O direito à crítica está morrendo no Brasil – e isso é um grande perigo .
Jocelaine Santos.
Imagine um governante que, eleito para representar a
população, toma decisões que vão contra os interesses do país ou diferem
totalmente daquilo que seus eleitores acreditam; ou um Judiciário que, em vez
de se ater à sua função primordial de aplicar as leis já existentes, se dedica
a inventar e criar a seu bel-prazer novas regras e legislações; ou ainda,
parlamentares que, no lugar de atuarem de forma independente, preferem agir
como vassalos do Judiciário ou se vendem ao governo federal em troca de cargos
e benesses.
Nos países onde a democracia não existe ou está em vias de
ser suprimida, as autoridades em geral são avessas a críticas.
Atuações como essas, em qualquer democracia do mundo, são
passíveis de sofrer críticas da imprensa e dos cidadãos em geral, ao menos
daqueles mais ou menos preocupados com os rumos do país. E, avançando ainda
mais, tais críticas seriam ouvidas e serviriam para que as autoridades pudessem
até mesmo reconhecer seus erros e mudar sua trajetória ou, ao menos, se verem
na obrigação de explicar e justificar suas ações perante a opinião pública.
Já nos países onde a democracia não existe ou está em vias
de ser suprimida, as autoridades em geral são avessas a críticas. Muito fácil
de entender: autocracias sobrevivem graças à manutenção de um poder único, um
líder ou um partido supremo, com vastos tentáculos por todas as esferas, que,
supostamente, tem apoio massivo da população. Tanto que eleições são prática
comum em ditaduras, como uma tentativa de criar o mito de que o regime
ditatorial existe por “vontade popular”. Dar espaço para críticas ou
questionamentos seria renunciar à ideia de que o líder ou o partido é “amado” e
“desejado” por toda a população. Eliminar críticos é um dos pontos-chave para a
manutenção das ditaduras.
Estamos diante de um estado de coisas sombrio, onde não
temos mais segurança sobre o que se pode ou não dizer.
Por isso é tão preocupante que tenhamos em nosso país cada
vez mais interferências no exercício da liberdade de crítica. Lembremos que em
junho deste ano, nossos parlamentares ensaiaram institucionalizar a punição
para quem criticasse “pessoas politicamente expostas”. A ideia era mandar para
a cadeia quem “discriminasse” políticos, mesmo aqueles já condenados em
processos que ainda não tivessem transitado em julgado. A pena prevista era de
dois a quatro anos de prisão e multa. O texto do projeto de lei acabou sendo
modificado, mas só porque gerou forte repercussão. Muitos parlamentares (de
todos os vieses ideológicos, diga-se) estavam bem animados com a possibilidade
de a medida ser aprovada.
Na esfera do governo federal, a perseguição a eventuais
críticos conta até com um aparato estatal, a Procuradoria Nacional da União de
Defesa da Democracia (PNDD), órgão da Advocacia-Geral da União (AGU) criado
oficialmente "para resposta e enfrentamento à desinformação sobre
políticas públicas". Na semana passada, falei sobre como esse Ministério
da Verdade tupiniquim já começou a atuar, escolhendo Alexandre Garcia como seu
primeiro alvo. E outros virão, com certeza.
No Judiciário, a coisa, então, degringolou de vez. A lista
de decisões equiparando críticas (algumas feitas na esfera privada, inclusive)
a crimes contra a democracia é tão grande que chega a ser difícil escolher. A
título de exemplo, citemos as várias ações do STF contra Monark, alvo da
predileção do ministro Alexandre de Moraes.
Isso tudo ameaça, sem dúvida alguma, o livre exercício de
crítica. Estamos diante de um estado de coisas sombrio, onde não temos mais
segurança sobre o que se pode ou não dizer, semelhante ao dos regimes
autocráticos, onde o cidadão precisa conviver com o risco constante de que suas
palavras sejam consideradas crime e, por isso, punidos.
Mas não percamos a esperança – perceber o perigo e agir
ainda está ao nosso alcance. Claro, não se trata de uma batalha fácil de ser
vencida, precisaremos de muita perseverança, dedicação e empenho para reverter
esse estado de coisas, mas é preciso insistir. Nenhuma autoridade ou
instituição pode estar acima de críticas e questionamentos. É o único caminho
possível para a democracia.
Jocelaine Santos é jornalista. Foi assessora de imprensa e professora universitária.


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