O Brasil é a nova Cuba – só que maior.
Flavio Gordon.
“Depois de anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão
e farão valer a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no
Hemisfério Ocidental, e para proteger nossa pátria e nosso acesso a
geografias-chave em toda a região.” (National Security Strategy of the United
States of America, Casa Branca, dezembro de 2025)
Corria o ano 1960 quando Nikita Kruschev, em Nova York,
abraçou um barbudo de trinta e poucos anos recém-chegado ao poder em Havana, e
o fez com o entusiasmo desajeitado do vetusto burocrata que parecia reencontrar
a própria juventude revolucionária. Fidel Castro não era, àquela altura, o
idealista marxista-leninista convicto que a hagiografia posterior fabricaria;
era um nacionalista de origem latifundiária que descobriu, na aliança com
Moscou, o instrumento perfeito para consolidar poder pessoal e projetar-se para
além da ilha. Foi a Cuba de Castro, e não a vontade soviética, que tomou a
iniciativa de bater à porta do Kremlin. Mas, uma vez aberta essa porta, o
serviço de inteligência soviético não perdeu tempo: reconheceu na ilha
caribenha, muito antes do Ministério das Relações Exteriores ou do próprio
Partido, aquilo que os documentos internos já chamavam, sem eufemismo, de
“cabeça-de-ponte” – a plataforma a partir da qual se exportaria a subversão
comunista para o resto da América Latina, da Nicarágua sandinista aos focos
guerrilheiros da Venezuela, do Peru e da Guatemala. A China não manda
instrutores para treinar guerrilhas, como faziam os soviéticos; ela manda
engenheiros da Huawei, linhas de crédito estatal, portos, ferrovias e data
centers Não é acidente que essa história volte à memória exatamente quando o
Brasil se prepara para uma eleição presidencial que, gostemos ou não, está
mergulhada até o pescoço naquilo que venho chamado de “Guerra Fria 2.0”. A
tentação de tratar 2026 como um pleito essencialmente doméstico, envolvendo
lulopetismo contra bolsonarismo, é a mesma miopia que, ao longo do século 20,
levou tantas elites latino-americanas a subestimar o que estava em jogo quando
um vizinho se tornava peça importante de um tabuleiro maior. A diferença, hoje,
é que a peça central desse tabuleiro na América do Sul não é mais uma ilha de
11 milhões de habitantes viciada em açúcar subsidiado soviético. É a maior
economia da América Latina, e fornece exatamente aquilo de que o programa
tecnológico chinês precisa: terras raras, minério de ferro, soja e energia – os
insumos brutos sem os quais nenhum data center, nenhuma bateria e nenhum chip
chinês sai do papel.
Nessa nova Guerra Fria, a China não repete o erro soviético.
Analistas que estudaram a ascensão chinesa nos últimos 35 anos costumam notar
que Pequim tirou da implosão da URSS uma lição oposta à que tirou o Ocidente –
não a de que o comunismo havia morrido, mas a de que poder militar sem lastro
econômico é ilusão. Por isso a China não manda hoje instrutores para treinar
guerrilhas em selvas centro-americanas, como fazia o Departamento Internacional
do PCUS através da DGI cubana nos anos 1960. Ela manda, em vez disso,
engenheiros da Huawei, linhas de crédito estatal, portos, ferrovias e data
centers. O método mudou, mas o objetivo estratégico – converter um país-chave
em plataforma de influência que module o comportamento de toda uma região –
permanece surpreendentemente parecido.
E o Brasil ocupa hoje essa função de plataforma. A Huawei já
controla quase metade da infraestrutura de quinta geração do país, segundo
levantamentos recentes de inteligência geopolítica; Tencent e ByteDance
negociam entrada facilitada por regimes tributários favoráveis; e nosso país
desponta como o maior mercado potencial de capacidade de data centers de
inteligência artificial de todo o Hemisfério Ocidental fora dos Estados Unidos,
um mercado da ordem de centenas de bilhões de dólares em investimento futuro, e
cuja bacia energética já desperta o interesse chinês por terra e eletricidade
“empoderada”. Trata-se de uma disputa que passou longe do radar de boa parte do
debate eleitoral brasileiro, mas que analistas americanos de segurança nacional
já leem como o verdadeiro campo de batalha desta nova guerra fria: não tanques e
mísseis, mas cabos de fibra, terras raras e padrões técnicos que, uma vez
fixados, amarram um país por décadas.
Não é exagero, portanto, comparar o papel que Cuba
desempenhou para a URSS ao papel que o Brasil ocupa hoje para a China – com a
ressalva crucial de que a escala é incomparavelmente maior, e por isso mesmo
mais perigosa. Cuba era um posto avançado ideológico, valioso sobretudo como
símbolo e como base logística para pequenos grupos guerrilheiros. O Brasil é
algo bem mais substancial: um polo econômico cuja captura redesenha o
equilíbrio de poder em toda a América do Sul, precisamente porque oferece a Pequim
aquilo que nenhuma Cuba jamais poderia – escala de mercado, matéria-prima
estratégica e um lugar à mesa dos Brics que confere legitimidade multilateral
ao projeto chinês de erosão da ordem mundial liderada pelos Estados Unidos.
Washington, é claro, percebeu o movimento – e reage com uma
doutrina que resgata, sem pudor, a linguagem do século 19. A nova Estratégia de
Defesa Nacional americana, divulgada em janeiro deste ano, fala abertamente em
restaurar a Doutrina Monroe sob uma versão atualizada, batizada de “Corolário
Trump”: os Estados Unidos, diz o documento, não permitirão que competidores de
fora do hemisfério (e o leitor atento já sabe a quem os americanos se referem)
posicionem forças ou controlem ativos estrategicamente vitais nas Américas. É a
mesma lógica, atualizada, que levou Theodore Roosevelt a proclamar o direito de
polícia internacional sobre o Caribe há mais de 100 anos. Resta que os
adversários de agora já não são encouraçados europeus, mas sim cartéis armados
como organizações terroristas e potências extra-hemisféricas operando por meio
de portos, redes 5G e infraestrutura de nuvem. Especialistas em segurança
hemisférica já descrevem essa nova doutrina como “Monroe 2.0”: menos diplomacia
pública, mais coerção econômica e disposição declarada para o uso da força,
esta última demonstrada nas operações contra o regime de Maduro na Venezuela,
citadas com orgulho pelo próprio documento do Pentágono, agora rebatizado como
Departamento de Guerra. Não é exagero comparar o papel que Cuba desempenhou
para a URSS ao papel que o Brasil ocupa hoje para a China – com a ressalva
crucial de que a escala é incomparavelmente maior
O apelo americano por aquilo que especialistas têm chamado de
uma “Doutrina Monroe para a inteligência artificial” – ou seja, a exigência de
que a infraestrutura digital do hemisfério rode sobre padrões e nuvens
americanas, não chinesas – é apenas a versão mais recente dessa mesma pulsão
estratégica. E ela mira o Brasil com uma precisão que nenhum outro país da
região desperta, porque nenhum outro oferece prêmio comparável.
Para além das questões domésticas, é nesse contexto que o
eleitor brasileiro deveria situar a escolha de outubro. Uma sociedade civil que
se faz de neutra numa guerra fria que já elegeu seu território como peça central
de disputa, e cujo governo já escolheu abertamente o lado antiamericano do
conflito, não está sendo prudente: está sendo ingênua, exatamente como foram
ingênuas as elites latino-americanas dos anos 1960 que viam em Cuba apenas um
caso de política interna caribenha, e não o prenúncio de décadas de subversão
continental.
No fim das contas, a pergunta que o eleitorado nacional deve
se fazer é bem simples: de que lado desta fronteira o Brasil pretende ficar – o
da colônia amestrada pelo capital e pela tecnologia de Pequim, ou o de um
parceiro hemisférico que negocia, com olhos abertos, sua própria soberania
digital e energética junto a Washington? Não escolher também é uma escolha. E a
história, sempre generosa com quem se recusa a aprender com ela, já cansou de
mostrar as suas consequências.
Flavio Gordon