O STF Conseguiu Colocar a Censura na Mente do Brasileiro
Gazeta do Povo.
"Criticar uma autoridade é crime? A pergunta, se fosse
feita a cidadãos de qualquer democracia sólida, independentemente de sua
tradição jurídica sobre a liberdade de expressão, seria provavelmente recebida
com alguma perplexidade, ou mesmo com um riso de deboche. A razão é evidente: a
crítica a uma autoridade, venha de uma pessoa pública ou de um anônimo, é
perfeitamente legítima – se está correta ou se não faz o menor sentido, se é
feita em termos elegantes ou chulos, pouco importa: criticar é um direito do
cidadão. Em uma democracia sólida, repetimos. Por aqui, a situação é muito
diferente.
Uma pesquisa recente do Instituto Sivis, feita em abril,
mostra que 61,7% dos entrevistados disseram acreditar que é proibido criticar
publicamente figuras públicas. Uma proporção ligeiramente menor, de 57,5%, afirmou
que “acusar publicamente o STF de prejudicar a democracia” é proibido no
Brasil. Ou seja: seis em cada dez brasileiros acreditam na existência de um
crime fictício, que não está em lugar nenhum da lei penal. Como se chegou a
esse ponto, em que mais de 100 milhões de cidadãos consideram que uma mera
crítica a autoridades é algo criminoso? A resposta é simples: este é o
resultado óbvio de um trabalho feito ao longo de anos, e capitaneado pelo
Supremo Tribunal Federal, tendo à frente o censor-mor da República, o ministro
Alexandre de Moraes.
A crítica ou a exposição de fatos inconvenientes não é crime,
mas o STF se encarregou de criminalizá-la, com a ajuda de órgãos como a
Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal. O brasileiro vê pessoas
sendo investigadas, processadas, censuradas e punidas por criticar ministros do
Supremo, vê vídeos com fantoches rendendo denúncias da PGR ao STF, vê piadas
transformarem senadores em réus, vê uma faixa com os dizeres “Lula ladrão”
pendurada na janela de um apartamento provocar uma visita da PF. E não só isso:
vê que, por longos anos, nada disso foi devidamente apontado como abuso, nem
coibido como deveria pelos que têm a missão constitucional de colocar freios ao
Supremo. Qual a conclusão mais provável que alguém há de tirar? A de que talvez
a crítica seja mesmo um crime.
Está realizado, assim, o sonho das autoridades liberticidas:
a crítica não precisa ser oficialmente criminalizada; basta que as pessoas
acreditem que ela já é crime. O resultado é a ampliação da autocensura, em que
a proibição não existe na lei, mas na mente dos brasileiros, que pensarão
milhões de vezes antes de tornar público qualquer pensamento mais crítico em
relação a uma autoridade, e ainda exortarão parentes e amigos a se restringir
também, com medo de que eles sofram alguma consequência. Quanto mais essa
mentalidade se espalhar, menos será necessário escancarar o arbítrio reprimindo
críticos, pois eles serão cada vez mais raros.
O medo, por si só, já basta para comprovar que estamos
vivendo uma grave anomalia institucional, mas no Brasil contemporâneo talvez
estejamos assistindo ao surgimento de um fenômeno ainda mais grave. Uma coisa é
a população acreditar que há restrições à liberdade de expressão, mas discordar
delas, mesmo temendo a punição; muito pior seria apoiar a mordaça. Os dados do
Sivis indicam que, entre determinados grupos (como entrevistados de 18 a 29
anos, e aqueles com curso superior completo), metade dos entrevistados era
favorável à limitação de expressões consideradas ofensivas ou “discurso de
ódio”. Mas, aqui, é preciso apresentar nuances importantes.
Há manifestações que de fato constituem discurso de ódio, que
desumanizam o outro, que defendem a discriminação – é o caso do racismo, que
inclusive já é criminalizado no Brasil. Se é disso que estamos falando, o apoio
à proibição estaria até abaixo do ideal. No entanto, bem sabemos que a
expressão “discurso de ódio” tem sido usada de maneira muito mais ampla, para
deslegitimar opiniões legítimas, por exemplo a crítica a comportamentos, e que
não cumprem o clássico critério tripartite estabelecido por Norberto Bobbio –
“a existência de uma desigualdade entre grupos, uma hierarquização desses
grupos (com um sendo considerado superior ao outro) e a defesa de práticas de
escravização, exploração ou eliminação do grupo considerado inferior”, nas
palavras do filósofo italiano. Se é esse tipo de opinião que está na mira dos
entrevistados, ainda que estejamos em terreno diverso daquele da crítica às
autoridades, trata-se de tendência muito preocupante.
A internalização da censura e o possível apoio a novas
proibições entre a população representam um novo estágio do apagão da liberdade
de expressão vivido pelo Brasil desde 2019. Enquanto houve quem tivesse
denunciado o liberticídio desde o seu início – incluindo esta Gazeta do Povo –,
a maioria dos atuais críticos acordou apenas muito recentemente, em muitos
casos porque a mordaça começou dirigida contra um certo grupo
político-ideológico que precisava ser “vencido” (nos dizeres de um agora
ex-ministro do STF). Mesmo assim, é preciso seguir acreditando que não é tarde
demais; depende dos que não desejam censurar, nem se deixar censurar, seguir
insistindo, com cada vez mais força."
Ana Paula Rodrigues Pereira


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