No STF, uma batalha pela alma do Brasil.
Gazeta do Povo
Desde que o presidente do STF, ministro Edson Fachin,
anunciou a realização dessa sessão plenária extraordinária, pressões vindas da
ala dos intocáveis não faltaram. Moraes queria que seu pedido de investigação
contra André Mendonça, relator do caso Master, também fosse analisado na mesma
sessão; o decano Gilmar Mendes fez o mesmo pedido, e ainda disse que a sessão
desta terça-feira deveria ser adiada. Fachin resistiu – e sabe-se lá o quanto
isso deve lhe ter custado – e manteve tanto a data como a pauta. Isso não
impede, no entanto, que os ministros alinhados a Moraes recorram a chicanas de
última hora, seja para impedir uma conclusão, seja para premiar a impunidade.
O único desfecho aceitável nesta terça é a abertura da
investigação e o afastamento de Moraes, para que ele não use seu poder de
ministro para atrapalhar as diligências
Usando como argumento o volume de informações dos celulares
de Vorcaro entregues a Gilmar e a Cristiano Zanin, a pedido destes (e
atropelando a Súmula Vinculante 14 do STF), algum dos aliados de Moraes pode
pedir vista. Ainda há a possibilidade de alegações de suspeição contra outros
ministros, e não se descarta nem mesmo a possibilidade de que Moraes queira
votar em processo que lhe diz respeito (até porque ele já está acostumado a
isso, com respaldo de seus colegas); também Dias Toffoli pode resolver
abandonar a prática de se declarar suspeito nas votações envolvendo Vorcaro,
para ajudar o colega. E ainda há tentativas de transformar a sessão pública em
secreta, o que facilitaria a pressão dos intocáveis sobre os ministros que
podem ser o fiel da balança, como Cármen Lúcia.
Se tudo isso falhar, é bem possível que o Brasil termine
assistindo a uma enfadonha discussão sobre competências, nulidades e outras
nuances jurídicas, sem que os ministros enfrentem os fatos: um banqueiro
investigado (e preso preventivamente) por uma fraude na casa das dezenas de
bilhões de reais tinha uma relação de proximidade e confiança com um ministro
do Supremo, cuja esposa esse banqueiro contratou por somas exorbitantes, em um
contrato que o próprio ministro ajudou a redigir. A intimidade entre Vorcaro e
Moraes era tanta a ponto de o banqueiro pedir ao ministro que interviesse para
frear procuradores da República e agentes da Polícia Federal, e perguntar a
Moraes até mesmo se valeria a pena deixar o país em determinado momento. É o
tipo de conversa a que qualquer agente público decente responderia com uma
ordem de prisão imediata por obstrução de Justiça.
Só isso é mais que suficiente para justificar uma
investigação – e por muito menos que isso centenas de brasileiros tiveram algum
direito fundamental violado por ordem de Moraes ao longo dos últimos sete anos
e meio. Investigação não é atestado de culpabilidade; ela serve exatamente para
colocar tudo em pratos limpos. Falta, por exemplo, saber o que Moraes respondeu
a Vorcaro, já que o ministro usou um expediente digno de Missão: Impossível,
com mensagens que se autodestruíam depois de vistas – algo que, pelos critérios
do próprio Moraes, indicariam a consciência do ilícito, como fez o ministro ao
pedir a condenação da cabeleira Débora, afirmando que ela havia apagado
mensagens e fotos feitas e enviadas no 8 de janeiro.


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