O debate interditado na oposição a Lula
Guilherme Fiuza
A sucessão presidencial no Brasil está especialmente embaralhada. Faz parte das corridas eleitorais o cenário indefinido e a consolidação das opções mais competitivas em cima da hora. Mas parece que a comunicação total das redes, cada vez mais veloz e reativa, criou um componente extra de ansiedade no debate público.
A expectativa sobre quem seria o substituto do ex-presidente
Jair Bolsonaro no pleito demarcou a fase preliminar da campanha. O eleitorado
de oposição ao petismo já se dividia conforme determinadas preferências. Uns
queriam um perfil de maior confrontação, na linha do temperamento do
ex-presidente; outros preferiam uma opção mais ponderada. O problema começou
aí.
Desde muito cedo, a campanha eleitoral de 2026 foi marcada
pela intolerância e pela propensão à patrulha. Na verdade, ainda em 2025, o
debate entre os simpatizantes da oposição já trazia a cobrança por escolhas
definitivas. E, se não fossem assim manifestadas, ou se o perfil escolhido não
fosse o “certo”, multiplicavam-se as acusações de “traidor” ou “xiita”.
O cenário atual de beligerância e elevada hostilidade entre
adeptos de Jair Bolsonaro já estava delineado desde o ano passado,
independentemente dos fatos mais recentes envolvendo a candidatura de seu filho
Flavio. Desde antes dessa definição, o campo de guerra estava demarcado: já não
se permitia uma boa convivência entre inclinações diferentes.
Era como se fosse uma disputa ferrenha entre “donos” de um
legado, todos checando obsessivamente à sua volta se a cartilha definitiva da
sucessão estava sendo cumprida à risca
(“Todos” é força de expressão, porque não há como
generalizar esse tipo de conduta. Mas é bastante característico dos tempos
atuais que grupos de vozes mais estridentes acabem direcionando o debate como
um todo.)
A definição do senador Flavio Bolsonaro como pré-candidato à
Presidência pegou muita gente de surpresa. Embora a escolha tenha partido de
seu pai, não era um nome que circulasse tanto nas cogitações, desde o período
em que não se sabia ao certo se o ex-presidente poderia concorrer. Muitos viram
nessa escolha uma boa estratégia: a manutenção do sobrenome Bolsonaro na
disputa por meio de um candidato com lealdade sanguínea ao ex-presidente.
Outros tantos consideraram uma escolha forçada, por não
verem na trajetória do senador expressão política comparável à do pai. Seria
uma situação normal da democracia, em que o próprio desenrolar da campanha
confirmaria ou não as várias premissas postas — e permitiria ao eleitorado de
oposição amadurecer sua escolha. Mas isso não foi possível.
A própria imprensa — ou melhor dizendo, a nova imprensa, que
surgiu como excelente contraponto aos desvios da imprensa tradicional —
contribuiu para o problema. Apesar dos bons serviços prestados, essa nova
imprensa vem confundindo um pouco seu público, que eventualmente vê nela uma
espécie de porta-voz da “direita”, seja lá o que isso signifique (conceitos
vagos comportam variadas acepções). Linha editorial é uma coisa; ativismo
ideológico é outra. E essa parte mais audível do público passou a cobrar adesão
jornalística a candidatos — o que é uma aberração em si.
Foi nessa escalada de intolerância e cobranças generalizadas
que se chegou ao cenário conflagrado de hoje. A própria cogitação da
candidatura presidencial de Tarcísio de Freitas, em certo ponto desse percurso,
expôs o terreno envenenado. Para muitos adeptos do governador de São Paulo como
presidenciável, era imperioso retirar a família Bolsonaro do protagonismo; para
outros tantos, o perfil “moderado” de Tarcísio era uma traição ao bolsonarismo.
E tome patrulha matando, na raiz, a troca de ideias.
O que se pode constatar, a menos de cinco meses da eleição,
é que o projeto de uma alternativa presidencial ao PT é uma montanha de
fragmentos e estilhaços. Não há sobriedade para se discutir nada consistente no
panorama sucessório. Para qualquer consideração das opções colocadas, há um
bombardeio apontado para a opinião que ousar colocar a cabeça de fora. Ou essa
beligerância reflui, ou a oposição vai ficar vendo a banda passar.
Guilherme Fiuza. Jornalista, escritor e roteirista.


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