A hora de derrotar o PT e reconstruir o Supremo.
Gazeta do Povo
Votos para presidente e senadores serão fundamentais para
começarmos a reconstruir o STF, fonte da nossa instabilidade institucional.
As últimas semanas antes das eleições de 4 de outubro foram
pródigas em ações no Supremo Tribunal Federal que revelam a intenção de
eventualmente burlar ou manipular a vontade popular que se manifestará nas
urnas neste domingo, ou ao menos de desequilibrar a campanha. Primeiro, veio o
pedido, por parte do PT, para que o ministro Flávio Dino mandasse investigar
Flávio Bolsonaro por suposta interferência estrangeira. Depois, o mesmo Dino
derrubou uma decisão de André Mendonça, proferida no âmbito do Tribunal
Superior Eleitoral, que coibia a divulgação de fake news sobre o candidato do
PL e Nossa Senhora Aparecida – felizmente, o ministro Luiz Fux acabou
interferindo e restabelecendo a decisão original. Por fim, na quinta-feira,
Gilmar Mendes mandou a Rede Globo incluir em seu debate o candidato Renan
Santos, que funcionaria como linha auxiliar de um ausente Lula ao centrar fogo
em Flávio, e uma ministra do TSE indicada por Lula tomou decisões que
beneficiavam o petista, impedindo que ele fosse devidamente cobrado por não
participar do debate, que acabou cancelado.
Todos os casos são um resumo da crise que está correndo o
Brasil, construída em conjunto entre PT e Supremo; uma crise que precisamos ter
em mente diante das urnas neste domingo.
Os episódios já são suficientemente graves por escancarem o
desejo do PT e de seus apoiadores de distorcer a campanha e usar o tapetão para
contornar um eventual resultado negativo, mas se tornam ainda mais escandalosos
quando se examina o caminho escolhido. Os pedidos que prejudicavam Flávio
Bolsonaro e ajudavam Lula não foram feitos em ações novas, distribuídas por
sorteio, mas enxertados em ações antigas, sobre outros temas, e que tinham uma
virtude aos olhos do PT: relatores amigos de Lula. Assim, inventou-se uma
conexão qualquer para evitar o sorteio.
Nenhum democrata verdadeiro, mesmo de esquerda, pode em
consciência votar no PT atual ou em seus candidatos, sobretudo para a
Presidência da República e para o Senado
Pegar carona em um processo qualquer para escolher o juiz é
uma quebra frontal do devido processo legal e do juiz natural: o sorteio vira
ficção e o tribunal vira balcão. Este malabarismo, essa trapaça jurídica,
criada recentemente por Gilmar e empregada também por Dino, é fruto de uma
autoatribuição doentia de poderes que desequilibra por completo a separação
entre Legislativo, Executivo e Judiciário. Este é o retrato acabado de um
tribunal que deixou de arbitrar o jogo para entrar nele. É, também, o retrato
do PT atual, que foi buscar o relator que lhe convinha para colher sem esforço
o benefício de decisões que lhe caem como luva.
Ainda que nem Gilmar Mendes, nem Alexandre de Moraes tenham
sido indicados ao STF por Lula, o petista e seu partido são parte central e os
principais beneficiários da desordem institucional que se instalou, pois
apostaram no aparelhamento e na cooptação das instituições de Estado como se
pertencessem ao petismo e devessem servir aos seus interesses – como o STF de
fato serve, graças aos nomeados por Lula e à aliança criada com outros
ministros. O PT é parte central do problema que temos apontado há tantos anos,
um partido que não tem qualquer pudor em apoiar e alimentar as medidas mais
esdrúxulas, desde que sirvam a seus interesses.
Nenhum democrata verdadeiro, mesmo de esquerda, pode em
consciência votar no PT atual ou em seus candidatos, sobretudo para a
Presidência da República e para o Senado. Nesta afirmação não há sectarismo.
Conservadores e progressistas, direita e esquerda, liberais e estatizantes
podemos conviver em paz porque compartilhamos um conjunto de valores,
princípios e regras comuns: a democracia e o Estado de Direito, com tudo o que
implicam. Podemos divergir sobre quase tudo, desde que não divirjamos sobre as
regras do jogo. Hélio Bicudo, um dos fundadores do PT, foi exemplo notável
disso: comprometido até o fim com a Constituição, a ponto de romper com o
próprio partido quando julgou que ela estava sendo violada.
Ainda que o respeito à Constituição e ideais de esquerda
sejam compatíveis, infelizmente é verdade que pessoas como Bicudo estão se
tornando raras. Uma estranha cegueira tomou conta de boa parte dos brasileiros,
de esquerda e de centro, que já não conseguem enxergar um monstro a um palmo de
distância: a hipertrofia do Judiciário. Em nome de uma suposta “defesa da
democracia” e do combate a uma ala político-ideológica, essas pessoas abriram
mão das regras do jogo, em um convite ao conflito e à imposição autoritária da
própria visão de mundo. É exatamente o que está acontecendo, pelas mãos do
consórcio formado por PT e pela “tropa de choque” do STF.
A cegueira custa caro. Normalidade institucional não é
abstração de juristas; é o que gera a confiança e o otimismo que trazem
investimentos, novas empresas, empregos, pesquisa, criação artística. Se
queremos crescer, prosperar e abrir oportunidades extraordinárias para todos os
brasileiros, em especial para os mais jovens, precisamos restaurar o império da
lei e o equilíbrio entre os poderes; e isso passa não apenas pela derrota do
PT, mas também pela reconstrução do Supremo Tribunal Federal, a fonte de nossa
anomalia institucional, do apagão da liberdade de expressão, das perseguições
políticas.
Três escolhas que o brasileiro fará neste domingo serão
especialmente importantes para darmos um basta a tanto arbítrio, a tantos
abusos, a tanta ruptura institucional, e iniciar o caminho de volta: o voto
para presidente da República e os dois votos para o Senado – aquele que escolhe
os futuros ministros do Supremo, e aqueles que aprovam essas nomeações e têm a
competência constitucional para processar e julgar os atuais ministros por
crime de responsabilidade.
Restaurar o império da lei e o equilíbrio entre os poderes
passa não apenas pela derrota do PT, mas também pela reconstrução do STF, a
fonte de nossa anomalia institucional
Não há como dissociar essas escolhas. Um bom presidente é
sinônimo de boas indicações para o Supremo; um mau presidente é a perspectiva
de mais quatro Dinos, Alexandres ou Gilmares. Um bom Senado pode barrar
indicações ruins e retirar do STF aqueles ministros que se tornaram indignos de
permanecer na corte; um mau Senado criará dificuldades para aprovar bons nomes,
deixará que pessoas desqualificadas cheguem ao Supremo, e deixará em paz
aqueles que deveriam ser removidos.
Que o eleitor avalie os candidatos – boas ferramentas para
isso existem, e a Gazeta do Povo também deu sua contribuição – e não se
contente com fórmulas genéricas sobre “harmonia entre poderes” e “respeito às
instituições”, que mesmo os apoiadores da desordem são capazes de dizer. É
preciso escolher o candidato que reconhece nossa grave desordem institucional;
que tem a coragem de afirmar que não houve apenas “excessos” ou “indícios” de
má conduta, mas abuso real de poder; que admite o impeachment de ministros que
extrapolam suas funções como o único freio efetivamente disponível para
devolver o país à normalidade. Impeachment não é golpe nem vingança, mas um
instrumento previsto na Constituição, pensado exatamente para situações como a
que vivemos. Um sistema em que um poder não pode ser contido por nenhum outro
não é uma democracia, mas uma ditadura ou semiditadura.
Progressistas ou conservadores, pró-mercado ou
pró-intervenção estatal, de esquerda, de centro ou de direita: a todos
afirmamos que está em jogo a nossa condição de sociedade democrática, de
sociedade onde, apesar das diferenças em todos os demais campos, conseguimos
conviver dentro de regras comuns. Batalhemos pelo retorno da normalidade, não
fujamos do compromisso com uma sociedade minimamente funcional, saibamos eleger
as pessoas certas, não desperdicemos o voto com quem não tem compromisso real
com o Estado de Direito – não o compromisso do discurso, mas o compromisso
real, forjado quando mais custa.
GAZETA DO POVO