Culto na Sapucaí a Lula: deboche do TSE e obsessão com Bolsonaro.
Marcos Tosi
Um recorde foi batido na abertura do desfile do Grupo
Especial das Escolas de Samba do Carnaval do Rio de Janeiro: a Acadêmicos de
Niterói emplacou 79 minutos de propaganda política ininterrupta para Lula em
rede nacional de TV, algo nunca visto na história do horário eleitoral do país.
Nas eleições de 2022, por exemplo, o então candidato Lula teve cerca de 7
minutos diários de televisão em três dias da semana, no primeiro turno, e 10
minutos no segundo turno.
Dividindo o tempo de desfile pela duração do samba-enredo,
os puxadores da escola cantaram a letra completa doze vezes repetidas; a cada
volta da música, o refrão “olê, olê, olá, Lula, Lula” era entoado seis vezes.
Ou seja, no total, o slogan eleitoral do petista foi repetido 72 vezes para os
milhares de pessoas na Sapucaí e milhões de brasileiros em rede nacional de TV.
Não houve surpresa na cantoria chapa-branca e na bajulação
explícita, pois desde logo essa intenção estava anunciada na letra do
samba-enredo, recheado de slogans de campanha (“o amor venceu o medo”, “olê,
olê, olá, Lula, Lula”) e referências ao número do partido (“por ironia, treze
noites, treze dias”), além de um punhado de outras louvações ao grande líder
(“meu sobrenome é Brasil da Silva”, “no choro de Luiz, a luz de Garanhuns”)
típicas de regimes de caudilhos populistas.
Por coincidência, como se Lula fosse um predestinado, a
marchinha do carnaval de 1945, ano em que ele nasceu, já antevia os dias de
hoje, com a letra: “Lá vem o cordão dos puxa-sacos dando vida aos seus
maiorais; quem está na frente é passado para trás, e o cordão dos puxa-sacos
cada vez aumenta mais”.
O que causou algum espanto, em carros alegóricos e
representações, foi a intensidade da obsessão em atacar o ex-presidente Jair
Bolsonaro. O deboche começou já no carro alegórico que abriu o desfile. Sem
demérito para crianças e adolescentes, lembrou peça colegial de 5ª série: os
petistas encenaram um teatrinho em que Lula passava a faixa presidencial para
Dilma Roussef, e depois essa faixa era roubada por Michel Temer, que, por fim,
a colocava no pescoço do palhaço Bozo, representando Bolsonaro.
O ex-presidente foi achincalhado em vários momentos; quase
no fim do desfile, ele apareceu como um boneco gigante, atrás das grades,
novamente com cara de palhaço, mas desta vez com roupa de presidiário e
tornozeleira eletrônica.
Ataque à família, à Bíblia e ao agro
Não bastava zombar de Bolsonaro, era preciso espezinhar
também seus apoiadores. No carro alegórico “Conservadores em Conserva”, além de
Bolsonaro retratado com trajes do Exército e nariz de palhaço, a escola atacou
a Direita, com componentes fantasiados de latas e xícaras ridicularizando a
Bíblia, os evangélicos e o agronegócio.
Em linha com o samba-enredo que berrava “sem temer tarifas e
sanções”, a escola cutucou a um só tempo a Direita brasileira e o presidente
americano Donald Trump, com uma ala de foliões vestidos nas cores da bandeira
americana, com estampas e orelhas do Mickey e o boné MAGA (“Make America Great
Again”, slogan do republicano).
Lula, claro, estava onipresente. Apareceu numa coleção de
fotos em telões de LED (um dos recursos artísticos mais pobres do desfile), foi
representado pelo mestre-sala com chapéu de cangaceiro, e virou até músico, em
bonecos gigantes com a cara dele, tocando acordeão e viola.
Pose de tirano, com punho cerrado
Contudo, a imagem que sintetizou a “Republiqueta das Bananas
do Brasil” ficou mesmo para o último carro alegórico: um bonecão de Lula
sozinho, com a mão direita levantada e o punho cerrado. Impossível não lembrar
as estátuas de tiranos contemporâneos, como Saddam Hussein e Kim Jon-un, ou de
décadas atrás, como Joseph Stalin e Benito Mussolini, ou mais antigos ainda,
como Nabucodonozor, da Babilônia.
Cúmplice e senhor da festa, Lula fez pouco caso do conselho
de seus auxiliares para não descer do camarote a fim de evitar complicações
eleitorais: ao final do desfile, ele foi até a pista trocar sorrisos e abraços
com os diretores da escola.
Em toda essa festa paga com dinheiro público, há quem diga
que os carnavalescos mandaram uma mensagem subliminar ao reproduzirem um grande
lagarto balançando a língua para as arquibancadas. Até um sapo apareceu no
zoológico petista da Sapucaí, tornando impossível não recordar o apelido dado
por Leonel Brizola ao homenageado: “sapo barbudo”.
Diretor da bateria faz o "L" em rede nacional
É mais provável que a reprodução do lagarto linguarudo e do
sapo gordo tenham sido um deslize, um ato falho. Nas alegorias dos petistas,
afinal, tudo estava muito explícito. Teve ala de passistas com roupa toda
vermelha e estrela do PT no peito; para não deixar dúvidas, o diretor da
bateria, Mestre Branco Ribeiro, fez o L em rede nacional, ao receber um “close”
da câmera que transmitia o evento pela TV.
"Não há como dourar a pílula, nós estamos diante de
abuso de poder econômico ou político manifesto, em que a gravidade das
circunstâncias é palmar. É a maior festa popular do Brasil, veiculada por
concessões públicas fazendo propaganda eleitoral antecipada com recursos
públicos. Mais absurdo do que isso, impossível", aponta o jurista Adriano
Soares da Costa.
No carro “O Brasil mudou de cara”, faltou coragem aos
carnavalescos de levar para a avenida uma das principais promessas do petista.
Numa mesa de jantar, estavam um porco e um frango sobre bandejas. Nada de
picanha, essa, afinal, é produzida em pouca escala e só chega ao pessoal dos
camarotes VIPs. A propósito dos camarotes, Lula encheu com 500 convidados dois
camarotes cedidos pela prefeitura do Rio de Janeiro, em um claro uso
político-partidário de uma estrutura pública mantida com dinheiro do
contribuinte.
Lula Frankenstein, o pior carro alegórico
Neste desfile escatológico, o título de pior carro alegórico
iria facilmente para um dos últimos a cruzar a passarela, que retratou
Bolsonaro com cara de palhaço, vestes de presidiário e tornozeleira eletrônica.
Mas um outro talvez tenha sintetizado de forma melhor todo o espírito da noite
de bajulação, desprezo e zombaria. Nele aparece um Lula feito de lata, com
cabeça cheia de parafusos, faixa de presidente ao peito e os dois braços
estendidos para frente, como o próprio Frankenstein. Abaixo dele, caldeiras derretem
algum metal, em cor dourada. A tradução perfeita do vampirismo de Lula e do PT
sobre o Brasil, seu povo e suas riquezas.
"Isso pode ter um efeito rebote na eleição municipal.
Os prefeitos vão ter passe livre em ano de eleição, nas festividades do município
com carnaval, para despejar dinheiro do orçamento municipal em showmícios
antecipados? Se o Lula pode, por que o resto não pode? Há uma violação expressa
dos princípios da moralidade, impessoalidade e desvio de finalidade",
avalia Adriano Soares da Costa, ex-juiz de Direito e autor do livro
"Instituições do Direito Eleitoral".
Com a palavra, o TSE.
Marcos Tosi




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