segunda-feira, 27 de abril de 2026

 OS ARGUMENTOS DA Dra. VANESSA   RIBEIRO.

Marcelo Guterman




Com certeza o Estadão faz isso de propósito. Publica esses artigos escritos por juízes para expor o seu alheamento da realidade. Como disse um amigo meu, esse artigo é a prova provada de que Nárnia existe.

A dra. Vanessa Ribeiro Mateus, autora desse libelo pelo direito aos privilégios da catchiguria, expõe basicamente duas razões pelas quais os salários da magistratura são justos. Justíssimos.

A primeira se refere à importância do juiz para a vida dos brasileiros. Afinal, o cargo envolve muita responsabilidade, pois se trata de decidir sobre o “futuro das pessoas”. Fico imaginando o que pensam, quando leem algo assim, os professores e médicos do serviço público, que ganham uma fração do que recebem os juízes. Talvez seus cargos envolvam responsabilidade menor.

Ainda nessa linha, a juíza afirma que os juízes assumem risco para as próprias vidas ao lidarem com o crime organizado (como se essa fosse a função dos 18 mil juízes do país). Também fico imaginando o que pensam, ao lerem isso, os policiais que realmente arriscam suas vidas, e ganham muitas vezes menos que a juíza.

A segunda razão é uma suposta falta de juízes no Brasil, o que seria uma prova de que a remuneração ainda não é suficiente, precisam de mais dinheiro. Mas a juíza usa um truque: as filas dos concursos estão cheias, mas 18% das vagas de juízes não estão preenchidas. Essas vagas, a juíza mesmo reconhece, se referem a lugares remotos do país. Claro. Os juízes são muito sacrificados, mas mudar para lugares onde não poderão gastar os seus polpudos salários em bons restaurantes com vinhos caros, aí já é sacrifício demais. Além disso, os juízes arriscam suas vidas, mas não ao ponto de ocuparem comarcas em que a lei da bala ainda prevalece. Vamos ser razoáveis, não é mesmo?

A articulista afirma, sem indicar a fonte, que “muitos juízes estão deixando o serviço público para obterem maiores ganhos na iniciativa privada”. Está aí uma pauta para o Globo Repórter: quem são esses juízes? Onde vivem? Do que se alimentam? Como se reproduzem?

Mas tudo isso é previsível, sem novidades. O que realmente chamou-me a atenção foi o parágrafo em que a juíza critica o editorial do Estadão na parte em que o editorialista afirma que as corporações do judiciário são corruptas. Anexei o editorial também, para que vocês possam fazer a sua própria interpretação. Entendo que o editorial claramente referiu-se à corrupção dos valores republicanos, na medida em que corporações do serviço público se apropriam, sem controle externo, de fatias do orçamento que é de todos. Mas a juíza entende a palavra “corrupção” ao pé da letra, exigindo do jornal a “nomeação dos envolvidos” e a “descrição das situações”. Se esse é o nível de interpretação de textos dos nossos magistrados, estamos bem arrumados.

O resto do artigo é só uma tentativa de defesa de cada um dos penduricalhos, todos eles muito justos e corretos segundo a juíza, que recebeu, neste primeiro trimestre do ano da graça de 2026, a bagetela de R$ 378.487, uma média de R$ 126.166 por mês. Isso já líquido de impostos, limpinho no bolso. Essa é a informação relevante para entender o artigo


Marcelo Gutermann




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