Mendonça acelera operações sobre Master e INSS em meio a
pressão e risco de revés no STF.
Renan Ramalho
André Mendonça na Segunda Turma do STF, onde recursos contra suas decisões podem ser julgados por Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques, Dias Toffoli e Luiz Fux
O ministro André Mendonça intensificou, nas últimas semanas,
o ritmo das investigações dos dois maiores casos de corrupção em andamento no
país, com desvios bilionários: o escândalo do Banco Master, que envolve fraudes
financeiras e cooptação de agentes públicos e o “roubo dos aposentados”,
esquema de descontos fraudulentos nas aposentadorias do INSS por empresas,
associações e sindicatos.
A aceleração e ampliação recentes das operações ocorre num
momento em que crescem as pressões sutis, dentro e fora do STF, para abafar
parte das investigações, especialmente sobre políticos e autoridades de peso em
Brasília. Enquanto isso, Mendonça e sua equipe têm buscado agir com discrição e
precaução em cada ato.
Desde fevereiro, quando assumiu a relatoria do caso Master
no Supremo Tribunal Federal (STF), Mendonça já autorizou a deflagração de seis
fases da Operação Compliance Zero, com 14 prisões preventivas, 61 ordens de
busca e apreensão, bloqueios de mais de R$ 22 bilhões e diligências em sete
estados e no Distrito Federal.
Só neste mês de maio, foram quatro fases, que tiveram como
alvos o senador do Piauí Ciro Nogueira, presidente do PP, o ex-governador do
Rio de Janeiro Cláudio Castro, do PL, o pai de Daniel Vorcaro e um grupo de
hackers, informantes e capangas, além de um perito da Polícia Federal suspeito
de vazar o contrato de R$ 129 milhões do Master com o escritório de advocacia
da família do ministro Alexandre de Moraes.
No caso do INSS, uma nova fase da Operação Sem Desconto foi
deflagrada no último dia 27, por determinação de André Mendonça, no DF,
Pernambuco, São Paulo e Paraíba, tendo como alvos novas associações suspeitas
de desviar dinheiro dos aposentados. O ministro emitiu 31 ordens de busca e
apreensão, autorizou o bloqueio de bens de ao menos quatro entidades e
monitoramento eletrônico de oito investigados.
Nos dois casos, Mendonça busca se equilibrar para evitar que
as investigações, como tantas outras no passado, sejam anuladas no futuro por
artifícios jurídicos e processuais. Dentro do STF, o ministro busca o apoio de
colegas mais próximos para manter suas medidas, ao mesmo tempo em que ajusta
suas decisões para protegê-las de críticas internas e reparos que podem abrir
brechas para nulidades.
Fora do STF, Mendonça tem estreitado a relação com as
equipes da Polícia Federal que tocam as investigações e mantém vigilância sobre
a corporação.
O primeiro objetivo é evitar vazamentos que possam
comprometer operações futuras ou ser usados para ataques cruzados entre os
vários grupos políticos implicados nos escândalos.
O segundo objetivo é impedir manobras administrativas dentro
da PF – como trocas de delegados, agentes e peritos – manejadas para proteger
certos investigados. Além disso, ele lida com estratégias de múltiplos
advogados para direcionar delações premiadas.
Os primeiros sinais de risco surgiram em março, quando
Gilmar Mendes, decano e ministro mais poderoso do STF, passou a criticar
abertamente os rumos da Compliance Zero. Naquele mês, ele fez duros reparos à decisão
de Mendonça que determinou a volta de Daniel Vorcaro, dono do Master, à prisão
preventiva.
O ministro votou pela manutenção da medida, mas atacou
alguns fundamentos de Mendonça, como o de que ela era necessária para
“pacificação social por meio da criação de um sentimento na sociedade de
resposta célere do sistema de justiça” ou ainda para “credibilidade e a
respeitabilidade das instituições”.
Em seu voto, Gilmar afirmou que esse tipo de justificativa
teria gerado abusos na Lava Jato, marcada, segundo o ministro, por “messianismo
punitivista” e “ancorada em razões políticas e ideológicas”. “É possível
enxergar no caso concreto tristes reminiscências dos métodos e expedientes
lavajatistas que este tribunal tem tido grande trabalho em coibir”, afirmou,
antecipando possíveis nulidades.
Em abril, o decano voltou à carga, desta vez para criticar
duramente, no plenário da Corte, o vazamento de conversas privadas de Daniel
Vorcaro. Ele acusou parlamentares que integravam a CPMI do INSS de repassar o
material à imprensa. Nos bastidores do STF, Mendonça foi criticado por ter
liberado o material para a comissão.
Neste mês de maio, de forma discreta, Mendonça adotou duas
medidas corretivas. Na decisão que prendeu Henrique Vorcaro, retirou
fundamentos alusivos à necessidade de credibilizar o Judiciário. E ao citar
precedentes alinhados à tese de que a medida era necessária, usou votos e
decisões, em outros casos, de Gilmar Mendes, Nunes Marques e Edson Fachin – um
sinal de busca de respaldo deles para sua decisão.
Ainda assim, no julgamento da Segunda Turma do STF para
confirmar ou reverter a prisão do pai de Vorcaro, Gilmar Mendes pediu vista
para elaborar seu voto com mais tempo – um indicativo de que tende a fazer
novos reparos à decisão de Mendonça.
Alarmado com a contaminação do STF no escândalo – em razão
de negócios milionários firmados entre o dono do Master, Daniel Vorcaro, com as
famílias de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, com quem mantinha relações –,
Gilmar tem buscado se manifestar, principalmente em entrevistas, para afastar o
caso da Corte.
Ele tem repetido, por exemplo, que o esquema não se
concentra na Praça dos Três Poderes, em Brasília, mas na avenida Faria Lima, em
São Paulo – uma tentativa de focar o caso nas fraudes praticadas no mercado
financeiro, e não na corrupção de autoridades que teriam permitido a Vorcaro
catapultar o Master.
Ainda no caso Master, outro risco para as investigações
surgiu nas negociações para a delação premiada de Vorcaro. Ao longo de maio,
diante da resistência da PF em aceitar a proposta do banqueiro – principalmente
por evitar comprometer ministros do STF e políticos de peso do Centrão –,
advogados envolvidos no caso passaram a insinuar na imprensa, de forma anônima,
que uma eventual recusa de Mendonça em homologar um acordo poderia ser
revertida na Segunda Turma, com os votos de Gilmar Mendes e Kassio Nunes
Marques.
Trata-se, no entanto, de uma hipótese especulativa, uma vez
que ainda não há acordo de colaboração. A PF recusou a delação, sob o argumento
de que já tem as provas que considera necessárias.
A decisão levou o advogado de Vorcaro, José Luís de Oliveira
Lima, a deixar a defesa. A negociação, agora, é feita junto à
Procuradoria-Geral da República (PGR), entre a equipe do chefe do órgão, Paulo
Gonet, e a nova defesa de Vorcaro, comandada pelo advogado Sérgio Leonardo. Mas
uma nova proposta de delação também deve ser enviada à Polícia Federal.
Dark Horse e mudança na PF ampliam tensão
Uma nova frente de pressão sobre Mendonça surgiu, na semana
passada, com a revelação das conversas mantidas entre o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro, ao longo de 2025, para financiar o filme
“Dark Horse”, que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro. A PF já
apura origem, formas de repasse e destino de ao menos R$ 61 milhões que teriam
sido investidos pelo banqueiro na produção.
Mas os investigadores da PF agora estudam se é o caso de
manter a apuração dentro do inquérito conduzido por Mendonça no caso Master, ou
se a PF deve pedir a abertura de um novo inquérito específico, que
eventualmente possa ser distribuído, por sorteio, para outro ministro.
Na última terça (26), Alexandre de Moraes pediu manifestação
da PGR sobre um pedido do PT para que o próprio ministro investigue o caso,
dentro do inquérito já aberto e conduzido por ele contra o ex-deputado Eduardo
Bolsonaro, referente à pressão feita junto ao governo americano para
sancioná-lo na Lei Magnitsky.
No caso do INSS, um risco para as investigações surgiu neste
mês, quando a Polícia Federal decidiu transferir o caso da Divisão de Repressão
a Crimes Previdenciários para a Coordenação de Inquéritos em Tribunais
Superiores (Cinq). A mudança de departamento, revelada pela CNN Brasil, retirou
da investigação o delegado Guilherme Figueiredo Silva, que coordenava o
inquérito.
Mendonça decidiu abrir uma apuração específica sobre a
troca, que o pegou de surpresa. Ele só soube da substituição por meio do
advogado de um dos investigados durante uma audiência. Partiu da Divisão de
Repressão a Crimes Previdenciários, da qual o inquérito foi retirado, o pedido
a Mendonça para quebras de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, filho mais velho
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lulinha.
Em nota, a PF afirmou que a mudança “foi concebida para
assegurar maior eficiência e continuidade às investigações, uma vez que a Cinq
possui estrutura permanente voltada justamente à condução de operações
sensíveis e complexas com tramitação perante o STF”.
Renan Ramalho.