Corporativismo do STF e influência sobre PF e PGR travam
investigações contra ministros - Aline
Rechmann

Desde o fim do ano passado, o caso do Banco Master deixou de
ser apenas um escândalo financeiro para se transformar em uma crise inédita de
credibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF). Com isso, as ligações
suspeitas de ministros com o banqueiro Daniel Vorcaro reacenderam o debate
sobre a possibilidade e a viabilidade de eles serem investigados criminalmente.
Há, no entanto, um problema: caberia ao próprio STF
autorizar e supervisionar a investigação – o que, para observadores, é um
obstáculo que, hoje, praticamente impede a apuração e eventual
responsabilização por crimes que possam ter cometido. O corporativismo interno
e a influência que os ministros acumularam nos últimos anos sobre órgãos
centrais para a investigação – Polícia Federal e Procuradoria-Geral da
República – torna um inquérito praticamente impossível, hoje, na visão de
analistas.
Assim como parlamentares federais e ministros de governo, os
integrantes do STF gozam de foro privilegiado. Significa que somente o próprio
tribunal pode abrir inquérito, processar e julgar os ministros por crimes
comuns (como corrupção, tráfico de influência e prevaricação). Em suma, o caso
começa e termina na Corte.
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo afirmam que, embora
haja a previsão legal de investigações e processos contra ministros, na
prática, ocorre um bloqueio institucional que impede a Polícia Federal, por exemplo,
de investigar ministros do STF.
À medida que as investigações em torno do caso do Banco
Master avançaram e reportagens revelaram detalhes sobre contratos, decisões
judiciais, manifestações públicas e vínculos indiretos com personagens centrais
do escândalo, ao menos três ministros da Corte passaram a ter seus nomes
associados ao caso: Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
Diante do acúmulo de episódios, cresceu a pressão para que,
em especial, o ministro Toffoli, que é relator do caso no STF, se afastasse,
devolvesse o processo à primeira instância ou submetesse suas decisões a maior
escrutínio institucional. O debate elevou o custo político da condução do caso
Banco Master e reforçaram a imagem de blindagem do tribunal.
Nas últimas semanas, o procurador-geral da República, Paulo
Gonet – nomeado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva por influência direta
de Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, principalmente – tem recusado pedidos
de parlamentares para investigar Toffoli e Moraes no caso.
Para contornar a crise de imagem, o presidente do STF, Edson
Fachin, tem trabalhado nos bastidores para criar um código de ética. Esse tipo
de norma não teria qualquer eficácia para abrir investigações contra os
ministros; ainda assim, Gilmar, Alexandre e Toffoli são os maiores opositores
da proposta.
O contexto de suposto envolvimento de ministros do STF com o
caso do Banco Master desperta questionamentos sobre a possibilidade, ou não, de
a Polícia Federal (PF) investigar os integrantes da Corte. Especialistas em
direito constitucional ouvidos pela Gazeta do Povo afirmam que eles podem, em
tese, ser investigados e responsabilizados, mas destacam que o modelo
institucional brasileiro impõe filtros rigorosos que tornam raros os casos que
avançam para apuração formal.
De acordo com o professor e advogado Georges Humbert, não
existe na lei a “intocabilidade” absoluta dos ministros da Corte, mas a
Constituição estabelece um procedimento especial em razão do foro por
prerrogativa de função. Nesse modelo, crimes comuns — como corrupção, lavagem
de dinheiro ou outros delitos penais — são julgados pelo próprio STF. Já os
crimes de responsabilidade, como abuso de poder ou violação de deveres
funcionais, são de competência do Senado Federal, podendo resultar em
impeachment ou cassação da aposentadoria.
Segundo Humbert, o sistema foi concebido para evitar
interferências indevidas sobre o Judiciário, concentrando a condução das
apurações em instâncias superiores. “Não há blindagem formal absoluta, mas o
modelo institucional garante que qualquer investigação ocorra sob supervisão
elevada. Historicamente, o STF já autorizou inquéritos contra seus próprios
membros, embora condenações sejam extremamente raras”, afirma.
O advogado Leonardo Corrêa, presidente da associação de
juristas Lexum, também avalia que o modelo constitucional brasileiro cria um
bloqueio estrutural à responsabilização penal de ministros do Supremo. “Crimes
comuns são julgados pelo próprio STF, o que impede a Polícia Federal de
investigar diretamente. Tudo depende da iniciativa do procurador-geral da
República e da autorização do próprio tribunal”, afirma.
Segundo Corrêa, esse arranjo gera um impasse institucional,
pois o controle fica concentrado no mesmo sistema que seria objeto da apuração.
“A saída constitucional efetiva está na responsabilização por crime de
responsabilidade, cujo julgamento cabe ao Senado Federal”, diz.
Ele compara o modelo brasileiro ao dos Estados Unidos, onde
juízes da Suprema Corte não possuem foro penal especial perante a própria
Corte. “Lá, a investigação criminal pode ser conduzida normalmente pelo
Departamento de Justiça, e o controle político ocorre por impeachment, exercido
pelo Congresso, evitando esse bloqueio que existe no Brasil”, explica o
advogado.
Investigação de ministros do STF pela PF depende da PGR e da
própria Corte
Pelo procedimento constitucional, caso surjam indícios de
irregularidades envolvendo um ministro do STF, a Polícia Federal não pode
instaurar investigação de forma autônoma. A advogada constitucionalista Vera
Chemin, observa que o processo indica uma “concentração de competências”. “Sem
provocação da [Procuradoria-Geral da República] PGR e autorização do STF, não
há investigação criminal possível contra ministros”, afirma.
Assim, para que os ministros suspeitos sejam investigados,
os elementos contra eles devem ser encaminhados pela PF à PGR, órgão com
atribuição exclusiva para atuar perante o Supremo. Cabe ao procurador-geral
avaliar se há indícios mínimos que justifiquem o pedido de abertura de
inquérito.
Se a PGR entender que há elementos suficientes, solicita ao
STF a instauração de um inquérito judicial. A abertura não é automática:
depende de autorização do tribunal, que pode ocorrer no plenário ou por meio de
um ministro relator sorteado. Uma vez autorizado, o inquérito é conduzido pela
Polícia Federal, mas sob supervisão direta do relator, que precisa autorizar
diligências como quebras de sigilo, buscas e oitivas. Ao final, cabe novamente
à PGR decidir se oferece denúncia ou se requer o arquivamento.
Há ainda uma exceção prevista no artigo 43 do Regimento
Interno do STF: se o suposto delito ocorrer nas dependências do tribunal, o
presidente da Corte pode instaurar inquérito de ofício. Ainda assim, o controle
permanece concentrado no próprio Supremo.
Investigações que envolvem ministros não costumam avançar
Na prática, representações envolvendo ministros não
resultaram na abertura de inquéritos. Assim como no caso do Banco Master, um
dos episódios que pode ser citado também envolve o ministro Dias Toffoli. Em
2016, o delator Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, afirmou que a empreiteira
teria enviado uma equipe para avaliar problemas na residência de Toffoli.
O caso gerou uma apuração preliminar na PGR, mas em 2019 a
então procuradora-geral Raquel Dodge decidiu pelo arquivamento por ausência de
provas concretas, sem solicitar abertura de inquérito ao STF. Embora a delação
de Léo Pinheiro tenha sido homologada pelo ministro Edson Fachin, o trecho
referente a Toffoli não avançou. Posteriormente, Toffoli anulou as condenações
do ex-executivo da OAS na Lava Jato, decisão confirmada pela 2ª Turma do STF em
2025.
Situação semelhante ocorreu em 2021, quando o ex-governador
do Rio de Janeiro Sérgio Cabral acusou Toffoli em delação premiada. A suspeita
era de que Toffoli teria recebido R$ 4 milhões em suborno para favorecer dois
prefeitos do estado do Rio de Janeiro em processos no Tribunal Superior
Eleitoral (TSE). A PGR, no entanto, questionou a validade do acordo como um
todo, e não houve pedido formal ao STF para investigar o ministro, o que levou
ao arquivamento do caso.
Representações também foram apresentadas contra outros
ministros, como Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Ricardo Lewandowski, em
geral por suposto abuso de autoridade ou conflitos de interesse. Levantamento
recente do Uol mostrou, por exemplo, que parentes de ministros do STF já
atuaram em 1.921 processos na Corte e no Superior Tribunal de Justiça (STJ),
entre filhos, cônjuges, ex-cônjuges e irmãos exercendo a advocacia.
Alexandre de Moraes no caso Master: contrato privado,
inquérito próprio e suspeitas de aproximação com banqueiro
O nome do ministro Alexandre de Moraes passou a ser
associado ao caso Banco Master após a revelação de um contrato firmado entre a
instituição financeira e o escritório de advocacia Barci de Moraes Advogados,
da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes. O contrato era de prestação de
serviços de assessoria e consultoria jurídica do Banco, prevendo honorários de
cerca de 129 milhões de reais em três anos.
Embora não haja decisão judicial que aponte irregularidade
no contrato, críticos sustentam que a relação comercial, ainda que formalmente
lícita, comprometeria a percepção de imparcialidade exigida de um ministro do
STF. O episódio reacendeu o debate sobre limites éticos na relação entre
familiares de magistrados e empresas potencialmente interessadas em decisões
judiciais.
Paralelamente, em janeiro de 2026, Moraes instaurou no
Supremo um inquérito para apurar o vazamento de dados pessoais de familiares de
ministros da Corte, incluindo os seus. Os dados estariam relacionados a
negócios de familiares de Toffoli com o fundo Reag Investimentos, apontado como
suspeito de atuar em fraudes junto ao Banco Master. Irmãos do ministro Dias
Toffoli venderam, em 2021, parte de suas participações no Resort Tayayá (PR)
para o fundo Arleen, gerido pela Reag Investimentos. O fundo é ligado a Fabiano
Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, do Banco Master.
As suspeitas se ampliaram após a divulgação de relatos sobre
supostos encontros entre Moraes e Vorcaro. O STF, no entanto, divulgou nota negando
qualquer irregularidade e classificando as acusações como parte de um padrão de
ataques coordenados contra a Corte.
Gilmar Mendes no caso Master: defesa pública de Toffoli,
discurso de blindagem institucional e presença em eventos jurídicos patrocinados
O ministro Gilmar Mendes assumiu um papel central na defesa
pública do colega Dias Toffoli diante do avanço das críticas sobre sua atuação
no caso Banco Master. Em manifestações nas redes sociais, Gilmar saiu em defesa
do relator, afirmando que os ataques fariam parte de uma tentativa de
deslegitimar o STF e fragilizar as instituições democráticas.
Além disso, o ministro Gilmar Mendes elogiou publicamente a
PGR após o arquivamento de pedidos de afastamento do ministro Toffoli no caso
Master. Segundo Mendes, a decisão demonstraria que “as instituições estão
funcionando”, argumento que passou a ser utilizado por integrantes do Supremo
para rebater cobranças por maior transparência ou por eventual afastamento do
ministro do processo.
A postura de Gilmar também se evidenciou após a divulgação
de uma nota assinada por membros da comunidade jurídica que questionavam a
imparcialidade de Toffoli e defendiam a análise de sua suspeição. O ministro
reagiu destacando que críticas desse tipo ultrapassariam o campo jurídico e se
inseririam em um ambiente de hostilidade contra o STF.
A presença de Gilmar Mendes em eventos patrocinados pelo
Banco Master também vem sendo destacada. Reportagem veiculada pelo Poder 360
mostra que de 2022 a 2024, o banqueiro financiou eventos nacionais e
internacionais que contaram com a presença da cúpula do Judiciário brasileiro.
De acordo com a apuração, o Banco Master foi patrocinador de
pelo menos quatro eventos internacionais realizados em Nova York, Paris,
Londres e Roma. Também foi patrocinador de ao menos um evento nacional,
realizado no Rio. Os fóruns, organizados por grupos como Lide, Esfera Brasil e
Voto, serviram de palco para discursos dos ministros Gilmar Mendes, Dias
Toffoli, Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes. Um dos eventos mais
recentes patrocinados pelo Banco Master teria sido o 2º Fórum Esfera
Internacional em 2024.
De acordo com a apuração do Estadão, esses patrocínios
faziam parte de uma estratégia de aproximação de ministros do STF.
Além disso, o Fórum de Lisboa, evento jurídico organizado
por Gilmar Mendes, apelidado de Gilmarpalooza, em 2025 teve, nos bastidores, a
presença de figuras ligadas ao Banco Master. De acordo com a apuração da coluna
de Lauro Jardim no jornal O Globo, embora não tenha participado de mesas de
debates, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi anfitrião de recepções
durante o evento, enquanto o banco enfrentava investigações e posterior
liquidação pelo BC.
Dias Toffoli no caso Master: decisões concentradas, sigilo e
vínculos familiares sob pressão
Principal figura associada ao caso Banco Master dentro do
STF, o ministro Dias Toffoli concentra as maiores críticas. Como relator, ele
tomou decisões que ampliaram o controle do Supremo sobre as investigações,
incluindo a submissão de apurações relacionadas ao banco à aprovação do
plenário da Corte.
A relatoria de Toffoli passou a ser questionada depois que
uma apuração do jornal O Globo mostrou que ele viajou para Lima, no Peru, na
companhia do advogado de um dos presos por envolvimento no caso do Banco
Master. O deslocamento foi feito no jato particular de um empresário e teve
como motivo a final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras, ocorrida no dia
29 de novembro de 2025. Sendo assim, a viagem aconteceu poucos dias antes de
Toffoli impor sigilo máximo ao processo que tramita no STF envolvendo Daniel
Vorcaro, presidente do Banco Master.
A decisão de sigilo atendeu um pedido apresentado pela
defesa de Daniel Vorcaro e restringiu o acesso a informações relevantes do
processo. O fato reforçou questionamentos sobre transparência, especialmente em
um caso de grande interesse público.
O desgaste aumentou após reportagens revelarem negócios
envolvendo familiares de Toffoli ligados a um resort de luxo no Paraná que
passou a ser citado no contexto das investigações. O local era frequentado pelo
ministro, mas segundo as apurações da Gazeta do Povo, o ministro reduziu sua
presença após o início das operações da Polícia Federal em 2025, fato que
ampliou as suspeitas sobre a necessidade de declaração de suspeição.
Aline Rechmann.