Alexandre de Moraes na presidência do STF aprisionará o Brasil nas trevas institucionais
Marco Vinicius
Pereira de Carvalho
O Supremo Tribunal Federal (STF) vivenciou períodos em que a
estatura moral e a sobriedade de seus integrantes constituíam o verdadeiro
esteio da autoridade judiciária nacional. Figuras históricas como os ministros
Victor Nunes Leal, Carlos Thompson Flores, Néri da Silveira e Francisco Rezek,
entre outros, personificavam o modelo clássico do magistrado vocacionado:
comedido nos pronunciamentos, estritamente apegado à liturgia republicana e
plenamente consciente de que a legitimidade do tribunal repousa na observância
intransigente da imparcialidade.
Em contraste absoluto com essa linhagem institucional, a
Suprema Corte enfrenta hoje uma erosão de credibilidade sem precedentes, cujo
ápice desponta no horizonte com a perspectiva da ascensão de Alexandre de
Moraes à presidência do órgão de cúpula do Poder Judiciário.
A gravidade do quadro atinge níveis intoleráveis diante dos
episódios estarrecedores que vinculam o ministro a interesses privados
incompatíveis com o recato da toga. Os elementos que vieram a público revelam
relações espúrias com o banqueiro Daniel Vorcaro, abrangendo mais de 50
contatos diretos, intervenção na minuta e edição de contrato milionário firmado
entre o escritório de sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, e a
instituição financeira representada por Vorcaro, além do recebimento indevido
de benesses.
Tais fatos rompem o dever elementar estampado no art. 35,
VIII, da Lei Complementar 35/1979, que impõe ao juiz a manutenção de conduta
irrepreensível na vida pública e particular. Longe de caracterizar mero deslize
de etiqueta institucional, o estreitamento promíscuo entre um magistrado da
mais alta corte e um operador do sistema financeiro estraçalha os limites
éticos que sustentam a jurisdição republicana.
Caso se consume a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva e a confirmação de Alexandre de Moraes no comando da Suprema Corte e
do Conselho Nacional de Justiça, o arranjo de conveniência mútua entre o
Executivo e uma magistratura cúmplice fulminará qualquer resquício de
equilíbrio entre os poderes
O ápice da distorção dogmática consolidou-se quando o
ministro Alexandre de Moraes proferiu voto em processo no qual ele próprio
figurava como alvo direto de apuração. Essa anomalia jurídica afronta o
postulado basilar do direito ocidental, segundo o qual ninguém pode ser juiz de
sua própria causa (nemo judex in causa sua).
O ordenamento pátrio é categórico ao interditar o exercício
de jurisdição nessas circunstâncias, estabelecendo a nulidade absoluta dos atos
praticados por julgador impedido ou suspeito, consoante a expressa dicção dos
artigos 144 e 145 do Código de Processo Civil. Ao participar de julgamento que
dizia respeito à sua própria conduta, suprimiu-se a garantia do juiz imparcial
para converter o plenário em trincheira de autotutela.
Para além da conduta individual, o que verdadeiramente
assombra a sociedade brasileira é a orquestração institucional montada no seio
do colegiado. Em vez de instaurarem as apurações cabíveis para preservar a
respeitabilidade do tribunal, os ministros Gilmar Mendes, Flávio Dino e
Cristiano Zanin articularam uma blindagem sistemática em prol de Moraes. Esses
magistrados ignoraram solenemente as evidências contundentes de promiscuidade
negocial e tráfico de influência, operando ativamente para abafar qualquer
pretensão investigativa e convertendo a corte em escudo corporativo contra o
império da lei.
A perversão institucional atingiu o extremo quando a postura
ética e corajosa do ministro André Mendonça passou a ser vilipendiada. Ao
recusar a conivência omissiva com os desvios de seu par, Mendonça cumpriu o
estrito dever funcional e encaminhou ao presidente do STF o processo instruído
com as evidências das irregularidades praticadas por Moraes.
Em retaliação à integridade demonstrada, os ministros Gilmar
Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin deflagraram uma campanha covarde e imoral
de isolamento, constrangimento e perseguição contra Mendonça, criminalizando a
lealdade republicana e consagrando a subserviência ao compadrio como regra de
sobrevivência interna.
A conjugação entre a degeneração moral interna e a
conjuntura política desenha um panorama sombrio para o futuro do país. Caso se
consume a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a confirmação de
Alexandre de Moraes no comando da Suprema Corte e do Conselho Nacional de
Justiça, o arranjo de conveniência mútua entre o Executivo e uma magistratura
cúmplice fulminará qualquer resquício de equilíbrio entre os poderes.
Uma corte sequestrada pelo corporativismo, surda às
exigências de transparência e comandada por quem desrespeita os limites da lei
aprisionará o Brasil em um prolongado estado de trevas institucionais. O que já
se afigura deletério assumirá contornos trágicos e irreversíveis para o Estado
Democrático de Direito.
Marco Vinicius Pereira de Carvalho é advogado público.
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