A Republica dos sem-vergonhas.
Luiz Felipe D'Avila para o” Estadão.”
O caso escandaloso do
Banco Master retrata a perversa combinação de imoralidade pública e disfuncionalidade
institucional que reina no País. A alquimia do “banqueiro” Daniel Vorcaro em
transformar crédito podre de precatórios em ganhos milionários e oferecer
Certificado de Depósito Bancário (CDB) com rentabilidade acima do valor de
mercado, ilustra como o sistema está dominado por oportunistas, vigaristas e
criminosos. Eis aqui a história da república dos sem-vergonhas em quatro atos.
Ato I: os oportunistas são agentes do mercado que ganharam
muito dinheiro vendendo CDBs do Banco Master, oferecendo um investimento
“seguro” e garantido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Mas esses mesmos
agentes sabiam que esses CDBs estavam lastreados em ativos de alto risco, como
os precatórios. O FGC emitiu 38 alertas sobre o Banco Master, mas foram ignorados
porque a farra dos ganhos estava boa demais. Mas os oportunistas não teriam
produto para vender se não fossem os vigaristas.
Ato II: nas democracias avançadas, a dívida do governo com o
cidadão é quitada quando há uma decisão judicial definitiva. Mas no Brasil, o
precatório tornou-se crédito podre. Somente na república dos sem-vergonhas, o
Congresso Nacional aprova uma emenda constitucional que legaliza o calote dos
precatórios. Em português claro, o governo paga quando tiver dinheiro em
módicas parcelas que atravessarão gerações para serem quitadas. Mas Vorcaro
criou uma sólida rede de amizades e interesses com políticos, juízes e
autoridades que o ajudaram a dar liquidez aos precatórios do Master. Essa
mágica se deu graças ao talento do banqueiro em criar a Disney dos
sem-vergonhas, com festas deslumbrantes, viagens em jatinhos particulares,
patrocínio de seminários internacionais e contratos milionários com advogados,
cujo principal ativo é pertencer ao clã familiar de algum ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF). As boas relações com os donos do poder geraram outros
negócios rentáveis, como as operações com o fundo previdenciário do Rio de
Janeiro e do Amapá e os esquemas fraudulentos de desconto indevido do
consignado dos aposentados do INSS. Essas transações necessitam da ajuda dos
criminosos.
Ato III: a Operação Carbono Oculto, conduzida pela Polícia
Federal, desmantelou a operação financeira do crime organizado (PCC) que atuava
por meio de instituições e “laranjas” empregados na lavagem de dinheiro via
mercado financeiro, venda de combustível e outras falcatruas. É o caso de uma
corretora que comprou títulos de um banco estatal falido de Santa Catarina e
transformou-os em crédito “bom” para dar “robustez” aos ativos do Banco Master.
Essas operações fizeram o Master entrar no radar do Banco Central.
A turma da Disney dos sem-vergonhas foi acionada para tentar
salvar o banco da liquidação. Um banco estatal de Brasília anunciou a compra de
R$ 12 bilhões em ativos fraudulentos do Master. Em seguida, criou-se uma
operação de “compra” do controle do banco por uma corretora e um misterioso
grupo de investidores árabes. O Banco Central vetou essas armações e liquidou o
Master. Num país sério, a história terminaria aqui. Mas na república dos
sem-vergonhas, as relações políticas buscam passar por cima das leis e
instituições.
Ato IV: a turma da Disney entrou em ação para tentar reverter
a liquidação do banco. Um ministro da Suprema Corte, cujos familiares têm
ligações perigosas com as operações do Banco Master, transformou o caso em
sigilo de Estado. Outro ministro da Corte, cuja mulher teve contratos firmados
no valor de R$ 129 milhões, fez vários telefonemas suspeitos para o presidente
do Banco Central, como noticiado pela mídia. O teor da conversa foi colocado
sob sigilo. Por fim, um ex-deputado do baixo clero, que usou emendas
parlamentares para financiar um loteamento de casas populares fantasmas,
tornou-se relator do caso do Master no Tribunal de Contas da União (TCU) e, num
arrombo de coronel político, tentou interferir no processo de liquidação do
banco e desafiar a autonomia do Banco Central. Por fim, o presidente da
República deu uma ajudinha. Escolheu para presidir a Comissão de Valores
Mobiliários (CVM) um aliado de Vorcaro, que postergou as investigações do Banco
Master.
Daniel Vorcaro é uma espécie de vírus que só se prolifera
numa República doente, cujos anticorpos – que são as instituições e as leis –
já estão gravemente debilitados pelo câncer da corrupção moral, da degeneração
institucional e da arbitrariedade escancarada dos donos do poder. O único
tratamento eficaz contra esse vírus é a mobilização dos cidadãos de bem para
frear a marcha dos sem-vergonhas que usam o poder para debilitar a democracia,
a liberdade e a política. Se não tivermos coragem para combater os usurpadores
das leis e da Constituição e dar um basta nas relações imorais entre as
autoridades públicas e as saúvas da República, não merecemos ter uma
democracia. Nos tornaremos uma vergonhosa capitania de coronéis que se colocam
acima das leis e das instituições. A escolha é nossa.
Luiz Fernando D’Avila.