Entre a nota de Fachin e Rui Barbosa, fico com Rui Barbosa.
Mais um ótimo artigo do Mário Sabino.
“Despertou grande interesse antropológico em mim a nota do
ministro Edson Fachin, presidente do STF, em defesa da atuação de Dias Toffoli
no caso do Banco Master.
Mais precisamente, a sua parte final, na qual ele diz o
seguinte:
“É induvidoso que todos se submetem à lei, inclusive a
própria Corte Constitucional; nada obstante, é preciso afirmar com clareza: o
Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações. Quem tenta
desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a
diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia
constitucional e do Estado de direito…”
Se bem entendi, o presidente do STF, um democrata de quatro
costados, quis dizer que aqueles que ousam apontar o descalabro das decisões de
Toffoli e investigam as suas ligações financeiras com o Master de Daniel
Vorcaro estão ameaçando o tribunal e, portanto, a democracia.
Eu pensava que era exatamente o contrário: que estávamos
fortalecendo o STF, o Estado de direito e o sistema democrático ao tentar
depurá-los. Achava até que ajudávamos Fachin na sua cruzada por um código de
conduta para os integrantes do tribunal.
A minha percepção estava errada: para Fachin e os seus
colegas, toda crítica a atitudes de um integrante do tribunal, ou revelação de
fatos sobre ele, é “irresponsável primitivismo da pancada”, tentativa de
“desmoralizar o STF para corroer a sua autoridade, a fim de provocar o caos e a
diluição institucional”.
Imprensa, PF e BC que tomem cuidado, visto que “a história é
implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger
interesses escusos ou projetos de poder; e o STF não permitirá que isso
aconteça”.
Soa como intimidação e é intimidação, visto que o tribunal
mantém um inquérito sigiloso, aberto de ofício por Dias Toffoli, em 2019,
direcionado contra qualquer um que o seu relator, o implacável Alexandre de
Moraes, escolhido a dedo por quem abriu o inquérito, julgue ser inimigo do STF.
Com a sua nota que recende a corporativismo, Fachin e os seus
colegas jogam repórteres investigativos, articulistas, editorialistas,
organismos de fiscalização e controle do mercado financeiro e de combate ao
crime na vala comum do bolsonarismo aloprado. Muito conveniente, sem dúvida.
As linhas divulgadas ontem pelo presidente do STF devem ser
lidas pelo seu valor de face: são mostra de que vivemos mesmo em outro tempo
difícil, dos quais a história está cheia, do manda quem pode, obedece quem tem
juízo.
Talvez eu não tenha juízo, porque, nesta incontornável função
jornalística, entre Fachin e Rui Barbosa, ainda fico com o segundo, que
escreveu há mais de século:
“A imprensa é a vista da nação. Por ela é que a nação acompanha o que lhe passa ao perto e ao longe, enxerga o que lhe malfazem, devassa o que lhe ocultam e tramam, colhe o que lhe sonegam, ou roubam, percebe onde lhe alvejam, ou nodoam, mede o que lhe cerceiam, ou destroem, vela pelo que lhe interessa, e se acautela do que a ameaça. "
Mario Sabino.
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