Vista grossa para o massacre.
Guilherme Fiuza
O governo brasileiro disse estar “acompanhando com
preocupação” o massacre do governo iraniano contra a população local. Posição
firme da nossa diplomacia! Massacres são muito preocupantes, mesmo. Mais firme
que isso, só se o Itamaraty dissesse: não temos nada com isso, se virem aí
entre vocês.
E foi quase isso, porque o máximo a que a posição brasileira
chegou até aqui foi desejar que o diálogo impere no Irã e que prevaleça a
vontade dos iranianos sobre o futuro do país. Diante de uma carnificina, ou
você repudia, ou você deplora. Fora disso, é melhor ficar calado, porque podem
achar que você está sendo condescendente.
Existe algo pior do que tratar um regime ditatorial como
parceiro respeitável? Existe: minimizar o ato desse regime que atesta sua
gênese ditatorial, ao sair matando multidões que protestam justamente contra a
opressão. De novo: ou você condena o massacre do povo pelo Estado, ou você não
está em condições de se apresentar como democrata.
Mas o governo Lula tem o seu para-choque propagandístico de
primeira linha. A elite artística nacional, por exemplo, resolveu transformar a
adulação do petismo em razão de viver. Ou seja: o governo pode fazer o que
quiser, pode convidar o ditador chinês para ajudar a regular as redes no
Brasil, pode relativizar a sanha tirânica de Maduro, pode fazer vista grossa
para as atrocidades iranianas. No fim do dia, o Wagner, a Nanda, o Waltinho, a
MPB e cia. vão dedicar a Lula, o Democrata, todas as glórias das suas obras
imortais. E aí fica tudo bem.
Deve ter sido por isso que, antes de dizer que “acompanhava
com preocupação” o banho de sangue no Irã, o Itamaraty achou mais urgente
parabenizar Wagner Moura pela conquista do Globo de Ouro com o filme “O agente
secreto”. Prioridades de uma diplomacia “democrática”. Vale notar que o tema do
filme brasileiro premiado nos EUA é justamente a ditadura. Ou seja: todos se
abraçam na narrativa da resistência democrática contra o “fantasma da ditadura”
e fecham os olhos para a violência real da ditadura amiga.
Wagner Moura usou seu discurso no Globo de Ouro para
denunciar a sombra fascista no Brasil — que ele disse ter tido “manifestações
físicas” entre 2018 e 2022. Ninguém foi impedido de fazer nada ou de falar nada
no Brasil nesse período. Jogaram até futebol com réplica da cabeça do então
presidente. Já os iranianos foram simplesmente protestar contra seu governo e
acabaram trucidados. Nem Wagner, nem o incrível Hulk, nem nenhum dos seus
coleguinhas “progressistas” se compadeceu publicamente dos iranianos
massacrados por uma ditadura de verdade.
Quem vai fazer o filme sobre toda essa gente preocupadíssima
com vidas, com democracia e com liberdade, que vitamina suas carreiras dando
lastro a mandatários que contrariam todos esses princípios humanitários?
Guilherme Fiuza é jornalista, escritor e roteirista.

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