Os exemplos que reacendem a esperança de um Brasil rico,
decente e seguro,
Gazeta do Povo
Em cerca de 20 anos, a cidade de Nova York reduziu os homicídios
em 80%.
Dias atrás, neste espaço, a Gazeta do Povo diagnosticou o
que chamamos de “crise da alma” brasileira: uma perda de esperança que nasce da
conjunção de uma crise institucional, uma crise econômica e uma crise civil,
ético-cultural, que se alimentam mutuamente. Esta perda de esperança se traduz,
com muita frequência, em uma afirmação tão apocalíptica quanto – mostraremos a
seguir – enganosa: a de que “o Brasil não tem jeito”. Ainda que haja muitos
motivos para tal constatação, temos a ousadia de afirmar que ela é um engano
grave, que costuma se alastrar e acompanhar os países em crise. Considerar que
o presente é permanente, que as coisas sempre foram assim e sempre serão é um
fatalismo que a própria história do mundo desmente.
É um pessimismo que deve diminuir nos próximos meses, até
porque, ao longo da campanha eleitoral que está para começar, muitos candidatos
afirmarão que sim, o Brasil tem solução – desde que sejam eles os eleitos. Não
se trata, no entanto, de um processo tão simples. Mesmo quando se trata de
candidatos que de fato defendem um conjunto de ideias correto (pois muitos
também oferecerão como solução fórmulas que apenas agravarão os atuais
problemas), os casos de países que mudaram para melhor mostram que é preciso
construir uma direção clara e mantê-la por muitos anos. É disso, e não de
passes de mágica nem de salvadores da pátria, que depende a concretização dos
nossos desejos de um Brasil rico, um Brasil decente e um Brasil seguro.
Será possível, por exemplo, que o Brasil deixe de ser um
país de renda média e passe a integrar, em um horizonte de 20 anos, o grupo das
nações de alta renda, aquelas que têm renda per capita superior a cerca de US$
14 mil, nos critérios do Banco Mundial? Nosso ponto de partida é uma renda per
capita de US$ 9,5 mil – o salto seria de quase 50% em duas décadas. Parece
impossível, mas três exemplos, inclusive alguns bem próximos, mostram que não
se trata de utopia.
Os casos de países que mudaram para melhor mostram que é
preciso construir uma direção clara e mantê-la por muitos anos
A Costa Rica, geograficamente muito próxima de países de
baixa renda e em crise, acaba de atingir esse mesmo objetivo que gostaríamos de
ver traçado para o Brasil. Em julho de 2025, o Banco Mundial reclassificou o
país como economia de alta renda, resultado de duas décadas de crescimento
consistente – cerca de 3% ao ano, em média, entre 2004 e 2024. O Chile é outro
exemplo: em 1990, 39% dos chilenos viviam na pobreza; em pouco mais de 15 anos,
esse número caiu para menos de 14%, enquanto a renda por habitante quase
sextuplicou entre 1990 e 2018. Em 2010, o Chile tornou-se o primeiro país da
América do Sul a ingressar na OCDE, o grupo das nações mais desenvolvidos do
mundo. E há o exemplo mais radical: o da Coreia do Sul. Nos anos 1960, a renda
per capita sul-coreana era inferior à brasileira e o país figurava entre os
mais pobres do planeta. Hoje, a Coreia do Sul é uma potência tecnológica,
industrial e cultural, cuja renda per capita é o triplo da brasileira.
Há inúmeros outros casos bastante documentados, com boa
literatura analisando esses movimentos. O que ela mostra é que nenhum desses
países “ganhou na loteria”, por exemplo encontrando alguma reserva abundante de
commodities valiosas. O que eles fizeram foi mais difícil: criaram instituições
confiáveis, investiram pesado na educação (especialmente a educação básica),
mantiveram responsabilidade fiscal, abriram-se ao comércio internacional – e preservaram
esse rumo ao longo de diferentes governos. A palavra-chave é consistência.
O que vale para a economia vale para a segurança pública,
como demonstram os casos de Nova York, Colômbia, Escandinávia e Itália. Em
1990, Nova York registrou 2.245 homicídios; era a cidade mais violenta dos
Estados Unidos, um símbolo mundial de violência urbana, retratada inclusive em
clássicos do cinema. Também lá não houve milagre algum, mas decisão política,
inteligência policial, aplicação efetiva da lei e recuperação da confiança nas
forças de segurança. Duas décadas depois, os homicídios anuais giravam em torno
de 300, uma queda de mais de 80% em comparação com os piores dias da “cidade
que nunca dorme”. Nova York havia se tornado referência mundial em redução da
violência – e o aumento verificado no início desta década se deveu justamente
ao abandono de algumas das medidas que haviam ajudado a reduzir a
criminalidade, o que apenas ressalta a importância da consistência nas
políticas públicas.
O próprio Brasil mostra que isso é possível. As sucessivas
edições de estudos como o Atlas da Violência apontam que há estados com baixos
índices de homicídios, e outros com números comparáveis aos de países em
guerra. A diferença está nas instituições, nas prioridades e nas políticas
públicas que não caem no erro de achar que a defesa da dignidade humana exige
desconfiança em relação à polícia ou complacência com os criminosos – isso só
leva a aceitar a impunidade. É o contrário: uma sociedade verdadeiramente
humana não tem medo de ser firme e de proteger prioritariamente as vítimas, as
famílias honestas, que só desejam viver em paz.
Por fim, na esfera civil e ético-cultural nem é preciso
buscar exemplos externos. Graças à Operação Lava Jato, milhões de brasileiros
passaram a considerar possível combater aquilo que, por décadas, foi tratado
quase com resignação: a corrupção. Por mais que uma reação organizada e
interesses políticos tenham conseguido desmontar a maior e mais bem-sucedida
operação de combate à corrupção da história do Brasil, essa demolição não muda
o fato de que a cultura de descrença quanto à possibilidade de atacar a
corrupção mudou profundamente. E o que muda uma vez pode voltar a mudar.
Nossa sociedade está aprendendo. Há uma disposição crescente
de rediscutir temas sem recorrer automaticamente a lógicas estéreis, como a
surrada oposição entre opressor e oprimido ou o vitimismo permanente. A cultura
do cancelamento e a afetada sinalização de virtude estão sendo cada vez mais
questionadas. E uma razão adicional para esperança é o fato de o Brasil não
“partir do zero”. O país tem estabilidade monetária desde o Plano Real; nosso
agronegócio está entre os mais competitivos do mundo; reformas importantes como
a da Previdência e a trabalhista, marcos regulatórios como o do saneamento, e
medidas como a autonomia do Banco Central foram aprovadas no Congresso (ainda
que algumas delas enfrentem retrocessos). O bom trabalho, portanto, já está em
andamento – mas precisa ser terminado.
A pergunta não é se o Brasil pode mudar, pois a história de
muitos países já respondeu que sim. A verdadeira pergunta é outra: teremos
coragem e perseverança para construir essa mudança?
Além disso, agressões e repressões não foram capazes de
conter a cultura de valorização da família, da vida, da liberdade, do
empreendedorismo, do associativismo, da participação na vida pública, cultura
essa que vem crescendo nos últimos 20 anos – em parte, também como reação a
essas agressões e repressões. Temos, assim, um pano de fundo de valores humanos
extremamente fecundo. E também a tecnologia é um elemento de esperança. A
disseminação rápida da inteligência artificial traz desafios gigantescos,
especialmente no mundo do trabalho, mas pode acelerar o crescimento e encurtar
o tempo de implementação de medidas que levem à superação das crises.
O Brasil está bem posicionado para iniciar um ciclo de
grande desenvolvimento institucional, econômico e ético-cultural. Mas ele
depende de escolhermos líderes capazes de iniciar uma transformação na direção
correta, com medidas assertivas e capazes de sobreviver ao próprio mandato,
porque é assim que os países mudam. A virada não ocorre em quatro anos, mas não
exige um século inteiro; basta que uma sociedade decida caminhar na mesma
direção saudável por 20 anos, com a capacidade de manter boas políticas
públicas ao longo do tempo.
O brasileiro nunca deixou de ser um povo otimista, mas
precisa trazer essa característica de volta à superfície. A história nunca está
completamente escrita e o Brasil não está condenado ao fracasso. Temos
problemas profundos, mas também instituições que podem ser reconstruídas, uma
economia que pode voltar a crescer, e uma sociedade que segue mostrando enorme
capacidade de reagir quando encontra lideranças, ideias e objetivos claros. A
pergunta não é se o Brasil pode mudar, pois a história de muitos países já
respondeu que sim. A verdadeira pergunta é outra: teremos a lucidez, a coragem
e a perseverança para construir essa mudança?