Lula usa Bolsa Família para cartada eleitoreira.
Gazeta do Povo.
Evidentemente, haverá de ser pura coincidência o fato de
esse espaço no orçamento ter “aparecido” – e isso é pura força de expressão,
pois o governo não tem dinheiro em caixa, sempre gastando mais do que arrecada
– a duas semanas do primeiro turno das eleições. Também é totalmente acidental
o fato de que o aumento começará a cair no bolso dos beneficiários em meados de
outubro, alguns dias antes de um segundo turno que promete ser extremamente
disputado, com pesquisas que já mostram Flávio Bolsonaro numericamente à frente
do petista, ainda que dentro da margem de erro – algo que não ocorria (ou ao
menos não ocorria com tanta frequência) quando o ministro Moretti descartou
reajustes no Bolsa Família, ao fim de agosto. Os mais sarcásticos haverão de
dizer que os beneficiários deveriam ser mais agradecidos ao candidato da
oposição que ao presidente da República...
Haverá de ser pura coincidência o fato de o espaço no
orçamento para aumentar o Bolsa Família ter “aparecido” a duas semanas do
primeiro turno das eleições
Se tem cara de medida eleitoreira, cheiro de medida
eleitoreira, gosto de medida eleitoreira, a conclusão é óbvia: de fato trata-se
de medida eleitoreira, uma tentativa final de capturar um eleitor que, tendo
visto a manutenção dos programas de renda mínima em governos não petistas, como
os de Michel Temer e Jair Bolsonaro, já não cai em ameaças apocalípticas sobre
o “fim do Bolsa Família” em caso de vitória da oposição. Com esse mesmo eleitor
percebendo uma inflação persistente, que só arrefece porque o Banco Central se
contrapõe à gastança inflacionária do governo, sobra a solução fácil de
“colocar dinheiro na mão do povo”, como disse Lula em uma reunião ministerial
de 2025, e torcer para que um modelo que já dá sinais de esgotamento sobreviva
até o fim de outubro.
O reajuste já está sendo contestado na Justiça. Uma ação
movida pelo deputado Zé Trovão no Tribunal Superior Eleitoral foi rejeitada
pelo ministro André Mendonça por questões processuais – o parlamentar não tinha
legitimidade para protocolar a ação. Mendonça ainda é relator de outra ação, do
também candidato ao Planalto Renan Santos. No STF, Gilmar Mendes atendeu a
pedido da Advocacia-Geral da União e afirmou que o reajuste é constitucional.
No Tribunal de Contas da União, o subprocurador-geral Lucas Furtado, do
Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU), pediu a
suspensão do decreto presidencial, alegando que ele cria “despesa obrigatória
de caráter continuado” sem aprovação de lei – e haja despesa: quem vencer em
outubro herdará uma conta de cerca de R$ 90 bilhões ao longo dos próximos
quatro anos, apenas com esse reajuste. Um governo empenhado em realizar um
ajuste fiscal talvez consiga (a muito custo) acomodar essa despesa sem grandes
solavancos; já para um governo gastador como o petista, os R$ 90 bilhões não
passarão de mais um entre tantos gastos que provocam inflação (engolindo todos
os ganhos do reajuste do Bolsa Família) e forçam o Banco Central a elevar
juros, freando a economia.
E, ao que tudo indica, Lula não pretende parar por aí.
Governo e equipe econômica tentam viabilizar aumento em outro benefício, o
Pé-de-Meia; mais uma subvenção ao óleo diesel, para evitar uma alta no preço do
combustível; e está em análise um novo programa de socorro a endividados pelo
qual o Tesouro Nacional compraria dívidas antigas diretamente dos credores.
“Estamos apresentando [a proposta] para o presidente levar para a campanha”,
disse o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ao jornal Extra. Pelo voto, vale
tudo, inclusive piorar ainda mais a já muito maldita herança que Lula quer
receber de si mesmo.


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