Honra não tem preço, tem valor: os riscos da judicialização das críticas.
Ives Gandra da Silva Martins
Naquela oportunidade, o ministro Moreira Alves, grande
civilista, defendia que nós temos que quantificar a honra e que se trata de um
pretium doloris – um preço da dor. Desde aquela época, entretanto, defendi a
tese de que a minha honra não tem preço. Nunca vou entrar com uma ação judicial
contra alguém que pretenda me ofender. Conhecendo quem sou e sabendo que, às
vezes, trata-se de uma mera agressão, nunca respondo, pois a melhor forma de
responder é não dando atenção.
Ao contrário do ministro Moreira Alves, que defendeu a
necessidade de haver um pretium doloris, dizia e digo o seguinte: a honra não
tem preço; ela não está no mercado, valendo “tanto” ou “tanto”. Eu defendia e
continuo defendendo que a honra verdadeira não tem preço.
O silêncio diante da injúria não é sinal de fraqueza, mas de
superioridade. Quem ocupa postos de mando deve compreender que a autoridade não
emana da capacidade de silenciar críticos através de sentenças, mas da solidez
de um caráter
Mas o que vemos hoje tem, sobretudo, um viés político, pois,
quando se procura atingir um candidato à Presidência da República, um deputado,
um senador ou um ministro da Suprema Corte, a pessoa reage, demonstrando que
realmente foi afetada pela manifestação de quem está dizendo.
Além disso, a judicialização das críticas – especialmente
por parte de quem detém o poder – acaba por criar um efeito inibidor na
liberdade de expressão. Quando figuras públicas reagem a qualquer contestação
com processos, não protegem apenas sua honra; inadvertidamente, sinalizam que o
debate democrático é perigoso e deve ser contido. Isso transforma o Poder
Judiciário em uma arena de vaidades, onde questões que deveriam ser resolvidas
no campo do debate público ou da indiferença soberana passam a ocupar uma pauta
que deveria ser reservada a temas de real interesse coletivo.
É preciso distinguir, portanto, a crítica ácida ou o insulto
gratuito da calúnia ou difamação propriamente ditas, que possuem contornos
legais definidos. A honra, em sua acepção subjetiva – o sentimento que temos de
nós mesmos –, não pode ser tutelada pelo Estado. Quando um magistrado ou um
político utiliza a máquina judicial para punir ofensas menores, ele transfere a
outros a responsabilidade por sua própria estabilidade emocional, o que,
ironicamente, diminui a estatura moral do cargo que ocupa.
Reafirmo: quem tem, verdadeiramente, honra pouco se importa
com a opinião alheia. A pessoa mais importante – que é Cristo, para mim o
próprio Deus – não deu atenção aos ataques que sofreu e perdoou a todos quando
estava na cruz. Ora, nós, que somos um ponto temporário no Universo, dizer “fui
atacado na minha honra e ela tem um preço” é, no mínimo, curioso.
Quem ataca, sim, demonstra que não tem honra. E quem reage
está dando um preço à sua honra e, ao mesmo tempo, desvalorizando-a. Por esta
razão, pessoalmente, nunca respondo, nem dou atenção.
Acredito, pois, que a melhor forma de mostrar que aquela
agressão não vale nada é desconsiderá-la; é não dar importância, considerá-la
sem relevo. Sendo assim, ao contrário do meu queridíssimo e saudoso amigo
Moreira Alves, eu sempre dizia e digo: a minha honra não tem preço.
O silêncio diante da injúria não é sinal de fraqueza, mas de
superioridade. Quem ocupa postos de mando deve compreender que a autoridade não
emana da capacidade de silenciar críticos através de sentenças, mas da solidez
de um caráter que entende que a verdadeira honra, por ser inalienável, jamais
deveria ser objeto de compensação pecuniária.
Quem dá preço à sua honra é porque, realmente, a ela não dá
muito valor.
Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das
universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee.

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