A “ética da máfia” e o “capo” Gilmar.
Gazeta do Povo
Gilmar Mendes desrespeitou André Mendonça durante sessão do
STF e pressionou colegas pelo WhatsApp.
Gilmar acusava seu colega André Mendonça de seletividade
diante da possibilidade de que outros ministros do Supremo também estivessem
enroscados com Vorcaro, já que o único pedido de investigação protocolado até o
momento era contra Moraes. “Como se a gravidade da notícia variasse conforme o
nome do magistrado a que se refere, ou conforme o tribunal que ele integra”,
disse o decano, defendendo que ninguém poderia ser investigado até que se
pudesse levantar todos os magistrados, de todas as instâncias, contra os quais
houvesse indício de irregularidade, e só então se prosseguisse com qualquer
tipo de providência ou investigação.
Decência, para Gilmar Mendes, é esconder os podres dos
parceiros. Mas aquilo que é “ética” entre bandidos tem outros nomes quando se
trata de agentes públicos
É o clássico caso da conclusão que não deriva da premissa.
Que todo juiz, desembargador ou ministro seja investigado se houver indícios de
negócios escusos com o banqueiro; quanto a isso não há dúvida. Mas é justamente
esse o caso de Moraes – e, verdade seja dita, absolutamente nada do que
apareceu até o momento chega perto do que se sabe a respeito das conexões entre
Vorcaro e Moraes. Nem mesmo Dias Toffoli recebeu mensagens do banqueiro pedindo
proteção e aconselhamento sobre viagem ao exterior (leia-se fuga), e o contrato
do Master com o escritório Barci de Moraes supera tranquilamente todos os
valores divulgados até agora a respeito das negociações pelo resort Tayayá.
A “gravidade da notícia”, portanto, não depende do nome do
juiz ou do seu tribunal, mas dos próprios fatos. O que já existe é mais que
suficiente para justificar a investigação contra Moraes, sem prejuízo de
futuras investigações contra outros magistrados, do STF ou de qualquer outra
corte. Mendonça não afirmou que não há motivos para investigar outros
ministros; ele apenas concluiu que o caso de Moraes já está suficientemente
maduro para se chegar a essa etapa. É Gilmar quem defende um método mafioso, a
omertà: o silêncio em que um membro protege os demais, “mesmo que estejam
eventualmente envolvidos”, para usar as palavras do próprio ministro. Foi isso
que Gilmar e Flávio Dino executaram com maestria, na terça-feira, com a ajuda
de Cristiano Zanin (pela ação) e Nunes Marques (pela omissão). Isso, sim, é
decência para Gilmar: esconder os podres dos parceiros. Mas aquilo que é
“ética” entre bandidos tem outros nomes quando se trata de agentes públicos, e
alguns deles estão no Código Penal, como prevaricação ou obstrução de Justiça.
E Gilmar Mendes parece entender tanto de máfia que
incorporou o papel de capo do Supremo Tribunal Federal. O ministro é o decano
da corte, mas se comporta como se fosse o dono do tribunal. Em público, exige
que os demais ouçam calados suas insanidades e acusações, mas interrompe os
colegas quando bem entende para insultá-los, como fez com Mendonça na
terça-feira. Privadamente, pressiona-os para que aceitem seus ditames. “Assumam
que estão ferrados e saiam dos processos. Abram as contas (...) Você tem de
sair do TSE também (...) Abra as suas contas antes de julgar qualquer coisa
desse caso na turma”, afirmou Gilmar a Nunes Marques no WhatsApp em 8 de
setembro, mesmo dia em que o decano também disse a Luiz Fux que lhe faltou
“postura institucional” – possivelmente em referência ao julgamento na Segunda
Turma em que se formou maioria para manter o afastamento do diretor-geral da
Polícia Federal, medida que seria revertida posteriormente.
Aos amigos, o silêncio protetor; aos adversários, a
intimidação. Quando diz que “até a máfia tem ética”, Gilmar Mendes não está
usando uma hipérbole para criticar um comportamento que considera mais baixo
que o de bandidos; ele está considerando que o código mafioso é algo digno de
ser seguido. Não irá admiti-lo abertamente, é claro, mas seu comportamento o
entrega. Fachin é o presidente, mas Gilmar é o capo do Supremo Tribunal
Federal.


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