No Brasil, a integridade é quem paga a conta.
Sabemos todos que, no Brasil, a impunidade frequentemente se
veste de legalidade. Por isso mesmo, causa estranheza a decisão do Conselho
Nacional de Justiça de punir a juíza Gabriela Hardt, conhecida por sua competência
na Operação Lava Jato. Ela foi punida por respaldar a criação de um fundo de R$
2,5 bilhões, devolvidos por criminosos confessos, destinado especificamente
para o combate à corrupção. O rigor disciplinar do Estado se voltou contra quem
buscou canalizar recursos do crime para o fortalecimento das instituições.
Senhores, a corrupção não é uma abstração jurídica. Cada
centavo desviado tem um custo humano devastador: na segurança pública, a
roubalheira retira recursos das forças policiais em um país que registra mais
de 40 mil homicídios por ano; na saúde, priva a população de leitos e remédios
nos hospitais; no saneamento, a roubalheira retira recursos de mais de 32
milhões de brasileiros que não têm acesso à água tratada e de cerca de 90
milhões que vivem sem coleta de esgoto. Roubam na educação e, por isso mesmo, o
Brasil ocupou o 65º lugar entre 81 nações.
O CNJ sabe que, no Índice de Percepção da Corrupção, o Brasil
caiu para a 104ª posição entre 180 países analisados. Ainda assim, arranjou
tempo para punir uma profissional séria, honrada e empenhada no combate ao
crime, enquanto se mantém em conveniente silêncio diante das controvérsias de
ministros do Supremo, para dizer o mínimo. Quando o sistema pune quem combate a
roubalheira e se omite perante os excessos dos poderosos, a mensagem é
devastadora: no Brasil, o crime compensa; a integridade é quem paga a conta.
Vicente Lino.


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