Renovação do Senado é início da renovação do Brasil
Gazeta do Povo.
O primeiro turno das eleições terminou com a disputa pela Presidência da República se encaminhando para o segundo turno, mas não da forma como se imaginava. Enquanto praticamente todas as pesquisas mostravam Lula à frente de Flávio Bolsonaro, ainda que em situação de empate técnico, o candidato do PL recebeu pouco mais de 47% dos votos válidos, ficando dois pontos porcentuais (ou cerca de 2,5 milhões de votos) à frente do petista. Mas, se a definição sobre o próximo ocupante do Planalto ficou para o dia 25, a melhor notícia do dia vem dos resultados para o Senado Federal.
Candidatos ao Senado que fazem oposição a Lula e se
mostraram, ao longo da campanha, inclinados a levar adiante os tão necessários
processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal levaram
as duas vagas em disputa no Distrito Federal e em vários estados, incluindo São
Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso
do Sul e Rondônia; em outros estados, conseguiram uma das vagas. Assim, compensaram
com folga a derrota de atuais senadores favoráveis ao impeachment e que não
serão reeleitos, como o mineiro Carlos Viana, o capixaba Marcos do Val e o
paraense Zequinha Marinho, bem como a saída de senadores de direita e
centro-direita que se elegeram governadores, caso do paranaense Sergio Moro e
do rondonense Marcos Rogério. Além disso, petistas e outros aliados do governo
perderam seus lugares na casa: o alagoano Renan Calheiros, o amapaense Randolfe
Rodrigues, a brasiliense Leila do Vôlei, o capixaba Fabiano Contarato, os
maranhenses Weverton Rocha e Eliziane Gama, a sul-matogrossense Soraya
Thronicke, e o rondonense Acir Gurgacz.
Ninguém precisava ser jurista ou cientista político para
perceber que havia algo profundamente errado no menor dos prédios da Praça dos
Três Poderes; bastava o bom senso
O recado das urnas foi muito claro. Muitos brasileiros
perceberam o espetáculo deprimente de autoproteção protagonizado pela “tropa de
choque” do Supremo, na sessão de 15 de setembro. E viram como o STF tentou, nos
últimos dias, atropelar o Tribunal Superior Eleitoral em temas que diziam
respeito especialmente à corte eleitoral, em uma interferência escancarada com
o objetivo quase explícito de beneficiar o atual presidente da República.
Ninguém precisava ser jurista ou cientista político para perceber que havia
algo profundamente errado no menor dos prédios da Praça dos Três Poderes;
bastava o bom senso. Felizmente, campanhas e formadores de opinião souberam
comunicar ao eleitor a necessidade de mudar o Senado para colocar um freio no
Supremo, e o cidadão entendeu o recado.
O primeiro teste para essa nova configuração do Senado
ocorrerá assim que os parlamentares iniciarem o trabalho, em fevereiro de 2027.
A maioria conquistada neste domingo é suficiente para que se possa finalmente
remover o covarde Davi Alcolumbre (que não disputou as eleições agora por estar
na metade dos seus oito anos de mandato) da presidência do Senado e
substituí-lo por alguém com a coragem de colocar para votação os inúmeros
pedidos de impeachment já protocolados contra Alexandre de Moraes e outros
ministros – o nome que desponta é o de Rogério Marinho (PL-RN), que já tentou o
comando da casa em 2023, sendo derrotado por Rodrigo Pacheco.
E esse novo Senado, se for fiel à campanha que fez, não
ajudará apenas a retirar do Supremo os atuais ministros indignos da toga; ele
também poderá garantir que não tenhamos mais militantes partidários no STF à
medida que as vagas na suprema corte forem abertas – uma delas já existe,
deixada por Luís Roberto Barroso. Se o Senado atual já foi capaz de barrar
Jorge Messias, um Senado ideologicamente mais à direita deve, em tese, ser uma
salvaguarda contra novos integrantes da suprema “tropa de choque”, ainda que
Lula saia vencedor no segundo turno da eleição presidencial.
Lula e o PT ainda não foram derrotados, mas o domingo deixa
uma forte esperança de renovação no Poder Legislativo. O Senado passou tempo
demais adormecido, omitindo-se diante de sua obrigação constitucional de ser o
contrapeso aos abusos do Supremo, porque os senadores corajosos ainda eram minoria,
e o presidente da casa preferiu entrar para a história como um pusilânime. Quem
deseja um Brasil decente, onde a juristocracia seja enterrada para dar lugar ao
retorno do império da lei, tem muitos motivos para celebrar neste 4 de outubro.


Nenhum comentário:
Postar um comentário