domingo, 21 de junho de 2026

 Sodoma e Gomorra na Era da IA.

 Jonas Federighi Jr




 

O aspecto + revoltante do caso Master não é o que foi descoberto. É a naturalidade com que tudo foi tratado pelos envolvidos. Nenhum constrangimento. Nenhuma vergonha. Nenhum receio de explicar à sociedade por que empresários com interesses bilionários mantêm relações tão íntimas com ocupantes dos mais altos cargos da República.

Isso pq, p/ muitos brasileiros, o escândalo não parece uma exceção. Parece um raro momento em que as cortinas foram abertas e o público pôde enxergar como funciona o teatro nos bastidores.

A discussão não é sobre um banqueiro. Nunca foi.

A discussão é sobre um modelo de poder.

Um modelo em que o mandato público deixa de ser representação popular e passa a funcionar como ativo econômico. Um ativo que gera influência, acesso, proteção, favores, emendas, indicações, decisões administrativas, pareceres, interpretações regulatórias e benefícios para grupos organizados.

O caso Master apenas tornou visível aquilo que milhões de brasileiros suspeitam há décadas: que existe uma indústria de intermediação entre o Estado e grupos privados. Mudam os personagens, mudam os setores, mudam os governos, mas o mecanismo permanece surpreendentemente parecido.

Ontem eram grandes empreiteiras.

Hoje são bancos, fundos, grupos econômicos, empresas dependentes de subsídios, operadores financeiros, apostas online, setores regulados e organizações que vivem da proximidade com Brasília.

O padrão se repete.

O empresário busca acesso.

O político oferece influência.

O burocrata oferece proteção.

O sistema produz justificativas.

E a conta chega para o contribuinte.

A consequência é um país que arrecada como uma potência desenvolvida e entrega serviços públicos incompatíveis com o volume de recursos consumidos. Um país onde privilégios são tratados como direitos adquiridos, onde benefícios corporativos se multiplicam, onde emendas crescem sem transparência suficiente, onde grupos organizados disputam favores estatais enquanto a população financia a conta através de impostos, inflação, dívida pública e crescimento econômico medíocre.

O + impressionante é que a indignação desapareceu das elites políticas. O escândalo já não provoca vergonha. A exposição pública já não produz constrangimento. A defesa deixou de ser baseada na ética e passou a ser baseada apenas na ausência de condenação definitiva.

O debate moral foi substituído pelo debate processual.

Não perguntam + se é correto.

Perguntam apenas se é possível.

Não perguntam + se é republicano.

Perguntam apenas se é legal.

Não perguntam + se é compatível c/ a dignidade do cargo.

Perguntam apenas se existe risco jurídico.

Qdo uma sociedade chega a esse ponto, a corrupção deixa de ser um desvio de comportamento. Ela se transforma em cultura.

E talvez seja por isso q tantos brasileiros tenham a sensação de viver uma versão moderna de Sodoma e Gomorra: não por causa da tecnologia, da internet ou da inteligência artificial, mas porque nunca foi tão fácil enxergar aquilo que antes acontecia longe dos olhos do público.

A diferença é que hoje tudo deixa rastros.

Mensagens deixam rastros.

Reuniões deixam rastros.

 Transferências deixam rastros.

Influências deixam rastros.

Conexões deixam rastros.

A tecnologia tornou mais difícil esconder comportamentos que durante décadas prosperaram na escuridão.

A grande questão nacional deixou de ser descobrir se existem problemas de integridade. A sociedade já sabe que eles existem.

A pergunta agora é outra:

Como reconstruir instituições capazes de premiar honestidade, punir desvios e limitar a captura do Estado sem abandonar os princípios democráticos e o Estado de Direito?

Essa é a batalha decisiva do Brasil no século XXI.

Não entre esquerda e direita.

Não entre governo e oposição.

Mas entre uma República baseada em regras impessoais e um sistema onde influência, proximidade e privilégios valem mais do que mérito, transparência e responsabilidade perante a sociedade".

 

Jonas Federighi Jr.






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