Mais uma vez, o Supremo ultrapassa a fronteira entre os Poderes.
Na abertura do segundo semestre judiciário de 2026, o
ministro Edson Fachin defendeu a convivência harmoniosa com as críticas e
prometeu celeridade e diálogo com os outros Poderes. É muito difícil concordar
com o ministro.
Como se sabe, o Inquérito das Fake News, sob o argumento de combater ataques à democracia e à honra dos magistrados, resultou no bloqueio de perfis em redes sociais, busca e apreensão contra empresários e analistas, e na prisão do ex-deputado federal Daniel Silveira por ter criticado os ministros. Nesta toada, o STF acumulou os papéis de vítima, investigador e julgador, ultrapassando os limites da serenidade.
O aperfeiçoamento institucional encontrou forte barreira
dentro da própria Corte. A intenção de aumentar a transparência e restabelecer
a confiança pública com a criação do Código de Ética não deu em nada, e a
proposta foi sepultada. O ministro também falou em celeridade processual, mesmo
sabendo que decisões travadas por pedidos de vista individuais sem prazo limite
chegavam a paralisar processos por mais de uma década, e que o tempo médio de
tramitação ainda supera três anos.
Ao falar em diálogo institucional, esquece-se de que a
frequente judicialização da política fez com que o STF interferisse diretamente
em pautas deliberadas pelo Congresso, desde a invalidação da tese do Marco
Temporal para terras indígenas até debates sobre a descriminalização do porte
de drogas. O que se viu foi ativismo judicial e invasão da prerrogativa
legislativa.
O discurso do ministro falando em conciliação e
aperfeiçoamento institucional precisa contornar um histórico marcado por
inquéritos de exceção, recusa de marcos éticos internos e frequentes
ultrapassagens da fronteira entre os Poderes. Edson Fachin sabe disso.
Vicente Lino



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