O Brasil escolheu o atraso.
Opinião do Estadão.
Décadas de baixo crescimento econômico, como mostra o FMI,
refletem decisões erradas, falta de reformas estruturantes e preponderância de
interesses políticos de curtíssimo prazo.
Não é isso o que se vê, obviamente – e os números do Fundo
Monetário Internacional (FMI) expõem a dimensão da omissão. Entre 1980 e 2025,
o Produto Interno Bruto (PIB) per capita global cresceu 675%, enquanto no
Brasil, no mesmo período, a alta foi de 428%. Essa disparidade, longe de ser
trivial, é o retrato mais bem acabado de uma deliberada opção pelo atraso.
Calculados em Paridade de Poder de Compra (PPP, na sigla em
inglês), os dados do FMI tornam a comparação mais justa e o contraste mais
vergonhoso. Desde 2015, o rendimento médio global supera o brasileiro, um marco
que, não por coincidência, está atrelado à profunda recessão do biênio
2015-2016, quando a economia brasileira encolheu mais de 3% ao ano sob os
desatinos do governo Dilma Rousseff. Se não criou o problema, aquela crise o
escancarou com tintas que mantêm seus matizes até hoje.
De forma complementar, um estudo do economista-chefe da MB
Associados, Sergio Vale, com base na Penn World Table, um banco de dados
econômicos da Universidade de Groningen (Holanda), indica que o PIB per capita
do País poderia ser hoje 42% maior se o Brasil tivesse acompanhado o ritmo de
crescimento de economias como as da Coreia do Sul, Botsuana e Romênia, que
saíram de patamares semelhantes aos do Brasil na década de 1980. “Dos anos 1980
até o Plano Real, foram quase 15 anos de crise profunda. De partida, já
perdemos todos esses anos”, afirmou Vale. Desde então, o País só faz “correr
atrás do prejuízo”, como disse o economista, sem jamais ter encontrado o
caminho do crescimento sustentável.
As causas desse desempenho medíocre são sobejamente
conhecidas. A produtividade é baixíssima em comparação com economias mais
desenvolvidas, a educação falha reiteradamente em formar capital humano
competitivo, o ambiente de negócios é hostil por sua enlouquecedora
complexidade normativa, e o sistema tributário, um “manicômio” que a reforma tributária
mal começou a resolver. O Estado é inchado, perdulário e ineficiente. O
Orçamento da União é engessado. Os investimentos, quando existem, são
insuficientes. A infraestrutura é deficiente e incapaz de dotar o Brasil das
condições para crescer em toda a sua plenitude. O desenvolvimento industrial e
a inovação tecnológica são questões laterais, tímidas. Some-se a todos esses
problemas a eterna instabilidade macroeconômica, frequentemente agravada por
decisões políticas orientadas por interesses imediatistas, não raro
eleitoreiros.
Nada disso, contudo, está no centro do debate eleitoral. Em
seu lugar, viceja o populismo que caminha na direção diametralmente oposta à
necessária. Veja-se como exemplo de nossa afeição pela miséria intelectual a
discussão sobre o fim da escala de trabalho 6x1. Por si só, o mérito da
proposta já é questionável. Mas, ainda assim, tanto o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva como o Congresso – governo e oposição – parecem unidos pelo
interesse eleitoral de alçar um tema dessa natureza à Constituição, agravando a
já excessiva rigidez normativa do País. Numa economia que precisa ganhar
eficiência, medidas como o fim da escala 6x1 só tendem a agravar o problema da
baixa produtividade. Mas quem, em Brasília, parece estar preocupado com isso em
ano eleitoral?
E assim patina o País. A recorrência desse padrão de debate
indigente é reveladora da dificuldade crônica da chamada classe política
brasileira em lidar com horizontes de longo prazo de forma minimamente
racional. Eleição após eleição, prevalece o cálculo imediato, enquanto as
grandes reformas capazes de sustentar o crescimento do Brasil ficam sempre para
depois, sabe-se lá quando.
O resultado aí está. Um país que avançou menos do que poderia
e menos até do que nações como Botsuana, Coreia do Sul e Romênia. A advertência
de Nelson Rodrigues, segundo a qual “o subdesenvolvimento não se improvisa”,
segue viva. O Brasil precisa decidir se continuará ignorando-a.
Editorial d’ O Estado de São Paulo”


Nenhum comentário:
Postar um comentário