sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
A inaceitável blindagem no Poder Judiciário.
Em sua coluna, Fernão Lara Mesquita afirma que o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, ratificou sua "opção formal pelo crime" ao arquivar o pedido dos deputados Carlos Jordy, Adriana Ventura e Caroline de Toni. O requerimento buscava declarar o ministro Dias Toffoli impedido e suspeito no caso envolvendo o Banco Master.
Enquanto isso, o presidente do STF, Edson Fachin, interrompeu suas férias e retornou a Brasília para blindar o colega. Fachin afirmou que Toffoli vem atuando na "regular supervisão judicial" das investigações sobre as fraudes financeiras do banco, defendendo que tais casos exigem uma resposta "firme, coordenada e estritamente constitucional". É notório, contudo, que Fachin ignora fatos graves conhecidos pelos brasileiros que acompanham o noticiário.
Vamos a eles:Toffoli transferiu o caso para o Supremo de forma irregular, impondo um sigilo que limita, inclusive, o acesso ds advogados, e viajou em um jatinho particular acompanhado pelo advogado de um dos diretores do banco. Fachin sabe que o Código de Processo Penal é claro: um juiz deve declarar-se suspeito se possuir amizade íntima ou se tiver aconselhado uma das partes.
O presidente do Supremo finge ignorar que o fundo de investimentos Arleen, ligado ao dono do Banco Master, tem como sócios José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos do ministro. Para desviar dessas questões, Fachin declarou que o STF "não se curva a ameaças ou intimidações", quando, na verdade, o cenário é inverso: é o próprio Supremo que ameaça e intimida a sociedade.
Ao repetir que críticas à Corte atacam o "coração da democracia", o tribunal ignora o que o Brasil já sabe. Hoje é a própria instituição que deixou de respeitar o Estado de Direito. O pronunciamento de Fachin apenas confirma o que a parcela decente do país já compreendeu.
Vicente Lino.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
A Republica dos sem-vergonhas.
Luiz Felipe D'Avila para o” Estadão.”
O caso escandaloso do
Banco Master retrata a perversa combinação de imoralidade pública e disfuncionalidade
institucional que reina no País. A alquimia do “banqueiro” Daniel Vorcaro em
transformar crédito podre de precatórios em ganhos milionários e oferecer
Certificado de Depósito Bancário (CDB) com rentabilidade acima do valor de
mercado, ilustra como o sistema está dominado por oportunistas, vigaristas e
criminosos. Eis aqui a história da república dos sem-vergonhas em quatro atos.
Ato I: os oportunistas são agentes do mercado que ganharam
muito dinheiro vendendo CDBs do Banco Master, oferecendo um investimento
“seguro” e garantido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Mas esses mesmos
agentes sabiam que esses CDBs estavam lastreados em ativos de alto risco, como
os precatórios. O FGC emitiu 38 alertas sobre o Banco Master, mas foram ignorados
porque a farra dos ganhos estava boa demais. Mas os oportunistas não teriam
produto para vender se não fossem os vigaristas.
Ato II: nas democracias avançadas, a dívida do governo com o
cidadão é quitada quando há uma decisão judicial definitiva. Mas no Brasil, o
precatório tornou-se crédito podre. Somente na república dos sem-vergonhas, o
Congresso Nacional aprova uma emenda constitucional que legaliza o calote dos
precatórios. Em português claro, o governo paga quando tiver dinheiro em
módicas parcelas que atravessarão gerações para serem quitadas. Mas Vorcaro
criou uma sólida rede de amizades e interesses com políticos, juízes e
autoridades que o ajudaram a dar liquidez aos precatórios do Master. Essa
mágica se deu graças ao talento do banqueiro em criar a Disney dos
sem-vergonhas, com festas deslumbrantes, viagens em jatinhos particulares,
patrocínio de seminários internacionais e contratos milionários com advogados,
cujo principal ativo é pertencer ao clã familiar de algum ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF). As boas relações com os donos do poder geraram outros
negócios rentáveis, como as operações com o fundo previdenciário do Rio de
Janeiro e do Amapá e os esquemas fraudulentos de desconto indevido do
consignado dos aposentados do INSS. Essas transações necessitam da ajuda dos
criminosos.
Ato III: a Operação Carbono Oculto, conduzida pela Polícia
Federal, desmantelou a operação financeira do crime organizado (PCC) que atuava
por meio de instituições e “laranjas” empregados na lavagem de dinheiro via
mercado financeiro, venda de combustível e outras falcatruas. É o caso de uma
corretora que comprou títulos de um banco estatal falido de Santa Catarina e
transformou-os em crédito “bom” para dar “robustez” aos ativos do Banco Master.
Essas operações fizeram o Master entrar no radar do Banco Central.
A turma da Disney dos sem-vergonhas foi acionada para tentar
salvar o banco da liquidação. Um banco estatal de Brasília anunciou a compra de
R$ 12 bilhões em ativos fraudulentos do Master. Em seguida, criou-se uma
operação de “compra” do controle do banco por uma corretora e um misterioso
grupo de investidores árabes. O Banco Central vetou essas armações e liquidou o
Master. Num país sério, a história terminaria aqui. Mas na república dos
sem-vergonhas, as relações políticas buscam passar por cima das leis e
instituições.
Ato IV: a turma da Disney entrou em ação para tentar reverter
a liquidação do banco. Um ministro da Suprema Corte, cujos familiares têm
ligações perigosas com as operações do Banco Master, transformou o caso em
sigilo de Estado. Outro ministro da Corte, cuja mulher teve contratos firmados
no valor de R$ 129 milhões, fez vários telefonemas suspeitos para o presidente
do Banco Central, como noticiado pela mídia. O teor da conversa foi colocado
sob sigilo. Por fim, um ex-deputado do baixo clero, que usou emendas
parlamentares para financiar um loteamento de casas populares fantasmas,
tornou-se relator do caso do Master no Tribunal de Contas da União (TCU) e, num
arrombo de coronel político, tentou interferir no processo de liquidação do
banco e desafiar a autonomia do Banco Central. Por fim, o presidente da
República deu uma ajudinha. Escolheu para presidir a Comissão de Valores
Mobiliários (CVM) um aliado de Vorcaro, que postergou as investigações do Banco
Master.
Daniel Vorcaro é uma espécie de vírus que só se prolifera
numa República doente, cujos anticorpos – que são as instituições e as leis –
já estão gravemente debilitados pelo câncer da corrupção moral, da degeneração
institucional e da arbitrariedade escancarada dos donos do poder. O único
tratamento eficaz contra esse vírus é a mobilização dos cidadãos de bem para
frear a marcha dos sem-vergonhas que usam o poder para debilitar a democracia,
a liberdade e a política. Se não tivermos coragem para combater os usurpadores
das leis e da Constituição e dar um basta nas relações imorais entre as
autoridades públicas e as saúvas da República, não merecemos ter uma
democracia. Nos tornaremos uma vergonhosa capitania de coronéis que se colocam
acima das leis e das instituições. A escolha é nossa.
Luiz Fernando D’Avila.
O Declínio do Estado de Direito no Brasil e a corrupção no Judiciário.
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
A blindagem do ministro Dias Tofolli não convence a mais ninguém.
Relatório sobre Direitos Humanos sugere pressionar o STF .
Acaba de sair o relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, sobre a liberdade de expressão no Brasil. Como era de se esperar, o relatório demonstra que o Brasil não está dentro dos critérios internacionais de defesa da liberdade de expressão e ainda sugere que o documento deve ser usado para pressionar o Supremo Tribunal Federal a mudanças. O documento detalha o avanço de medidas que restringem a liberdade de expressão sob justificativas vagas de combate à "desinformação" e ao "discurso de ódio". A gente sabe que o governo e o STF continuam tentando classificar os eventos de 8 de janeiro como tentativa de um de golpe de Estado que nunca houve. As ações que tentam justificar um suposto golpe, não passam de uma conveniência política desprovida de embasamento jurídico. O objetivo sempre foi a erosão das garantias constitucionais, como provam as prisões de inocentes e o abandono do devido processo legal.
Servem também, como prova material de que o aparato estatal criou um ambiente onde o sigilo é a regra e a defesa é cerceada. Além do que, a transformação de medidas temporárias em práticas permanentes aproxima o Brasil de regimes autoritários. Se deputados e senadores não podem expressar suas opiniões sem o medo da punição judicial, o pilar da representação democrática é destruído. Temos então, a continuidade do estado de exceção, mascarando a censura com uma suposta defesa das instituições.
Com a proximidade de novas eleições, a narrativa do golpe foi instrumentalizada e o cenário de instabilidade tenta justificar a manutenção do poder a qualquer custo. Há muito trabalho para o Brasil decente.
Vicente Linosegunda-feira, 26 de janeiro de 2026
A vergonhosa nota de Edson Fachin
Rosean Kennedy:
O STF usa discurso de ‘defesa da democracia’ como escudo para rejeitar críticas. "Fazer uma apreciação ética das ligações de Toffoli com o caso Master é o que ajudaria o Supremo a manter sua integridade e a legitimidade democrática"
Lygia Maria:
“Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de Direito. O Supremo age por mandato constitucional, e nenhuma pressão política, corporativa ou midiática pode revogar esse papel".
É vergonhosa a nota do ministro Edson Fachin sobre a tramitação do caso do Banco Master.
O presidente da mais alta corte do país trata o trabalho da imprensa não apenas como ataque ao STF, mas ao próprio Estado democrático de Direito —e esse discurso falacioso tem baseado várias decisões do tribunal.
Não, ministro. Quando jornalistas mostram anomalias no caso —o contrato milionário do escritório de advocacia da esposa de Alexandre de Moraes com o Master; a relação de fundos ligados ao banco com um resort que tinha participação de irmãos de Dias Toffoli; que este frequenta o resort e é visto como se fosse o dono; que a sede da empresa desses irmãos é a residência de um deles e que a cunhada de Toffoli nem sequer tinha conhecimento desse fato—, estão apenas cumprindo sua função social de examinar as ações do poder público.
Não, ministro. Os jornais não querem derrubar o Estado de Direito, mas revelar aos cidadãos fatos que devem ser investigados. E se o STF não quer ser alvo de críticas, também deveria apoiar esclarecimentos. Prefere, porém, bancar a vítima institucional.
Esse papel que a Corte interpreta na nota de Fachin é o mesmo que sustenta os abusos no inquérito das fake news e em outros casos. Em 2024, por exemplo, Moraes abriu investigação sobre o vazamento de mensagens, publicadas pela Folha, que mostram ações fora do rito por parte de seu gabinete porque haveria "indícios da atuação estruturada de uma possível organização criminosa (...) que atenta contra a democracia e o Estado de Direito".
Mas um ministro não é o Supremo, e o Supremo não é a democracia. Qualquer narrativa nesse sentido não passa de blindagem corporativista que, ao tentar conter o escrutínio público pela imprensa, revela-se autoritária.
Lygia Maria é mestre em Jornalismo e doutora em Comunicação.
