas a partir do acordo de leniência da empreiteira Odebrecht e acabou com a Operação Lava Jato, que investigava o maior escândalo de corrupção do planeta. Gente assim não merece respeito.

 Ao longo de 2024, a PF descobriu um aporte de R$ 35 milhões, feito por Daniel Vorcaro, ao Resort Tayayá, de propriedade da família do ministro Dias Toffoli. Não se respeita gente assim. Em setembro de 2026, a PF apontou um contrato de R$ 131 milhões assinado com o escritório de Viviane Barci, mulher de Alexandre de Moraes. É impossível respeitar gente assim, sobretudo quando se sabe das mensagens diretas trocadas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro no período que antecedeu as operações da PF contra o Banco Master. 

A sessão que decidiria se Moraes poderia ou não ser investigado transcorreu com ataques pessoais e acusações ao relator André Mendonça, que foi chamado de covarde, vil e boneco eleitoral, além de declarações desastrosas para a Corte, como a de que "até a máfia tem ética". Edson Fachin, que presidia a sessão, fingiu não ver nada errado, e ainda não sabemos se haverá outra sessão para deslindar esse mar de corrupção e desrespeito.

 Gente assim nunca terá o nosso respeito.

      Vicente Lino.