Lula ataca “interferência externa”, mas sempre abraçou seus “companheiros” lá fora
José Fucs
Lula não poupou apoios a nomes da esquerda, de Joe Biden aos
ditadores venezuelanos Hugo Chávez e Nicolás Maduro.
Com a campanha eleitoral ganhando tração, o presidente Lula
mostra mais uma vez que, para ele e o PT, as eleições não passam de um grande
teatro para a propagação das narrativas criadas pelo Planalto e pelo partido.
Afinal, como disse a ex-presidente Dilma Rousseff, eles podem “fazer o diabo”
para obter a vitória nas urnas.
Diante do apoio de líderes internacionais ao senador Flávio
Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, como os presidentes Donald Trump,
dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, além do primeiro-ministro de
Israel, Benjamin Netanyahu, a narrativa da hora é posar de vítima de uma
suposta interferência externa, que estaria ocorrendo ou que poderá ocorrer no
pleito de outubro, em benefício da oposição.
Em meados de junho, no encerramento da reunião do G-7 na
França, Lula já havia mandado um recado a Trump para que ele “não se meta nas
eleições no Brasil”. Agora, aproveitando a presença de Milei na convenção que
oficializou a candidatura de Flávio e a decisão do Itamaraty de negar vistos a
dois funcionários do governo americano que queriam se reunir com autoridades
eleitorais no país, ele retomou a ladainha, com o jeitinho “carinhoso” que
encarnou após abandonar o papel do “Lulinha paz e amor”, encenado no passado
recente.
“Quem quiser de fora se meter nas eleições brasileiras, já
vou avisando logo, vão apanhar (sic) muito aqui. Quem vai decidir o destino
desse país são 157 milhões de eleitores”, declarou Lula no evento de lançamento
da candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo, no sábado, 25 de
julho.
Forças alienígenas
Como é característico de sua atuação política e do PT, de
querer reescrever a história com suas narrativas, o presidente fala como se o
recebimento de apoio externo por um candidato à Presidência representasse uma
tentativa espúria de intervenção de forças alienígenas no pleito. Fala também
como se ele mesmo e o PT não tivessem apoiado ao longo do tempo, de todas as
formas possíveis, candidatos da esquerda em vários países da América Latina.
Em 2022, segundo denúncias realizadas em depoimento na
Câmara dos Deputados por Mike Benz, ex-funcionário do Departamento de Estado
dos EUA, houve forte interferência do governo democrata de Joe Biden nas
eleições brasileiras. De acordo com Benz, a intervenção ocorreu por meio da
Usaid (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional), da CIA (agência
de inteligência americana) e de outras organizações, para favorecer Lula e
prejudicar o ex-presidente Jair Bolsonaro no pleito.
Biden apoiou, conforme Benz, a construção de uma rede de
censura contra vozes conservadoras e de direita, disfarçada de “combate à
desinformação”, e aumentando de forma considerável a injeção de recursos nas
chamadas agências de checagem, em sindicatos, universidades e até em grupos de
comunicação, para dar suporte ao STF e ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) na
remoção de conteúdo das redes sociais.
Em 2025, em evento empresarial realizado em Nova York, o
próprio ex-presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE Luís Roberto
Barroso admitiu que o governo Biden teve participação ativa nas eleições de
2022 no Brasil, em defesa, segundo ele, da manutenção do regime democrático.
“Tivemos um decisivo apoio dos Estados Unidos à
institucionalidade e à democracia brasileira em momentos de sobressalto”, disse
Barroso na ocasião. “Eu mesmo, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral,
estive com o encarregado de negócios americanos muitas vezes. Mas, em três
vezes, pedi declarações dos Estados Unidos de apoio à democracia brasileira,
uma delas do próprio Departamento de Estado. Acho que isso teve algum papel,
porque os militares brasileiros não gostam de se indispor com os Estados
Unidos, porque é aqui que obtêm os seus cursos e os seus equipamentos.”
Marqueteiros do PT
Além do apoio recebido de Biden, ao ser alçado a “arauto da
democracia” no país, em oposição ao suposto risco representado pelo
ex-presidente Jair Bolsonaro e seu grupo político, Lula sabe bem o que é
“interferir” na campanha eleitoral dos outros para beneficiar a
“companheirada”. Não só de forma direta, mas também por meio da máquina do PT e
do apoio de marqueteiros ligados a ele e ao partido.
Entre 2003 e 2014, João Santana, principal marqueteiro do PT
na época, atuou em campanhas de esquerda por toda a América Latina – na
Argentina, na Venezuela, no Peru, na República Dominicana e em El Salvador.
Como revelaram depois as investigações da Lava Jato, parte do financiamento das
operações internacionais de Santana veio da Odebrecht, que realizava obras de
infraestrutura na região financiadas pelo BNDES e custeava parte de seu
trabalho, realizado em parceria com sua mulher Mônica Moura, presos em 2016 por
receber recursos por meio de uma offshore ligada à empreiteira.
Na Argentina, nas eleições de dezembro de 2023, quando as
coisas pareciam difíceis para o candidato peronista Sergio Massa, Lula enviou
os marqueteiros do PT para tentar ajudá-lo a vencer Milei – sem sucesso, como
se viu depois. Integrantes do governo brasileiro e lideranças do PT também
fizeram sucessivas declarações de que a vitória de Milei seria um “risco para o
Mercosul”, usando a estrutura do governo federal brasileiro como ferramenta de
pressão na campanha argentina.
Em maio daquele ano, Lula já havia recebido Massa e o então
presidente da Argentina, Alberto Fernández, em Brasília. Na época, assumiu o
compromisso de buscar uma solução financeira para reforçar as reservas internacionais
do país, com a liberação de um financiamento bilionário do Banco do Brics, já
sob a presidência de Dilma. No fim, o “papagaio” não saiu, porque era algo que
nem estava previsto no estatuto do banco, e Lula buscou outras opções para
tentar evitar a vitória de Milei.
No auge da campanha, em agosto de 2023, a então ministra do
Planejamento, Simone Tebet, deu seu aval a um empréstimo de US$ 1 bilhão do CAF
(Banco de Desenvolvimento da América Latina), apesar de a Argentina já ter
atingido seu limite de crédito. Na ocaisão, Lula foi acusado de ter pressionado
Tebet a autorizar o negócio, viabilizado com garantias do Tesouro Nacional e
anunciado numa entrevista coletiva conjunta entre Massa e Haddad, então
ministro da Fazenda, embora oficialmente o governo tenha alegado que o
empréstimo tinha embasamento técnico, para “ajudar a Argentina a enfrentar a
escassez de reservas”.
Socialismo bolivariano
O mesmo Lula que hoje se coloca como vítima da
“interferência externa” no Brasil também utilizou a estrutura do governo para
influenciar o FMI (Fundo Monetário Internacional) a liberar um empréstimo de
US$ 7,5 bilhões aos “hermanos”, além de ter anunciado, em visita oficial à
Argentina, que o BNDES financiaria a construção do gasoduto de Vaca Morta, cuja
operação plena deve garantir a autossuficiência energética ao país.
Como a Argentina, a Venezuela é um caso emblemático da
“interferência” de Lula e do PT em eleições latino-americanas para ajudar
candidatos da esquerda. Na reta final da eleição presidencial de 2012, Lula
gravou um vídeo para a campanha na TV de Hugo Chávez, morto em 2013, criador do
famigerado “socialismo bolivariano”.
“Chávez, conte comigo. Conte conosco, do PT. Conte com a
solidariedade e o apoio de cada militante de esquerda, de cada democrata e de
cada latino-americano. Sua vitória será a nossa vitória”, dizia Lula. “Sob a
liderança de Chávez, o povo venezuelano teve conquistas extraordinárias. As
classes populares nunca foram tratadas com tanto respeito, carinho e dignidade.
”
Na eleição presidencial de 2013, após a morte de Chávez,
Lula repetiu a dose ao gravar um vídeo apoiando explicitamente a candidatura de
Nicolás Maduro, seu sucessor. “Maduro tem a mesma visão de mundo de Chávez e
foi uma das figuras centrais na construção da nova Venezuela”, afirmava Lula na
gravação. “Chávez e Maduro tinham exatamente as mesmas ideias sobre os desafios
da América Latina. Maduro presidente é a Venezuela que Chávez sonhou. ”
“Briga normal”
Mais recentemente, em 2024, em meio às denúncias de fraudes
perpetradas por Maduro nas eleições presidenciais, Lula jogou parado, para
favorecer o ditador venezuelano. Na prática, ele nada fez para pressionar
Maduro a apresentar as atas eleitorais que lhe conferiram a vitória
oficialmente, evitando classificar abertamente o país como uma ditadura ou
aplicar sanções contra o regime.
Na Bolívia, em 2014, na campanha para o 3º mandato do então
presidente Evo Morales, Lula discursou ao seu lado em Santa Cruz de la Sierra,
elogiando o modelo social boliviano e falando que sua continuidade no governo
era fundamental para a “integração da América Latina”. Em 2005, duas semanas
antes das eleições, Lula já havia declarado que a vitória de Evo seria
“extraordinária” e comparou seu impacto à eleição de Hugo Chávez na Venezuela.
Jose Fucs












