O Supremo se aproxima de um impeachment.
Renan Ramalho.
Maquiavel ensinava que, não sendo possível ao governante ser
amado e temido ao mesmo tempo pelo povo, era preferível que ele fosse obedecido
pelo medo. “Os homens têm menos receio de ofender alguém que se faça amar do
que alguém que se faça temer [...] O temor é mantido por medo ao castigo, e
este medo jamais abandona os indivíduos”, escreveu o pensador florentino no
capítulo XVII de O Príncipe.
Pois parece ser essa a receita que alguns ministros do
Supremo Tribunal Federal (STF) têm adotado, de forma desmesurada, com a queda
vertiginosa da confiança, admiração e respeito dos brasileiros, registrada nas
últimas pesquisas de opinião.
Quando representantes legítimos da população se propõem a
colocar as coisas no lugar e expressam essa insatisfação, catalisando assim a
ojeriza, passam a ser cruelmente perseguidos. O objetivo é que sirvam de
exemplo, para que os incautos não ousem, jamais, atingir a “honorabilidade” dos
doutos magistrados. Foi assim com Daniel Silveira e Jair Bolsonaro, e se repete
agora com Alessandro Vieira e Romeu Zema.
Na semana passada, em reação a um voto de um senador da
República que propunha indiciar três ministros por crimes de responsabilidade
no caso Master, um deles requereu ao chefe do Ministério Público investigação
contra o primeiro por abuso de autoridade.
O voto de Alessandro Vieira era, juridicamente, inofensivo:
não era capaz de abrir um inquérito criminal contra Gilmar Mendes, Alexandre de
Moraes e Dias Toffoli, tampouco de levá-los ao impeachment. Ademais, foi
rejeitado pela maioria, formada às pressas pelo governo, dentro da CPI do Crime
Organizado.
Pelo mero dissabor que causou aos ministros, o senador agora
está em vias de ser condenado criminalmente a penas de prisão pelos mesmos
ministros que incomodou, e ainda a ser banido da vida pública com a inelegibilidade
eleitoral.
Nesta segunda-feira (20), soube-se que o ex-governador de
Minas Gerais poderá sofrer as mesmas consequências porque compartilhou nas
redes sociais um vídeo de humor, em que dois ministros aparecem como fantoches.
A peça satiriza o caso real em que Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilo da
empresa de Dias Toffoli, por iniciativa de Vieira naquela mesma CPI, para
rastrear a rede de influência do Banco Master.
Gilmar pediu ao colega Alexandre de Moraes que investigue
Zema no draconiano inquérito das fake news. Por causa de uma piada, o
ex-governador pode ser retirado das eleições deste ano. O mesmo pode ocorrer
com Sergio Moro, o ex-juiz e senador que cometeu a atrocidade de fazer chacota
com o decano do STF numa festa junina.
Por iniciativa dos próprios ministros, todos esses atos de
retaliação são divulgados de forma ostensiva na imprensa e pelos canais
oficiais de comunicação do STF. O objetivo não declarado, mas indisfarçável, é
incutir o temor. O método agora se volta contra os senadores, os únicos com o
poder constitucional de frear a Corte – mas que, ante uma realidade
problemática que nossos constituintes não conseguiram prever, tornaram-se
presas fáceis dos juízes que deveriam vigiar.
O que o Supremo, no entanto, está semeando com esses atos é
algo que não convém a um governante, segundo Maquiavel: o ódio simultâneo de
súditos e poderosos. Foi o sentimento que moveu a horda de mais de mil
revoltados a vandalizar a sede do tribunal em 8 de janeiro de 2023. A dura pena
imposta a eles e a atuação explícita dos ministros contra qualquer anistia que
aliviasse a dor e a ruína financeira de suas famílias só fez ampliar a raiva
geral.
E quando a maioria do povo passa a repudiar um governante de
tal modo, ele fica vulnerável à conspiração. Autoridades menores e aspirantes a
um poder maior passam a querer derrubá-lo para satisfazer a população.
Segundo Maquiavel, as “dificuldades com que os conspiradores
têm de se defrontar são infinitas” – como prova o atual poder de fogo do
Supremo –, mas se o governante não tiver um apoio mínimo entre súditos e
poderosos – que é para onde aponta a curva descendente das pesquisas – ele deve
“recear tudo de todos” (capítulo XIX).
Foi o que, segundo o autor de O Príncipe, levou à queda do
imperador Maximino. Primeiro veio a rebelião do povo, depois a oposição do
Senado de Roma e, por fim, a traição por seu próprio exército. As investigações
mais recentes da Polícia Federal, outrora subserviente ao STF, apontam que esse
terceiro estágio já foi deflagrado.
Se as urnas de outubro entregarem um Senado moldado pela
indignação popular, o Supremo descobrirá que o temor pode ser útil para
silenciar os fracos, mas fatal numa dose que alcance e contamine de ódio seus
representantes.
Renan Ramalho.


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