O direito de escolher o futuro dos filhos.
Vicente
Lino.
Política e Economia
Vicente
Lino.
Mario
Sabino.
Ninguém
precisa gostar dos Bolsonaro para enxergar o óbvio: a imensa injustiça a que o
ex-presidente vem sendo submetido por seu algoz milionário.
“Alexandre
de Moraes suspendeu por noventa dias as visitas de Flávio a Jair Bolsonaro por
causa da carta de apoio do pai divulgada pelo filho e ainda mandou investigar o
candidato ao Palácio do Planalto por ter feito propaganda antecipada.
O ministro
certamente não assiste às propagandas oficiais do governo Lula.
A esta
altura do ano eleitoral, só os ingênuos podem acreditar que um tribunal
político como o STF toma decisões no interesse exclusivo da Justiça.
Entre os não
ingênuos, estão evidentes os dois pesos e as duas medidas: em 2018, quando Lula
estava preso em Curitiba, ele recebeu 572 visitas. Como lembrou Sergio Moro, os
visitantes, à saída da cadeia, davam entrevistas sobre o que Lula havia dito. O
então advogado do então presidiário, Cristiano Zanin, hoje ministro do STF,
pois é, chegou a ler cartinha do cliente diante de câmeras de TV.
Se Deus
escreve certo por linhas tortas, as nossas divindades escrevem errado por
linhas certas. Traduzindo: aos amigos a lei; aos inimigos, os rigores da lei.
Ou, na versão do italiano Giovanni Giolitti, aos amigos, a letra da lei; aos
inimigos, a interpretação da lei.
É como se
pautam tanto Alexandre de Moraes como Flávio Dino, que, em timing perfeito,
partiu para cima de Valdemar Costa Neto, presidente do partido dos Bolsonaro, a
pretexto de acabar com a farra da indicação irregular de destinação de emendas
parlamentares.
Tudo fica
bem mais justificável quando se tem pela frente cidadãos desse naipe, mas não é
a qualidade moral do outro que deveria servir a juízes, nem o seu lado
político, uma vez que magistrados pairariam sobre convicções partidárias.
Não é assim
que ocorre no Brasil desde há muito, e só os ingênuos, repetindo, não enxergam
a conveniência na aplicação dos rigores da lei neste período que antecede a
batalha pela Presidência da República, pela totalidade da Câmara de Deputados e
por dois terços do Senado — onde serão jogados os destinos de ministros do STF.
Ao impedir
que Flávio visite o pai até o intervalo que separam o primeiro do segundo turno
da eleição presidencial, Alexandre de Moraes praticamente retira o
ex-presidente das articulações eleitorais.
Lula, no
entanto, pôde fazê-lo há oito anos. O poste Fernando Haddad visitou-o 21 vezes
na prisão e de lá saía com instruções e declarações do condenado. Foram raros
os rigores da lei que couberam ao chefão petista, nunca o da suspensão de
visitas familiares, e foi um escândalo quando lhe negaram o direito de ir ao
velório do próprio irmão.
A decisão de
Alexandre de Moraes reforça a percepção de que Jair Bolsonaro é perseguido
político, a quem é negado até mesmo o direito de ver um filho — filho que é
formalmente um dos seus advogados — , e não está inteiramente descartado que
lhe seja suspensa também a prisão domiciliar por saúde precária.
Os ingênuos
no Brasil são aqueles que não querem ver. São os piores.
Mario
Sabino.
Depois de propor um Código de
Ética para o STF — que ninguém aceitou — e assinar uma carta de apoio ao seu
colega Dias Toffoli no tormentoso caso do Resort Tayayá, o ministro Edson
Fachin afirmou que o caso envolvendo o Banco Master exige uma resposta firme
das instituições. Segundo ele, o STF e os demais Poderes estão sendo
desafiados, e todo tribunal constitucional deve ser um produtor de confiança e
legitimidade.
Fachin sustenta que o episódio
exige uma resposta "forte e objetiva" para demonstrar que escândalos
dessa natureza merecem a devida apuração. A fala do ministro ressoa como um
chamado ao rigor institucional; no entanto, ela precisa, antes, enfrentar o
teste da realidade no próprio STF.
O ministro afirma que as
instituições devem dar uma resposta "positiva" a tais escândalos, mas
parece esquecer que o padrão de conduta exigido recai sobre o próprio tribunal,
que, no momento, enfrenta um profundo desafio ético. Para o ministro Toffoli,
por exemplo, é desafiador explicar a aquisição de uma sociedade em um resort de
luxo, no valor de R$ 35 milhões, por um fundo que teria ligações com o grupo
Master. Uma explicação transparente afastaria qualquer sombra de conflito de
interesses.
Não sabemos se escândalos
dessa natureza merecerão, de fato, a devida sanção mediante a prévia e adequada
apuração, como apregoa o ministro. Edson Fachin deve saber que, sem uma
explicação convincente sobre o comportamento e os vínculos de seus colegas de
toga com o Banco Master, seu discurso corre o risco de ser reduzido a uma
retórica vazia, que já não convence mais ninguém.
Vicente Lino.
A ONG anticorrupção Transparência Internacional criticou duramente, na quinta-feira passada, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, por não fazer absolutamente nada a respeito do escandaloso contrato de R$ 129 milhões assinado entre o Banco Master, de Daniel Vorcaro, e o escritório Barci de Moraes, da esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. “A inação da PGR se torna mais grave a cada nova revelação”, afirmou a entidade em sua conta em português no X, depois de dizer que “o grau de informalidade com que se tramitou um contrato de R$ 129 milhões é estarrecedor e só aumenta as suspeitas – que já eram mais que suficientes para a abertura de uma investigação própria”.
O comentário foi feito na esteira de novas revelações a
respeito das negociações para a assinatura do contrato. Segundo o jornal O
Estado de S.Paulo, Vorcaro e a advogada Viviane Barci de Moraes conversavam
diretamente pelo WhatsApp, e fora ela quem enviou ao banqueiro a minuta do
documento, em janeiro de 2024. As conversas estão em um dos celulares de
Vorcaro apreendidos pela Polícia Federal. O valor seria pago em parcelas
mensais de R$ 3,6 milhões, e outras mensagens indicam que Vorcaro dava
prioridade total a essa despesa, mesmo quando o Banco Master já começava a
afundar devido à insustentabilidade de suas estratégias agressivas de captação
de investidores. O contrato original, no entanto, não foi inteiramente quitado,
e os investigadores já encontraram a minuta de um outro contrato, no valor de
R$ 50 milhões – o que faltaria para ser pago na negociação de 2024 –, entre uma
empresa de Vorcaro e o escritório Barci de Moraes, mas que não chegou a ser
assinado.
Ao mirar apenas o vazamento e ignorar o conteúdo das
negociações entre Vorcaro e a esposa de Moraes, Gonet se comporta como se a
missão da PGR fosse garantir a paz das autoridades, e não a defesa do interesse
público
Nem mesmo o mais empedernido libertário haveria de defender
que se trata apenas de uma negociação entre dois entes privados, nos quais um
deles, detentor de uma fonte inesgotável de dinheiro, resolveu pagar muito mais
que o habitual por esse tipo de serviço sabe-se lá por que motivos, e que por
isso o Estado não deveria se intrometer. Estamos falando de alguém apontado
como o chefe de um esquema de fraude financeira bilionária, que ofereceu
valores muito superiores aos cobrados pelas melhores bancas de advocacia do
país a um escritório cujo maior trunfo não é a expertise de seus membros, mas
um sobrenome – o mesmo de um integrante do principal tribunal do país. E já se
sabe que, no mínimo, Vorcaro conseguiu acesso privilegiado a Moraes, a ponto de
trocar mensagens com o ministro perguntando-lhe sobre investigações, com
direito a um “conseguiu bloquear?”, horas antes de ser preso pela primeira vez.
Para qualquer pessoa que não tenha o desconfiômetro
totalmente quebrado, essas circunstâncias mereceriam ao menos uma investigação.
Por que Vorcaro pagou todo esse dinheiro ao escritório Barci de Moraes se
poderia ter contratado bancas muito mais experientes e renomadas a um valor
menor? Ele estaria tentando comprar influência ou proteção para não ter de
responder pelos crimes financeiros de que é acusado? E, se a resposta for
“sim”, o que Vorcaro de fato recebeu em troca, ainda que hoje esteja preso
(embora não falte quem trabalhe para anular toda a Operação Compliance Zero,
mais cedo ou mais tarde)? São perguntas que, em uma sociedade normal, que não
abafa seus escândalos, já teriam colocado o poder público para trabalhar em
busca das respostas. Mas não no Brasil, onde o procurador-geral Paulo Gonet
arquivou um pedido de investigação em dezembro do ano passado, afirmando que
não via “qualquer ilicitude”.
O mesmo Paulo Gonet, recorde-se, que também participou de
uma degustação muito exclusiva de um uísque caríssimo, bancada por Daniel Vorcaro
em Londres. O mesmo Gonet que ofereceu denúncia contra o perito Eduardo
Tagliaferro por ter divulgado os descalabros cometidos dentro do “Ministério da
Verdade” instalado no TSE presidido por Moraes. O mesmo Gonet que denunciou a
família Mantovani pelo entrevero do aeroporto de Roma, sem o menor elemento
factual que justificasse as acusações. O mesmo Gonet que denunciou no atacado
centenas de brasileiros pelos atos de 8 de janeiro de 2023, sem a necessária
individualização de conduta.
Pelo andar da carruagem, o único que deve terminar pagando o
pato será o perito criminal da Polícia Federal apontado como o autor dos
vazamentos pelos quais o Brasil soube não apenas do megacontrato entre Vorcaro
e Viviane Barci, mas também dos negócios envolvendo o resort Tayayá, implicando
o ministro Dias Toffoli. Mesmo considerando que de fato tenha havido o crime de
violação de sigilo funcional, previsto no Código Penal (e até isso é
controverso, pois também se pode argumentar que ele agiu como o chamado
whistleblower), isso não torna falsas as informações divulgadas, nem reduz a
gravidade do escândalo. Ao mirar apenas o vazamento e ignorar seu conteúdo,
Gonet se comporta como se a missão da PGR fosse garantir a paz das autoridades,
e não a defesa do interesse público. A continuar nesse ritmo, será preciso
questionar quando a omissão do procurador-geral se tornará prevaricação.
Gazeta do Povo.
Em editorial, a Gazeta do Povo informa que, no início do mês,
o PT realizou o seu 8.º Congresso Nacional. Nada mudou: o documento, que
deveria ser um plano de futuro, revela-se, na verdade, uma repetição exaustiva
de mantras e distorções que podem custar caro ao Brasil.
De um lado, o partido repete a narrativa da "herança
maldita" para justificar qualquer falha; de outro, tenta se apropriar de
sucessos que não lhe pertencem. O partido falta com a verdade ao afirmar que
trouxe a inflação para a meta, ignorando que o mérito cabe à política técnica
do Banco Central. Além disso, há a desfaçatez de afirmar que as contas públicas
melhoraram quando, na realidade, a dívida pública explodiu, crescendo quase dez
pontos percentuais em relação ao PIB.
O partido, alinhado ao STF, ainda utiliza o termo
"democratização" quando, no dicionário petista, democratizar
significa aparelhar ou controlar. Quando falam em democratizar a comunicação, o
que se lê é censura; quando falam em democratizar o campo, lê-se violação do
direito de propriedade.
Um modelo que prioriza o gigantismo estatal e o
intervencionismo econômico é um convite à catástrofe. Esse roteiro, que gera um
alívio artificial de curto prazo, planta estagnação e recessão no futuro. O
editorial da Gazeta do Povo conclui que o PT não tem nada de novo a oferecer: o
congresso do PT foi apenas mais uma peça publicitária de um partido que olha
para o espelho do passado.
Se o Brasil continuar trilhando esse caminho de irresponsabilidade
fiscal e avanço do Estado sobre as liberdades individuais, o preço será uma
democracia enfraquecida e uma economia condenada à mediocridade.
Vicente Lino.