A caderneta do aborto.
Gazeta do Povo
No último dia 12, o Ministério da Saúde lançou uma nova
edição de sua Caderneta Brasileira da Gestante, um documento no qual a gestante
e os profissionais de saúde que a acompanham registram informações da mulher,
histórico médico, dados da gravidez (como ganho de peso) e do pré-natal, e
preferências a respeito do parto e do pós-parto. A caderneta ainda tem várias
informações sobre cuidados de saúde durante a gestação, como vacinação,
alimentação e atividade física, e sobre direitos da gestante – inclusive
direitos trabalhistas. Até aí, nada de notável – documentos como esse são
interessantes por reunirem em um só lugar todas as informações necessárias, já
que nem sempre a gestante será atendida pelos mesmos profissionais ao longo da
gravidez; a nova edição tem até uma versão digital, acessada pelo celular. O
grande problema está em um conteúdo que, até então, não aparecia na caderneta,
e entrega a índole profundamente abortista do governo Lula.
Na sétima parte, sobre “condições específicas na gestação”,
logo após a descrição do que constitui “gestação não planejada” e “gestação não
desejada”, há um item sobre aborto – nunca chamado pelo nome, mas apenas pelo
eufemismo “interrupção da gestação”. O texto já começa mal, tratando como
direito garantido por lei o que o legislador penal tratou apenas como situação
em que há crime, mas não há pena – um equívoco intencional, que já esclarecemos
neste espaço, mas infelizmente bastante popularizado no Brasil. Muito pior que
isso, no entanto, é a ideia subjacente na estrutura desse capítulo, que trata o
aborto como a única opção possível para a mulher (ou “pessoa que gesta”,
segundo a novilíngua usada na caderneta) que se vê em uma situação de gravidez
indesejada, definida como “aquela em que a pessoa não pretendia engravidar e
não deseja a continuidade da gestação” (destaque nosso).
O estímulo não é explícito, mas dissimulado: às mulheres
desesperadas, vulneráveis por uma gravidez que não desejaram, a caderneta tem
uma sugestão: abortar, pois a lei “permite”
Essa mentalidade é facilmente comprovável quando se verifica
que, além da informação incorreta sobre o status legal do aborto em casos de
gestação decorrente de estupro, risco de vida para a mãe, e anencefalia, a
caderneta não apresenta nenhuma outra opção para a mãe que não deseja ter o
filho (por vários motivos, alguns deles bastante compreensíveis), mas também
intui que matá-lo no ventre não é uma solução. O documento não informa, por
exemplo, que a partir da 22.ª semana de gestação o feto atinge o limiar da
viabilidade, tendo já chance de sobreviver fora do útero se receber os devidos
cuidados médicos. Tampouco explica sobre programas de encaminhamento dos bebês
para adoção (independentemente de o parto ter sido antecipado, ou ocorrer no
fim normal da gestação).
A rigor, a própria inclusão de informações sobre aborto na
caderneta já é uma forma sutil de incentivo. Como lembrou o obstetra Raphael
Câmara, ex-secretário de Atenção Primária do Ministério da Saúde, membro do
Conselho Federal de Medicina (CFM) e criador da versão anterior (de 2022) da
Caderneta da Gestante, pressupõe-se que a mulher que busca um documento como
esse o faz porque tem planos de levar a gestação adiante. A menção ao aborto,
ali, representa a inserção de uma possibilidade que a gestante descartou ou nem
sequer chegou a considerar. “Começa-se a usar o pré-natal como um momento para
se estimular o aborto”, afirmou Câmara. Informação desnecessária, equivocada do
ponto de vista jurídico, e pela metade – nada disso é acidental. O estímulo não
é explícito, mas dissimulado: às mulheres desesperadas, vulneráveis por uma
gravidez que não desejaram, a caderneta tem uma sugestão: abortar, pois a lei
“permite”. Nem é preciso pensar em outras possibilidades. Inclusive, a
caderneta faz questão de lembrar que “não é obrigatório registrar boletim de
ocorrência”; só não sugeriu que um aborto sob demanda pode ser conseguido com
uma alegação falsa de violência sexual, mas talvez isso não seja necessário: a
militância sabe o caminho das pedras.
Em 2022, para disfarçar seu abortismo, Lula tentou se
esquivar, dizendo, em uma carta aos evangélicos, que esse “não é um tema a ser
decidido pelo presidente da República e sim pelo Congresso Nacional”. Era
mentira: primeiro, porque os satélites do petismo na esquerda buscaram o
Supremo Tribunal Federal para que descriminalizasse o aborto, à revelia do
Legislativo; segundo, porque o Poder Executivo tem feito muito ao longo desses
quatro anos para incentivar o aborto: revogou e reescreveu normas técnicas;
retirou o Brasil de pactos internacionais em defesa da vida nascente; facilitou
abortos em supostos casos de gestação decorrente de estupro, retirando
exigências como o boletim de ocorrência; e tentou até normalizar a barbárie do
aborto tardio, quando a criança já tem chance de sobrevivência fora do útero. A
nova Caderneta da Gestante é apenas mais uma dessas ações do governo que buscam
aproveitar todo tipo possível de brecha para contornar a vontade do povo,
cristalizada na lei penal. Mas, quando a campanha chegar, Lula voltará a dizer
que aborto é assunto para o Legislativo, e não para o Executivo. Que o país não
caia mais uma vez nesse engano fatal para os seres humanos mais indefesos e inocentes.


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