PF mira sociedade oculta entre Lulinha e dono do sítio de Atibaia.
O outro é a empresária e lobista Roberta Luchsinger, cujo
nome já vinha sendo associado a Lulinha em outras frentes da apuração sobre o
esquema de fraudes do INSS.
Documentos do inquérito revelados pela Folha de S.Paulo e
confirmados pela Gazeta do Povo, investigadores identificaram indícios de
"aparente sociedade informal" entre Lulinha, Roberta e Bittar,
voltada à obtenção de vantagens privadas por meio de relações pessoais
privilegiadas com o alto escalão do governo, condição negada pela defesa de
Lulinha.
A apuração tenta esclarecer se esse suposto arranjo teria
sido usado, entre outros objetivos, para viabilizar um contrato entre uma
empresa do setor de canabidiol, ligada a Antonio Carlos Fagundes, o Careca do
INSS, e o Ministério da Saúde, destinado ao fornecimento de medicamentos à base
da substância para o SUS, negócio que nunca chegou a ser fechado.
Fontes a par das investigações alertam que o comportamento
identificado nas mensagens ultrapassaria limites da atuação legítima de defesa
de interesses ou de debate sobre políticas públicas - práticas que seriam características
de ação regular de lobby político.
Investigadores argumentam que o padrão de conduta apontado
nos autos estaria direcionado à possível facilitação de contratos públicos, à
tentativa de promover mudanças legislativas favoráveis a interesses privados
específicos e a pagamentos a agentes públicos de alta hierarquia, sempre com a
expectativa de retorno financeiro decorrente dessas articulações.
A defesa de Lulinha afirma que seu cliente nunca agiu para
praticar tráfico de influências e que ele vive na Espanha, sem nenhum vínculo
com negócios ligados ao Planalto.
A presença de Fernando Bittar nessa nova frente de
investigação, ao lado de Lulinha, reacende um episódio que era conhecido do
público desde a Lava Jato. Bittar é, oficialmente, um dos donos do Sítio Santa
Bárbara, comprado em outubro de 2010 em sociedade com o empresário Jonas
Suassuna, ambos sócios antigos de Lulinha em negócios privados.
Na época da aquisição, poucos meses após Lula deixar a
Presidência, Bittar pagou R$ 500 mil por uma das matrículas do imóvel, enquanto
Suassuna desembolsou R$ 1 milhão pela outra, em escritura lavrada no escritório
de um advogado apontado como amigo pessoal do ex-presidente.
O sítio virou alvo de investigação porque Lula e sua família
frequentavam o local com regularidade, apesar de o imóvel estar formalmente
registrado em nome de Bittar e Suassuna.
A Lava Jato apurou informações sobre reformas na propriedade
que, segundo suspeitas do Ministério Público Federal à época, poderiam ter sido
custeadas por empreiteiras e pessoas físicas investigadas, o que configuraria,
na visão dos investigadores naquele período, uma vantagem indevida a Lula.
Um laudo pericial da PF chegou a apontar incompatibilidade
entre recursos empregados na compra e na reforma do imóvel e os rendimentos
declarados por Bittar.
As defesas sempre negaram irregularidade, sustentando que
Bittar e Suassuna eram os verdadeiros donos do sítio, adquirido para uso das
famílias, e que Lula apenas frequentava o local como convidado. O próprio
presidente chegou a afirmar que as reformas teriam sido uma oferta espontânea
de um empresário.
O caso, no entanto, perdeu força jurídica depois que o
Supremo Tribunal Federal anulou, em 2021, as condenações de Lula relacionadas
aos processos da Lava Jato em Curitiba, por entender que a 13ª Vara Federal não
tinha competência para julgá-los. A decisão retirou o efeito das condenações,
ainda que não tenha apagado o histórico da relação entre Bittar, a família
presidencial e agora o reaparecimento da relação com Lulinha.
Além de Bittar, o dono do sítio em Atibaia, e Lulinha, a PF
apura se Roberta Luchsinger integrava esse mesmo arranjo societário, reunindo
em uma única linha de investigação dois personagens que já apareciam
separadamente em apurações relacionadas ao filho do presidente.
Trechos do inquérito divulgados pela revista Veja mostram
uma conversa entre Roberta e o então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio
Santana Ribeiro, o Marcola, na qual a empresária escreve: "Temos que
colocar o Fábio em cima do Berge", numa referência a Lulinha e a
Swedenberger Barbosa, o Berger, que ocupava a Secretaria-Executiva do
Ministério da Saúde. Marcola respondeu apenas "Beleza".
O material também detalha uma série de pagamentos feitos por
Roberta a Marcola, que a PF investiga como possível contrapartida por sua
atuação dentro do governo.
Segundo os investigadores, Marcola chegava a encaminhar
boletos para que a empresária os quitasse, e em algumas dessas trocas ela
mencionava a necessidade de falar diretamente com o então número dois da Saúde.
No total, a PF identificou cerca de R$ 250 mil em despesas
pessoais de Marcola pagas por Roberta, entre gastos com cartão de crédito,
consórcio, financiamento bancário, joias, boletos e PIX, parte delas
concentrada no mesmo período em que se discutia a venda de medicamentos à base
de canabis medicinal à pasta.
Marcola admite ter recebido os valores, mas alega que se
tratava de um empréstimo pessoal, já quitado com juros, negando qualquer
atuação irregular ou recebimento por supostos favores.
Diante da repercussão do caso e vazamentos de informações
sigilosas, o ministro André Mendonça, relator do processo no STF, atendeu a um
pedido da defesa de Lulinha e abriu uma apuração paralela para investigar se
houve vazamento de dados sigilosos por parte de funcionários públicos, em
possível violação do dever de sigilo funcional.
Sobre as investigações, a defesa de Lulinha afirma que
setores da PF extrapolaram limites éticos e legais movidos por interesses
políticos e eleitorais, e reforça que não há, nos inquéritos, qualquer prova ou
indício de desvio de dinheiro público.
A defesa de Marcola diz não ter tido acesso à íntegra dos
autos e classifica os vazamentos como seletivos, com o objetivo de distorcer
fatos e influenciar o processo eleitoral; sustenta ainda que os valores
recebidos de Roberta foram integralmente quitados, por se tratar de empréstimo
pessoal.
Já as defesas de Fernando Bittar e de Roberta Luchsinger não
se manifestaram sobre as novas suspeitas nem sobre o histórico do sítio em
Atibaia até a publicação desta reportagem, o espaço segue aberto a eventuais
esclarecimentos.
Gazeta do Povo.


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