sexta-feira, 15 de maio de 2026
terça-feira, 12 de maio de 2026
Dosimetria, cavalo de Troia armado pelo tirano da toga
Instituto Liberal.
“What a difference a day makes”. Se, na famosa canção dos anos 50, foi um dia que fez a diferença para trazer encanto à vida da artista, em nossa distopia, foi a última semana que fez toda a diferença para quebrar expectativas legítimas. Entre a derrubada do veto ao PL da Dosimetria e a mais recente canetada alexandrina, a opinião pública alinhada às liberdades foi do céu ao inferno, da soberba da pretensa vitória parlamentar à indisfarçável derrota frente a togado não eleito e da promessa ilusória de soltura de perseguidos políticos à crueza da manutenção das prisões. Narrativas foram desmentidas pelos fatos, ídolos de barro trocaram a cantoria dos festejos por postagens de indignação, e a sociedade teve a certeza de que tudo havia mudado para que tudo permanecesse na mesma.
Instituto liberal.
Sua missão é difundir
e defender o liberalismo, em suas diversas vertentes teóricas, e as vantagens
de seus princípios e agendas para a sociedade. Atualmente o IL atua na
publicação e tradução de grandes obras sobre o liberalismo, desenvolvimento de
eventos memoráveis e cursos imperdíveis.
As ideias de liberdade de Thomas Sowell
João Luiz Mauad.
O grande Thomas é um gigante da liberdade. Economista, escritor e comentarista americano, é conhecido por suas ideias liberais sobre economia de mercado, educação e políticas públicas. Que suas lições jamais sejam esquecidas, principalmente em momentos turbulentos como esse:
“O fato de tantos políticos bem-sucedidos serem mentirosos
descarados não é apenas uma reflexão sobre eles, é também uma reflexão sobre
nós. Quando as pessoas querem o impossível, apenas os mentirosos podem
satisfazê-las. ”
“É difícil imaginar uma maneira mais estúpida ou mais
perigosa de tomar decisões do que colocar essas decisões nas mãos de pessoas
que não pagam preço por estarem erradas. ”
“A atração fatal pelo
governo é que permite que os intrometidos e os ungidos imponham decisões sobre
os outros sem pagar nenhum preço. ”
“Ninguém vai realmente entender a política até que entenda
que os políticos não estão tentando resolver nossos problemas. Eles estão
tentando resolver seus próprios problemas – dos quais serem eleitos e reeleitos
são o número um e o número dois. O que quer que venha em terceiro lugar, está
muito distante. ”
“O ativismo é uma maneira de as pessoas inúteis se sentirem
importantes, mesmo que as consequências de seu ativismo sejam contraproducentes
para aqueles que afirmam estar ajudando, e prejudicando o tecido da sociedade
como um todo. ”
“Um dos sinais tristes do nosso tempo é que demonizamos
aqueles que produzem, subsidiamos aqueles que se recusam a produzir e
canonizamos aqueles que reclamam. ”
João Luiz Maud.
Farra dos penduricalhos prova que nem o Judiciário respeita mais o STF .
Renan Ramalho
Acossados pelo escândalo do Master, os ministros do Supremo decidiram que a moralização da Justiça deve vir do andar de baixo. Nada de código de ética para vetar caronas em jatinhos de empresários, convescotes regados a uísque em Londres ou parentes com acesso privilegiado aos gabinetes.
Para estancar a crise de credibilidade escancarada pelo jet
set de Daniel Vorcaro, elegeram os penduricalhos da primeira instância como
bode expiatório ideal. A plateia, incauta, aplaudiu.
Afinal, é fácil flagrar o escândalo de um juiz que recebe R$
200 mil num único mês; difícil é rastrear quem financia o luxo de ministros no
exterior.
A tentativa de purgação, porém, virou farsa. Em fevereiro,
depois das primeiras decisões suspendendo praticamente qualquer adicional nos
salários, juízes, promotores e advogados públicos espernearam. Em março, o
plenário do STF criou um “sobreteto”, elevando o limite de remuneração de R$
46,3 mil para R$ 78,8 mil.
Foi a senha para o vale-tudo no pagamento das “verbas
indenizatórias”. As várias exceções permitidas – “ajuda de custo para alteração
do domicílio legal”, “pro labore pela atividade de magistério”, “indenização de
férias não gozadas”, “gratificação pelo exercício em comarca de difícil
provimento” e outras mamatas do tipo – multiplicaram-se.
Tribunais e procuradorias correram para aprovar, a toque de
caixa, variações dessas rubricas para engordar, novamente, a remuneração dos
doutores. A pressa foi tanta que sequer aguardaram o acórdão do STF, documento
que fixa as regras, publicado no dia 8.
Surgiram cargos especiais para “locais pobres”, de “difícil
acesso”, com “atribuições complexas”. Inventaram uma “gratificação de proteção
à primeira infância e à maternidade”, nome mais pomposo para o velho
auxílio-creche. Advogados da União aprovaram pagamento de academia para
cunhados.
Uma desembargadora que recebeu R$ 85 mil por mês, em média,
no ano passado, choramingou que os limites imporiam um “regime de escravidão”.
Com o fiasco da tentativa de reabilitar a imagem do
Judiciário, Gilmar Mendes, Flávio Dino, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin
ameaçaram punir os responsáveis pelos novos penduricalhos.
Com o acórdão publicado, a novela seguirá agora nos
“embargos declaratórios”, recursos que as associações de classe poderão
interpor contra a decisão do plenário, para buscar, em cada vírgula, a brecha
legal para o próximo saque.
O vai-e-volta dos penduricalhos revela uma verdade incômoda:
o exemplo vem de cima. Se ministros vivem como bilionários, por que os demais
magistrados devem se contentar com o mísero teto? Se eles dobram a lei a torto
e a direito em prol de suas vontades, por que não democratizar essa
prerrogativa para toda a magistratura?
As manobras do sobreteto provam que o STF já não é
respeitado nem pelos seus pares. Nunca é demais recordar que ministros,
desembargadores, procuradores e advogados públicos são todos recebedores de
impostos. No teatro do Judiciário brasileiro, todos fingem que controlam a
gastança, enquanto você, invariavelmente, é quem paga.
Renan Ramalho. Jornalista de política especializado na cobertura de Justiça.
Magistrados baianos não se misturam com quem paga por seus privilégios.
Vicente Lino.
No mês passado, dando mostras de que a elite do funcionalismo público não se cansa de privilégios, o Tribunal de Justiça da Bahia reservou um elevador exclusivo só para "suas excelências". “Elevador privativo de magistrados”, diz uma placa no moderno Fórum Dois de Julho, em Salvador.
A decisão de impedir que servidores e o público em geral dividam o mesmo metro quadrado vertical com juízes e desembargadores envia uma triste mensagem: o elevador deixa de ser um meio de transporte para se tornar uma fronteira social.
É onde estamos: enquanto servidores enfrentam filas e elevadores lotados, o equipamento exclusivo permanece como um lembrete diário da desigualdade. A "tigrada" da elite do Judiciário brasileiro não quer entender que, em democracias consolidadas, a proximidade do magistrado com a sociedade é vista como um valor, não como uma ameaça.
Infelizmente, o Judiciário baiano parece caminhar no sentido oposto, preservando ritos que remetem ao período colonial. A conversa que tenta defender o absurdo segue a mesma linguagem empolada de sempre. A corte afirmou que a organização dos elevadores segue “critérios técnicos e funcionais voltados à segurança institucional e à eficiência na circulação de pessoas”.
É por onde caminhamos: o episódio na Bahia não é um fato isolado, mas o sintoma de uma estrutura que ainda resiste à democratização completa de seus espaços. Enquanto o elevador exclusivo subir e descer, ele continuará transportando, além de pessoas, o peso de um Judiciário que ainda se vê como uma elite apartada do restante da sociedade.
Mensagem final:
magistrados não dividem elevador com os servidores — e os servidores precisam
saber disso todos os dias.
Vicente Lino.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
O direito à crítica está morrendo no Brasil – e isso é um grande perigo .
Jocelaine Santos.
Imagine um governante que, eleito para representar a
população, toma decisões que vão contra os interesses do país ou diferem
totalmente daquilo que seus eleitores acreditam; ou um Judiciário que, em vez
de se ater à sua função primordial de aplicar as leis já existentes, se dedica
a inventar e criar a seu bel-prazer novas regras e legislações; ou ainda,
parlamentares que, no lugar de atuarem de forma independente, preferem agir
como vassalos do Judiciário ou se vendem ao governo federal em troca de cargos
e benesses.
Nos países onde a democracia não existe ou está em vias de
ser suprimida, as autoridades em geral são avessas a críticas.
Atuações como essas, em qualquer democracia do mundo, são
passíveis de sofrer críticas da imprensa e dos cidadãos em geral, ao menos
daqueles mais ou menos preocupados com os rumos do país. E, avançando ainda
mais, tais críticas seriam ouvidas e serviriam para que as autoridades pudessem
até mesmo reconhecer seus erros e mudar sua trajetória ou, ao menos, se verem
na obrigação de explicar e justificar suas ações perante a opinião pública.
Já nos países onde a democracia não existe ou está em vias
de ser suprimida, as autoridades em geral são avessas a críticas. Muito fácil
de entender: autocracias sobrevivem graças à manutenção de um poder único, um
líder ou um partido supremo, com vastos tentáculos por todas as esferas, que,
supostamente, tem apoio massivo da população. Tanto que eleições são prática
comum em ditaduras, como uma tentativa de criar o mito de que o regime
ditatorial existe por “vontade popular”. Dar espaço para críticas ou
questionamentos seria renunciar à ideia de que o líder ou o partido é “amado” e
“desejado” por toda a população. Eliminar críticos é um dos pontos-chave para a
manutenção das ditaduras.
Estamos diante de um estado de coisas sombrio, onde não
temos mais segurança sobre o que se pode ou não dizer.
Por isso é tão preocupante que tenhamos em nosso país cada
vez mais interferências no exercício da liberdade de crítica. Lembremos que em
junho deste ano, nossos parlamentares ensaiaram institucionalizar a punição
para quem criticasse “pessoas politicamente expostas”. A ideia era mandar para
a cadeia quem “discriminasse” políticos, mesmo aqueles já condenados em
processos que ainda não tivessem transitado em julgado. A pena prevista era de
dois a quatro anos de prisão e multa. O texto do projeto de lei acabou sendo
modificado, mas só porque gerou forte repercussão. Muitos parlamentares (de
todos os vieses ideológicos, diga-se) estavam bem animados com a possibilidade
de a medida ser aprovada.
Na esfera do governo federal, a perseguição a eventuais
críticos conta até com um aparato estatal, a Procuradoria Nacional da União de
Defesa da Democracia (PNDD), órgão da Advocacia-Geral da União (AGU) criado
oficialmente "para resposta e enfrentamento à desinformação sobre
políticas públicas". Na semana passada, falei sobre como esse Ministério
da Verdade tupiniquim já começou a atuar, escolhendo Alexandre Garcia como seu
primeiro alvo. E outros virão, com certeza.
No Judiciário, a coisa, então, degringolou de vez. A lista
de decisões equiparando críticas (algumas feitas na esfera privada, inclusive)
a crimes contra a democracia é tão grande que chega a ser difícil escolher. A
título de exemplo, citemos as várias ações do STF contra Monark, alvo da
predileção do ministro Alexandre de Moraes.
Isso tudo ameaça, sem dúvida alguma, o livre exercício de
crítica. Estamos diante de um estado de coisas sombrio, onde não temos mais
segurança sobre o que se pode ou não dizer, semelhante ao dos regimes
autocráticos, onde o cidadão precisa conviver com o risco constante de que suas
palavras sejam consideradas crime e, por isso, punidos.
Mas não percamos a esperança – perceber o perigo e agir
ainda está ao nosso alcance. Claro, não se trata de uma batalha fácil de ser
vencida, precisaremos de muita perseverança, dedicação e empenho para reverter
esse estado de coisas, mas é preciso insistir. Nenhuma autoridade ou
instituição pode estar acima de críticas e questionamentos. É o único caminho
possível para a democracia.
Jocelaine Santos é jornalista. Foi assessora de imprensa e professora universitária.
Moraes ignorou o direito, sustou a constituição e aboliu o parlamento.
Mário Sabino.
Estranha democracia, a brasileira, onde um único juiz, o ministro Alexandre de Moraes, pode suspender monocraticamente a aplicação de uma lei aprovada pelo Congresso, no caso específico a da Dosimetria.
Não vou entrar no mérito se diminuir as penas dos condenados
pelo 8 de janeiro e a de Jair Bolsonaro é justo ou não (acho justo) ou
discorrer sobre a qualidade intelectual e moral da maioria dos parlamentares
(acho péssima).
A questão é que o Congresso aprovou a lei, a Associação
Brasileira de Imprensa e o PSol (não são a mesma coisa?) Entraram
previsivelmente com Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) para
derrubá-la no tapetão do STF — e Moraes tomou uma decisão fora das regras do
jogo.
O pretexto foi uma ação impetrada por uma condenada em 8 de janeiro,
que pede a aplicação da Lei da Dosimetria para reduzir a sua pena. O ministro
argumentou que não poderia julgar pedidos como o dela, enquanto estiverem
tramitando ADIs que põem em dúvida a validade da legislação aprovada pelo
Congresso.
Ele poderia ter ficado nisso, mas não: deu uma caneta e
suspendeu a aplicação da lei.
Não sou advogado (ainda os há ou existem apenas “juristas” no
Brasil?), mas sei que direito é forma. É a forma concertada, cristalizada,
aplicada no dia a dia, incansavelmente, nas petições, nos prazos, nos acórdãos,
nos instrumentos recursais, que diferencia o direito daquilo que não tem forma
ao adquirir qualquer uma: a vingança.
Diversos advogados estão estupefatos com a profanação da
forma do direito, mais uma perpetrada desde há quase quatro anos, na suspensão
da aplicação da Lei da Dosimetria.
Moraes não suspendeu a lei no âmbito das ADIs, das quais foi
sorteado relator, em outro sorteio de resultado curioso no STF. Mesmo que o
tivesse feito, a decisão monocrática seria contrária à previsão legal, segundo
a qual só o tribunal poderia adotar uma medida cautelar tão drástica.
O ministro tirou do ar a Lei da Dosimetria como relator de um
processo de execução penal — o que só não é completo absurdo no país que anda
normalizando absurdos completos. Como escreveu o professor de processo penal
Rodrigo Chemim, do Paraná:
“A decisão é errada, até porque, quando se admite isso,
cria-se uma categoria juridicamente estranha: uma espécie de suspensão
monocrática, seletiva e incidental da lei, sem previsão constitucional clara e
sem o procedimento próprio do controle de constitucionalidade.”
A lei foi suspensa sem que tenha sido declarada
inconstitucional. Como explica Chemim, “continua formalmente válida para todos,
mas deixa de valer naquele caso porque assim decidiu individualmente o relator.
Se normalizarmos isso, a segurança jurídica deixa de depender da Constituição,
da lei e dos procedimentos de controle, para depender da vontade decisória de
quem julga. E, nesse cenário, a jurisdição constitucional deixa de funcionar
como garantia democrática e passa a operar como instrumento de exceção”.
Moraes ignorou a forma do direito, suspendeu a Constituição e
aboliu o parlamento com a sua canetada. E tudo fica ainda mais esquisito quando
se sabe que as penas dos condenados de 8 de janeiro e de Bolsonaro podem ser
usadas como moeda de troca para evitar o impeachment de ministros do STF.” .
Mario Sabino.













