Toffoli juiz julga que pode julgar Toffoli réu com base em Toffoli investigador.
Flavio Morgenstern
É com este panorama de fundo que podemos avalizar as recentes
manifestações da grande mídia sobre o novo escândalo do STF: a batata quente do
Banco Master. A grande novidade foi que Alexandre de Moraes (cada um tem o
Marco Antônio que merece) resolveu utilizar, segundo um professor da USP ouvido
pela BBC, um “inquérito absurdo” para agir contra o vazamento de seus dados na
Justiça. Moraes, por vingança, vazou os dados de quem vazou seus dados na
mídia, para mostrar que vazar dados para a mídia é ilegal, o que o seu próprio
inquérito faz.
O curioso é que o inquérito é o mesmo inquérito das fake
news de sempre, que foi chamado de “salvador da demogracinha” não faz muito
tempo. Outro veículo de mídia também afiançou que Moraes está com “sangue nos
olhos”. Imagine que uma partida entre Corinthians e São Caetano mostre não um
atacante com vontade de vencer, mas o juiz com “sangue nos olhos”… Também
Demétrio Magnoli obtemperou sobre o que se descobriu acerca do STF nos últimos
dias, dizendo que vai passar a acreditar que o STF está contra a lei.
Por que o inquérito agora incomoda tanto? Parece até que a
direita e o tal do Bolsonaro tinham razão o tempo todo. Parece mesmo que o STF
é que criou uma lambança nas instituições.
Tudo porque o “inquérito absurdo” agora parece se voltar
para quem apoiou o próprio Moraes no passado, mas que agora está querendo
investigar o Banco Master, ao invés de melar as investigações, como fizeram com
a Lava Jato. Moraes, avisa uma das reportagens, quer usar o inquérito contra
todo mundo: jornalistas, banqueiros, membros do Poder Executivo.
Ou seja, parece que a lei não importa e que medidas
ditatoriais serão tomadas.
Mas não foi exatamente isso que foi feito com a direita toda
nos últimos anos?! Com todos os inimigos pessoais de Alexandre de Moraes e do
STF?!
Agora, o absurdo é que Dias Toffoli, que pode estar
envolvido até o pescoço no escândalo do Banco Master, tinha a relatoria do
caso. O STF emitiu nota dizendo não ver problema nenhum, mas o retirou da
relatoria (ué, mas tinha ou não tinha problema?! A Justiça agora, ao invés de
critérios objetivos, funciona no “não pode, mas se quiser, pode”?). Ainda
afiançou (ops!) não ver motivo para suspeição. Ora, não é apenas caso de
suspeição: se o que se divulgou sobre Dias Toffoli for verdade, não é que ele
esteja sendo avaliado como suspeito ou não suspeito.
É preciso poder punir os membros do STF
Ele é réu no caso, com motivo para se discutir prisão ou
não. Agora, mesmo não sendo relator, pode julgar o caso. Tudo em nome da
democracia, e tome “inquérito absurdo” em quem discordar
No livro “Arquipélago Gulag”, de Aleksandr Soljenítsin,
considerado pela revista Time “o livro mais importante do século XX”, o autor,
que passou 11 anos nos campos de concentração soviéticos, explica como um
totalitarismo do tipo começa. Primeiro, adotando a justiça extrajudicial (sic).
Quem tomava conta era a Comissão Extraordinária de Toda a
Rússia de Luta Contra a Contrarrevolução, a Especulação e a Sabotagem (VtchK) –
“a Sentinela da Revolução, o único órgão punitivo da história humana a reunir
em suas mãos a investigação, a prisão, o inquérito, a promotoria, o tribunal e
a execução da sentença”. Bem, talvez Soljenítsin não diria que foi o único
órgão com tal função hoje.
E esses nomes burocraticamente cafonas não lembram órgãos
brasileiros como o Centro Integrado de Enfrentamento à Desinformação e Defesa
da Democracia (CIEDDE), órgão do TSE?
Nada mais normal do que um juiz, portanto, assumir o papel
de julgador, de Ministério Público, de corregedor do próprio trabalho, de
controlador de provas (em sigilo absoluto e lacradas, claro) e, claro, de réu.
O único papel que faltava.
Precisamos parar de chamar o Brasil de República das
Bananas. Falta muita maturidade institucional para chegarmos lá.
-Flavio Morgenstern


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