segunda-feira, 2 de novembro de 2026

 Pela mentira ou pela força, legado da esquerda é caracterizar a oposição como traidores

Roberto Motta.


  

Todo eleitor da oposição – todos os que votaram contra a perpetuação da esquerda no poder – provavelmente tem um parente, ou vizinho ou colega de trabalho, que foi convencido de que eleitores de direita são extremistas..

Para a esquerda, a luta pelo poder não acaba quando os resultados da eleição são anunciados.

Após a eleição mais acirrada e confusa da história – um marco que, provavelmente, será superado pela próxima eleição – a marcha da insensatez segue acelerada.

A mídia está repleta de especulações tão absurdas sobre a viagem de Flávio Bolsonaro que são quase ofensivas. São palpites, sem base na realidade, apresentados como análises sofisticadas.

“Analistas” e jornalistas esqueceram o que aconteceu nos últimos tempos - o derretimento do devido processo legal, os atos populistas e ilegais do governo no período eleitoral, a campanha de mentiras e a decisão de um juiz (que deveria estar impedido) ampliando o horário de votação. Mas artigos publicados ontem, por dois dos maiores jornais americanos – The Wall Street Journal e The Washington Post – e pelo jornal alemão Welt lembraram tudo isso.

Sete minutos após o anúncio do resultado das eleições, a polícia política entrou em campo para confiscar o passaporte do perdedor. Quem considera isso democracia está cego pelo fanatismo.

Há intelectuais, artistas e jornalistas aplaudindo e fazendo julgamentos morais absolutos que ignoram o Estado de Direito e o devido processo legal. No Brasil de hoje, a punição antecede a investigação e o julgamento – mas só para a oposição e os dissidentes. A compreensão e a leniência são infinitas para o lado esquerdo. Para o direito, sobra a repressão.

A campanha da esquerda não foi apenas para vencer eleições, mas para caracterizar seus adversários como traidores que devem ser eliminados. A retórica continua sendo repetida

Mais uma vez, há quem enxergue justiça na perseguição porque já decidiu que o perseguido precisa ser culpado. A tentativa de manter a liberdade serve como evidência de crime.

“Se fugiu, é porque é culpado” – esse é o julgamento de intelectuais, analistas e jornalistas (vou economizar as aspas, mas elas sempre estão presentes nesses termos). Essa afirmação é parecida com o que a ativista de esquerda Ângela Davis, suposta defensora americana dos direitos civis, disse quando dissidentes soviéticos pediram sua ajuda para libertar presos políticos da União Soviética. Resumindo o cinismo e a falsidade criminosa da esquerda, ela disse: “Se foram presos, é porque têm culpa”.

Parece incrível – mas é isso que alguns jornalistas e analistas estão escrevendo.

A campanha da esquerda não foi apenas para vencer a eleição, mas para caracterizar seus adversários como traidores que devem ser eliminados. A retórica continua sendo repetida. E a tragédia é que essas ideias foram absorvidas por milhões de pessoas.

Todo eleitor da oposição – todos os que votaram contra a perpetuação da esquerda no poder – provavelmente tem um parente, ou vizinho ou colega de trabalho, que foi convencido de que eleitores de direita são extremistas perigosos que, se for preciso, devem ser monitorados, presos ou coisa pior.

 Para evitar a ditadura imaginária, experimente mentira sabor democracia

Quando a vitória do PT na eleição foi anunciada, moradores do meu prédio e de edifícios vizinhos foram berrar nas janelas – mas não para dar vivas ao socialismo ou saudar a “justiça social” – eles foram gritar pedindo a prisão dos milicianos e golpistas.

 O germe do ódio, inoculado desde a infância por professores ativistas (da creche ao pós-doutorado), inflamado pela mídia e levado ao paroxismo pelo líder da esquerda e seu “general” – que aplicou a mentira em escala industrial – corrói agora o tecido social e transforma colegas de trabalho, vizinhos e parentes em dedos-duros do regime.

Por isso, em muitas casas, nesse Natal não haverá famílias reunidas. De vermelho, nesses lares, só o papai Noel.

  Roberto Motta

Autor dos livros: “Ou Ficar A Pátria Livre”, “Jogando Para Ganhar: Teoria E Prática da Guerra Política”, “Os Inocentes do Leblon” e "A Construção da Maldade: Como Ocorreu a Destruição da Segurança Pública Brasileira".


 

domingo, 1 de novembro de 2026

  “Queridas Klaras”: a direita que normaliza o     exílio do perdedor

   Flávio Gordon



 “Entre nós, não há uma diferença de opinião, como você pretende fingir, mas assassinato, roubo, pilhagem. ” (Eric Voegelin, em carta à irmã Klara Hartl, de 16 de agosto de 1939)

“Supõe-se que os vencedores políticos sejam benevolentes com os vencidos, mas no Brasil, eles processam os perdedores. ” A frase não saiu de nenhum canal brasileiro de direita. Ela abre o editorial do Wall Street Journal de 28 de outubro, cujo restante do texto é ainda menos diplomático.

Ainda está bem fresco na memória o desenrolar de acontecimentos do fatídico dia 25 de outubro de 2026, o dia da venezuelização definitiva do Brasil. Mal se fechou a apuração, o tirano Alexandre de Moraes, atendendo à Polícia Federal, mandou recolher os passaportes de Flávio Bolsonaro, o candidato derrotado. Na noite de terça-feira, Flávio cruzou a fronteira argentina por Puerto Iguazú com a mulher e as duas filhas. Um jato particular, com escala em Guayaquil, levou a família a Miami, onde desembarcou na quarta. Investigado, ele não foi acusado de crime algum. Há apenas, lembra o jornal norte-americano de maior circulação impressa no país, a promessa que Lula lhe fez num debate da Band, uma semana antes do segundo turno, de que, perdida a imunidade parlamentar, enfrentaria todo tipo de investigação. “Lula escolheu o homem e prometeu descobrir o crime” – sentencia o jornal americano.

Eis o acontecimento central da assim chamada eleição brasileira. Não o placar, mas o exílio.

O exílio de Flávio é a forma visível de uma exclusão que atinge, de modo invisível, os cerca de 60 milhões de brasileiros que votaram nele

Os atenienses inventaram uma instituição curiosa para afastar da cidade quem parecesse perigoso demais. Uma vez por ano, a assembleia podia votar o ostracismo de um cidadão, que deixava Atenas por dez anos sem perder bens nem honra. Era a demos deliberando sobre um indivíduo. O Brasil inverteu a fórmula. Aqui é o poder que delibera sobre a demos, e o que se expulsa já não é um homem, mas metade dela. O exílio de Flávio é a forma visível de uma exclusão que atinge, de modo invisível, os cerca de 60 milhões de brasileiros que votaram nele, cidadãos a quem a cidadania política vem sendo recusada. Sua participação passou a ser tratada como crime desde o 8 de janeiro. Seu voto, agora se sabe, não muda nada. E nem é preciso discutir as urnas, porque a fraude é impossível de provar num sistema que, por natureza, não se deixa auditar. Basta o que todos viram à luz do dia: a máquina do Estado inteira posta a serviço de um candidato, e um candidato vencido posto em fuga horas depois.

A analista política e professora de Filosofia Bruna Torlay deu a esse estado de coisas um nome exato. Vivemos, disse ela, uma “guerra civil psicológica”. Como estamos todos desarmados (exceto, por óbvio, os criminosos que integram os grupos narcoterroristas locais, aliás protegidos pelo regime), a guerra não se trava com fuzis, mas “no campo da destruição do valor do outro enquanto cidadão”. É o vizinho que já não cumprimenta, o grupo de família emudecido por prudência, o colega convertido em delator em potencial. A situação é trágica no sentido grego e original do termo, porque não oferece saída indolor. Num regime de força, lembra Bruna, quem perdeu a condição de membro da cidade só pode escolher entre o exílio, o silêncio e a revolta, e todos cobram um preço.

A Europa dos anos 1930 conheceu essa exclusão em seus pormenores mais domésticos. Em 1938, depois da anexação da Áustria, o filósofo Eric Voegelin foi demitido da Universidade de Viena e escapou por pouco da polícia política, rumo à Suíça e depois aos Estados Unidos. Já na América, recebeu uma carta da irmã, Klara. A resposta do filósofo deve ser lida e meditada pelos brasileiros de hoje:

“Querida Klara, é muito gentil de sua parte ter querido me escrever, mas poupe-me de seus truques nazistas. Deveria saber que não sou estúpido para cair neles. Entre nós, não há uma diferença de opinião, como você pretende fingir, mas assassinato, roubo, pilhagem. Não aja como se fosse decente demais para mencionar essas coisas. Eis um truque nazista manjado. Evitam-se assuntos desagradáveis, mas roubam-se das pessoas até a sua última peça de roupa, e se as espancam até a morte caso não cedam de bom grado (…)”

“Você nega que essa desgraça de pai exiba uma foto do bando de delinquentes-em-marrom [referência aos membros das SA nazistas] sobre a sua mesa, e que tenha ficado tolamente satisfeito ao ver o seu filho ser roubado por eles? ”

O pai que, cego de ideologia e com o cérebro lavado por propaganda, não se perturba ao ver o filho espoliado é a imagem acabada da guerra civil psicológica. O inimigo não está do outro lado da fronteira, mas na sala de jantar. Klara queria tratar o exílio do irmão como divergência entre pessoas razoáveis, assunto a evitar no almoço de domingo. Voegelin recusou o disfarce. Quando um lado prende, cala e expulsa o outro, não há diferença de opinião. Há vítimas e há cúmplices. É nesse ponto que se encontram hoje incontáveis famílias brasileiras, divididas não por uma discordância sobre impostos ou programas de governo, mas pela dúvida de saber se o amigo, o vizinho ou mesmo o parente do outro lado da mesa ainda as reconhece como concidadãs.

Diante de uma ruptura dessa ordem, não há posição neutra. A quem não integra o regime restam dois caminhos, a resistência ou o colaboracionismo. Parte da direita partidária brasileira parece não ter percebido sequer que a escolha está posta. Donald Trump chamou a eleição de “uma vergonha” e de “um grande constrangimento para o povo do Brasil”. Já o medíocre cacique partidário Valdemar Costa Neto, que reconheceu o resultado de pronto e com ele oficialmente o PL, reservou a sua indignação para outro alvo. Quando Flávio, já no exílio, publicou uma carta denunciando a perseguição, o presidente do partido pelo qual ele concorreu disse “Não gostei” e garantiu que “ninguém aprovou”. Quanto a Tarcísio de Freitas, governador recém-reeleito em São Paulo, seu discurso é de “pacificação” (com os algozes de seu eleitorado) e de pré-campanha, anunciando a sua predisposição a concorrer à Presidência em 2030.

Os líderes da dita oposição agem como o filho que discute a herança no velório do pai. O corpo nem esfriou, e já se fala no espólio

Em suma, os líderes da dita oposição vestiram o figurino de campanha para o próximo ciclo, como se vivêssemos em plena normalidade democrática e o candidato que acabaram de apoiar não estivesse em Miami fugindo da cadeia. Agem como o filho que discute a herança no velório do pai. O corpo nem esfriou, e já se fala no espólio. Enquanto isso, 60 milhões de brasileiros ficam órfãos de representação. Diga-se, por justiça, que o Novo parece ser o único partido a firmar posição na contestação do resultado eleitoral.

A cena ganha contornos ainda mais estranhos quando se considera de onde veio o socorro a Flávio. Segundo o New York Times, foi Trump quem determinou pessoalmente a autorização especial de entrada de Flávio, e um assessor da Casa Branca providenciou o jato. “Demos a ele um passe para entrar no país, então veremos”, confirmou o presidente americano. Um candidato presidencial brasileiro só conseguiu escapar do cerco com o amparo de Washington, o que faz dele um exilado político sob proteção americana. Poucos fatos poderiam lançar suspeita mais grave sobre a eleição e sobre o estatuto internacional do Descondenado-em-chefe, que vai assumindo, aos olhos do mundo, os traços de um novo Nicolás Maduro.

O consultor francês Jacob Safar, ouvido por esta Gazeta, resumiu a semelhança com precisão: “O Brasil não é a Venezuela, mas o mecanismo de captura das instituições é comparável”. Pois diante disso há à direita quem se escandalize com a “interferência estrangeira”. Seria como um judeu que, no Dia D, atirasse pedras nos soldados aliados nas praias da Normandia, a pretexto de que os europeus é que deveriam cuidar da própria vida e os yankees não tinham nada que se meter em assuntos da Europa ocupada pelo nazismo. Valdemar e Tarcísio parecem agir como esse judeu imaginário, com a diferença de que não arriscam prioritariamente as próprias vidas e liberdades, mas sobretudo a dos 60 milhões de cidadãos que lhes caberia representar.

 “Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino, raciocinava como menino. Quando cheguei a ser homem, deixei as coisas de menino. ” A lição de São Paulo (Coríntios 13,11) parece não ter chegado à direita partidária brasileira, que segue raciocinando como menino diante de um drama de gente grande. Benjamin Constant, o liberal suíço e não o positivista brasileiro, explicou o motivo há dois séculos, no seu Curso de Política Constitucional: “Os homens de partido, por mais puras que sejam suas intenções, sempre se recusam a limitar a soberania. Consideram-se seus herdeiros e tratam de cuidar, mesmo na mão dos inimigos, de sua propriedade futura”.

Eis o infantilismo de quem, confundindo política com eleição, aguarda a sua vez de operar a máquina do adversário, sem perceber que ela foi construída para excluir da cidade metade dos seus concidadãos. Bertrand de Jouvenel chamou a isso de “cumplicidade geral na expansão do Poder”. O editorial do Journal chamou pelo nome mais simples. Países que passam da liberdade à autocracia seguem um caminho conhecido: “um demagogo vence nas urnas, toma o controle do Judiciário e prende seus inimigos”.

A direita partidária se prepara para 2030 como quem aguarda a vez numa fila. Esquece que é o regime quem organiza a fila, e que 60 milhões de brasileiros já foram retirados dela.

 Flavio Gordon.



 Cautelares e blindagens na Justiça     brasileira.

 Vicente Lino.





Um único dia após o resultado das eleições foi o bastante para o ministro Alexandre de Moraes determinar o cancelamento do passaporte de Flávio Bolsonaro. Em sua avaliação, haveria risco de fuga caso ele perdesse o pleito. Flávio é investigado em inquéritos no Supremo Tribunal Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo movimentações financeiras. Ele viajou para os Estados Unidos, onde hoje se encontra sob a guarda do governo norte-americano para evitar a prisão no Brasil e escapar de ter o mesmo destino de seu pai. 

Diante dessa rapidez e rigidez, fica difícil compreender por que outras autoridades envolvidas em graves suspeitas de corrupção não sofrem as mesmas medidas cautelares. Relatórios da Polícia Federal confirmaram que o contrato de R$ 131 milhões, firmado entre o Banco Master e a banca de advogados pertencente à esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, trazia em seus metadados alterações salvas a partir do usuário "Ministro Alexandre de Moraes".

 E há mais: nas trocas de mensagens divulgadas pela apuração, Daniel Vorcaro enviava perguntas sobre o andamento dos procedimentos de liquidação do banco e questionava o magistrado, às vésperas de sua prisão, se "precisaria sair do país".  Ainda assim, nada disso bastou para que, ao menos, se iniciasse uma investigação formal contra Alexandre de Moraes. O rito é conhecido: a Procuradoria-Geral da República (PGR) analisa os fatos e, se entender haver indícios de crime, solicita ao STF a abertura de inquérito, com pedidos de busca e apreensão, quebras de sigilo e bloqueio de bens. 

Ocorre que a abertura da investigação e a adoção de eventuais cautelares dependem do plenário do próprio Supremo, onde atua o próprio ministro. Conclusão: enquanto Flávio Bolsonaro responde a inquéritos e tenta se defender no exterior sob a constante ameaça de cautelares e prisão preventiva, Alexandre de Moraes permanece intocado. 

Blindado por seus pares e respaldado pelo posicionamento da Procuradoria, o ministro fica livre para usufruir dos contratos milionários de sua família e de recursos futuros sem qualquer constrangimento legal. É onde estamos!


Vicente Lino.



  O Brasil depende da nossa reação.

    Gazeta do Povo.



Ontem, neste espaço, mostramos como Lula já prometeu, logo em seu primeiro discurso ao vencer o segundo turno da eleição presidencial, mais quatro anos de censura, especialmente por meio da eufemisticamente chamada “regulação das mídias sociais”. Também mostramos que, mesmo tentando fazer acenos ao Congresso e aos setores da sociedade que não lhe deram seu voto, Lula e o PT não estão sinceramente empenhados em uma reconciliação nacional, mas apenas em recrudescer a perseguição aos que lhes são contrários. Este cenário preocupa muitos brasileiros, e com razão: o fim das liberdades e garantias individuais é um perigo ainda maior para a nação que qualquer crise econômica – também já contratada por Lula após um terceiro mandato de irresponsabilidade, agravada pelas centenas de bilhões de reais das bondades eleitoreiras.

O futuro, no entanto, não está inscrito em pedra. Será aquilo que formos capazes de fazer dele. Não nos entreguemos ao desânimo e, como consequência, ao desinteresse pela coisa pública. A batalha precisa recomeçar, e muito do que virá adiante dependerá da atitude dos brasileiros que não desistirem de um Brasil rico, um Brasil seguro e um Brasil decente.

Especial responsabilidade cabe aos atuais senadores e a todos os parlamentares que tomarão posse em fevereiro, muitos deles eleitos graças à insatisfação do brasileiro não só com Lula e com o PT, mas com os desmandos do Supremo Tribunal Federal. Da firmeza, da consciência histórica e do compromisso desses parlamentares com a própria palavra vai depender que o Brasil não se afunde de maneira quase que irreversível, e que comecemos a colocar os meios para uma verdadeira mudança de rumo.

Embora a vitória de Lula tenha, sim, deixado o Brasil mais perto de um ponto de não retorno, ainda há conserto para nossa autocracia construída em um conluio imoral entre PT e STF

O momento pede serenidade, mas há temas que não podem esperar: a crise no STF, as possíveis nomeações de novos ministros para a corte, a aprovação do orçamento e, com a posse do novo Congresso, a formação de uma oposição responsável e firme. Como já afirmamos em outras ocasiões, a disputa pelas presidências da Câmara e, especialmente, do Senado é crucial. Lula e a ala chicaneira do Supremo contam com a manutenção de Hugo Motta e Davi Alcolumbre em seus postos, para que eles continuem colaborando com a pauta governista e blindando os ministros da suprema corte. No passado, a oposição apoiou esses nomes contando com cargos na Mesa Diretora das casas e acreditando em compromissos com certas pautas. O tempo mostrou o enorme equívoco dessa estratégia.

Com a vitória de Lula, partes do Centrão já estão se articulando em torno dessas reeleições, mas é com esperança que vemos parlamentares eleitos pertencentes a essas legendas anunciando publicamente que não seguirão a orientação de seus caciques e apoiarão candidatos verdadeiramente oposicionistas. Quanto mais as velhas raposas da política nacional se agruparem em torno de Lula, Motta e Alcolumbre, mais precisam ser contestadas por aqueles deputados e senadores dispostos a honrar o voto recebido em 4 de outubro.

Os comandos das casas legislativas, com o consequente controle da pauta e a possibilidade de ações que enfim ponham freio aos abusos do STF, como o impeachment de ministros (no Senado) e a CPI do Abuso de Autoridade (na Câmara), são importantes, mas não suficientes. Um Congresso responsável pode promover as liberdades econômica e de expressão, e depois derrubar os quase certos vetos presidenciais a leis que contrariem o ideário petista. Pode resistir a tentativas governistas de impor a centralização e a censura por meio de projetos de lei. A bancada oposicionista tem número e qualidade para ao menos mitigar o estrago do plano petista para o Brasil.

A atuação legislativa, no entanto, é apenas parte da reação. Chegamos até aqui, em grande medida, pela covardia de quase todos aqueles que poderiam ter se oposto a tantos abusos ao longo dos últimos quase oito anos, mas se omitiram ou até aplaudiram esses abusos. Será precisamente a reação, ainda que tardia, dessas mesmas pessoas e dos que as substituíram em suas funções que nos levará a abreviar a tragédia autocrática brasileira. Se um número maior de cidadãos, de associações e entidades da sociedade civil, e de formadores de opinião tiverem despertado, adquirido maior consciência das disfunções que vivemos, e se revestido de mais coragem, surgirá daí o lado positivo que todo desastre – porque não hesitamos em chamar o resultado de 25 de outubro de “desastre” – carrega.

A enorme decepção que muitos brasileiros tiveram no último domingo não pode nos levar ao desânimo ou ao conformismo. Embora a vitória de Lula tenha, sim, deixado o Brasil mais perto de um ponto de não retorno, ainda há conserto para nossa autocracia construída em um conluio imoral entre PT e STF. Não será fácil, mas também não é impossível. Não há tempo a perder, e há muito trabalho a fazer; não podemos baixar a guarda. 


  Gazeta do Povo.



quarta-feira, 28 de outubro de 2026

 O "governo dos juízes" e a erosão das instituições.





 O alerta do ministro Edson Fachin sobre os excessos do Judiciário contrasta com a prática monocrática e o silêncio institucional do próprio STF.

Antes das eleições, o ministro Edson Fachin participou da abertura de um seminário na Universidade de Bolonha. Em seu discurso, afirmou que os tribunais traem sua missão ao substituir o debate político pela vontade dos magistrados. No entanto, no domingo eleitoral, o ministro Cristiano Zanin traiu essa mesma missão ao interferir diretamente no processo, prorrogando a votação por mais duas horas — uma atribuição exclusiva do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ultimamente, o Supremo tem assumido o papel de legislador e gestor público, intervindo em pautas políticas que cabem estritamente ao Congresso Nacional.

Em seguida, Fachin alertou sobre a erosão das instituições por "meios aparentemente legais", esquecendo-se do Inquérito das Fake News — no qual a própria Corte atua simultaneamente como vítima, investigadora, acusadora e julgadora. Afirmou, também, que a autoridade decorre da estrita fidelidade à Constituição e da fundamentação técnica. Contudo, como se observa, o STF continua a tomar decisões monocráticas de amplo alcance, por exemplo, sobre o processo eleitoral. Além do que censura perfis e veículos de comunicação, além de contornar garantias fundamentais e a imunidade parlamentar.

Apesar de reconhecer o risco do chamado "governo dos juízes", o próprio Fachin é parte ativa e responsável pela hipertrofia do Poder Judiciário. Frequentemente, vota alinhado a decisões extremas tomadas por seus pares — notadamente o ministro Alexandre de Moraes.  Adianta pouco o discurso para o público externo se, ao não exercer um contraponto firme contra os excessos do STF, o ministro confere legitimidade institucional às condutas que critica.

Diante de seus pares, a autocrítica nunca se transforma em freio institucional. Na prática, o Supremo continua a ultrapassar as prerrogativas dos poderes eleitos com o aval ou o silêncio de seus membros, que parecem concordar com atitudes expansionistas como a de Cristiano Zanin. Neste cenário, o alerta de Fachin permanecerá apenas como uma peça oratória, desconectada da realidade jurídica do país.

 

 Vicente Lino.



 

 O Brasil é Refém de um Sistema que Protege a   Impunidade




Quando o Brasil decente tenta acionar a lei para fiscalizar autoridades do topo do poder, depara-se com portas fechadas, relatórios engavetados e arquivamentos monocráticos. O resultado das eleições vai manter tudo como está. 

Se o Procurador-Geral da República decidir arquivar investigações, não há órgão de revisão; a questão se encerra na caneta de uma única pessoa. Da mesma forma, o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal exige o aval do Presidente do Senado, mesmo que a maioria dos senadores queira votar. O regimento permite que o presidente engavete o pedido sozinho. No STF, a situação piora. Não há recurso para os inquéritos nos quais a própria Corte investiga, acusa e condena.

 Depois, os privilégios; com autonomia orçamentária, as cúpulas do poder aprovam penduricalhos e aumentos por resoluções internas, contornando o teto constitucional. É um contraste perverso: para o cidadão comum, vigora o rigor inflexível da lei; para o grupo formado pela burocracia e pelos políticos, assegura-se uma rede sólida de proteção mútua. É uma ilusão esperar que um sistema desenhado para a autopreservação se reforme por iniciativa própria.

 Nenhuma elite abre mão voluntariamente de suas prerrogativas. Com o resultado das eleições de 25 de outubro e a continuidade dos mesmos atores e grupos no poder, consolida-se a certeza de que nada disso mudará espontaneamente.

 Pelo contrário: a manutenção do status quo eleitoral tende a aprofundar o travamento das pautas de fiscalização e o arrefecimento das investigações sobre os esquemas de corrupção. A blindagem e a proteção aos atos ilícitos só vão ceder quando o custo político se tornar insustentável. Se a sociedade não exercer pressão contínua e organizada sobre o Congresso Nacional para reformar o Judiciário e o Ministério Público, continuaremos reféns de um sistema construído apenas para a perpetuação no poder e o enriquecimento pessoal. 

Lá na frente, as consequências dessa paralisia institucional e da perpetuação da impunidade serão desastrosas para todo o povo brasileiro.

   Vicente Lino.



 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

 O abismo entre Brasília e a realidade brasileira.




Quando o ministro Edson Fachin centralizou os processos sobre o Banco Master e o INSS na Presidência da Corte, assistimos a uma verdadeira paralisia institucional. O ministro André Mendonça continua como relator, mas, como não dispõe das informações sobre as investigações da Polícia Federal, o resultado é a estagnação completa das ações.

Nada anda, está tudo parado, e o efeito visível dessa manobra administrativa foi a interrupção do andamento processual. Com o resultado das eleições, a pressão por transparência nas investigações será ainda mais arrefecida para não contrariar os interesses daqueles que operaram para este desastroso resultado. As decisões foram represadas e as medidas urgentes bloqueadas pela ausência dos autos com André Mendonça. Além disso, o pedido de vista do ministro Flávio Dino suspendeu a validação de relatórios e a avaliação sobre a extensão das investigações. 

Como se sabe, relatórios com menções a figuras centrais da República têm um poder devastador para influenciar a opinião pública e o equilíbrio da corrida eleitoral. De novo, o resultado das eleições permitirá que a retenção dos autos pelo ministro Fachin se perpetue sem a devida cobrança por celeridade. Esperava-se que o período pós-eleitoral restaurasse as prerrogativas da relatoria e interrompesse as manobras regimentais que impedem o andamento dos processos e colaboram com a impunidade, já bastante conhecida dos brasileiros. 

Com o resultado, a impunidade acabou fortalecida. A celeridade seletiva do Judiciário passa distante do Estado de Direito — e assim permanecerá. A sociedade brasileira já chegou ao limite da exaustão, mas ainda terá de suportar, por muito tempo, mais esse espetáculo de pseudossoluções jurídicas e malabarismos regimentais. Continuará existindo o abismo vergonhoso entre a elite encastelada em Brasília e o sofrimento do povo brasileiro. 

Prosseguirão ignorando a voz das ruas e perpetuando manobras protelatórias, escancarando uma Justiça que atende unicamente aos interesses do poder.


   Vicente Lino.