Sodoma e Gomorra na Era da IA.
Jonas Federighi Jr
O aspecto + revoltante do caso Master não é o que foi
descoberto. É a naturalidade com que tudo foi tratado pelos envolvidos. Nenhum
constrangimento. Nenhuma vergonha. Nenhum receio de explicar à sociedade por
que empresários com interesses bilionários mantêm relações tão íntimas com
ocupantes dos mais altos cargos da República.
Isso pq, p/ muitos brasileiros, o escândalo não parece uma
exceção. Parece um raro momento em que as cortinas foram abertas e o público
pôde enxergar como funciona o teatro nos bastidores.
A discussão não é sobre um banqueiro. Nunca foi.
A discussão é sobre um modelo de poder.
Um modelo em que o mandato público deixa de ser
representação popular e passa a funcionar como ativo econômico. Um ativo que
gera influência, acesso, proteção, favores, emendas, indicações, decisões
administrativas, pareceres, interpretações regulatórias e benefícios para
grupos organizados.
O caso Master apenas tornou visível aquilo que milhões de
brasileiros suspeitam há décadas: que existe uma indústria de intermediação
entre o Estado e grupos privados. Mudam os personagens, mudam os setores, mudam
os governos, mas o mecanismo permanece surpreendentemente parecido.
Ontem eram grandes empreiteiras.
Hoje são bancos, fundos, grupos econômicos, empresas
dependentes de subsídios, operadores financeiros, apostas online, setores
regulados e organizações que vivem da proximidade com Brasília.
O padrão se repete.
O empresário busca acesso.
O político oferece influência.
O burocrata oferece proteção.
O sistema produz justificativas.
E a conta chega para o contribuinte.
A consequência é um país que arrecada como uma potência
desenvolvida e entrega serviços públicos incompatíveis com o volume de recursos
consumidos. Um país onde privilégios são tratados como direitos adquiridos,
onde benefícios corporativos se multiplicam, onde emendas crescem sem
transparência suficiente, onde grupos organizados disputam favores estatais
enquanto a população financia a conta através de impostos, inflação, dívida
pública e crescimento econômico medíocre.
O + impressionante é que a indignação desapareceu das
elites políticas. O escândalo já não provoca vergonha. A exposição pública já
não produz constrangimento. A defesa deixou de ser baseada na ética e passou a
ser baseada apenas na ausência de condenação definitiva.
O debate moral foi substituído pelo debate processual.
Não perguntam + se é correto.
Perguntam apenas se é possível.
Não perguntam + se é republicano.
Perguntam apenas se é legal.
Não perguntam + se é compatível c/ a dignidade do cargo.
Perguntam apenas se existe risco jurídico.
Qdo uma sociedade chega a esse ponto, a corrupção deixa de
ser um desvio de comportamento. Ela se transforma em cultura.
E talvez seja por isso q tantos brasileiros tenham a
sensação de viver uma versão moderna de Sodoma e Gomorra: não por causa da
tecnologia, da internet ou da inteligência artificial, mas porque nunca foi tão
fácil enxergar aquilo que antes acontecia longe dos olhos do público.
A diferença é que hoje tudo deixa rastros.
Mensagens deixam rastros.
Reuniões deixam rastros.
Transferências deixam rastros.
Influências deixam rastros.
Conexões deixam rastros.
A tecnologia tornou mais difícil esconder comportamentos
que durante décadas prosperaram na escuridão.
A grande questão nacional deixou de ser descobrir se
existem problemas de integridade. A sociedade já sabe que eles existem.
A pergunta agora é outra:
Como reconstruir instituições capazes de premiar
honestidade, punir desvios e limitar a captura do Estado sem abandonar os
princípios democráticos e o Estado de Direito?
Essa é a batalha decisiva do Brasil no século XXI.
Não entre esquerda e direita.
Não entre governo e oposição.
Mas entre uma República baseada em regras impessoais e um
sistema onde influência, proximidade e privilégios valem mais do que mérito,
transparência e responsabilidade perante a sociedade".
Jonas Federighi Jr.


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