Nem os fantoches escapam da ira de Gilmar Mendes.
Gazeta do Povo
Os fatos: a CPI do Crime Organizado no Senado havia
decretado a quebra de sigilo fiscal, bancário, telefônico e telemático da
Maridt Participações, a empresa familiar da qual Toffoli é sócio (o que ele
tentou esconder do país até não ser mais possível) ao lado dos irmãos, e que
tinha participação no resort Tayayá. As cotas foram vendidas a um fundo ligado
ao banqueiro Daniel Vorcaro, e cuja controladora era investigada por suspeitas
de lavagem de dinheiro para o crime organizado. Em uma manobra jurídica
extravagante (para usar um eufemismo) para evitar que o caso fosse sorteado, a
Maridt apresentou recurso dentro de uma ação de 2021, arquivada em 2023,
envolvendo uma quebra de sigilo contra a produtora Brasil Paralelo, e cujo
relator era Gilmar Mendes, que desenterrou a ação e derrubou a quebra de sigilo
da empresa dos Toffoli.
Muitas autoridades podem até ter se irritado com a forma
como foram satirizadas, mas só os ditadores perseguiram e criminalizaram a
piada política
É este o episódio real que os autores da série “Os
Intocáveis” ironizaram, usando o exagero e outros recursos clássicos da sátira,
recursos esses que já foram empregados inúmeras vezes, contra toda classe de
políticos e autoridades, sem que ninguém tivesse visto crime algum. Em um
trecho que, levado ao extremo, justificaria até a criminalização dos imitadores
profissionais, Gilmar escreve na notícia-crime que “valendo-se de sofisticada
edição profissional e de avançados mecanismos de deep fake, o vídeo emula vozes
de ministros da suprema corte para travar diálogo que, além de inexistente, tem
como claro intuito vulnerar a higidez desta instituição da República, com
objetivo de realizar promoção pessoal”. Convenhamos: é preciso muita fé para
acreditar que os espectadores do vídeo de fato tomarão um diálogo travado entre
dois fantoches como retrato exato do que aconteceu – e muita má-fé para usar
esse argumento como indício de existência de crime.
O que os autores de “Os Intocáveis” fazem não difere em nada
do que muitos outros antes deles já fizeram em termos de sátira a autoridades
no Brasil: o grupo Porta dos Fundos, os humoristas do Casseta & Planeta, os
cartunistas do Pasquim – como lembrou o colunista Paulo Polzonoff Jr., o Cabaré
do Barata, do humorista Agildo Ribeiro, também usava fantoches. A história da
sátira política, na verdade, remonta à Grécia Antiga. E, em todo esse tempo,
muitas autoridades podem até ter se irritado com a forma como foram retratadas,
mas só os ditadores perseguiram e criminalizaram a piada política; em
democracias, ela é corretamente entendida como expressão do animus jocandi,
protegido pela lei e pela jurisprudência de inúmeros países (inclusive o
Brasil), e o jogo segue, como afirmou um certo Alexandre de Moraes em 2018,
exatamente em um julgamento sobre sátiras a candidatos: “Quem não quer ser
criticado, quem não quer ser satirizado, fique em casa (...) Essa é uma regra
que existe desde que o mundo é mundo. Querer evitar isso por meio de uma
ilegítima intervenção estatal na liberdade de expressão é absolutamente
inconstitucional”.
Ao que tudo indica, o senso democrático de Gilmar Mendes é
diretamente proporcional a seu senso de humor – que o diga o senador Sergio
Moro, tornado réu por calúnia a propósito de uma piada envolvendo o decano do
Supremo. Naquela ocasião, a Procuradoria-Geral da República ofereceu a
denúncia, e a Primeira Turma a aceitou de forma unânime, com o voto de Moraes.
A notícia-crime de Gilmar contra Zema foi enviada por Moraes à PGR, que ainda
não se pronunciou; manter neste caso o entendimento adotado no caso de Moro
significa, mais uma vez, abolir a liberdade de expressão no Brasil – e mostrar
que os autores da sátira acertaram em cheio na escolha do adjetivo para o
título de sua série.
Gazeta do Povo.


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