O Xeque-Mate da campeã iraniana, Mitra Hejazipour, na esquerda ocidental.
"Na entrevista a Le Figaro, ela reproduziu o sentimento
da maioria dos seus compatriotas: para eles, não importa se o presidente
americano é Donald Trump, se os seus pretextos são falsos ou verdadeiros, se a
guerra é um erro geopolítico ou não. Tudo o que importa é derrubar a teocracia
no Irã.
Reproduzo a seguir algumas respostas de Mitra ao jornal:
Sobre a morte de Ali Khamenei:
“Há décadas que milhões de iranianos esperavam o fim desse
homem e do que ele encarnava. Nada ressuscitará as vítimas desse regime, nada
apagará as vidas destruídas, as torturas, as execuções, as humilhações. Mas,
desde que essa ditadura criminosa se apossou do Irã, há 47 anos, é a primeira
vez que sentimos ter apoio internacional verdadeiro e a chance de ver, enfim,
esse regime vacilar. ”
Sobre as críticas à intervenção americana:
“Por quase meio século, os iranianos vivem sob um regime que
aprisiona, tortura e atira para matar contra o seu próprio povo. Os iranianos
já arriscaram tudo. Foram às ruas inúmeras vezes, desarmados, ao custo da sua
liberdade e, às vezes, da vida dos seus parentes e amigos. Quantas mortes mais
serão necessárias para que alguns entendam que o regime não é reformável? Apoio
a sua queda não é ser belicista: é reconhecer uma necessidade histórica e
humana. E eu acrescentaria que esse regime não é apenas um perigo para os
iranianos; é também uma ameaça à estabilidade regional e ao mundo. ”
Sobre existir uma nostalgia em relação ao regime do xá no
Irã:
“Existe, sobretudo, uma nostalgia do Irã como nação, do Irã
como civilização, do Irã como pátria. Para romper o impasse atual, precisamos
nos reconectar com a nossa identidade nacional, que o regime islâmico tem
buscado sufocar sob uma identidade ideológica e religiosa imposta. O
patriotismo iraniano transcende afiliações comunitárias, étnicas ou religiosas.
Quando manifestantes gritam ‘Viva o xá! ’, não se trata necessariamente de uma
expressão de apego doutrinário à monarquia; muitas vezes, é um grito
patriótico. As mulheres no Irã conquistaram o direito ao voto antes mesmo da
Suíça! ”.
Sobre a atitude da esquerda ocidental em relação aos
iranianos:
Na sequência, Mitra respondeu sobre ter reagido a uma
postagem no X de uma deputada muito estridente da esquerda radical francesa,
chamada Manon Aubry, que escreveu: “Nem xá, nem mulá, nem USA: liberdade por e
para o povo iraniano! ”. Foi neste momento da entrevista a Le Fígaro que ela
deu xeque-mate:
“Estou farta desse reflexo paternalista de uma parte da
esquerda ocidental, que fala em nome do povo iraniano sem realmente ouvi-lo.
Quem são eles para dizer aos iranianos o que é melhor para eles? Com que
direito os políticos europeus, muitas vezes tão distantes da realidade do Irã,
se atrevem a atribuir notas altas de moral? Esse tipo de slogan pode parecer
generoso vindo de Paris ou de Bruxelas, mas muitas vezes soa como mera
encenação. Uma parte da esquerda ocidental fechou os olhos durante anos para a
verdadeira natureza do regime iraniano, chegando a fomentar uma complacência
condenável em relação a ele. Os iranianos não têm lições a aprender com pessoas
que nunca arriscaram as suas vidas enfrentando os aiatolás. ”
Mitra Hejazipour.



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