A tal “Magistratura do Trabalho”
Marcelo Guterman
A coisa começa torta no título: o artigo não tem nada a ver
com a magistratura do Trabalho, trata-se de uma peça em defesa de todos os
juízes. Fui enganado pelo título, achando que leria argumentos para defender
essa excrescência de república bananeira, todo um aparato de justiça voltado
exclusivamente para as relações de trabalho. Mas não, o título era só um clic
bait.
Daí começam os argumentos. O primeiro é risível: a
remuneração dos juízes respeita a Constituição e, aqui está a pegadinha, “as
interpretações do STF […] e são submetidas à fiscalização contínua e rigorosa
do CNJ”. É o popular lobo tomando conta do galinheiro. No item 3 do artigo, a
magistrada vai defender a independência da magistratura. Lidos os itens 1 e 3
em conjunto, deduzimos que os juízes determinam os seus próprios salários, e a
sociedade brasileira não tem nada a ver com isso, para o seu próprio bem. Então
tá.
O item 2 é uma pretensa demonstração de como o povo
brasileiro deveria estar agradecido aos seu juízes. Afinal, são 41 milhões de
sentenças proferidas por esses verdadeiros heróis em um único ano. Como
sabemos, um número solto não quer dizer nada. Como esse número se compara com o
de outros países, considerando o número de juízes? Uma coisa é certa: o nosso
judiciário é um dos mais caros do mundo em relação ao PIB. Se são mais
produtivos, não conseguimos saber somente pelo número de “41 milhões”.
Aliás, esse número é estranho em si. Segundo o CNJ, há cerca
de 19 mil juízes no Brasil em todas as instâncias. Considerando que trabalhem
365 dias por ano, cada juiz teria que tomar 6 decisões em média por dia, ou uma
a cada duas horas, considerando a insana carga de trabalho de 12 horas por dia
sem fim de semana e férias. Obviamente, há algo errado nessa estatística de 41
milhões de sentenças.
No item 6, a magistrada afirma que “não se constrói
confiança social com base em afirmações genéricas ou em percepções dissociadas
da realidade empírica” e pede que a discussão seja baseada na “observância
rigorosa dos fatos”. Pois bem. Observando-se rigorosamente os fatos, temos que
os juízes brasileiros ganham bem acima do teto do funcionalismo determinado
pela Constituição, e gastam o seu tempo escrevendo artigos para defender esse
privilégio, ao invés de estarem proferindo as 41 milhões de sentenças que dizem
proferir por ano.


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