O novo ataque de Moraes à liberdade de expressão na internet
Em menos de dois minutos, o ministro desfiou uma série de
generalizações para atacar o livre fluxo de informação pela internet e “alguns
que acordam e dormem só criticando o Poder Judiciário”. Começou de forma
inocente, falando de anúncios de roupas de determinada cor, mas não demorou
muito para que todos soubessem aonde ele pretendia chegar. “Hoje, um influencer
que ninguém aqui nunca ouviu falar, a pessoa não faz a mínima ideia do que está
falando, fala da guerra da Ucrânia até a derrota lamentável do Corinthians para
o Coritiba ontem, esse influencer tem mais audiência, esses influencers, que o
Jornal Nacional, do que todos os telejornais. Isso foi trabalhado, para
desacreditar. Quantas pessoas vocês conhecem que não acreditam mais na mídia
tradicional e que seguem como se fosse uma religião fanática tudo o que a bolha
passa como notícia? Lavagem cerebral”, afirmou Moraes.
Moraes construiu um espantalho que lhe permite defender a
narrativa segundo a qual a internet se tornou um perigo, e precisa de cabresto
Que a internet também permitiu a ascensão de “palpiteiros
profissionais” que se encaixam perfeitamente na descrição de Moraes, pessoas
que de fato falam sobre tudo sem ter domínio de nada, é algo facilmente
constatável. Que há influenciadores e comentaristas que não têm o mesmo rigor
do jornalismo profissional quando apuram ou divulgam algo, também é verdade. E
que os algoritmos das mídias sociais são desenhados para oferecer ao usuário
mais daquilo que ele já demonstrou preferir também não é segredo para ninguém.
Mas o ministro junta todos esses fatos para construir um espantalho que lhe
permita defender a narrativa segundo a qual a internet se tornou um perigo, e
precisa de cabresto.
Se hoje há um certo descrédito em relação à dita “grande
imprensa” ou “mídia tradicional”, como diz Moraes, ele ocorre por uma gama de
motivos muito mais diversa que a mera popularidade de influenciadores. Não são
poucos, por exemplo, os brasileiros que perceberam, ao longo dos últimos anos,
como vários veículos de imprensa se omitiram ou mesmo defenderam a ofensiva
liberticida do STF, comandada por Moraes, desde a instauração do inquérito
dasfake news, em 2019. E tal ofensiva surgiu não porque o Brasil tivesse
mergulhado em um mar de mentiras, mas porque a internet permitiu a livre
circulação de inúmeras informações que os ministros consideravam
inconvenientes, e que tentaram suprimir rotulando-as como “desinformação” ou
“fake news”. Não demorou muito para que os tribunais superiores passassem a
censurar até mesmo o que eles admitiam ser verdadeiro, como no célebre caso da
“desordem informacional”, conceito cunhado por Ricardo Lewandowski e abraçado
por Cármen Lúcia e Alexandre de Moraes em outubro de 2022, quando o trio
integrava o Tribunal Superior Eleitoral.
O que esses dois minutos revelam são a insistência na
convicção ao mesmo tempo autoritária e paternalista, de que o discurso público
precisa ser tutelado porque o cidadão é incapaz de saber como distinguir a
verdade da mentira, um fato de uma opinião. A mentira, em uma democracia, se
combate pelos meios ordinários – e a lei brasileira tem as ferramentas para
punir caluniadores e difamadores, para conceder direitos de resposta, para
retirar da internet conteúdos falsos. Mas Moraes e vários outros de seus
colegas de Supremo já mostraram que isso não lhes basta: eles pretendem ser os
árbitros da verdade e os definidores de quem tem o direito de se manifestar, e
têm agido como se de fato o fossem.
Uma imprensa tradicional forte, com prestígio e
credibilidade, não é antagônica a um ambiente virtual livre, onde ideias e
fatos circulam sem restrições. Moraes, em seu discurso, apenas parece defender
o jornalismo tradicional, quando na verdade o está usando como escada para seu
verdadeiro objetivo, que é desqualificar quem conquistou visibilidade na internet
fazendo as perguntas e as críticas que tiram o conforto de autoridades como
ele. As palavras de Moraes são uma recordação de que a normalização democrática
e a recuperação da liberdade de expressão são prioridades que precisam guiar o
eleitor em outubro.
Gazeta do Povo.


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