quinta-feira, 5 de novembro de 2026

 O Ajuste Fiscal  e a Dívida Pública.




Reportagem da Gazeta do Povo dá conta de que a base do governo pressiona Lula a rejeitar o ajuste fiscal destinado a conter o avanço da dívida pública e recuperar a confiança na economia do país. Os parlamentares defendem a manutenção dos gastos e chegam a propor a revogação do arcabouço fiscal, principal regra de controle das contas públicas. Não há quem não saiba que, quando os impostos recolhidos pelo governo são insuficientes para cobrir as despesas operacionais e os investimentos programados, o Estado se endivida, e o financiamento dessa dívida exige o pagamento de juros. 

O governo precisa compreender que o financiamento de dívidas elevadas impõe custos econômicos diretos, que afetam a competitividade e o bem-estar social. A situação se agrava porque, para atrair compradores para seus títulos, o governo compete pelos recursos disponíveis no mercado, o que encarece o crédito para empresas e famílias, desestimulando a produção e o consumo. Ainda assim, o ministro José Guimarães afirmou que um pacote de ajuste nas contas públicas não está em pauta: "Esse assunto não foi discutido, e nem está sendo discutido, muito menos aqui na bancada".

 O PT nunca se preocupou com o fato de que a expansão descontrolada dos gastos públicos enfraquece a economia e traz riscos institucionais graves. Nada de novo. Durante a campanha, fazem-se promessas impossíveis; depois, com a explosão da dívida, as promessas não são cumpridas, enquanto as alianças políticas se agarram à máquina estatal. Se a reação da oposição e da sociedade culminar em processos de impeachment ou em graves crises de governabilidade, o desfecho já é conhecido: poderá ocorrer a perda de poder político, mas não a da riqueza por parte das elites dirigentes — as quais, mesmo distantes do cargo, permanecem resguardadas dos impactos sofridos pela população mais vulnerável.

 Ao final de cada ciclo, o cenário institucional se reorganiza, reiniciando o processo sobre as mesmas bases. O povo, como sempre, paga a conta.

  Vicente Lino



 JUNTAR OS CACOS DO RESULTADO DAS ELEIÇÕES.

Lucas Berlanza.





Nossa expectativa era de que o Brasil não cometeria a estupidez, a imbecilidade, a delinquência, a atrocidade moral de manter Lula na Presidência da República, e, consequentemente, ele não teria o condão de indicar tantos nomes ao Supremo Tribunal Federal quanto terá agora. Em um governo Flávio Bolsonaro, seria possível fazer o mais do que justo impeachment do abusador de direitos humanos Alexandre de Moraes sem dar ao PT esse poder de indicar o seu substituto.

Infelizmente, o país abraçou a desgraça, e isso afeta o cálculo. Segundo matéria da Folha de S. Paulo, o PL ainda estuda o projeto de levar adiante esse impeachment. O partido gostaria, porém, de atenuar o poder lulista. Para isso, segundo a cientista política Lara Mesquita, estuda duas possibilidades. A primeira seria aceitar que Lula fizesse uma indicação, mas articular-se com o Centrão a fim de impor ao presidente um nome negociável, palatável a todas as forças políticas. A segunda seria fazer como se fez na Argentina: obstruir o nome indefinidamente, simplesmente deixando a cadeira do STF vazia.

Em primeiro lugar, reitero que, caso os senadores do PL realmente queiram fazer o trabalho para o qual foram eleitos, devem derrotar Davi Alcolumbre e eleger um nome próprio para a Presidência da casa. Se Alcolumbre realmente continuar como presidente, desistam - compremos pipoca (enquanto dá para pagar), pois estaremos restritos basicamente a assistir ao "Armagedon" que será este governo. Em segundo lugar, a quem interessar possa, meu voto é na segunda opção. Os senadores não deveriam acolher nenhum soldado que Lula indicasse ao STF - inclusive em relação às demais indicações, não apenas para a vaga que se abriria com a deposição de Moraes. Eles deveriam nos defender da tirania judiciária bloqueando qualquer soldado que o PT pretendesse travestir de toga, somente aceitando juristas dignos do cargo - que dificilmente serão os preferidos pelo sujeito que está no Planalto


Lucas Berlanza







 Custo e qualidade da educação brasileira.



O cenário pós-eleitoral e os rumos para onde o país caminha nos obrigam a encarar uma dura realidade: a falência da nossa educação. E não se engane: o problema não é falta de dinheiro, mas a crônica falta de eficiência. O Brasil gasta cerca de 4,4% do PIB em educação, patamar alinhado aos países da OCDE. 

No ensino superior público, gastamos mais de 15 mil dólares por aluno ao ano — valor equivalente à média internacional —, mas o resultado dessa conta não fecha. Apenas 24% dos jovens brasileiros possuem diploma universitário, menos da metade da média europeia. Nas últimas décadas, optou-se por uma expansão acelerada e desqualificada no setor privado e no ensino a distância. 

Hoje, o EAD amarga taxas de evasão acima de 40%. Em 2025, um quarto dos universitários abandonou a faculdade logo no primeiro ano — o dobro do índice europeu. Para piorar, no setor privado temos a absurda marca de 62 alunos por professor. Esse colapso transparece nos dados globais. No exame PISA, que mede a qualidade da educação mundo afora, o Brasil ocupa a 71ª posição em matemática entre 81 países, ficando bem atrás de vizinhos como Chile e Uruguai. 

A base é frágil, e o ensino superior tornou-se uma fábrica de diplomas sem valor real. Em vez de corrigir esses gargalos estruturais, os sindicatos preferem combater as escolas cívico-militares e proibir o ensino em casa — alternativas que funcionam melhor do que a rede pública. Esse fraco desempenho não é um acidente: é o reflexo de um projeto de ideologia corporativista.

 Ao priorizar a militância em vez do mérito, o Estado condena gerações ao analfabetismo funcional. Enquanto bilhões são queimados em uma máquina que produz evasão e mediocridade, a sociedade paga a conta com atraso, empobrecimento intelectual e até a perda da própria liberdade.

 Vicente Lino.



 

 

 

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

 A Crise Institucional Impede o Desenvolvimento.




O verdadeiro motor do desenvolvimento econômico e social não é apenas o capital ou a força de trabalho: é a confiança. Quando população e investidores acreditam nas regras do jogo, a economia prospera. Quando não há confiança o resultado é estagnação, paralisia e empobrecimento — o exato retrato do Brasil atual. 

Há décadas os brasileiros convivem com o descrédito no Executivo e no Legislativo, manchados por escândalos. O cenário tornou-se ainda mais crítico com o severo desgaste do Supremo Tribunal Federal (STF), que deveria ser o fiador máximo da segurança jurídica. Como guardião da Constituição, o STF tem o dever de assegurar a estabilidade das leis, o direito de propriedade e o cumprimento dos contratos. 

No entanto, decisões controversas, questionamentos sobre o respeito à Carta Magna e episódios recentes envolvendo figuras do sistema financeiro fragilizaram a Corte. A conduta inadequada e ilicitudes atribuídas a membros do Tribunal abalaram profundamente sua credibilidade. Essa crise generalizada nos três Poderes atua como um gargalo estrutural, mantendo o país refém do atraso e as consequências são diretas. 

A insegurança jurídica que afasta o capital estrangeiro e desestimula novos negócios. A dívida em alta e juros elevados que reduzem a capacidade de investimento do Estado. Apesar de nossas riquezas naturais, seguimos presos à miséria, à violência e ao baixo desenvolvimento humano porque nossas instituições falham em sua preservação moral e funcional.

 Para voltar a crescer de forma sustentável, é urgente restaurar a credibilidade dos Poderes e restabelecer o respeito às leis. O STF precisa retornar ao seu estrito papel constitucional, garantindo a imparcialidade. Somente resgatando a integridade institucional transformaremos a atual "sociedade da desconfiança" em um ambiente seguro para desenvolvimento do país.


Vicente Lino.



 

 

 

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

 Pela mentira ou pela força, legado da esquerda é caracterizar a oposição como traidores

Roberto Motta.


  

Todo eleitor da oposição – todos os que votaram contra a perpetuação da esquerda no poder – provavelmente tem um parente, ou vizinho ou colega de trabalho, que foi convencido de que eleitores de direita são extremistas..

Para a esquerda, a luta pelo poder não acaba quando os resultados da eleição são anunciados.

Após a eleição mais acirrada e confusa da história – um marco que, provavelmente, será superado pela próxima eleição – a marcha da insensatez segue acelerada.

A mídia está repleta de especulações tão absurdas sobre a viagem de Flávio Bolsonaro que são quase ofensivas. São palpites, sem base na realidade, apresentados como análises sofisticadas.

“Analistas” e jornalistas esqueceram o que aconteceu nos últimos tempos - o derretimento do devido processo legal, os atos populistas e ilegais do governo no período eleitoral, a campanha de mentiras e a decisão de um juiz (que deveria estar impedido) ampliando o horário de votação. Mas artigos publicados ontem, por dois dos maiores jornais americanos – The Wall Street Journal e The Washington Post – e pelo jornal alemão Welt lembraram tudo isso.

Sete minutos após o anúncio do resultado das eleições, a polícia política entrou em campo para confiscar o passaporte do perdedor. Quem considera isso democracia está cego pelo fanatismo.

Há intelectuais, artistas e jornalistas aplaudindo e fazendo julgamentos morais absolutos que ignoram o Estado de Direito e o devido processo legal. No Brasil de hoje, a punição antecede a investigação e o julgamento – mas só para a oposição e os dissidentes. A compreensão e a leniência são infinitas para o lado esquerdo. Para o direito, sobra a repressão.

A campanha da esquerda não foi apenas para vencer eleições, mas para caracterizar seus adversários como traidores que devem ser eliminados. A retórica continua sendo repetida

Mais uma vez, há quem enxergue justiça na perseguição porque já decidiu que o perseguido precisa ser culpado. A tentativa de manter a liberdade serve como evidência de crime.

“Se fugiu, é porque é culpado” – esse é o julgamento de intelectuais, analistas e jornalistas (vou economizar as aspas, mas elas sempre estão presentes nesses termos). Essa afirmação é parecida com o que a ativista de esquerda Ângela Davis, suposta defensora americana dos direitos civis, disse quando dissidentes soviéticos pediram sua ajuda para libertar presos políticos da União Soviética. Resumindo o cinismo e a falsidade criminosa da esquerda, ela disse: “Se foram presos, é porque têm culpa”.

Parece incrível – mas é isso que alguns jornalistas e analistas estão escrevendo.

A campanha da esquerda não foi apenas para vencer a eleição, mas para caracterizar seus adversários como traidores que devem ser eliminados. A retórica continua sendo repetida. E a tragédia é que essas ideias foram absorvidas por milhões de pessoas.

Todo eleitor da oposição – todos os que votaram contra a perpetuação da esquerda no poder – provavelmente tem um parente, ou vizinho ou colega de trabalho, que foi convencido de que eleitores de direita são extremistas perigosos que, se for preciso, devem ser monitorados, presos ou coisa pior.

 Para evitar a ditadura imaginária, experimente mentira sabor democracia

Quando a vitória do PT na eleição foi anunciada, moradores do meu prédio e de edifícios vizinhos foram berrar nas janelas – mas não para dar vivas ao socialismo ou saudar a “justiça social” – eles foram gritar pedindo a prisão dos milicianos e golpistas.

 O germe do ódio, inoculado desde a infância por professores ativistas (da creche ao pós-doutorado), inflamado pela mídia e levado ao paroxismo pelo líder da esquerda e seu “general” – que aplicou a mentira em escala industrial – corrói agora o tecido social e transforma colegas de trabalho, vizinhos e parentes em dedos-duros do regime.

Por isso, em muitas casas, nesse Natal não haverá famílias reunidas. De vermelho, nesses lares, só o papai Noel.

  Roberto Motta

Autor dos livros: “Ou Ficar A Pátria Livre”, “Jogando Para Ganhar: Teoria E Prática da Guerra Política”, “Os Inocentes do Leblon” e "A Construção da Maldade: Como Ocorreu a Destruição da Segurança Pública Brasileira".


 

domingo, 1 de novembro de 2026

  “Queridas Klaras”: a direita que normaliza o     exílio do perdedor

   Flávio Gordon



 “Entre nós, não há uma diferença de opinião, como você pretende fingir, mas assassinato, roubo, pilhagem. ” (Eric Voegelin, em carta à irmã Klara Hartl, de 16 de agosto de 1939)

“Supõe-se que os vencedores políticos sejam benevolentes com os vencidos, mas no Brasil, eles processam os perdedores. ” A frase não saiu de nenhum canal brasileiro de direita. Ela abre o editorial do Wall Street Journal de 28 de outubro, cujo restante do texto é ainda menos diplomático.

Ainda está bem fresco na memória o desenrolar de acontecimentos do fatídico dia 25 de outubro de 2026, o dia da venezuelização definitiva do Brasil. Mal se fechou a apuração, o tirano Alexandre de Moraes, atendendo à Polícia Federal, mandou recolher os passaportes de Flávio Bolsonaro, o candidato derrotado. Na noite de terça-feira, Flávio cruzou a fronteira argentina por Puerto Iguazú com a mulher e as duas filhas. Um jato particular, com escala em Guayaquil, levou a família a Miami, onde desembarcou na quarta. Investigado, ele não foi acusado de crime algum. Há apenas, lembra o jornal norte-americano de maior circulação impressa no país, a promessa que Lula lhe fez num debate da Band, uma semana antes do segundo turno, de que, perdida a imunidade parlamentar, enfrentaria todo tipo de investigação. “Lula escolheu o homem e prometeu descobrir o crime” – sentencia o jornal americano.

Eis o acontecimento central da assim chamada eleição brasileira. Não o placar, mas o exílio.

O exílio de Flávio é a forma visível de uma exclusão que atinge, de modo invisível, os cerca de 60 milhões de brasileiros que votaram nele

Os atenienses inventaram uma instituição curiosa para afastar da cidade quem parecesse perigoso demais. Uma vez por ano, a assembleia podia votar o ostracismo de um cidadão, que deixava Atenas por dez anos sem perder bens nem honra. Era a demos deliberando sobre um indivíduo. O Brasil inverteu a fórmula. Aqui é o poder que delibera sobre a demos, e o que se expulsa já não é um homem, mas metade dela. O exílio de Flávio é a forma visível de uma exclusão que atinge, de modo invisível, os cerca de 60 milhões de brasileiros que votaram nele, cidadãos a quem a cidadania política vem sendo recusada. Sua participação passou a ser tratada como crime desde o 8 de janeiro. Seu voto, agora se sabe, não muda nada. E nem é preciso discutir as urnas, porque a fraude é impossível de provar num sistema que, por natureza, não se deixa auditar. Basta o que todos viram à luz do dia: a máquina do Estado inteira posta a serviço de um candidato, e um candidato vencido posto em fuga horas depois.

A analista política e professora de Filosofia Bruna Torlay deu a esse estado de coisas um nome exato. Vivemos, disse ela, uma “guerra civil psicológica”. Como estamos todos desarmados (exceto, por óbvio, os criminosos que integram os grupos narcoterroristas locais, aliás protegidos pelo regime), a guerra não se trava com fuzis, mas “no campo da destruição do valor do outro enquanto cidadão”. É o vizinho que já não cumprimenta, o grupo de família emudecido por prudência, o colega convertido em delator em potencial. A situação é trágica no sentido grego e original do termo, porque não oferece saída indolor. Num regime de força, lembra Bruna, quem perdeu a condição de membro da cidade só pode escolher entre o exílio, o silêncio e a revolta, e todos cobram um preço.

A Europa dos anos 1930 conheceu essa exclusão em seus pormenores mais domésticos. Em 1938, depois da anexação da Áustria, o filósofo Eric Voegelin foi demitido da Universidade de Viena e escapou por pouco da polícia política, rumo à Suíça e depois aos Estados Unidos. Já na América, recebeu uma carta da irmã, Klara. A resposta do filósofo deve ser lida e meditada pelos brasileiros de hoje:

“Querida Klara, é muito gentil de sua parte ter querido me escrever, mas poupe-me de seus truques nazistas. Deveria saber que não sou estúpido para cair neles. Entre nós, não há uma diferença de opinião, como você pretende fingir, mas assassinato, roubo, pilhagem. Não aja como se fosse decente demais para mencionar essas coisas. Eis um truque nazista manjado. Evitam-se assuntos desagradáveis, mas roubam-se das pessoas até a sua última peça de roupa, e se as espancam até a morte caso não cedam de bom grado (…)”

“Você nega que essa desgraça de pai exiba uma foto do bando de delinquentes-em-marrom [referência aos membros das SA nazistas] sobre a sua mesa, e que tenha ficado tolamente satisfeito ao ver o seu filho ser roubado por eles? ”

O pai que, cego de ideologia e com o cérebro lavado por propaganda, não se perturba ao ver o filho espoliado é a imagem acabada da guerra civil psicológica. O inimigo não está do outro lado da fronteira, mas na sala de jantar. Klara queria tratar o exílio do irmão como divergência entre pessoas razoáveis, assunto a evitar no almoço de domingo. Voegelin recusou o disfarce. Quando um lado prende, cala e expulsa o outro, não há diferença de opinião. Há vítimas e há cúmplices. É nesse ponto que se encontram hoje incontáveis famílias brasileiras, divididas não por uma discordância sobre impostos ou programas de governo, mas pela dúvida de saber se o amigo, o vizinho ou mesmo o parente do outro lado da mesa ainda as reconhece como concidadãs.

Diante de uma ruptura dessa ordem, não há posição neutra. A quem não integra o regime restam dois caminhos, a resistência ou o colaboracionismo. Parte da direita partidária brasileira parece não ter percebido sequer que a escolha está posta. Donald Trump chamou a eleição de “uma vergonha” e de “um grande constrangimento para o povo do Brasil”. Já o medíocre cacique partidário Valdemar Costa Neto, que reconheceu o resultado de pronto e com ele oficialmente o PL, reservou a sua indignação para outro alvo. Quando Flávio, já no exílio, publicou uma carta denunciando a perseguição, o presidente do partido pelo qual ele concorreu disse “Não gostei” e garantiu que “ninguém aprovou”. Quanto a Tarcísio de Freitas, governador recém-reeleito em São Paulo, seu discurso é de “pacificação” (com os algozes de seu eleitorado) e de pré-campanha, anunciando a sua predisposição a concorrer à Presidência em 2030.

Os líderes da dita oposição agem como o filho que discute a herança no velório do pai. O corpo nem esfriou, e já se fala no espólio

Em suma, os líderes da dita oposição vestiram o figurino de campanha para o próximo ciclo, como se vivêssemos em plena normalidade democrática e o candidato que acabaram de apoiar não estivesse em Miami fugindo da cadeia. Agem como o filho que discute a herança no velório do pai. O corpo nem esfriou, e já se fala no espólio. Enquanto isso, 60 milhões de brasileiros ficam órfãos de representação. Diga-se, por justiça, que o Novo parece ser o único partido a firmar posição na contestação do resultado eleitoral.

A cena ganha contornos ainda mais estranhos quando se considera de onde veio o socorro a Flávio. Segundo o New York Times, foi Trump quem determinou pessoalmente a autorização especial de entrada de Flávio, e um assessor da Casa Branca providenciou o jato. “Demos a ele um passe para entrar no país, então veremos”, confirmou o presidente americano. Um candidato presidencial brasileiro só conseguiu escapar do cerco com o amparo de Washington, o que faz dele um exilado político sob proteção americana. Poucos fatos poderiam lançar suspeita mais grave sobre a eleição e sobre o estatuto internacional do Descondenado-em-chefe, que vai assumindo, aos olhos do mundo, os traços de um novo Nicolás Maduro.

O consultor francês Jacob Safar, ouvido por esta Gazeta, resumiu a semelhança com precisão: “O Brasil não é a Venezuela, mas o mecanismo de captura das instituições é comparável”. Pois diante disso há à direita quem se escandalize com a “interferência estrangeira”. Seria como um judeu que, no Dia D, atirasse pedras nos soldados aliados nas praias da Normandia, a pretexto de que os europeus é que deveriam cuidar da própria vida e os yankees não tinham nada que se meter em assuntos da Europa ocupada pelo nazismo. Valdemar e Tarcísio parecem agir como esse judeu imaginário, com a diferença de que não arriscam prioritariamente as próprias vidas e liberdades, mas sobretudo a dos 60 milhões de cidadãos que lhes caberia representar.

 “Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino, raciocinava como menino. Quando cheguei a ser homem, deixei as coisas de menino. ” A lição de São Paulo (Coríntios 13,11) parece não ter chegado à direita partidária brasileira, que segue raciocinando como menino diante de um drama de gente grande. Benjamin Constant, o liberal suíço e não o positivista brasileiro, explicou o motivo há dois séculos, no seu Curso de Política Constitucional: “Os homens de partido, por mais puras que sejam suas intenções, sempre se recusam a limitar a soberania. Consideram-se seus herdeiros e tratam de cuidar, mesmo na mão dos inimigos, de sua propriedade futura”.

Eis o infantilismo de quem, confundindo política com eleição, aguarda a sua vez de operar a máquina do adversário, sem perceber que ela foi construída para excluir da cidade metade dos seus concidadãos. Bertrand de Jouvenel chamou a isso de “cumplicidade geral na expansão do Poder”. O editorial do Journal chamou pelo nome mais simples. Países que passam da liberdade à autocracia seguem um caminho conhecido: “um demagogo vence nas urnas, toma o controle do Judiciário e prende seus inimigos”.

A direita partidária se prepara para 2030 como quem aguarda a vez numa fila. Esquece que é o regime quem organiza a fila, e que 60 milhões de brasileiros já foram retirados dela.

 Flavio Gordon.



 Cautelares e blindagens na Justiça     brasileira.

 Vicente Lino.





Um único dia após o resultado das eleições foi o bastante para o ministro Alexandre de Moraes determinar o cancelamento do passaporte de Flávio Bolsonaro. Em sua avaliação, haveria risco de fuga caso ele perdesse o pleito. Flávio é investigado em inquéritos no Supremo Tribunal Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo movimentações financeiras. Ele viajou para os Estados Unidos, onde hoje se encontra sob a guarda do governo norte-americano para evitar a prisão no Brasil e escapar de ter o mesmo destino de seu pai. 

Diante dessa rapidez e rigidez, fica difícil compreender por que outras autoridades envolvidas em graves suspeitas de corrupção não sofrem as mesmas medidas cautelares. Relatórios da Polícia Federal confirmaram que o contrato de R$ 131 milhões, firmado entre o Banco Master e a banca de advogados pertencente à esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, trazia em seus metadados alterações salvas a partir do usuário "Ministro Alexandre de Moraes".

 E há mais: nas trocas de mensagens divulgadas pela apuração, Daniel Vorcaro enviava perguntas sobre o andamento dos procedimentos de liquidação do banco e questionava o magistrado, às vésperas de sua prisão, se "precisaria sair do país".  Ainda assim, nada disso bastou para que, ao menos, se iniciasse uma investigação formal contra Alexandre de Moraes. O rito é conhecido: a Procuradoria-Geral da República (PGR) analisa os fatos e, se entender haver indícios de crime, solicita ao STF a abertura de inquérito, com pedidos de busca e apreensão, quebras de sigilo e bloqueio de bens. 

Ocorre que a abertura da investigação e a adoção de eventuais cautelares dependem do plenário do próprio Supremo, onde atua o próprio ministro. Conclusão: enquanto Flávio Bolsonaro responde a inquéritos e tenta se defender no exterior sob a constante ameaça de cautelares e prisão preventiva, Alexandre de Moraes permanece intocado. 

Blindado por seus pares e respaldado pelo posicionamento da Procuradoria, o ministro fica livre para usufruir dos contratos milionários de sua família e de recursos futuros sem qualquer constrangimento legal. É onde estamos!


Vicente Lino.