domingo, 10 de maio de 2026

 O Brasil escolheu o atraso.

Opinião do Estadão.




Décadas de baixo crescimento econômico, como mostra o FMI, refletem decisões erradas, falta de reformas estruturantes e preponderância de interesses políticos de curtíssimo prazo.

 O Brasil, há décadas, cresce em movimentos espasmódicos e sempre aquém de seu potencial. Logo, seria de esperar que, em ano eleitoral, todos os candidatos à Presidência da República que se pretendem sérios apresentassem à sociedade, dia sim e outro também, não apenas uma genuína preocupação com esse problema, como respostas para uma questão fundamental: como tirar o País do atoleiro?

Não é isso o que se vê, obviamente – e os números do Fundo Monetário Internacional (FMI) expõem a dimensão da omissão. Entre 1980 e 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita global cresceu 675%, enquanto no Brasil, no mesmo período, a alta foi de 428%. Essa disparidade, longe de ser trivial, é o retrato mais bem acabado de uma deliberada opção pelo atraso.

Calculados em Paridade de Poder de Compra (PPP, na sigla em inglês), os dados do FMI tornam a comparação mais justa e o contraste mais vergonhoso. Desde 2015, o rendimento médio global supera o brasileiro, um marco que, não por coincidência, está atrelado à profunda recessão do biênio 2015-2016, quando a economia brasileira encolheu mais de 3% ao ano sob os desatinos do governo Dilma Rousseff. Se não criou o problema, aquela crise o escancarou com tintas que mantêm seus matizes até hoje.

De forma complementar, um estudo do economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, com base na Penn World Table, um banco de dados econômicos da Universidade de Groningen (Holanda), indica que o PIB per capita do País poderia ser hoje 42% maior se o Brasil tivesse acompanhado o ritmo de crescimento de economias como as da Coreia do Sul, Botsuana e Romênia, que saíram de patamares semelhantes aos do Brasil na década de 1980. “Dos anos 1980 até o Plano Real, foram quase 15 anos de crise profunda. De partida, já perdemos todos esses anos”, afirmou Vale. Desde então, o País só faz “correr atrás do prejuízo”, como disse o economista, sem jamais ter encontrado o caminho do crescimento sustentável.

As causas desse desempenho medíocre são sobejamente conhecidas. A produtividade é baixíssima em comparação com economias mais desenvolvidas, a educação falha reiteradamente em formar capital humano competitivo, o ambiente de negócios é hostil por sua enlouquecedora complexidade normativa, e o sistema tributário, um “manicômio” que a reforma tributária mal começou a resolver. O Estado é inchado, perdulário e ineficiente. O Orçamento da União é engessado. Os investimentos, quando existem, são insuficientes. A infraestrutura é deficiente e incapaz de dotar o Brasil das condições para crescer em toda a sua plenitude. O desenvolvimento industrial e a inovação tecnológica são questões laterais, tímidas. Some-se a todos esses problemas a eterna instabilidade macroeconômica, frequentemente agravada por decisões políticas orientadas por interesses imediatistas, não raro eleitoreiros.

Nada disso, contudo, está no centro do debate eleitoral. Em seu lugar, viceja o populismo que caminha na direção diametralmente oposta à necessária. Veja-se como exemplo de nossa afeição pela miséria intelectual a discussão sobre o fim da escala de trabalho 6x1. Por si só, o mérito da proposta já é questionável. Mas, ainda assim, tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o Congresso – governo e oposição – parecem unidos pelo interesse eleitoral de alçar um tema dessa natureza à Constituição, agravando a já excessiva rigidez normativa do País. Numa economia que precisa ganhar eficiência, medidas como o fim da escala 6x1 só tendem a agravar o problema da baixa produtividade. Mas quem, em Brasília, parece estar preocupado com isso em ano eleitoral?

E assim patina o País. A recorrência desse padrão de debate indigente é reveladora da dificuldade crônica da chamada classe política brasileira em lidar com horizontes de longo prazo de forma minimamente racional. Eleição após eleição, prevalece o cálculo imediato, enquanto as grandes reformas capazes de sustentar o crescimento do Brasil ficam sempre para depois, sabe-se lá quando.

O resultado aí está. Um país que avançou menos do que poderia e menos até do que nações como Botsuana, Coreia do Sul e Romênia. A advertência de Nelson Rodrigues, segundo a qual “o subdesenvolvimento não se improvisa”, segue viva. O Brasil precisa decidir se continuará ignorando-a.


Editorial d’ O Estado de São Paulo”




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