sexta-feira, 16 de outubro de 2026

 Para ajudar Lula, Alcolumbre transforma Senado em “fim de   feira”

Gazeta do Povo.



  Dependente da reeleição de Lula para sua sobrevivência política como presidente do Senado, Davi Alcolumbre resolveu transformar a casa que comanda em uma extensão dos interesses da dupla, e para isso instalou um clima de “fim de feira”. Com a perspectiva de um Senado mais conservador a partir de fevereiro de 2027, a ordem, agora, é correr com absolutamente tudo que convenha aos dois – e, no caso de Lula, possa dar uma força à sua campanha pelo quarto mandato presidencial. Quem perde com esse acordo espúrio, obviamente, é o país – e tudo isso com a ajuda de praticamente todos os demais senadores, que abriram mão da decência na quarta-feira e, se não reencontrarem o rumo o quanto antes, serão cúmplices do rebaixamento da casa legislativa.

Após a aprovação do fim da escala 6x1, a bola da vez era a PEC da Segurança Pública, outro projeto muito caro ao petismo, já que o tema está entre as prioridades dos brasileiros nesta eleição – em parte, porque a conhecida leniência petista com o crime ajudou a deixar o país refém da bandidagem – e Lula quer desesperadamente ter algo a mostrar ao eleitor, para fingir que está agindo. A despeito de alguns itens positivos, como um regime jurídico mais rigoroso para membros de facções, é um projeto ruim, que cristaliza na Constituição a visão esquerdista sobre o tema: uma visão ainda leniente com a criminalidade em geral (basta ver como a bancada petista inviabilizou uma tentativa de reduzir a maioridade penal, demanda da maioria dos brasileiros) e centralizadora, simbolizada pelo Sistema Único de Segurança Pública (Susp), que tira protagonismo dos governadores, aqueles que conhecem melhor os desafios de seus estados.

Relações de trabalho, segurança pública, um Código Civil e uma indicação ao Supremo são temas de enorme importância; senador nenhum tem o direito de brincar dessa forma com o futuro do país

Ao menos nesta quinta-feira, Lula não conseguiu o que desejava: a discussão sobre a maioridade penal colocou em risco a aprovação da PEC, fazendo Alcolumbre retirá-la da pauta. Mas o Senado compensou fartamente o petista ao aprovar, na sessão deste dia 15, o perdão das dívidas tributárias dos microempreendedores individuais (MEIs), uma irresponsabilidade fiscal e moral, pois trata como idiotas os MEIs que se esforçam para cumprir suas obrigações para com o Fisco.

O plano da dupla Lula-Alcolumbre, portanto, está tendo sucesso, apesar do pequeno contratempo com a PEC da Segurança Pública. E as más notícias não terminarão por aí. Um projeto que felizmente havia entrado em modo de hibernação ressurgirá em breve, com a mesma pressa imposta ao fim da escala 6x1 e à PEC da Segurança. Segundo informações de bastidores, o nefasto Novo Código Civil também deve entrar na pauta o quanto antes – sem a devida discussão, assim como ocorreu com as duas PECs. A Gazeta do Povo já destrinchou o projeto em várias ocasiões, mostrando como ele não passa de uma colcha de retalhos ideológica, que afetará de modo decisivo (e para muito pior) temas como a defesa da vida, o direito de família, a liberdade de expressão, o respeito aos contratos e o direito do consumidor. Trata-se praticamente de uma demolição do edifício atual – uma demolição que nem de longe era demandada pela sociedade, nem mesmo pela comunidade jurídica – para se erguer algo inteiramente novo, sem que os representantes do povo tenham tido a ocasião de discutir o que já descrevemos como a espinha dorsal do ordenamento jurídico brasileiro.

E, não contente em acelerar a tramitação do Código Civil, Alcolumbre ainda quer recompensar o seu criador: o ex-senador e agora ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Rodrigo Pacheco. Ele era o preferido de Alcolumbre para ocupar a cadeira aberta pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso no STF; Lula insistiu em indicar seu advogado-geral, Jorge Messias, e a disputa azedou as relações entre o presidente da República e o presidente do Senado, resultando na histórica rejeição do nome de Messias no plenário. Mas isso são águas passadas e, segundo a Folha de S.Paulo, Lula estaria disposto a recompensar a ajuda dada por Alcolumbre nos últimos dias, tirando Pacheco do “prêmio de consolação” que ele havia recebido no TCU, e realizando o seu verdadeiro sonho. Nem é preciso dizer que o mero fato de ser o pai do projeto do Novo Código Civil já bastaria para desqualificá-lo ao cargo de ministro do Supremo, mas o que mancha definitivamente seu histórico é sua omissão diante dos abusos do STF; tendo presidido o Senado entre 2021 e 2024, Pacheco nada fez com os vários pedidos de impeachment que já povoavam sua mesa, inaugurando a tradição de covardia continuada por Alcolumbre.

É possível conter essa onda de descalabros? Sim, mas os senadores não deram, até agora, nenhuma demonstração de que irão fazê-lo. Apenas Hamilton Mourão votou contra a PEC que acabava com a escala 6x1 e reduzia a jornada de trabalho semanal; outros cinco não compareceram em ao menos um dos dois turnos de votação; todos os demais, incluindo muitos senadores da oposição, deram seu aval a uma proposta cujos efeitos estão longe de terem sido devidamente discutidos, e entregaram de bandeja a Lula um trunfo eleitoral. Em vez de repetir a obstrução bem-sucedida do início de setembro, cederam ao populismo fácil em vez de fazer o certo, por mais difícil que fosse. No dia seguinte, repetiram a dose no projeto sobre as dívidas dos MEIs – desta vez, não houve um único voto contrário sequer.

Sabemos que há senadores caracterizados pela adesão convicta, ideológica, ao erro. Outros, como o próprio Alcolumbre, estão afundados até o pescoço no “acordão” feito com Lula. Mas e os demais? O que explica tamanha pusilanimidade, tamanha falta de pulso na defesa de suas ideias e na oposição aos planos do governo? Pura conveniência eleitoral? Ressentimento por uma derrota em 4 de outubro? Alguma crença fantasiosa na possibilidade de que lhes sobrem algumas migalhas do dividendo eleitoral que Lula colherá para si com a aprovação desses projetos? Algum outro motivo igualmente incompreensível?

Não se trata de simplesmente fazer oposição por oposição, mas de barrar propostas ruins, seja derrubando-as diretamente, seja freando sua tramitação para que haja discussão mais serena e, principalmente, descontaminada do processo eleitoral. Relações de trabalho, segurança pública, um Código Civil e uma indicação ao Supremo são temas de enorme importância, e as decisões que estão sendo tomadas agora ou serão tomadas nos próximos dias terão consequências por muitos anos. Senador nenhum tem o direito de brincar dessa forma com o futuro do país. Com o estrago já feito em alguns casos, ainda é possível impedir que nos próximos dias o desastre se torne ainda maior, mas isso exigirá uma coragem que anda desaparecida.


Editorial da Gazeta do Povo.



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