A redução de jornada, o fim da escala 6×1 e as perguntas
certas que não são feitas.
Gazeta do Povo
O governo Lula e o Congresso Nacional, não contentes em
correr o máximo possível com a PEC que reduz a jornada semanal de trabalho e
acaba com a escala 6x1, querem fazer o setor produtivo correr também. O plano é
aprovar o projeto rapidamente – a comissão especial na Câmara dos Deputados
aprovou o texto nesta quarta-feira, e na mesma noite o plenário aprovou a PEC
em dois turnos, remetendo-a ao Senado – e impor às empresas um prazo exíguo, de
apenas dois meses, para que a jornada semanal já seja reduzida em duas horas,
de 44 para 42, com mais um ano para completar a redução para 40 horas. O
formato foi acertado após acordo entre Lula e o presidente da Câmara, Hugo
Motta.
Pouco importa que o prazo seja ainda menor que o
originalmente previsto até mesmo nas propostas de parlamentares de esquerda, e
que uma alteração tão drástica seja extremamente difícil de executar em tão
pouco tempo sem causar uma disrupção severa nas cadeias de produção,
distribuição e comercialização. O objetivo é apenas um: fazer com que o eleitor
sinta na pele o benefício de trabalhar menos ganhando o mesmo salário, ainda
antes que vá às urnas em outubro, para que assim possa recompensar os muitos
pais da criança – a começar pelo principal deles, o presidente da República que
busca a reeleição.
Os defensores da PEC estão vendendo uma ilusão: a de que o
brasileiro será capaz de produzir mais riqueza trabalhando menos, nas mesmíssimas
condições que ajudam a emperrar a produtividade do trabalhador
Mas a pressa também serve a outra finalidade: impedir que o
brasileiro trabalhador, aquele que será diretamente afetado pelas mudanças,
comece a se fazer as perguntas certas. O apoio popular à PEC que reduz a
jornada e acaba com a escala 6x1 é enorme, e não poderia ser diferente: quando
alguém é questionado se gostaria de trabalhar um pouco menos, sem deixar de
receber menos por isso, quem haveria de dizer que não? É natural querer mais tempo
para a família, o descanso, o lazer, os hobbies. Mas e se os institutos de
pesquisa perguntassem se as pessoas querem mais oportunidades de crescer, de
prosperar economicamente, de dar uma vida melhor para si mesmos e para suas
famílias – inclusive para aproveitar melhor os momentos de folga –, a resposta
não seria ainda mais positiva?
E, com essa resposta em mãos, viria em seguida outra
pergunta: a imposição (eis o termo fundamental, pois não estamos falando do
resultado de negociações livres entre patrões e empregados, intermediada por
sindicatos) da escala 5x2 e a redução forçada do número semanal de horas
trabalhadas levará à prosperidade que o brasileiro trabalhador deseja para si e
para sua família? Os defensores da PEC estão vendendo uma ilusão: a de que o
brasileiro será capaz de produzir mais riqueza trabalhando menos, nas
mesmíssimas condições que ajudam a emperrar a produtividade do trabalhador –
que no Brasil é muito inferior à de países que também reduziram suas jornadas
de trabalho. E desejam que essa ilusão seja mantida ao menos pelo tempo
necessário para que triunfem eleitoralmente usando a redução da jornada como
trampolim.
Menos trabalho, multiplicado pela mesma produtividade,
resulta em menos produção e renda. Por outro lado, o custo do trabalho será
elevado, e só os adeptos da escola janjista de economia acreditam que essa
elevação não será repassada, ao menos parcialmente, aos preços finais. Por fim,
o risco de demissões de funcionários mais “caros”, substituídos por outros cujo
custo por hora seja menor, não é nada desprezível. O setor produtivo tem se
cansado de alertar os parlamentares e a sociedade, com estudos mostrando o
efeito da PEC sobre a inflação e o emprego, mas tem sido ignorado.
Como ninguém pergunta o que o brasileiro realmente prefere
(prosperar e ter uma vida melhor), e muito menos como concretizar esse desejo
(criando condições para elevar a produtividade), a população acaba enganada por
uma proposta simpática à primeira vista, mas que reduzirá oportunidades no
médio e longo prazo – se não o fizer já no curto prazo. Trabalhar melhor para
produzir mais e, então, pensar em trabalhar menos foi o caminho dos países
ricos; o Brasil, em vez disso, escolhe um atalho que não nos levará a lugar
nenhum.
Atualização: O editorial foi atualizado com a informação
sobre a aprovação da PEC em dois turnos no plenário da Câmara dos Deputados.


Nenhum comentário:
Postar um comentário