Crimes que não existem. Como milhões de brasileiros passaram a acreditar que criticar o STF é proibido
Jocelaine Santos.
No Brasil, a maioria das pessoas passou a acreditar que sequer pode criticar os poderosos.
Tal crime nunca foi incluído no Código Penal. Não foi
aprovado pelo Congresso Nacional, nem sancionado por presidente algum. Também
não aparece na Constituição Federal ou em qualquer lei brasileira. Ainda assim,
segundo uma pesquisa recente do Instituto Sivis, 57,5% dos brasileiros – quase
seis em cada dez – acreditam que acusar publicamente o STF de prejudicar a
democracia é algo proibido no país.
Pense por um instante no tamanho desse fenômeno. Mais da
metade da população acredita na existência de um crime que simplesmente não
existe. Como chegamos a esse ponto?
A explicação mais fácil seria atribuir tudo à desinformação
ou ao desconhecimento jurídico. Mas isso seria simplificar demais um problema
muito mais profundo. As pessoas não costumam acordar pela manhã e inventar
crimes imaginários. Quando milhões passam a acreditar que determinada conduta é
proibida, normalmente existe uma razão bem séria para isso.
Liberdades raramente morrem de uma vez. Elas começam a
desaparecer quando as pessoas passam a acreditar que já não podem mais
exercê-las – e é exatamente isso que está acontecendo
Nos últimos anos, o cidadão brasileiro assistiu a uma
sucessão de episódios envolvendo bloqueios de perfis, investigações contra
críticos de autoridades, multas, remoção de conteúdos, intimações e inquéritos
relacionados a manifestações públicas. Independentemente da avaliação que cada
um faça sobre esses casos, o resultado psicológico parece evidente:
consolidou-se a percepção de que certas autoridades simplesmente não devem ser
criticadas.
Talvez seja esse o aspecto mais preocupante da pesquisa. O
problema não é apenas que as pessoas tenham medo de criticar o poder – o que,
por si só, já seria motivo de preocupação. A questão é que, no Brasil, a
maioria das pessoas passou a acreditar que sequer pode criticar os poderosos.
Em uma democracia, cidadãos podem discordar de ministros,
juízes, parlamentares, governadores e presidentes. Podem considerá-los
competentes ou incompetentes, sábios ou desastrosos, benéficos ou prejudiciais
ao país.
Isso não apenas é permitido, como constitui parte essencial
do funcionamento democrático. Afinal, autoridades públicas exercem funções de
interesse coletivo e, justamente por isso, devem estar submetidas ao escrutínio
permanente da sociedade.
Já em regimes autoritários ocorre algo diferente. O cidadão
não sabe exatamente onde está a linha que separa a crítica permitida da crítica
proibida. E, diante dessa incerteza, prefere permanecer em silêncio. Não é
necessário prender todos os críticos. Basta que os demais acreditem que a
punição é uma possibilidade real. O medo faz o trabalho que a censura formal
não consegue fazer sozinha.
Talvez seja por isso que a pesquisa revele outro dado
igualmente alarmante: 61,7% dos entrevistados acreditam ser proibido criticar
publicamente figuras públicas. Vejam bem: qualquer figura pública. Não estamos
falando apenas do STF, mas da própria ideia de autoridade.
Em uma República, autoridades deveriam ser as pessoas mais
expostas a críticas. Elas administram recursos públicos, tomam decisões que
afetam milhões de cidadãos e exercem parcelas do poder estatal. Quanto maior o
poder, maior deve ser a possibilidade de questionamento. Mas, no Brasil,
estamos caminhando na direção oposta.
Cada vez mais, certas autoridades são apresentadas e agem
como se estivessem acima de qualquer crítica, impermeáveis ao escrutínio
público. Nesse cenário, questionamentos legítimos passaram a ser tratados como
ataques institucionais. Discordâncias comuns tornaram-se ameaças à democracia.
Críticas foram confundidas com ofensas. E ofensas, por sua vez, são equiparadas
a riscos para a “estabilidade das instituições”.
Tudo isso levou à criação de um crime fantasma, uma infração
que não existe na legislação, mas que passou a existir no imaginário coletivo e
funciona de forma extremamente eficiente para calar as vozes dos brasileiros.
O resultado da pesquisa do Sivis deveria preocupar qualquer
defensor da democracia, independentemente de sua posição política. Nenhuma
autoridade democrática deveria desejar ser protegida da crítica. Pelo
contrário. A crítica é um mecanismo de controle social tão importante quanto
eleições, imprensa livre e separação entre os Três Poderes.
Liberdades raramente morrem de uma vez. Elas começam a
desaparecer quando as pessoas passam a acreditar que já não podem mais
exercê-las – e é exatamente isso que está acontecendo com a liberdade de
expressão e de crítica no Brasil.
Jocelaine Santos.


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