Muito pouco, muito tarde.
Luciano Trigo.
Defender Bolsonaro, nesse contexto, não é afinidade
política, mas defesa do julgamento justo, contra abusos de autoridade e pelos
limites entre Poderes.
A concessão de prisão domiciliar a Jair Bolsonaro, ainda
mais da forma temporária e cheia de restrições como foi feita, longe de
representar um gesto de justiça ou de reparação, soa como uma tentativa tardia
e pouco convincente de contenção de danos por parte de um STF profundamente
desgastado. Em meio a acusações de envolvimento em escândalos de corrupção que
corroem a credibilidade do tribunal, a decisão parece mais uma manobra defensiva.
Uma expressão idiomática da língua inglesa descreve bem o
impacto da medida: too little, too late. Muito pouco, muito tarde. Até porque o
tratamento dispensado ao ex-presidente nos últimos meses consolidou, na
sociedade, a percepção de que o Brasil atravessa um período de excepcionalidade
jurídica.
Tendo como pretexto a suposta defesa da democracia, medidas
restritivas severas, frequentemente justificadas por conceitos vagos e
elásticos, foram impostas a adversários políticos de maneira incompatível com
garantias fundamentais.
A prisão domiciliar foi uma medida pequena diante da
magnitude do problema – e só aconteceu quando já estava feito o estrago na
imagem do STF. Ela não apaga os meses de crueldade, nem a percepção de lawfare
contra Bolsonaro e seus apoiadores. Tampouco resolve o cerne do problema: um
tribunal que age como superpoder, acumula inquéritos sem fim, passa pano para
suspeitas de corrupção entre seus próprios membros e aplica punições
desproporcionais a adversários políticos.
Mesmo antes da prisão de Bolsonaro, não foram poucas as
acusações de relativização do devido processo legal pela Corte. A condução
inteira do processo, marcada por decisões controversas e pela concentração de
competências nas mãos de um único ministro, alimentou, justificadamente, a
narrativa de perseguição política. Além disso, o inquérito das fake news, que
completou sete anos de sigilo, parece ter virado instrumento de perseguição,
intimidação e constrangimento de bolsonaristas.
Manter um ex-presidente idoso e doente em regime carcerário
incompatível com suas condições de saúde era desumano. Ainda mais porque há
precedentes claros de prisão domiciliar — como os casos de Paulo Maluf e
Fernando Collor, beneficiados por idade e saúde — que foram solenemente
ignorados.
É claro que mudar de rumo agora, que a coisa começa a
desandar, não resulta da compaixão, e sim do pânico. Ministros já anteviam que
a morte na prisão transformaria o ex-presidente em mártir, impulsionando a
eleição de seu filho Flávio – aliás, uma hipótese cada vez mais palpável.
O tratamento dispensado ao ex-presidente nos últimos meses
consolidou, na sociedade, a percepção de que o Brasil atravessa um período de
excepcionalidade jurídica
Hoje está claro que a estratégia de terceirização da
política adotada pelo sistema desde 2019 representou um desastre para a
democracia e para o país. Se o plano era destruir o bolsonarismo pela via
judicial, ele fracassou miseravelmente. A Procuradoria-Geral da República, por
sua vez, também se vê envolvida: sua atuação é percebida por muitos como
alinhada às diretrizes do STF, sem qualquer independência funcional ou
compromisso com a imparcialidade. Em vez de atuar como contrapeso
institucional, a PGR aparece como parte de um mesmo arranjo de poder.
É nesse ambiente de descrédito que a prisão domiciliar de
Bolsonaro deve ser interpretada como parte de uma estratégia mais ampla de
tentativa de contenção da crise, que só piora. É um gesto de recuo calculado,
uma tentativa de aliviar tensões em causa própria, uma inflexão tática que
resulta do cálculo frio. O raciocínio é: melhor um ex-presidente monitorado em
casa do que um funeral que enterre de vez o STF.
O problema é que crises institucionais não se resolvem com
ajustes superficiais. Elas exigem transparência, autocrítica e, sobretudo,
disposição para rever práticas que se desviaram dos princípios constitucionais.
Em vez de restaurar a confiança da sociedade, o mais provável é que essa
estratégia alimente a sensação de que o tribunal age de forma reativa,
calibrando suas decisões conforme a pressão política e o desgaste público.
Um aspecto problemático que precisa ser destacado é o
caráter temporário da prisão domiciliar. Ao não representar uma revisão
definitiva da medida anterior, mas apenas uma suspensão provisória e
condicionada, a decisão reforça a sensação de arbitrariedade e insegurança
jurídica. A qualquer momento, o benefício pode ser revogado, mantendo o
ex-presidente sob permanente estado de incerteza.
Isso enfraquece a própria lógica da medida, que deveria ser
pautada por critérios objetivos e estáveis, e não por avaliações conjunturais.
Mais grave: a transitoriedade da decisão sugere que o tribunal busca preservar
margem de manobra política, em vez de assumir uma posição clara e juridicamente
consistente. Em termos institucionais, isso contribui para aumentar ainda mais
a imprevisibilidade das decisões judiciais, elemento essencial para a confiança
no Estado de Direito.
O fato é que Bolsonaro representa dezenas de milhões de
brasileiros que se sentem excluídos ou desrespeitados pelo atual arranjo
institucional. A forma como ele vem sendo tratado reverbera diretamente na
percepção que esses cidadãos têm do sistema. Quando decisões parecem orientadas
mais por conveniência do que por critérios jurídicos consistentes, o resultado
é o aprofundamento da divisão e da desconfiança.
Defender Bolsonaro, nesse contexto, não é uma questão de
afinidade política. É uma defesa de princípios mais amplos: o direito a um
julgamento justo, a rejeição a abusos de autoridade e a preservação de limites
claros entre os Poderes. Quando esses princípios são ameaçados, a reação da
sociedade tende a se amplificar e ganhar dimensão nacional.
Luciano Trigo
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