Dias Toffoli zomba do país.
Gazeta do Povo.
Diante da bem-vinda pressão da sociedade sobre o STF após as
sucessivas revelações da imprensa sobre o caso Banco Master, Dias Toffoli,
relator do caso, resolveu se pronunciar. Mas a nota oficial divulgada pelo
ministro na quinta-feira (29) soa menos como explicação – e há muito a ser
explicado – e mais como escárnio: uma tentativa deliberada de normalizar o que
jamais poderia ser aceito como normal em uma democracia funcional.
Há anos, o Supremo vem esticando os limites da Constituição
até o ponto da ruptura. Avocação de processos sem critério objetivo, decisões
monocráticas com efeitos sistêmicos, inquéritos criados de ofício e prolongados
indefinidamente, concentração de funções incompatíveis entre si – tudo isso
deixou de ser exceção e passou a compor um método. O recente caso Master não
inaugura esse padrão. Ele o sintetiza.
Toffoli se apresenta como vítima de seu próprio zelo, quase
como um guardião solitário do Sistema Financeiro Nacional. É a mesma retórica
que já se consolidou no Supremo nos últimos anos: ministros que se
autoproclamam defensores da República enquanto corroem, por dentro, o devido
processo legal e o Estado de Direito
Nesse contexto, soa quase ofensiva a afirmação de Toffoli de
que teria atuado como “mero supervisor” das investigações. Não supervisiona
quem avoca processos, redefine competências, determina diligências urgentes,
conduz oitivas sensíveis, determina acareações antes de depoimentos e passa a
ditar o ritmo e o alcance da apuração, como fez o ministro. Toffoli nunca se contentou
em apenas acompanhar o caso, mas o conduziu da forma como bem entendeu,
interferindo diretamente nas investigações, contrariando inclusive a Polícia
Federal, esta sim, responsável por investigar.
A nota insiste em classificar esse percurso como “normal” e
“regular”. Eis o ponto central do problema. A maior perversão institucional não
está apenas nos atos praticados, mas na tentativa deliberada de tratá-los como
rotineiros. Não há normalidade quando o próprio tribunal redefine sua
competência para preservar o controle do caso. Não há regularidade quando o
Supremo se converte em instância investigadora, supervisora e julgadora ao
mesmo tempo – ainda que, na história recente da corte, isso tenha se tornado
habitual com Alexandre de Moraes. Chamar isso de procedimento ordinário é um
insulto à legalidade.
Mas a nota silencia sobre o ponto mais sensível de todos: a
proximidade entre Toffoli e o Banco Master. O ministro omite qualquer
referência à relação de parentes próximos com o Master, fato amplamente noticiado
e que, por si só, já seria suficiente para caracterizar um conflito de
interesses manifesto. Não se trata de ilação, mas de prudência institucional
elementar: diante de vínculos dessa natureza, o afastamento do relator por meio
da abertura de um processo de impeachment não seria um favor ao país, mas uma
obrigação ética mínima, como já defendemos.
A promessa de que o caso poderá, ao final, retornar à
primeira instância tampouco resolve o problema. Trata-se de um argumento
cínico. A eventual devolução dos autos não apaga o histórico de interferências,
nem desfaz os constrangimentos já impostos ao sistema de Justiça. Não se
corrige um abuso institucional jogando-o para debaixo do tapete após consumado.
O tom da nota revela, ainda, uma
inversão perturbadora. Toffoli se apresenta como vítima de seu próprio zelo,
quase como um guardião solitário do Sistema Financeiro Nacional. É a mesma
retórica que já se consolidou no Supremo nos últimos anos: ministros que se
autoproclamam defensores da República enquanto corroem, por dentro, o devido
processo legal e o Estado de Direito. Foi assim com Alexandre de Moraes, alçado
a símbolo da defesa da democracia enquanto concentrava poderes incompatíveis
com qualquer ordem constitucional saudável. Agora, não surpreenderia que o
mesmo roteiro acabasse se repetindo no campo financeiro.
A nota de Toffoli não é um episódio isolado de má
comunicação. Ela é a expressão cristalina de uma corte que perdeu o senso de
limite, de autocrítica e de responsabilidade institucional e que se vê como
impermeável a qualquer crítica ou controle externo. Diante desse quadro, não há
mais espaço para complacência nem para silêncio cúmplice. Cabe às instituições
da República – em especial ao Senado, guardião constitucional do controle sobre
o Supremo – cumprir o dever que vem sendo sistematicamente adiado. O país já não suporta mais notas evasivas,
versões autocongratulatórias, nem a normalização do abuso. As instituições
ainda comprometidas com os valores republicamos precisam reagir, com firmeza e
coragem, exigindo a saída de Toffoli e a investigação profunda e serena sobre o
Banco Master e sua rede de influências.. Toffoli não pode continuar agindo
livremente, zombando do país.
Gazeta do Povo
Nenhum comentário:
Postar um comentário