A cronologia do absurdo.
Exposto em conversas indefensáveis com o hoje presidiário Daniel Vorcaro, o ministro Alexandre de Moraes sacou do coldre o inquérito das fake news e apontou-o para a cabeça do seu colega de Corte, André Mendonça, mergulhando o Supremo numa crise nunca vista. Ministros do STF se disseram perplexos. Democratas se abanaram. O presidente Lula apressou-se em afetar indignação.
Ninguém duvida de que a crise é abissal. Mas tanta surpresa
não se justifica. Alexandre de Moraes não acordou um dia transformado em
Alexandre de Moraes. Tampouco virou sozinho o que é.
Nessa transmutação, o inquérito das fake news é apontado como
a origem da audácia aparentemente sem limites de Moraes. Menos lembrado é o
episódio que o gerou. No dia 8 de fevereiro de 2019, a imprensa publicou que a
Receita Federal fazia análises preliminares sobre a variação no patrimônio do
ministro Gilmar Mendes e de sua então mulher, Guiomar Mendes. No dia 25,
revelou-se que também a então mulher do ministro Dias Toffoli, Roberta Rangel,
constava da lista de 133 contribuintes selecionados pela peneira da Equipe
Especial de Programação de Combate a Fraudes Tributárias. As informações,
protegidas por sigilo fiscal, foram vazadas irregularmente. Os ministros se
enfureceram e, no dia 26 de fevereiro, a Receita informou não ter encontrado
indícios que justificassem investigações contra Gilmar, Guiomar Mendes e
Roberta Rangel.
Essa foi a gênese do inquérito das fake news — nascido no dia
14 de março daquele ano. Embora o STF estivesse sob ataque — bolsonaristas
pediam seu fechamento, e ministros eram ameaçados —, a cronologia e o objeto
que Moraes conferiu à investigação revelam que ele surgiu menos da proclamada
defesa da democracia que de um impulso de autopreservação: resguardar ministros
e familiares dos efeitos da divulgação ilegal de informações patrimoniais que
atingiam um ministro e as mulheres de dois integrantes da Corte — ambas
advogadas, como Viviane Barci de Moraes, a mulher de Moraes. A própria portaria
inaugural do inquérito definia como objeto “notícias fraudulentas (fake news),
denunciações caluniosas, ameaças e infrações (...) que atingem a honorabilidade
e a segurança do Supremo Tribunal Federal, de seus membros e familiares”.
Cinco dias depois, Moraes decidiu ampliar-lhe o escopo. No
novo rol de crimes a ser investigados pelo doravante imortal 4.781, Moraes
incluiu o vazamento de informações e documentos sigilosos destinado a atribuir
ou insinuar a prática de ilícitos por integrantes do STF — fundamentos que
agora invocou na destemperada tentativa, contida por Edson Fachin, de vingar-se
do colega Mendonça.
A partir daí, a história é conhecida: à sombra do inquérito
das fake news, Moraes censurou uma reportagem da revista Crusoé que mencionava
Toffoli; suspendeu apurações da Receita sobre 133 dos 134 contribuintes
selecionados e ordenou o afastamento de dois auditores; determinou que o Fisco
rastreasse acessos aos dados de ministros e de cerca de cem parentes; e quebrou
o sigilo da fonte de um jornalista que publicara reportagens sobre familiares
do colega Flávio Dino.
O poder de Moraes cresceu num ambiente em que cada
heterodoxia sua recebia guarida de parte da sociedade não apenas em nome da
excepcionalidade do combate ao golpismo, mas, da parte do STF, em nome do
corporativismo também. O STF Futebol Clube nunca falhou com Moraes porque
Moraes nunca falhou com ele.
Diz-se que o poder absoluto corrompe absolutamente. Antes
disso, porém, o poder excessivo costuma produzir algo mais banal — a perda de
medida. O “posso porque preciso” de Moraes transformou-se pouco a pouco em
“posso porque posso”.
Moraes não nasceu ontem, o Brasil o viu crescer. A
prosperarem os acordos que se avistam, ele se tornará presidente da Corte no
ano que vem e, nessa condição, o rosto da Justiça brasileira.
Essa aberração, os ministros ainda podem poupar ao país.
João Luiz Mauad












