Grupo que apoiou censura sente na pele aparato que ajudou a criar no Brasil.
Leonardo Desideri
O cancelamento do último debate presidencial da TV Globo, na
noite da quinta-feira (1º), produziu uma situação que seria difícil imaginar
poucos anos atrás. Depois de receber decisões do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) que alteravam as regras do programa,
a Globo denunciou uma “interferência indevida” do Judiciário na liberdade dos veículos
de comunicação para organizar debates eleitorais, e cancelou o evento alegando
insegurança jurídica.
A reação da emissora se soma a uma mudança de tom já
perceptível entre setores que, nos últimos anos, haviam apoiado a censura do
Judiciário sobre o debate público. Políticos, artistas e formadores de opinião
que defenderam bloqueios de plataformas e remoções de conteúdo em nome de um
suposto combate à desinformação agora veem suas próprias publicações atingidas
e passam a falar em censura ou ameaça à liberdade de expressão. O aparato
criado para alcançar adversários políticos começa a produzir efeitos também
sobre quem ajudou a legitimá-lo.
Artistas, parlamentares e comentaristas que no passado
defenderam a censura do Judiciário agora também reclamam de publicações
derrubadas, depois de serem enquadrados pelas regras que apoiaram.
Um dos casos mais recentes é o do humorista Antonio Tabet,
que argumentava, em defesa das decisões de censura do Judiciário, que
determinados discursos não podem ser tratados como se estivessem fora de
qualquer responsabilidade. Quando o ministro André Mendonça decidiu retirar uma
publicação sua no caso recente da fake news sobre Flávio Bolsonaro e Nossa
Senhora Aparecida, Tabet passou a falar explicitamente em censura e levou a
questão ao Supremo. Ao final, o próprio TSE delimitou a ordem inicial e
permitiu que sua postagem permanecesse no ar.
Em abril de 2024, durante o confronto de Elon Musk com
Alexandre de Moraes, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) afirmou que regulamentar
as redes era urgente e disse que, se o X concretizasse a ameaça de descumprir
decisões brasileiras, o país tinha “plena capacidade de bloquear o acesso à
rede social”. “Vai ser chato, mas é o mais seguro a se fazer e ninguém vai
morrer”, comentou.
Recentemente, uma postagem da deputada também sobre o caso
de Nossa Senhora Aparecida entrou na mesma ordem de remoção do TSE, revista
posteriormente. Erika recorreu ao tribunal. “Não se pode admitir censura no
atacado, sem ao menos analisar as postagens e identificar eventual
desinformação”, disse sua defesa.
Em 2023, ao defender o PL das Fake News, o deputado Zeca
Dirceu (PT-PR) escreveu que era necessário pôr fim à “terra de ninguém” das
redes sociais, com maior responsabilização das plataformas. Em 2024, falou que
o empresário Elon Musk, dono do X, estava “pedindo por penalidades mais graves”
ao descumprir as ordens de Alexandre de Moraes.
Em 26 de março deste ano, Zeca publicou que o ex-procurador
Deltan Dallagnol, candidato ao Senado (Novo-PR) e que teve seu mandato como
deputado federal cassado em 2023, “segue inelegível” e “é criminoso”. A Justiça
Eleitoral do Paraná mandou retirar as postagens e, em abril, multou Zeca em R$
15 mil por propaganda eleitoral antecipada negativa. Zeca acusou Deltan de
censura. No mês seguinte, contudo, ele conseguiu no STF autorização para
recolocar as publicações no ar: Gilmar Mendes, desafeto de Dallagnol, concluiu
que a Justiça Eleitoral do Paraná havia imposto uma “indevida restrição à
liberdade de expressão”.
Outro caso é o do economista e comentarista político Joel
Pinheiro da Fonseca. Nas redes sociais, viralizou nos últimos dias um vídeo de
julho de 2020 em que ele comentava a decisão de Moraes que suspendeu perfis de
investigados no inquérito das fake news. Na ocasião, Joel rejeitou a ideia de
que a medida configurasse censura. “O que foi feito aqui não está censurando nenhuma
opinião”, afirmou. Moraes havia determinado a suspensão de contas de apoiadores
de Jair Bolsonaro, entre eles Allan dos Santos, Sara Winter e Luciano Hang, no
âmbito do inquérito das fake news.
Seis anos depois, foi Joel quem viu uma publicação sua
desaparecer para o público brasileiro. A Meta restringiu, cerca de 15 minutos
depois da postagem, um vídeo em que ele criticava decisões de Flávio Dino e
dizia que o STF estava “fora de controle”. A empresa alegou cumprimento das
regras eleitorais brasileiras. O episódio ocorre num ambiente em que as
plataformas passaram a assumir obrigações cada vez maiores de monitoramento e
retirada de conteúdos, tanto pela regulamentação eleitoral quanto pelas novas
balizas fixadas pelo STF para a responsabilidade das redes, após o julgamento
sobre o artigo 19 do Marco Civil.
Desta vez, a reação de Joel foi diferente da de 2020: “Não
dá. Olha o estado do debate público como fica”, comentou, reclamando que não
encontra nem sequer um caminho para contestá-la. A própria Meta chegou depois a
concluir, em uma revisão, que o conteúdo não violava as regras eleitorais e o
restabeleceu, antes de retirá-lo novamente horas mais tarde, sem explicação.
Veículos que apoiaram restrições agora reclamam de censura
Diversos veículos de comunicação que antes apoiavam as
restrições impostas pelo Judiciário agora apontam explicitamente que ministros
estão praticando censura e ameaçando a democracia.
Na maior emissora de TV do país, acusações de intromissão
indevida do Judiciário surgem depois de anos em que o próprio Grupo Globo
tratou intervenções severas sobre plataformas e conteúdos como respostas
legítimas aos problemas trazidos pelas redes sociais. O apoio do conglomerado a
um endurecimento do controle sobre conteúdos nas redes está registrado em
editoriais de O Globo dos últimos anos.
Em setembro de 2021, o jornal disse que o TSE fazia “muito
bem” ao “apertar o cerco contra as mentiras” sobre o sistema eleitoral. Em
janeiro de 2022, considerou correta a possibilidade, levantada pelo então
presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, de suspender o Telegram no país,
reconhecendo que a medida restringiria a liberdade dos usuários, mas
sustentando que “qualquer outro caminho poderia se revelar irresponsável”.
Em 2023, defendeu a aprovação urgente do PL das Fake News e
a ampliação da responsabilidade das empresas pelo conteúdo publicado por
usuários. E, em junho de 2025, chamou de “avanço indiscutível” a maioria
formada no STF para derrubar a proteção do artigo 19 do Marco Civil da Internet
e permitir que plataformas fossem responsabilizadas por determinados conteúdos
mesmo antes de uma ordem judicial de remoção.
Leonardo Desideri


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