O começo do fim do inquérito das
“fake news”
Gazeta do Povo.
Um passo obrigatório para a
normalização democrática do Brasil é o fim do inquérito das fake news, a
abusiva investigação iniciada em 2019 por decisão do então presidente do STF,
Dias Toffoli, sem provocação do Ministério Público, usando uma interpretação
torta do Regimento Interno da corte, e entregue sem sorteio a Alexandre de
Moraes. O inquérito já vinha causando mal-estar entre ministros havia algum
tempo: em 2022, André Mendonça pediu ao então presidente da corte, Luiz Fux,
que encerrasse a investigação; no fim de 2024, quando presidia o Supremo, Luís
Roberto Barroso disse que ela estaria encerrada em 2025. Nada aconteceu.
O sucessor de Barroso, Edson
Fachin, listou recentemente o encerramento do inquérito como uma de suas
prioridades, e chegou a receber uma indireta de outro ministro do STF por isso.
Mas Fachin não ficou apenas nas palavras: na quarta-feira, ele tirou Alexandre
de Moraes da relatoria e assumiu o comando do inquérito, deixando Moraes apenas
à frente das ações penais que já tiveram denúncia recebida. É um primeiro passo
para que, enfim, a aberração jurídica que está na raiz da nossa atual
juristocracia deixe de pender como uma espada de Dâmocles sobre qualquer
brasileiro que critique publicamente a suprema corte.
Dois dias depois de classificar o
fim do inquérito das fake news como uma das “três metas urgentes” de sua gestão
à frente do STF, Fachin foi alvo de uma indireta nada sutil de Flávio Dino, um
dos aliados incondicionais de Moraes dentro do STF. “É possível a um julgador, qualquer
que seja ele, ‘prometer’ o final de um inquérito, como se fosse um candidato ou
para receber aplausos?”, perguntou Dino em seus perfis de mídias sociais, em
uma referência óbvia. Evidentemente, Fachin não é candidato a nada, e tampouco
precisa dos aplausos. Precisa apenas fazer a coisa certa, como fez ao dar o
primeiro passo concreto para encerrar de vez o inquérito das fake news, tirando
Moraes da relatoria.
O inquérito das fake news precisa
acabar não por causa de sua longevidade, mas principalmente porque ele é um
instrumento ditatorial que só produziu arbítrio
Dino ainda tentou posar de
paladino da institucionalidade e fomentador do debate jurídico. “Pessoalmente
sou a favor da conclusão dos inquéritos, até porque eles foram feitos para
terminar mesmo, mediante a propositura das ações penais ou dos arquivamentos
cabíveis”, continuou, na mesma mensagem que ironizava a promessa de Fachin. E
questionou: “um inquérito deve ser arquivado por motivo de tramitação longa? E
quem decide o que é ‘tramitação longa’? Opiniões pessoais? Ou critérios legais
e regimentais?” As respostas estão bem diante dele, ainda que ele não queira
ver.
Há investigações que de fato se
prolongam no tempo de forma justificada: a Lava Jato, por exemplo, era um caso
em que, como diz a sabedoria popular, a cada enxadada da força-tarefa surgia
uma minhoca nova; ela terminou não porque já não houvesse o que investigar, mas
porque o então procurador-geral Augusto Aras quis acabar com a operação. Já o
inquérito das fake news, para começo de conversa, jamais deveria ter sido
aberto, e não demorou nada para que se revelasse em todo o seu autoritarismo:
era um inquérito-coringa onde cabia absolutamente tudo que Moraes quisesse
incluir nele; repetindo a comparação que fizemos dias atrás, quando o relator
pediu até a inclusão de seu colega André Mendonça no inquérito, ele era a Casa
Verde em que Moraes, o Simão Bacamarte do direito, internava todos os que
considerava “ameaças à democracia”, sem ver que a real ameaça à democracia era
ele mesmo. O inquérito das fake news precisa acabar não por causa de sua
longevidade, mas principalmente porque ele é um instrumento ditatorial que só
produziu arbítrio, pelas mãos de um único homem que acumulou ilegalmente as
funções de vítima, investigador, acusador e julgador.
Ao longo desses quase sete anos e
meio, o inquérito e seus filhotes, como as investigações dos “atos
antidemocráticos” e das “milícias digitais”, resultaram apenas em frutos
podres: censura de veículos de comunicação; abolição da imunidade parlamentar;
criminalização da crítica legítima a autoridades; criação de “crimes de
opinião” e até “crimes de cogitação”; censura prévia inconstitucional a sabe-se
lá quantos perfis – pois até hoje não sabemos quantas vozes o STF calou –; e o
bloqueio de uma rede social inteira, com direito à invenção de uma “obrigação
de não fazer” sem lei que a determinasse, no caso do uso de VPNs. Inúmeros
brasileiros perderam sua voz na arena pública e, em alguns casos, até os meios
de subsistência, já que tiravam seu sustento de sua presença on-line. E quase
tudo isso sob um sigilo inexplicável e abusivo, a ponto de muitas pessoas mal
saberem pelo que eram investigadas.
Nunca foi “pela democracia”. À
base de negritos, exclamações e mantras repetidos decisão após decisão, Moraes
ergueu um regime de exceção, com a cumplicidade (ou pelo menos com a omissão)
de colegas de corte, de parte da classe política e de formadores de opinião
incapazes – seja por um preocupante déficit democrático, seja por cegueira
político-ideológica – de perceber o paradoxo existente em uma “salvação da
democracia” conduzida por meios tão antidemocráticos quanto a abolição de
liberdades e garantias individuais. Que o mea culpa dos que exaltaram Moraes
não leve outros sete anos e meio.
Se Fachin de fato colocar um fim
no inquérito das fake news, só não poderemos falar em “página virada” porque
não há como devolver aos brasileiros vítimas do arbítrio de Moraes tudo o que
elas perderam com censuras, desmonetizações, cassações as mais diversas (de
passaportes a mandatos) e outras medidas abusivas. Algum tipo de reparação,
quando possível, será extremamente bem-vinda, pois não basta que Moraes caia –
e motivos para isso não faltam –; será preciso, também, desfazer o seu legado.