Contabilidade da Violência e o Estado a serviço do voto.
Vicente Lino.
O
Atlas da Violência 2026, que acaba de ser lançado pelo Fórum Brasileiro de
Segurança Pública, revela o uso deliberado de instituições de Estado para a
construção de narrativas eleitorais. O documento do governo informa que houve
queda de 7,4% no número de homicídios em 2024, atingindo a menor taxa desde
2014.
O mesmo documento informa que, entre 2023 e 2024, o número de cadáveres
cuja causa da morte o Estado não conseguiu identificar saltou de 3.755 para
mais de 7 mil. Esse número não entra no registro de homicídios, e sim no
registro de Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI). Quando esses casos
ocultos são somados à conta real, a queda estatística praticamente desaparece,
e a diminuição fica estagnada em apenas 0,3%.
Esse apagão nos registros não é
coincidência. Os dados não contabilizados significam um sintoma político,
porque ficam esquecidos justamente na transição de um ano não eleitoral para um
ano de eleições municipais. Não adianta o governo mascarar os dados, porque o
cidadão comum, que tranca suas portas e evita caminhar à noite, sabe que a
realidade das ruas não bate com o panfleto oficial. Quando verificada a
geografia da violência desenhada pelo relatório, constatamos que, enquanto o
Sul e o Sudeste concentram os municípios mais seguros, o Nordeste abriga 17 das
20 cidades mais violentas do país.
Diante de uma crise de segurança crônica
nessa região, a solução encontrada não foi o fortalecimento das polícias ou a
inteligência penitenciária, mas sim o manejo estatístico. O grande perigo de
transformar a estatística em peça de propaganda é que o crime organizado não lê
relatórios oficiais; as facções continuam expandindo seus territórios e o
cidadão continua exposto.
É triste, mas o Brasil passou a comemorar o fato de
"só" enterrar 50 mil dos seus cidadãos por ano, desde que a
contabilidade final ajude a vencer a próxima eleição.
Vicente Lino.


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