segunda-feira, 1 de junho de 2026

 Contabilidade da Violência e o Estado a   serviço do voto.

Vicente Lino.


O Atlas da Violência 2026, que acaba de ser lançado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela o uso deliberado de instituições de Estado para a construção de narrativas eleitorais. O documento do governo informa que houve queda de 7,4% no número de homicídios em 2024, atingindo a menor taxa desde 2014. 

O mesmo documento informa que, entre 2023 e 2024, o número de cadáveres cuja causa da morte o Estado não conseguiu identificar saltou de 3.755 para mais de 7 mil. Esse número não entra no registro de homicídios, e sim no registro de Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI). Quando esses casos ocultos são somados à conta real, a queda estatística praticamente desaparece, e a diminuição fica estagnada em apenas 0,3%.

 Esse apagão nos registros não é coincidência. Os dados não contabilizados significam um sintoma político, porque ficam esquecidos justamente na transição de um ano não eleitoral para um ano de eleições municipais. Não adianta o governo mascarar os dados, porque o cidadão comum, que tranca suas portas e evita caminhar à noite, sabe que a realidade das ruas não bate com o panfleto oficial. Quando verificada a geografia da violência desenhada pelo relatório, constatamos que, enquanto o Sul e o Sudeste concentram os municípios mais seguros, o Nordeste abriga 17 das 20 cidades mais violentas do país.

 Diante de uma crise de segurança crônica nessa região, a solução encontrada não foi o fortalecimento das polícias ou a inteligência penitenciária, mas sim o manejo estatístico. O grande perigo de transformar a estatística em peça de propaganda é que o crime organizado não lê relatórios oficiais; as facções continuam expandindo seus territórios e o cidadão continua exposto.

 É triste, mas o Brasil passou a comemorar o fato de "só" enterrar 50 mil dos seus cidadãos por ano, desde que a contabilidade final ajude a vencer a próxima eleição.

 Vicente Lino.


 

 

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