O Brasil não tem a cara do STF.
Carlos Alberto Di Franco
Pedido de vista de Flávio Dino beneficiou Alexandre de
Moraes e travou pedido de investigação feito por André Mendonça.
A atual situação do Brasil preocupa. E muito. O desencanto
da população é imenso. Os poderes da República, isolados no conforto da Ilha da
Fantasia, parecem viver de costas para a cidadania. Não escutam as ruas,
desprezam as críticas e, frequentemente, reagem às cobranças legítimas da
sociedade com arrogância e autoritarismo.
Existe um Brasil real, constituído por um povo bom,
trabalhador e honrado. Um povo que acorda cedo e dorme tarde, que enfrenta
transportes precários, hospitais deficientes e uma insegurança crescente. Paga
impostos escorchantes e recebe pouquíssimo em troca. É o Brasil dos pequenos
empresários, dos profissionais liberais, dos agricultores, dos professores e de
milhões de famílias que lutam para educar seus filhos e preservar seus valores.
E existe outro Brasil: o país dos poderosos da República,
daqueles que se consideram acima das leis e imunes à prestação de contas. É o
universo dos privilégios, dos gabinetes refrigerados, das decisões tomadas
longe da realidade e dos que chegam ao absurdo de invocar a ética da máfia como
baliza de comportamento para magistrados. Uma inversão moral que, em qualquer
democracia saudável, provocaria imediato e generalizado repúdio.
As cenas ocorridas antes, durante e depois da sessão do
Supremo Tribunal Federal, realizada em 15 de setembro, para decidir sobre a
abertura de investigação acerca das supostas relações entre o ministro
Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, provocaram espanto,
indignação e verdadeira vertigem ética nas pessoas de bem.
Existe um Brasil real, constituído por um povo bom,
trabalhador e honrado. E existe outro Brasil: o país dos poderosos da
República, daqueles que se consideram acima das leis
O dia 15 de setembro ficará registrado como uma data triste
na história da República. O que deveria ter sido uma sessão sóbria,
transparente e esclarecedora transformou-se num espetáculo lamentável de
bate-bocas, ironias, ataques pessoais, manobras processuais e acusações
gravíssimas. Em vez de oferecer respostas objetivas à sociedade, a mais alta
corte do país expôs suas fraturas internas e terminou sem decidir a questão
fundamental.
O Supremo começou a sessão pressionado por suspeitas muito
graves e a encerrou ainda mais desacreditado. A discussão foi desviada do ponto
central. O que precisava ser esclarecido era simples: existem ou não elementos
suficientes para investigar a conduta de Alexandre de Moraes? Em lugar de
enfrentar essa pergunta, alguns ministros preferiram embaralhar os casos,
discutir o rito, lançar suspeitas sobre colegas e criar obstáculos a uma
apuração independente.
Mais grave: Alexandre de Moraes participou da discussão e
votou numa matéria que dizia respeito diretamente a ele. É uma aberração. O
mais elementar princípio da imparcialidade recomenda que ninguém julgue o
próprio caso. Não se trata de antecipar culpa nem de condenar sem provas.
Trata-se de preservar a dignidade da Justiça.
O pedido de vista de Flávio Dino, depois de horas de
confrontos e acusações, adiou uma decisão que o país exigia com urgência. Houve
ironias, interrupções e agressividade. O resultado foi devastador: o plenário
do STF, que deveria pacificar conflitos, converteu-se no palco da própria
crise.
Positivamente, o Brasil não tem a cara do atual Supremo
Tribunal Federal.
O Judiciário está politizado e insensível. A corte suprema
tornou-se uma das instituições de menor credibilidade do país. A perda de
autoridade não ocorre por acaso. É consequência de decisões monocráticas
abusivas, inquéritos intermináveis, censura, prisões preventivas prolongadas,
invasão de competências do Congresso e confusão entre os papéis de
investigador, acusador e julgador.
Impõe-se, por intermédio do Congresso Nacional, uma profunda
reforma do Supremo. É preciso estabelecer mandatos para os ministros, regras
objetivas de impedimento, limites às decisões monocráticas e mecanismos
efetivos de controle. Ministros devem receber remuneração digna, dar aulas e
produzir conhecimento. E só. Não podem manter institutos que negociem
palestras, promovam eventos patrocinados por grupos interessados em decisões
judiciais ou criem zonas nebulosas entre a magistratura e o poder econômico.
O Brasil real não tem a cara da sessão de 15 de setembro.
Não tem a cara dos privilégios, das manobras e da arrogância
Da mesma forma, seus familiares não deveriam exercer
advocacia nos tribunais superiores. A proximidade familiar com um ministro não
pode converter-se em cartão de visitas profissional. Ainda que não exista
ilegalidade formal, permanece o evidente conflito ético.
O cenário é desanimador? Sim. Mas quem escreve esta coluna,
por paradoxal que pareça, é um otimista. Acredito no Brasil e na democracia.
Não é mais possível abafar o grito de desespero nem menosprezar a revolta dos
cidadãos. Há algo de podre na democracia brasileira. Mas não se reformará a
democracia destruindo-a. Diante de manifestações tão fortes de antipolítica, é
preciso valorizar a boa política, o diálogo, a transparência e as posturas
propositivas.
O Brasil real não tem a cara da sessão de 15 de setembro.
Não tem a cara dos privilégios, das manobras e da arrogância. Tem a face
sofrida, mas esperançosa, de milhões de cidadãos que ainda acreditam na
Justiça. É justamente por eles – e pelo futuro da República – que chegou a hora
de dizer, mais uma vez, com serenidade e firmeza: basta!
Carlos Alberto Di Franco.


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