Decisões abusivas do STF se acumulam
Um artigo da Gazeta do Povo, do início do mês, lista 104
decisões abusivas de Alexandre de Moraes. É lamentável que o mapeamento de mais
de uma centena de abusos seja o inventário de uma omissão coletiva. O atropelo
das garantias fundamentais e a normalização do arbítrio poderiam ter sido
contidos no início, caso o sistema de freios e contrapesos não tivesse sofrido
uma falência múltipla no Congresso.
As instituições que deveriam servir de sentinelas da
Constituição preferiram o conforto do silêncio ou a conveniência da nota de
repúdio protocolar. Quando o Senado Federal se eximiu de sua função
fiscalizadora e o Ministério Público permitiu que o rito acusatório fosse
subvertido, eles estavam assinando um cheque em branco para o autoritarismo. A
democracia morre pela erosão silenciosa de suas paredes mestras, sob o olhar
complacente de quem jurou defendê-la.
Muita gente assistiu aos abusos com um sorriso contido,
acreditando que o alvo era apenas o "inimigo comum". Pensaram:
"se não é comigo, então deixa para lá", esquecendo aquela lição da
história: quem alimenta um monstro para devorar seu adversário acaba,
inevitavelmente, devorado. O precedente criado contra o "outro",
hoje, é a ferramenta que amordaçará a todos amanhã; é a armadilha de curto
prazo que sacrifica a segurança jurídica de várias gerações.
A covardia de quem deveria ter dado um "basta" no
primeiro sinal de excesso, agora transformou a detenção do monstro em uma
tarefa gigantesca. Esse poder hipertrofiado foi nutrido por anos de precedentes
muito perigosos. Agora, a reconstrução do equilíbrio democrático exigirá
coragem e a admissão dolorosa de que muitos dos que agora clamam por liberdade
foram os mesmos que, com seu silêncio, pavimentaram o caminho para a tirania. O
Brasil pagou, e continua pagando, o preço alto de ter dormido enquanto suas
liberdades eram suprimidas.
Vicente Lino.


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