A fraude e o abuso que levaram Filipe Martins à prisão
Gazeta do Povo.
Entre os muitos brasileiros, famosos e anônimos, que
sofreram e sofrem com os abusos do Supremo Tribunal Federal, o ex-assessor
presidencial Filipe Martins ocupa lugar de destaque pela surrealidade do seu
caso. Atualmente, ele cumpre pena de prisão após a condenação nos “processos do
golpe” (uma condenação injusta, como já afirmamos em outra ocasião), mas antes
disso passou meses preso preventivamente por algo que jamais havia feito – e,
agora, a Justiça norte-americana afirma que a prisão foi embasada não em um
erro humano ou falha dos sistemas migratórios, mas em uma fraude, uma ação
deliberada.
Martins fora preso em fevereiro de 2024 por ordem de
Alexandre de Moraes na Operação Tempus Veritatis, sob a alegação de que poderia
fugir do país, já que teria feito parte da comitiva presidencial que deixou o
Brasil em dezembro de 2022, às vésperas da posse de Lula. De início, já se
tratava de um non sequitur: uma viagem pretérita não é, por si só, indicativo
de qualquer intenção de fuga, e não surgiu nenhum outro indício de que Martins
estivesse pensando em deixar o Brasil para escapar da Justiça. Ocorre, porém,
que mesmo a viagem de 2022 nunca existiu, e a defesa do ex-assessor ofereceu
inúmeras provas de que ele havia ficado no Brasil: cartões de embarque de voos
domésticos, fotos, dados de uma operadora de celular com geolocalização.
Filipe Martins, afirma o juiz Presnell, tem o direito de saber quem
inseriu um registro de entrada falso e como o fez. Não só o “como” e o “quem”,
acrescentamos, mas especialmente o “por que”
As provas eram tão avassaladoras que até a
Procuradoria-Geral da República, que habitualmente é cúmplice de Moraes nos
abusos, recomendou a soltura de Filipe Martins já em março de 2024. O ministro,
no entanto, preferiu ignorar todos os dados e dar mais peso a um registro
migratório norte-americano que tinha erros de grafia no nome (“Felipe” em vez
de Filipe) e um número de passaporte antigo, mantendo Martins preso por mais
alguns meses – e não foram poucos os que levantaram a possibilidade de Moraes
ter agido dessa forma para tentar arrancar uma delação premiada do ex-assessor.
Só após uma segunda manifestação da PGR pela soltura, Martins foi para casa, em
agosto de 2024. Em outubro de 2025, dois meses antes da condenação de Martins,
o Customs and Border Protection (CBP) norte-americano confirmou definitivamente
que ele não havia entrado nos Estados Unidos no fim de 2022, e que um “registro
impreciso nos sistemas oficiais do CBP” estava sob investigação.
Essa investigação foi concluída, e na semana passada o juiz
federal Gregory Presnell, do Distrito Central da Flórida, concluiu que houve
uma fraude no sistema de controle de fronteira – o que por si só já seria
bastante grave, mas que no caso de Martins teve a agravante de servir como base
(a única base, diga-se de passagem) para uma privação de liberdade abusiva, que
durou um semestre inteiro. Filipe Martins, afirma o juiz Presnell, “tem o
direito de saber como isso aconteceu e quem deu causa a isso”. Não só o “como”
e o “quem”, acrescentamos, mas especialmente o “por que”. Que interesse haveria
em forjar uma entrada que não aconteceu? A defesa de Martins afirmou à Gazeta
do Povo já ter algumas dessas respostas, mas que essas informações estão
protegidas por sigilo.
A prisão preventiva de Filipe Martins já seria abusiva, como
dissemos acima, ainda que ele tivesse viajado com Jair Bolsonaro aos Estados
Unidos no fim de 2022. O fato de a viagem não ter ocorrido aumenta o abuso, e
que Martins tenha sido mantido preso mesmo depois de vencer a inversão do ônus
da prova, comprovando acima de qualquer suspeita que ele havia permanecido no
Brasil, torna o arbítrio ainda mais escandaloso. A constatação de que o
registro migratório foi forjado pede novas respostas, e elas inevitavelmente
levarão à necessidade de responsabilização – inclusive criminal, se for o caso
– de quem burlou (e, possivelmente, de quem mandou burlar) um sistema para
prejudicar Martins.


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