Carta não autorizada a um tirano de toga
Paulo Briguet
Sou um escritor, embora dos menores, um simples cronista de sete leitores, mas, ainda assim, um escritor e, como tal, um amante do idioma. Tratá-lo-ei apenas por você, nessa terceira pessoa do singular que há muito tempo assassinou a segunda, mas que me parece o único termo para referir-me à sua augusta figura.
Quando Sócrates perguntou a Mênon o que ele entendia por virtude, a resposta foi a seguinte: “Se queres que eu diga o que é a virtude do homem, é fácil dizer que é esta a virtude do homem: ser capaz de gerir as coisas da pólis e, no exercício dessa gestão, fazer bem aos amigos e mal aos inimigos e guardar-se ele próprio de sofrer coisa parecida”.
Apesar da distância de 2.400 anos, estou certo de que a sua
resposta, diante da questão colocada por Sócrates, seria semelhante, se não
igual, à proferida pelo vigarista grego. Virtude, para você, é mandar no país,
proteger os amigos e destruir os inimigos.
Se um dia, na sua vida, você teve a mais mínima e vaga
propensão a fazer o bem, dizer a verdade e promover a justiça, essa hipótese há
muito se afogou nos subterrâneos de sua alma
Nas tragédias gregas, há uma palavra utilizada para definir
o erro que todo tirano comete ao atingir o ápice do poder ou enfrentar uma
inesperada situação adversa: húbris. Trata-se de uma consequência inevitável da
arrogância e da vaidade. Devo-lhe dizer que, ao proibir um filho de falar com o
próprio pai, você incorreu em húbris — e este pode ser o começo da sua
derrocada, exatamente como aconteceu com Xerxes na tragédia “Os Persas”, de
Ésquilo.
Você certamente deve conhecer um tirano chamado Benito
Mussolini. Pois bem: nem mesmo ele chegou ao ponto de proibir um inimigo — no
caso, Antonio Gramsci, a quem ele considerava “o homem mais perigoso da Itália”
— de escrever cartas no cárcere.
Quando seu atual aliado de tirania estava preso — por um
crime que me faz lembrar um contrato milionário de uma banca advocatícia —, o
juiz da época foi extremamente benevolente, permitindo-lhe não apenas escrever
cartas, que foram todas lidas em público, como também conceder inúmeras
entrevistas, amplamente divulgadas por toda a mídia, e transformar sua cela-spa
em comitê central de campanha.
De fato, os tiranos não têm uma boa relação com cartas.
Soljenítsin foi condenado a dez anos de trabalhos forçados no Gulag por se
permitir algumas leves observações críticas a Stálin em carta a um amigo. O
poeta Ossip Mandelstam morreu na prisão por ter escrito uma carta-epigrama — um
poema de 18 versos — satirizando o mesmo ditador. E o dramaturgo tcheco Vaclav
Havel foi proibido de falar em política nas suas cartas, o que deu origem a uma
antológica série de correspondências sobre filosofia e literatura reunidas sob
o título de “Cartas a Olga”. Quando foi preso por se recusar a pagar impostos,
Henry David Thoreau escreveu “Desobediência Civil”, um clássico do pensamento
libertário.
Paulo Briguet


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