O cavalo e o companheiro: a degradação institucional de Calígula a Lula,
“Uma das mais acentuadas características do barbarismo vertical consiste em apresentar a força como superior ao direito. O direito não é mais o que é devido à natureza de um ser estática, dinâmica e cinematicamente compreendido, e que, portanto, funda-se num princípio de justiça, que consiste em dar a cada um o que lhe é devido, e em não lesar esse bem. O direito não é o reconhecimento natural dessa verdade, mas apenas o que provém do arbítrio que possui o kratos (o poder) político. ” (Invasão Vertical dos Bárbaros, Mário Ferreira dos Santos)
Diz o anedotário histórico que Calígula, para escarnecer do
Senado de Roma, teria cogitado nomear para o cargo de cônsul o seu adorado
cavalo Incitatus. Diante do que se sabe sobre o voluntarismo irrefreado do
imperador romano, não é difícil imaginar que a história possa ser verdadeira.
Mas, seja ou não verdadeira, a anedota sobrevive como parábola política,
sugerindo que uma nação não é destruída apenas por agressão externa, mas
sobretudo quando suas instituições são carcomidas por dentro, esvaziadas até o
ponto em que o grotesco se torna rotina. Não foi o cavalo que rebaixou o Senado
romano. O Senado é que já fora rebaixado para comportar o cavalo.
O Brasil contemporâneo oferece material abundante para essa
reflexão. O nosso Supremo Tribunal Federal, por exemplo, foi rebaixado pelo
lulopetismo para abrigar o companheiro Dias Toffoli. O escândalo do Banco
Master – com as revelações sobre relações impróprias entre Toffoli e o
empresário Daniel Vorcaro – é muito mais que um caso isolado de promiscuidade
institucional. Trata-se do sinal exterior mais visível de um processo longo,
profundo e irreversível de cancerização da República. Ele revela a consolidação
de um patrimonialismo ideologicamente armado, que transformou o Estado
brasileiro em território de ocupação sistemática.
A nomeação de Toffoli para o STF foi um dos primeiros
grandes tapas na cara da sociedade desferidos pelo lulopetismo
No clássico Os Donos do Poder, Raymundo Faoro identificou
brilhantemente o estamento burocrático que, desde a formação portuguesa,
captura o aparelho estatal e o administra como extensão de interesses próprios.
Segundo Faoro, o patrimonialismo brasileiro não seria um vício moral
circunstancial, mas uma forma estrutural de poder. A triste ironia histórica é
que Faoro tenha participado justamente da fundação do Partido dos
Trabalhadores, acreditando talvez que ali se gestava a ruptura com essa
tradição. O homem que tanto acertou no diagnóstico não poderia ter errado mais
na escolha política, pois o que se assistiu desde então foi à elevação do
patrimonialismo ao seu estado da arte.
Sim, mais do que simplesmente repetir o patrimonialismo
brasileiro consagrado, o lulopetismo deu-lhe a fundamentação
teórico-ideológica, sem nunca deixar de fingir que o combatia. Antonio Gramsci
– pai intelectual do partido e grande teórico do aparelhamento – forneceu o
mapa: conquistar a hegemonia por meio da ocupação capilar das instituições;
transformar a cultura em instrumento de poder; converter tribunais, universidades,
agências e estatais em pontos de sustentação de um projeto de longo prazo;
enfiar seus militantes (os “companheiros”) nas mais variadas posições de poder
e influência. Inspirando-se na ideia gramsciana de “Estado ampliado”, o PT
traçou o objetivo de governar não apenas o Executivo, mas dirigir o imaginário,
a linguagem e os próprios critérios de legitimidade social.
Um dos atos simbólicos inaugurais dessa mentalidade foi tão
medíocre na forma quanto infame na substância: a estrela do PT incrustada nos
jardins do Planalto nos primeiros dias do primeiro mandato do
descondenado-em-chefe, por ordem da então primeira-dama, Dona Marisa. A
mensagem era clara: a partir dali, o Estado já não seria um espaço transitório
de administração, mas a extensão simbólica da agremiação. A República
tornava-se paisagem partidária.
Só é possível compreender a ascensão de uma figura como Dias
Toffoli ao poder dentro dessa lógica. Reprovado duas vezes em concursos para a
magistratura, foi alçado ao ápice do Judiciário pela via da lealdade política,
encarnando o tipo ideal do quadro partidário promovido não pela excelência
(inexistente, no caso), mas por ser útil à causa partidária. Toffoli era o
Incitatus de Lula. Sua nomeação foi um dos primeiros grandes tapas na cara da sociedade
desferidos pelo lulopetismo. Mas, como as instâncias de formação da opinião
pública também já haviam sido devidamente aparelhadas, o Brasil aceitou o tapa
como se fosse uma bênção.
O escândalo que hoje envolve Toffoli, e cuja exposição
incomoda o regime, deve ser lido no contexto do patrimonialismo petista. O caso
ilustra a naturalização de relações promíscuas entre a alta magistratura e
interesses privados sob a blindagem de um sistema de lealdades recíprocas.
Todas as ações do STF ao longo dos últimos anos – incluindo a perseguição
política à direita nacional, a edificação de um complexo industrial da censura
e o processo judicial farsesco contra Jair Bolsonaro e os “golpistas” do 8 de
janeiro – devem ser lidas nessa chave. Quando quadros formados no interior de
uma cultura partidária ascendem aos postos máximos da República, a distinção
entre função institucional e solidariedade orgânica tende a dissolver-se.
A história fornece analogias instrutivas. Em A Tragédia de
um Povo, o historiador britânico Orlando Figes descreve como, após 1917, o
Estado russo foi rapidamente ocupado por militantes socialistas cuja principal
qualificação era a fidelidade ideológica. A máquina administrativa
transformou-se em extensão do partido, e a competência técnica – para não falar
da exigência ética mínima – tornou-se secundária diante da ortodoxia. A antiga
elite administrativa foi afastada; em seu lugar, instalaram-se comissários cuja
credencial exclusiva era a submissão ideológica. A competência tornou-se
suspeita; a experiência prévia, sinal de contaminação burguesa. O resultado foi
uma burocracia ideológica, frequentemente inepta, mas ferozmente leal. O Estado
soviético tornou-se máquina de promoção do homem novo – e de eliminação do
homem qualificado.
Flavio Gordon

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