A perversidade de Moraes
Gabriel Wilhelms
Não direi que a decisão do ministro Alexandre de Mores que
proibiu Flávio Bolsonaro de, por 90 dias, manter qualquer contato com seu pai é
atroz, mesmo para seu padrão, pois não é: trata-se do mesmo padrão mantido por
ele há mais de sete anos. Pela mesma razão, não direi que me surpreendo, pois
dele e do atual STF digo, sem exageros, que espero tudo e não duvido de nada.
Para além da debilidade jurídica da decisão do ministro
plenipotenciário, que viu na leitura de uma carta do pai por parte de Flávio
uma artimanha para desrespeitar a vedação de que o ex-presidente use redes
sociais, bem como um ato de campanha antecipado, trata-se de ato flagrantemente
ilegal, haja vista que Flávio integra a defesa de Bolsonaro, sendo seu advogado
constituído. É mais um abuso que se soma a uma longa lista de razões pelas
quais Moraes já deveria estar há muito fora da corte.
A essa obsessão de Moraes de apagar todo e qualquer traço da
vida pública dos sujeitos por ele vitimados dei o nome de “extermínio da vida
pública”. Não podendo chegar ao extermínio físico, busca atingir o mesmo fim
por outra via: embora o indivíduo siga existindo como um ser dotado de
vitalidade, sua existência pública é anulada visando, nada mais, nada menos, do
que o esquecimento. Stalin, por óbvio, foi mais longe, mas o leitmotiv é o
mesmo. Dessa forma, até mesmo a leitura de uma singela carta paterna é
transformada em um suposto menoscabo às instituições — aliás, é o que pensam os
lunáticos responsáveis pelo mais recente editorial do Estadão, mas não quero
comentar casos clínicos aqui.
Não seria extraordinário se o próximo passo fosse Moraes
determinar que os filhos e netos de Bolsonaro alterassem seus sobrenomes para
que a hereditariedade não siga perpetuando a lembrança do ex-presidente,
sobretudo pelo fato de o primogênito ser pré-candidato ao posto outrora ocupado
pelo pai — Stalin aprovaria. Cumpre lembrar, nem que seja pelo prazer de causar
embaraço e fazer gaguejar os que pretendem dizer que a mais alta corte do país
age de forma imparcial e apartidária, que, enquanto Lula esteve em cárcere, deu
dezenas de entrevistas e seguiu escrevendo e fazendo publicar suas cartas sem
qualquer restrição.
O que, embora não seja uma novidade, faz-se digno de nota,
justamente para que não banalizemos a crueldade apenas por sua constância, é o
fato de que, para além de impedir que um advogado tenha acesso a seu cliente,
Moraes proibiu um filho de ter acesso a seu pai. Com exceção de situações
envolvendo menores e questões de guarda, não há um único habitante do sistema
carcerário, por pior que tenha sido seu crime, a quem tenha sido negado
peremptoriamente o contato com seus filhos. Essa é a medida da perversidade de
Moraes. Não creio que ele promova esse tipo de espetáculo movido apenas pelo ódio
que destila diuturnamente, mas também pelo prazer que puros atos de sadismo
conferem a sádicos, o que, afinal, é certamente seu caso. Malgrado todas as
críticas que eu e tantos outros tecemos e seguimos tecendo ao bolsonarismo,
jamais chegaria ao ponto de celebrar tamanhas desumanidades apenas por não
simpatizar com os alvos. Eis o abismo moral que nos separa de indivíduos como
Moraes.
Gabriel Wilhelms


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