OS ARGUMENTOS DA Dra. VANESSA RIBEIRO.
Com certeza o Estadão faz isso de propósito. Publica esses artigos escritos por juízes para expor o seu alheamento da realidade. Como disse um amigo meu, esse artigo é a prova provada de que Nárnia existe.
A dra. Vanessa Ribeiro Mateus, autora desse libelo pelo
direito aos privilégios da catchiguria, expõe basicamente duas razões pelas
quais os salários da magistratura são justos. Justíssimos.
A primeira se refere à importância do juiz para a vida dos
brasileiros. Afinal, o cargo envolve muita responsabilidade, pois se trata de
decidir sobre o “futuro das pessoas”. Fico imaginando o que pensam, quando leem
algo assim, os professores e médicos do serviço público, que ganham uma fração
do que recebem os juízes. Talvez seus cargos envolvam responsabilidade menor.
Ainda nessa linha, a juíza afirma que os juízes assumem risco
para as próprias vidas ao lidarem com o crime organizado (como se essa fosse a
função dos 18 mil juízes do país). Também fico imaginando o que pensam, ao
lerem isso, os policiais que realmente arriscam suas vidas, e ganham muitas
vezes menos que a juíza.
A segunda razão é uma suposta falta de juízes no Brasil, o
que seria uma prova de que a remuneração ainda não é suficiente, precisam de
mais dinheiro. Mas a juíza usa um truque: as filas dos concursos estão cheias,
mas 18% das vagas de juízes não estão preenchidas. Essas vagas, a juíza mesmo
reconhece, se referem a lugares remotos do país. Claro. Os juízes são muito
sacrificados, mas mudar para lugares onde não poderão gastar os seus polpudos salários
em bons restaurantes com vinhos caros, aí já é sacrifício demais. Além disso,
os juízes arriscam suas vidas, mas não ao ponto de ocuparem comarcas em que a
lei da bala ainda prevalece. Vamos ser razoáveis, não é mesmo?
A articulista afirma, sem indicar a fonte, que “muitos juízes
estão deixando o serviço público para obterem maiores ganhos na iniciativa
privada”. Está aí uma pauta para o Globo Repórter: quem são esses juízes? Onde
vivem? Do que se alimentam? Como se reproduzem?
Mas tudo isso é previsível, sem novidades. O que realmente
chamou-me a atenção foi o parágrafo em que a juíza critica o editorial do
Estadão na parte em que o editorialista afirma que as corporações do judiciário
são corruptas. Anexei o editorial também, para que vocês possam fazer a sua
própria interpretação. Entendo que o editorial claramente referiu-se à
corrupção dos valores republicanos, na medida em que corporações do serviço
público se apropriam, sem controle externo, de fatias do orçamento que é de
todos. Mas a juíza entende a palavra “corrupção” ao pé da letra, exigindo do
jornal a “nomeação dos envolvidos” e a “descrição das situações”. Se esse é o
nível de interpretação de textos dos nossos magistrados, estamos bem arrumados.
O resto do artigo é só uma tentativa de defesa de cada um dos
penduricalhos, todos eles muito justos e corretos segundo a juíza, que recebeu,
neste primeiro trimestre do ano da graça de 2026, a bagetela de R$ 378.487, uma
média de R$ 126.166 por mês. Isso já líquido de impostos, limpinho no bolso.
Essa é a informação relevante para entender o artigo
Marcelo Gutermann













