Como Moraes e aliados manobram para acabar com o julgamento que definirá destino do STF
Juliet Manfrin/Aline Rechmann
A menos de 24 horas da sessão que poderá definir se o ministro Alexandre de Moraes será alvo de investigação no Supremo Tribunal Federal (STF), uma série de movimentos processuais e pressões de bastidores ainda podem ser utilizados por aliados do ministro para tentar impedir o julgamento.
Pedidos de acesso a documentos, questionamentos sobre a
composição da sessão, discussões sobre sigilo e uma tentativa de reunir
processos envolvendo Moraes e o ministro André Mendonça em uma mesma sessão
colocaram em dúvida se a Corte chegará a analisar o mérito dos crimes de Moraes
nesta terça-feira (15).
A sessão está marcada para decidir se há elementos para a
abertura de uma investigação sobre as supostas ligações dele com o ex-banqueiro
Daniel Vorcaro.
Veja abaixo as principais estratégias e linhas de ação já
estão sendo desenhadas pelos ministros aliados de Moraes.
Pedido de vista pode interromper análise
Entre as alternativas em discussão está a possibilidade de
um pedido de vista, que interromperia a análise e daria aos ministros mais
tempo para examinar o material reunido no processo.
A hipótese ganhou força diante da quantidade de documentos
que passaram a ser disponibilizados desde sexta passada (11) e da entrega,
nesta segunda-feira (14), pela Polícia Federal aos ministros Cristiano Zanin e
Gilmar Mendes, do conteúdo bruto do celular de Vorcaro, apreendido em novembro
do ano passado. Até agora as decisões dos ministros vinham se baseando sobre
relatórios feitos pela PF sobre esse conteúdo.
“O movimento produz um efeito colateral. Quanto maior o
volume de documentos disponibilizados às vésperas da sessão, maior também pode
ser a justificativa para pedir tempo adicional de análise”, avalia a doutora em
Direito Público Clarisse Andrade.
“Um pedido de vista suspenderia temporariamente a análise [da
conduta de Moraes] e daria mais tempo para que os integrantes do tribunal
examinassem o volume de documentos que vêm sendo disponibilizados. Isso pode
ser uma manobra muito provável para livrar Moraes da sessão de terça”, alerta o
constitucionalista Alessandro Chiarottino.
Para Chiarottino, a entrega do conteúdo do celular de
Vorcaro a Zanin e Mendes na véspera da sessão pode favorecer o argumento. “Uma
justificativa certa a um pedido para adiamento será a de que não houve tempo
hábil para analisar todo esse material e, portanto, seria impossível julgar a
conduta de Moraes sem ter conhecimento pleno do conteúdo”, afirma.
Ministros podem ser excluídos para favorecer Moraes
Outra frente envolve a composição da sessão. Ministros
próximos a Moraes avaliam questionar a participação de Kassio Nunes Marques e
Luiz Fux, citando vínculos de familiares dos magistrados com pessoas
relacionadas ao Banco Master, indicando que os dois ministros podem ser alvo de
eventual suspeição.
Analistas estimam que eles poderiam votar com Mendonça, o
que desequilibraria o julgamento a favor de Moraes.
Essa possibilidade pode explicar um aspecto da pressão que
Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e o próprio Moraes fizeram durante todo o fim de
semana para ter acesso aos dados brutos tirados do celular de Vorcaro.
Se houver menções a mais ministros nos dados do aparelho,
aliados de Moraes podem tentar impedir votos de Mendonça e ministros que
poderiam ser favoráveis à investigação.
Por outro lado, críticos a Moraes reforçam que outros nomes
que já apareceram nas investigações do Master também poderiam ficar impedidos
de votar, como os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes.
De ambos os lados, fontes a par das interlocuções, afirmam que
as relações mencionadas são negadas como fator capaz de comprometer a
imparcialidade dos magistrados.
Outro debate é se os próprios ministros Alexandre de Moraes
e André Mendonça teriam isenção necessária para votar.
“A discussão é extremamente importante porque a retirada de
ministros pode modificar o quórum e o equilíbrio da votação”, alerta Marsiglia.
Na prática, reforçam especialistas, antes de decidir se
Moraes deve ser investigado, o STF poderá ter de responder quem estaria
autorizado a participar da decisão. “É uma situação incomum para uma Corte que
já chega ao julgamento sob forte pressão institucional e descredibilizada”,
reforça Chiarottino.
Sessão fechada pode permitir a Moraes pressionar ministros
A possibilidade de uma deliberação a portas fechadas, sem
transmissão pública, passou a ser discutida diante do potencial desgaste
institucional do julgamento. O formato da sessão ainda não foi definido pelo
presidente da Corte Edson Fachin e não há precedentes na história do STF.
Para juristas, uma sessão fechada reduziria a exposição dos
ministros durante uma discussão que pode envolver acusações, suspeitas e
questionamentos sobre a atuação de integrantes da própria Corte. Outra
possibilidade é que o sigilo sirva para tentar manobrar o voto de ministros. Na
prática, a ministra Cármen Lúcia poderia ceder à pressão e votar contra a
investigação.
Além disso, em uma sessão fechada com Gilmar e Zanin de
posse do material bruto extraído do celular de Vorcaro, em tese, ministros
podem ser ameaçados a não investigar ninguém para que o escândalo não atinja
mais autoridades e eventualmente mais ministros do STF.
Mais de 200 empresários, economistas, juristas e
representantes da sociedade civil assinaram uma carta pública defendendo
transparência e apoio às medidas adotadas por Fachin para enfrentar a crise.
Julgamento conjunto de Moraes e Mendonça
Até o momento, a tentativa da ala contrária às investigações
de reunir os processos relacionados a Moraes e Mendonça não avançou. O
presidente do STF, Edson Fachin, afirmou na semana passada que os casos seriam
analisados em datas distintas: o de Moraes, nesta terça-feira (15), e o de
Mendonça, no dia 23.
“A decisão de Fachin representa, por enquanto, uma barreira
à estratégia de transformar os dois episódios em um único julgamento”, reforça
o doutor em Direito pela Universidade de São Paulo, Luiz Augusto Módolo.
Integrantes do grupo que apoia Moraes avaliam recorrer ao
pedido de vista caso a unificação dos processos não avance, segundo apurou a
reportagem.
“O efeito prático seria significativo. Em vez de decidir
imediatamente se existem elementos para investigar Moraes, membros do Supremo
passam a discutir primeiro se o processo, as provas e a própria composição do
julgamento estão em condições de permitir uma decisão”, afirma o
constitucionalista André Marsiglia.
Moraes questiona a maneira como Mendonça teria conduzido
determinadas diligências e sustenta que houve problemas na obtenção e
utilização de informações. O ministro também passou a cobrar transparência
sobre documentos relacionados ao caso Master.
Do outro lado, Mendonça defende a regularidade de sua
atuação e passou a ter suas decisões examinadas pela Presidência do Supremo
depois que Fachin assumiu a condução de procedimentos relacionados à crise,
além do caso Master também o do INSS.
A situação levou o presidente da Corte a intervir para
impedir que decisões divergentes produzissem efeitos simultâneos sobre os
mesmos fatos. Fachin também determinou medidas para reorganizar os processos e
reduzir o risco de decisões contraditórias.
“A necessidade dessa intervenção revela o tamanho do
problema. A disputa deixou de ser entre dois ministros e passou a envolver
diferentes alas do tribunal em uma divisão clara e com crise histórica. Estamos
vivendo um ineditismo lamentável”, reforça Andrade.
Por que Moraes e Mendonça estão no centro da polêmica no STF
Moraes e Mendonça terão suas condutas submetidas ao plenário
do STF em razão de acusações cruzadas surgidas no desdobramento do caso Master.
Moraes passou a ser alvo de um pedido de investigação depois que mensagens
supostamente trocadas por ele com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro levantaram
suspeitas sobre possível favorecimento ou interferência em assuntos
relacionados às investigações.
Já Mendonça, relator de procedimentos ligados ao caso,
passou a ser questionado por Moraes sobre a forma como conduziu as apurações,
incluindo alegações de abuso de autoridade, direcionamento das investigações e
problemas na obtenção e preservação das provas. O presidente do STF, Edson
Fachin, decidiu que os dois casos serão analisados separadamente.
Ocorre que, como se trata de um fato inédito na Corte, nem o
Regimento Interno do STF prevê de forma precisa como será essa análise. O
documento reforça que o Plenário é competente para processar e julgar ações
penais contra ministros. Mas há uma distinção para o caso. Uma eventual decisão
sobre a abertura de investigação contra um ministro não é ainda um julgamento
criminal. É uma etapa anterior, de natureza investigativa.
Se o plenário estiver decidindo se há elementos para abrir
uma investigação contra Moraes, não se trata ainda do “julgamento de Moraes”
por um crime. Trata-se de uma decisão sobre a instauração ou continuidade de
uma apuração. Se futuramente houver denúncia criminal e ela for recebida, aí se
entraria na fase de ação penal, cujo julgamento, por envolver um ministro do
STF, é competência do Plenário.
Daí viria outro problema, o Regimento não estabelece um
procedimento simples e específico. O caso exige a combinação das regras
regimentais sobre competência, inquérito, impedimento e suspeição e das normas
constitucionais sobre a competência do Supremo e não estipula, por exemplo,
qual seria o quórum necessário para definir se um ministro será ou não
investigado ou uma possível condenação.
O regimento não trata se a maioria decidiria o futuro de um
magistrado ou se seriam necessários dois terços dos membros.
Gazeta do Povo.


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