Um desserviço ao Supremo.
O Estado de S. Paulo
Ao criticar seus colegas publicamente, Gilmar violou a Loman, expôs o STF a constrangimentos desnecessários e, de quebra, reforçou a necessidade do código de conduta que tanto rejeita.
Durante quase 90 minutos de entrevista ao programa Roda
Viva, da TV Cultura, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes
criticou o colega André Mendonça pela relatoria do chamado caso Master,
questionou a condução do STF por seu presidente, Edson Fachin, e, de quebra,
afirmou que a decisão liminar de Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE), de suspender a divulgação de uma pesquisa de intenção de voto
feita pelo instituto AtlasIntel não deveria ser mantida. Como se vê, o sr.
Gilmar Mendes mirou em muitos alvos, mas alvejada foi a dignidade do próprio
Supremo.
A investida mais incisiva do decano, não há dúvida, foi
contra Mendonça. Gilmar afirmou que o colega cometeu uma “impropriedade” ao
receber do advogado de um dos implicados no caso Master uma “proposta de
delação seletiva”. O ministro disse ainda que Mendonça teria cometido um “erro
crasso” por estar “participando de conversas” na condução de um acordo de
colaboração premiada – prerrogativa que a lei reserva ao Ministério Público e à
Polícia Federal. “Se está participando de conversas ou se está expulsando
advogados do processo”, disse Gilmar à banca de entrevistadores, “isso tem algo
de errado”.
O artigo 36, inciso III, da Lei Orgânica da Magistratura
Nacional (Loman) é cristalino ao proibir todos os magistrados de “manifestar,
por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de
julgamento, seu ou de outrem, ou juízo depreciativo sobre despachos, votos ou
sentenças, de órgãos judiciais, ressalvada a crítica nos autos e em obras
técnicas ou no exercício do magistério”.
Pois foi exatamente isso o que o ministro decano do STF fez,
ignorando olimpicamente um interdito legal que vale tanto para o juiz de
primeiro grau da mais remota comarca brasileira quanto para os ministros da
mais alta corte de Justiça do País.
A experiência no cargo não coloca Gilmar em posição de
superioridade moral ou funcional sobre os demais ministros do STF. Como bem
disse ao Estadão o jurista Wálter Maierovitch, o decano “não é o juiz dos
juízes”. A rigor, o decanato impõe uma sobriedade e um recato ainda maiores do
que aos demais, pois espera-se que quem ocupe essa nobilíssima posição na
República seja a personificação da discrição, da prudência e do comedimento que
devem nortear a judicatura.
Para piorar, a atitude de Gilmar Mendes ainda suscita
questões inquietantes. Afinal, por quais motivos o ministro se lançou nessa
campanha de admoestações públicas contra colegas, em particular André Mendonça
e Edson Fachin? Por que Gilmar Mendes é tão recalcitrante à proposta de um
código de conduta para ministros do STF? Em que medida a exposição pública de
divergências internas serve ao Supremo justamente na quadra histórica em que a
Corte passa por sua maior crise de credibilidade?
Mendonça é o ministro responsável por presidir as
investigações do maior crime financeiro de que o País já teve notícia, um
escândalo com ramificações nos Três Poderes e com suspeitas que, pela primeira
vez, recaem sobre ministros do próprio Supremo. É nesse contexto que aumentam
as aflições dos brasileiros preocupados com a construção de um acordo em
Brasília que leve à impunidade de todos os eventuais culpados pelos crimes de
Daniel Vorcaro et caterva.
Portanto, não se pode condenar quem interprete as palavras e
as atitudes de Gilmar Mendes como parte de um arranjo voltado à nulidade das
investigações do caso Master.
Por fim, há uma contradição incontornável exposta pelo
decano na entrevista. A presença e, sobretudo, o comportamento do ministro no
centro do Roda Viva só reforçaram a premência da edição do código de conduta
que ele tanto rejeita. Decerto sem a intenção de fazê-lo, o ministro expôs quão
republicana é a iniciativa de seu colega Edson Fachin.
As atitudes de Gilmar Mendes diante das câmeras, nas redes
sociais e nas páginas dos jornais são o exato oposto do que se espera de um
ministro do STF no que concerne à sua persona pública.
Essa e outras distorções ajudam a explicar o processo de
erosão da imagem do Supremo, que ora atravessa o momento mais desafiador em
toda sua história republicana. Gilmar Mendes deveria ser o agente de uma
inflexão virtuosa, não seu obstáculo.
O Estado de S. Paulo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário