O Ciclo da Impunidade Institucional
A ex-Desembargadora Federal, Eliana Calmon foi
Corregedora Nacional de Justiça de 2010 a 2012. Em entrevista, a ex-juíza
revelou sua dificuldade para lidar com a pressão de juízes e de suas
associações. Sua gestão buscou exercer o controle e a moralização do Poder Judiciário.
Ela conseguiu aprovar a Resolução nº 135, que descentralizava e dava dentes à
fiscalização dos magistrados. A norma garantia ao órgão nacional o poder de
investigar e punir juízes diretamente, sem depender da condescendência
corporativa das corregedorias locais.
Adiantou pouco, porque a Corregedora não
conseguiu evitar a corrosão ética e institucional que atinge o topo do sistema
judiciário brasileiro. Apesar de seus esforços, Eliana Calmon não conseguiu
punir o erro ou o crime cometido na magistratura com o devido rigor, porque
estes não conduziam ao exílio financeiro ou à perda radical de status, mas à
inatividade remunerada.
O CNJ passou a funcionar mais como uma câmara de
validação de penduricalhos e indenizações extraordinárias do que como o órgão
corajoso de autocrítica vislumbrado por Eliana Calmon. Bancas de familiares de
magistrados seguiram operando contratos astronômicos, que se justificavam
apenas como exercício de advocacia de influência — exatamente igual ao que o
Brasil assiste nos dias de hoje.
Enquanto a fiscalização sobre os magistrados
de piso se converteu em ritos pro forma e aposentadorias de privilégio, a
cúpula do sistema passou a operar sob a permanente presunção de que é formada
por pessoas intocáveis. Igual ao Brasil de hoje. O julgamento entre pares
passou a primar pela preservação do corpo e pela blindagem da imagem da
instituição, mesmo quando as suspeitas agridiam o senso comum da sociedade.
Temos um Poder que nos custou R$ 165 bilhões em 2025 e, ainda assim, no topo,
ministros são flagrados em movimentações milionárias sem permitir nem mesmo a
abertura de investigações.
A Corregedora foi vencida pelo corporativismo de uma
classe que blinda os seus culpados, não se respeita e, muito menos, merece o
nosso respeito.
Vicente Lino.


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