O Brasil de quem pode tudo e o Brasil de quem não pode nada .
Adriano Gianturco.
Adolescentes estupraram coletivamente duas crianças, de 7 e
10 anos; gravaram tudo e publicaram na internet. Só um deles é maior de idade;
ele até foi preso, mas sabemos que não ficará muito tempo atrás das grades. Os
outros irão para uma casa com assistentes sociais, e estarão nas ruas ainda
antes do estuprador maior de idade. O Estado brasileiro não protege nossas
crianças; temos uma taxa de homicídios maior que a de muitos países em guerra,
e o número absoluto de homicídios é maior que o total da América do Norte e da
Europa juntos.
Mas, em compensação, nosso Estado é muito eficaz para
patrulhar e processar meio mundo por simples falas. Léo Lins, Danilo Gentili,
Rafinha Bastos e outros humoristas são perseguidos, cancelados e processados.
Nikolas Ferreira foi condenado a pagar R$ 40 mil por uma fala considerada
“transfóbica”. Recentemente, a Polícia Federal insistiu para que um cidadão
tirasse da própria janela uma faixa em que estava escrito apenas “ladrão”.
Nem todos são perseguidos por se manifestar, no entanto. Em
2022, jogaram uma pelada com uma réplica da cabeça de Jair Bolsonaro. Ministros
do STF podem fazer comentários sobre homossexuais, e não serão investigados
pela Procuradoria-Geral da República, que arquiva tudo. Lula pode falar das
“mulheres de grelo duro”, pode chamar Pelotas de “polo exportador de veados”, e
dizer que “essas coisas absurdas, que eles inventam todo dia, não têm critério
(...) eles são capazes de dizer que você nasceu mulher e depois virou homem,
eles são capazes de dizer que vaca voa, eles são capazes de dizer que cavalo
tem chifre”.
O deputado Marcel van Hattem e outros colegas foram
suspensos por dois meses, por terem se sentado por cinco minutos na cadeira do
presidente da Câmara. A turma que o suspendeu é a mesma que arquivou a CPMI do
roubo dos velhinhos do INSS e que, em 2017, ocupou a mesa diretora do Senado
impedindo a votação da reforma trabalhista.
Não estamos todos no mesmo barco. Alguns estão na terceira
classe sem bote salva-vidas, e outros estão em iates de primeira classe
Agora nos precisamos comunicar ao Leviatã todas as nossas
estadias em hotéis, mas os dados da casta continuam sob sigilo de 100 anos.
Enquanto os juízes do TST estão brigando entre “azuis” e
“vermelhos” e chegam a ganhar quase R$ 500 mil em quatro meses, nós, os comuns
mortais, ficamos com um salário médio de R$ 3,7 mil, segundo dados do IBGE.
Além disso, temos a Justiça comum para nós, enquanto eles têm o foro
privilegiado.
A União bate recordes de arrecadação, mas os brasileiros
batem recordes de endividamento e inadimplência. Um empresário é preso por ter
feito um Pix de R$ 500; outros têm familiares contratados por dezenas de
milhões de reais, e mesmo assim não veem conflito de interesse.
Cerca de 30% dos brasileiros vivem sob controle do crime
organizado, mas eles moram em uma capital construída no meio do nada, afastada
do mundo real. Estatuto do Desarmamento para nós, carros blindados e escolta
armada para eles.
Nós trafegamos por estradas e ruas de péssima qualidade, mas
eles voam em jatinhos da FAB, às vezes até sozinhos. O mercado de aviação civil
piorou, o número de voos e o de empresas aéreas diminuiu (alguém se lembra da
Webjet e da Avianca?), o preço das passagens aumentou, mas eles andam em
jatinhos de empresários do nosso capitalismo de compadrio.
Nós pagamos os carros mais caros do mundo, eles recebem
carros emprestados (sem custo) de empresas estrangeiras. Nós nos viramos com o
SUS, enquanto eles têm plano de saúde privado, para a família toda (e, no
Senado, pode ser até vitalício). Uns têm dezenas de assessores que levam água e
café, e afastam as cadeiras; têm auxílio isso, auxílio aquilo. Outros são
espoliados para bancar tudo isso. Enquanto alguns comem paca, outros recebem
fiscalização e tiros do Ibama.
Não estamos todos no mesmo barco. Alguns estão na terceira
classe sem bote salva-vidas, e outros estão em iates de primeira classe. Não
vivemos no mesmo país, vivemos em dois Brasis diferentes. Alguns vivem em um
país no qual podem estuprar, matar, roubar impunemente, podem ser homofóbicos,
racistas, podem destilar ódio e divulgar fake news. Outros vivem em um Brasil
no qual não podem nem sequer criticar e opinar. Existe o Brasil do pode tudo, e
o Brasil do não pode nada.
Antigamente, diziam que o Brasil era uma “Belíndia”, mas
pelo jeito está mais para uma “Versaudita”: Versalhes dos privilégios para
eles, Arábia Saudita das chibatadas para nós!
Adriano Gianturco.


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