“O mundo sob as regras do PT”
Editorial de O Estado de S. Paulo.
Em editorial publicado no domingo (1º), o jornal O Estado de S.Paulo critica a política externa brasileira, “que, sob o comando de Celso Amorim tornou-se um exercício de cinismo metódico: o valor de uma norma depende de quem a viola”. “Enquanto rompe relações diplomáticas e lança acusações hiperbólicas contra a democrática Israel, prestigia a posse presidencial de um fantoche da teocracia dos aiatolás do Irã, a principal patrocinadora do terrorismo global – ao mesmo tempo em que seu partido celebra as inúmeras eleições fraudulentas na Rússia e na Venezuela como verdadeiras festas da democracia.
Enquanto abraça entusiasticamente a conversão do Brics em um sindicato de autocracias revisionistas, sabota o ingresso do Brasil na OCDE, o fórum das democracias desenvolvidas que exige compromissos com transparência, pluralismo e racionalidade institucional – regras indisfarçavelmente inconvenientes para o lulopetismo”. Leia a seguir a íntegra do texto:
Em artigo na
revista The Economist, o chanceler de facto do governo Lula, Celso Amorim,
lamenta a erosão das normas internacionais e pergunta, em tom dramático: como
viver em um mundo sem regras?
Mas quais
regras? As de ideólogos petistas como ele são peculiares. Conforme Luiz Inácio
Lula da Silva, a democracia é “relativa” e tudo é uma questão de “narrativas”:
princípios cedem lugar à conveniência ideológica, e o Direito Internacional é
maleável como retórica de palanque. Segundo esses parâmetros, ditaduras que não
sejam do “Sul Global” são sempre detestáveis, e as únicas violações
intoleráveis são as dos países “ricos”. Nessa mitologia geopolítica, o
verdadeiro problema não é a ausência de normas, mas a presença incômoda de
princípios universais que limitam o arbítrio dos comissários que estão “do lado
certo da História”.
A queda do
ditador Nicolás Maduro ofereceu a Amorim um pretexto para defender o que
realmente importa: não os direitos do povo venezuelano, mas a imunidade de um
déspota aliado. O problema não é tanto o que Amorim diz, mas o que não diz. A
abdução de Maduro pelos EUA é de fato questionável sob qualquer ótica jurídica.
Mas as prisões de milhares de opositores venezuelanos pela cleptocracia
chavista, o êxodo de 8 milhões de refugiados, as execuções, a censura, a fome,
o colapso institucional e econômico seguem sem reparos por parte dos petistas,
como acontece há anos. Como se vê, o que inquieta Amorim não é o uso arbitrário
da força em si, mas seu uso contra aliados ideológicos.
Enquanto
Amorim clama por diálogo e respeito ao Direito Internacional, seu governo se
abstém de votar resoluções na ONU exigindo o retorno de crianças ucranianas
sequestradas por Moscou ou condenando massacres e torturas de dissidentes e
minorias no Irã. Enquanto rompe relações diplomáticas e lança acusações
hiperbólicas contra a democrática Israel, prestigia a posse presidencial de um
fantoche da teocracia dos aiatolás do Irã, a principal patrocinadora do
terrorismo global – ao mesmo tempo em que seu partido celebra as inúmeras
eleições fraudulentas na Rússia e na Venezuela como verdadeiras festas da
democracia. Enquanto abraça entusiasticamente a conversão do Brics em um
sindicato de autocracias revisionistas, sabota o ingresso do Brasil na OCDE, o
fórum das democracias desenvolvidas que exige compromissos com transparência,
pluralismo e racionalidade institucional – regras indisfarçavelmente
inconvenientes para o lulopetismo.
Ao longo de
suas gestões, o PT abastardou os padrões morais da diplomacia brasileira para
acomodar regimes que partilham de seus rancores de grêmio estudantil e sua
repulsa ao pluralismo liberal. O “mundo com regras” que Amorim se propõe a
restaurar é o de um multilateralismo para ditadores de estimação, onde a
“soberania” é escudo para abusos internos, o “diálogo” é sinônimo de inação e a
cumplicidade é travestida de “neutralidade”.
Os mesmos
que denunciam com fervor missionário o “imperialismo estadunidense”
contemporizam o roubo de territórios ucranianos pela Rússia. Os que escrutinam
com lupa quaisquer desvios de democracias liberais fazem vista grossa quando
direitos fundamentais são ignorados em Pequim, Havana ou Manágua. Sob o comando
de Amorim, a política externa brasileira tornou-se um exercício de cinismo
metódico: o valor de uma norma depende de quem a viola.
Seu artigo
ecoa o discurso lulista que se pretende voz moral da humanidade, mas sob os
governos do PT o Brasil é menos vítima de um mundo em colapso do que cúmplice
do caos – toda vez em que se omite, silencia e justifica atrocidades em nome de
afinidades políticas. Amorim apenas disfarça com um luto performático pela
ordem global o seu incômodo com o fato de que o uso arbitrário da força deixou
de ser apanágio de ditadores “companheiros” para atingir um deles, o tirano
Maduro.
Talvez o
mundo esteja mesmo sem regras. Mas sabemos como o petismo joga o jogo das
relações internacionais: relativismo para amigos, intolerância para críticos e
silêncio para vítimas inconvenientes à sua “narrativa”. Amorim não quer um
mundo com regras. Quer um mundo com as regras do PT.
Editorial do Jornal "O Estado de S. Paulo"
Nenhum comentário:
Postar um comentário